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A CHEGADA DA TELEVISÃO

Quarta-feira, 29.07.15

Tudo mudou em casa do Cambado quando ele regressou de Santa Cruz com um enorme caixote às costas. Dentro trazia uma televisão.

Desde há algum tempo que havia sido colocada uma antena retransmissora bem lá no alto do Pico da Vigia, onde ainda permanecia muito bem conservada a casota que durante anos e anos servira de vigia da baleia. O Senhor Padre, os comerciantes, o faroleiro e as casas mais abastadas da freguesia já se haviam munido da caixa mágica que todos os dias, à tardinha e durante o serão lhes enchia a casa, com filmes, notícias do mundo, desenhos animados, telenovelas e até jogos de futebol. Os filhos do Cambado bem se insurgiam contra o carracismo do pai em não adquirir um aparelho e a mulher, sem querer contrariar o marido, todas as noites corria para casa da vizinha Ester, para ver a telenovela que dava todos os dias, a seguir ao telejornal. O Cambado, no entanto, ia resistindo como podia, opondo-se, determinantemente, a uma compra caríssima e sem interesse. Preferia passar as noites encafuado no café da Engrácia, a cavaquear com uns e outros, a jogar à sueca ou à bisca, a beber uns copos de vinho ou uns tragos de traçado. Os filhos que gostavam de ver sobretudo os macaquinhos e os jogos do Benfica iam, por aqui e por ali, por vezes até espreitando através duma janela da casa do pároco. Passavam todo tempo pasmados, depois de sair da escola diante daquela caixa mágica e, ao chegar a casa, bem se empertigavam contra o pai que não havia maneira de se decidir pela compra da caixa que lhes havia de mudar os costumes. Tanto barafustaram, tanto insistiram, tanto suplicaram e pediram que o pai lá se decidiu pela compra do aparelho.

Veio o Chico da Aninhas pregar-lhe uma antena no telhado. Tanto procurou, rodou, desandou, escavacou e ligou fios que, por fim, encontrou o lugar certo. Os filhos do Cambado de pescoço torcido, a olhar para cima da casa como se estivessem a ver passar um avião, à espera do momento mágico. Podiam ligar! Estava sintonizado, o aparelho.

Os filhos, a mulher e até o próprio Cambado nem cearam na noite desse memorável dia. Sentaram-se em frente ao aparelho e passaram a noite toda a ver, a olhar, a ouvir o que percebiam e o que não entendiam. Deitaram-se alta madrugada e, no dia seguinte, como era domingo, ninguém despegou de casa. Nem a mulher foi à missa, nem os filhos à catequese, nem o Cambado foi sentar o rabo no café. No dia seguinte, no outro e no outro, a coisa foi avagando, mas sempre com um entusiasmo danado, a ver o que dava no aparelho. Em muitos outros dias. Viam quando regressavam da escola ou do trabalho dos campos, à noite, depois do jantar e, durante o fim-de-semana, passavam o tempo diante daquela caixa, pese embora por vezes ela se enchesse de tremeliques e outras transmitisse apenas chuva. Os filhos que andavam na escola não faziam os deveres, não iam brincar com os amigos, os mais velhos deixavam as vacas à fome e a Emerenciana, a mulher do Cambado, deixou, muitas vezes o leite entornar-se sobre o lume, o bolo queimar no tijolo e as batatas apegarem-se ao fundo do caldeirão. E, sempre por causa da porcaria da televisão.

O Cambado é que não gostava nada daquilo. Depressa se arrependeu, desejando que tivesse partido as pernas no malfadado dia em que partiu para Santa Cruz para ir comprar o maldito aparelho.

Finalmente, um dia, em que mais uma vez ficou sem ceia, por o bolo esturricar por completo sobre o tijolo, o Cambado enfureceu-se. Arrancou os cabos e a antena da televisão, levou-a para o andar de cima e guardou-a num armário fechado a sete chaves.

- A partir de agora, só aos domingos vocês vão ver televisão.

Os filhos mais velhos enfureceram, os mais novos choraram e a Emerenciana jurou que ele havia de pagá-las. Ai, se havia.

Durou poucos dias a casmurrice do Cambado. A mulher passava as noites fora de casa e os filhos em casa dos amigos. Ceia nikles. Assim não podia continuar, pelo que decidiu o Cambado desbloquear o aparelho, trazê-lo do sótão e coloca-lo no lugar de onde nunca devia ter saído. O pior é que a televisão era muito pesada e o Cambado, ao descer as escadas tropeçou, caiu nos degraus e, na tentativa de salvar o aparelho, quase que partiu a cabeça. Maldisse a sua sorte!

Mas a verdade é que passado um ano o fervor pela televisão, em casa do Cambado, já era muito menor do que nos primeiros dias em que a trouxe de Santa Cruz. Dois anos depois os filhos iam passear com os amigos atá ao Porto, em vez de ficarem em casa, sentados frente ao aparelho, a ver os macaquinhos e a mulher, todas as noites, preferia ir fazer serão a casa da vizinha. O Cambado voltou a ter ceia pronta a horas e nunca mais o leite se derramou sobre o lume ou o bolo queimou no tijolo.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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