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FILHA DO MAR

Terça-feira, 28.07.15

Há muitíssimos anos viveu no lugar onde hoje á a Fajã Grande um bravo e valoroso pescador. Era de avançada idade, assim como a sua mulher. Certo dia, como de costume, saiu para o mar, com o seu barco, para pesca e dirigiu-se para a Baía dos Fanais onde sabia que abundavam vejas, sargos, rateiros, bodiões e muitas outras espécies de peixes. Aconteceu, porém, que apesar de lançar as linhas com os anzóis pregados de excelente isco, e de espalhar bom engodo ao redor do barco, passou a manhã e a tarde e até a chegada da noite, sem pescar um único peixe, de forma que teve que se resignar a voltar para terra sem exibir um peixe que fosse.

No entanto, depois de entrar na Barra e de parar junto ao porto para varar o barco, para espanto seu, uma sardinha emergiu à tona de água e saltou para dentro do barco. O pescador apesar de muito admirado, pois nem era costume avistar sardinhas por ali, como não tinha peixe para comer, levou a sardinha para casa assou-a e deu-a à mulher para que a comesse pois não tinha nenhum outro peixe para a ceia.

Passados alguns dias a mulher, apesar da sua avançada idade, sentiu sintomas de gravidez e, passados nove meses, deu à luz uma menina muito bela, da qual emanava um resplendor mais claro do que o da lua. Ao chegar aos dez anos a menina começou a cuidar de si própria, alimentando-se apenas do peixe que o pai continuava a pescar e dos frutos da terra que trabalhavam. Assim foi passando o tempo, até que a menina se tornou numa formosa donzela. Então, abraçando um dia sua mãe, perguntou-lhe:

— Mãe, não é estranho que seja eu um peixe sendo tu um ser humano?

A mãe respondeu, entre lágrimas:

— Minha filha, isso depende dos obscuros desígnios de Deus. - E, a seguir, fez-lhe a narrativa de como, já sendo de avançada idade, havia engravidado depois de ter comido uma sardinha, nascendo ela algum tempo depois.

Ao saber aquilo a menina teve a impressão de que era, na verdade, filha do mar. Sendo assim só poderia ser uma sereia.

No dia seguinte, depois de passar a noite em grande mágoa, despediu-se da mãe e partiu para o mar., Nada houve que a convencesse a desistir de seu propósito de partir para o mar. Pôs-se a caminho, e depressa chegou junto do mar. Ao tocar na água, o seu corpo como que se transformou. Da cintura para baixo passou a ter forma de peixe e os seus pés transforaram-se numa enorme barbatana. Mergulhando no oceano, nadava como se fosse um peixe.

Mergulhou, mergulhou até que chegou junto dum belo palácio situado nas profundezas do mar. Bateu a uma porta e perguntaram-lhe o que desejava e por que assim se apresentava, e ela respondeu que desejava falar com o dono daquele palácio. Este ouviu a sua estória e percebeu que a jovem era sua filha.

Reconheceu-a, recebeu-a e colocou-a junto com outras filhas também elas sereias como ela e com estórias semelhantes. Mas passados alguns dias a menina aborreceu-se e desejou voltar a terra, à casa onde fora criada com o pescador e a sua mulher. O dono do palácio não a deixou partir. Ali ficou mais alguns anos, ao fim dos quais notou que estava grávida, e pouco depois nascia um menino belo, de aspeto semelhante, em tudo a um ser humano.

Ao alcançar os dezoito anos, o menino pediu à mãe que o deixasse partir, para terra, na procura dos seus avós de que a mãe tanto lhe falava. Tanto pediu e tanto insistiu que a sereia o deixou partir.

O menino partiu em direção a terra, onde chegou, passado algum tempo. Reza a lenda que ainda encontrou a avó muito velhinha e vivendo muito triste e desgostosa com a desaparição de sua filha. Logo que o abraçou, ao saber quem ele era, morreu de emoção. O rapaz sepultou-a e por ali ficou trabalhando as terras dos avós, vivendo na sua velha casa. Reza ainda a lenda que casou e teve filhos, mas nunca voltou ao mar nem comeu peixe, mas todos o tratavam pelo da Filha do Mar.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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