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ADORMECER EMBALADO COM O CANTO DAS CAGARRAS

Quarta-feira, 08.07.15

O silêncio da noite, neste Pico, se conquistado no seio duma adega é deslumbrante e encantador. Como a neve do inverno, derrama-se sobre o cume da montanha e, transformando-se em sinfonia prateada, desce pelos valados e grotões, escorrendo em fios de prata até aos povoados, como se fosse uma ribeira de magia e de sonho. A noite torna-se assim numa dádiva, num dom que urge saborear. Saborear este silêncio morno, adocicado, ternurento, oferecido pela pureza original da ilha acasalada com a quietude envolvente do mar, apenas recortado pelo fascinante e mavioso canto das cagarras. Uma serenata divina, transcendente! Os machos, menos frequentes, nas suas vozes de barítonos, num encanto mais sereno e tranquilizante. As fêmeas, mais espevitadas e atrevidas, num cantarolar ondulado, com denodada intenção de, ingloriamente, desfazerem a quietude e o repouso que desce das encostas da montanha. Uns e outros em bailados de sombras, transformando o que resta do azul do firmamento numa enorme teia. É bom e doce adormecer embalado no silêncio deste cantarolar. A noite transforma-se num enorme manto de sublimidade e de sonho. O céu enche-se de mais estrelas, a terra agiganta-se em quietude e o mar transforma-se num enorme tapete prateado. É a insustentável magia da noite deste Pico paramentado de lava e de fascinação, a pedir à Lua, agora de dia para dia mais teimosa em aparecer, que cheque depressa, que torne ainda mais encantador este silêncio misterioso, esta deslumbrante mansidão em que o mar se envolve com a ilha, embebedando-a com o sabor adocicado da brisa. Tudo o necessário e indispensável para fazer esquecer os grunhidos roufenhos das cidades de cimento, o burburinho persistente das ruas apinhadas de carros e de gente, as prisões paralisantes no elevador do quinto andar, o emaranhado aterrador dos barulhos que desfazem o silêncio.

Mas se o adormecer no silêncio desta noite é deslumbrante e enternecedor, o amanhecer do dia seguinte, entre currais de lava enegrecidos e sulfurosos, é maravilhoso e sublime. O Sol tímido ao princípio, depressa se torna vivaz e corpulento e acaba por desfazer todas as sombras. É o Pico na sua excelsa e genuína pureza. É verdade que, talvez por ser muito alta e esguia, a montanha ora se banha de Sol ou de vento, ora se envolve em neblinas e chuviscos. Mas todos os cenários lhe dão uma beleza excelsa, pura e inigualável. Mesmo coberto de bruma, salpicado com os respingos de ondas altivas o Pico mantém a sua dignidade de montanha ajuizada, que atrevidamente, em cada manhã, dia após dia, com a mesma solicitude, nos abre a janela e nos visita, trazendo consigo o perfume dos vinhedos, o sabor das frutas amadurecidas, a aridez dos currais de lava,

Depois é atirarmo-nos desalmadamente à terra. Arrancar as mondas. Limpar o chão das ervas daninhas. Dar largas às laranjeiras, pessegueiros, pereiras, damasqueiros e figueiras. O bafo deste chão lávico há-de, em breve, adorná-las de flores e de frutos. A Ribeira, orlada com raios de sol e purificada com os salpicos da chuva transformar-se-á num verdadeiro paraíso terreal. O suor hoje vertido e o cansaço alcandorado nesta manhã do segundo dia transubstanciar-se-ão, mais tarde, na doçura duma laranja, dum pêssego ou de um damasco. Ao lado há feijoais a despontar. Tomateiros, cebolas e bata-doce. Alguns dos feijões mais espigadotes, já prontos para a colheita, foram imolados numa saborosa salada. Outros enriquecerão a sopa do jantar. Refeições recheadas de sabores do Pico!

Mas o melhor que cada adega tem parece ser o remanso de se poder dormir uma sesta. Prazer endémico, cerceado após meia hora, por imperativos de uma viagem à vila da Madalena. O Governo subsidia as passagens aéreas dos residentes que viajam por conta da transportadora aérea açoriana, se o valor das mesmas exceder cento e trinta e quaro euros. O pagamento é da responsabilidade dos Correios. Obviamente que é necessário apresentar documentos, provas da viagem. Faltava-me, por incúria minha, o recibo. A alternativa que me é proposta é ir pedir uma fatura aos escritórios daquela companhia aérea, situados escassos metros. O meu pedido é aceite e obtenho o documento necessário. Volto aos correios. Para espanto meu não tenho direito a receber o reembolso por quanto, embora tendo viajado após o dia 29 de março, adquiri o bilhete em 6 de janeiro, o que me faz perder o direito ao reembolso. O mais estranho é que se apresentasse o recibo seria, provavelmente reembolsado uma vez que, pelos vistos, os recibos eletrónicos não referem a data da compra do bilhete. Boa! Juro que hei-de voltar aos correios de recibo em riste!

Para sobreviver ao desencanto destas burocracias nada melhor do que um mergulho na piscina da Madalena. E que boa que estava a água! No regresso a casa ligo o rádio do carro. A RDP Açores está a transmitir, em diferido, uma entrevista com a doutora Maria Barroso, falecidaesta manhã, gravada há oito anos. Uma excelente entrevista! Deslumbro-me com os testemunhos da senhora e das interessantíssimas mensagens que eles encerram, sobre o país, a política, o governo, a sociedade, a educação, a solidariedade e, sobretudo, sobre o período após o 25 de Abril. Embevecido com os testemunhos da senhora, confesso que senti uma enorme pena de ela não ter sido Primeira Ministra deste país ou até Presidente da República.

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publicado por picodavigia2 às 00:21





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