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A RIBEIRINHA DO PICO

Sábado, 19.09.15

A Ribeirinha do Pico assenta a sua história no espaço físico entre a rocha alta e baixa, e o interior montanhoso, numa extensão de cerca de um quilómetro, toda virada para a ilha em frente, São Jorge, e a três quilómetros da freguesia da Piedade. Compreende uma zona mais alta – a freguesia da Ribeirinha propriamente dita, e uma zona mais baixa, de veraneio – a Baixa.

Os povos que a habitaram foram buscar o sustento à terra que lavraram, mondaram, desbastaram, juntando pedras, fazendo maroiços, paredes, bardos de abrigo. Das zonas baixas até ao monte mais alto cultivaram vinhas, milho, trigo e outros cereais. Nos espaços mais reduzidos fizeram batatas, inhames, feijão e outros primores de ir à mesa. Dos animais domésticos fizeram a força motriz para a lavra e o transporte. Deles retiraram o sustento: o leite e o queijo. Da ovelha, a lã para o agasalho. Dos suínos tiraram a carne e a gordura. Fizeram enchidos e fumeiros, condutos para o inhame da meia encosta. Estenderam a matéria-prima do leite das vacas, à indústria de produtos lácteos. Construíram por isso sociedades de produção de manteiga que exportavam para o Continente. Hoje, só restam as ruínas dos espaços utilizados, e algum documento perdido nas gavetas de alguns familiares. Aproveitaram a energia do vento para os moinhos de moer. Como não eram suficientes, e nem todos podiam pagar a moenda, muitas foram as atafonas movidas pela força dos mansos bois de lavrar. Moinhos e atafonas fazem parte, hoje, das memórias. Só ruínas e destroços.

Dos mais hábeis e destemidos, nasceram as profissões. Na pedra, foram mestres. Exemplos ainda existem, espalhados pelo casario. A Igreja Paroquial e a antiga Escola e Casa do Espírito Santo, esta com data de 1895, são exemplos. Outros, infelizmente, acabaram no entulho do lixo que não serve. Estenderam a arte por terras vizinhas e pela ilha de São Jorge onde por lá chegavam a estar semanas e meses na construção de casas. Uma delas foi a Igreja de São Tomé, para os lados do Topo, destruída pela crise sísmica de 1980. Das peles dos animais fizeram o calçado – as albarcas. E do cedro, fizeram as galochas. Veio o sapateiro e agasalhou os mais abastados. Vieram outros e mais outros. Alguns assentaram profissão em terras vizinhas. Com a madeira cobriram os tetos de abrigar as casas, fizeram rodas dentadas para moinhos e atafonas, fizeram cangas e “canzis”, arados e carros de bois, cangalhas para burros e bestas.

Na Ribeirinha nasceram as primeiras iniciativas, na ilha, para modernizar a carpintaria e a arte da madeira, destacando-se também alguns notáveis mestres do ferro.

Não menos importante foi a obra das mãos femininas. Se os homens foram mestres, não menos o foram as mulheres, companheiras e geradoras de filhos. Cozeram o pão, cardaram e fiaram a lã. Fizeram sueras e meias de agasalho. Secaram e debulharam os milhos, enchendo as caixas do grão para o pão de todo o ano. E nos campos foram sempre ao lado do arado, deitando à terra a semente de matar a fome.

Os campos foram pródigos para todos. Mais para uns do que para outros. Todos tiveram a sua quota parte. Dos que emigraram, muitos fizeram fortuna. Os mais abastados mandaram os filhos estudar e alguns singraram. Foram professores, advogados, médicos, engenheiros, enfermeiros, jornalistas, padres, deputados, juízes, um monsenhor, um bispo e um notável maestro.

Os anos 50 do século passado foram determinantes para o desenvolvimento da Ribeirinha. Mais do que a estrada Lajes/Piedade, foi a abertura da estrada Piedade/São Roque que abriu por completo as portas aos anseios e preocupações, até então puras miragens, utopias e sonhos, só compensados nos caminhos da emigração e desfeitos mais tarde. Nos últimos anos foram melhoradas as antigas canadas de acesso, refundidas e adaptadas às exigências dos novos meios de transporte e até à beira rocha, o acesso, agora, é de fácil melhoramento para viaturas ligeiras. É de valor acrescentado para as propriedades circundantes.

Todavia, o maior interesse está no mirante sobre a arriba, pois ultrapassa o interesse local. O Alto dos Cedros é, na verdade, um mirante, menos grandioso do que o da Terra Alta na estrada corrente, mas não menos belo. É importante que seja procurado por visitantes, que hoje, com frequência, desembarcam e vão ao encontro de todos os recantos da ilha. O acesso pedonal, do mirante à profundidade da beira-mar, continua. Os trilhos podem de novo ser melhorados. A costa marítima, pródiga que sempre foi nas coisas que o mar produz, lá continua esperando por quem gosta de molhar os pés nas águas do baixio e provar do que ele oferece.

Se os acessos, hoje, são estruturas que melhoraram a vida dos habitantes, não menos importante foi o primeiro abastecimento de água. Com efeito, a partir de 1955 a água chegou à freguesia em cinco chafarizes e dois bebedoiros públicos. Para trás ficaram os calvários diários de ir, à fonte da rocha, buscar água para os amanhos da casa, sobretudo quando os tanques esvaziavam ou subir as encostas para ir lavar roupa para o Paul do Juncal. A água foi um salto qualitativo. Hoje, é um bem precioso que vai a todas as casas.

No campo recreativo e cultural surgiu o Salão da Casa Nova, hoje Centro Comunitário da Casa do Povo da Ribeirinha, servindo para os mais variados eventos culturais, religiosos e recreativos. Munida de espaços exíguos, no início da construção foi mais tarde melhorada, e hoje, embora permaneçam os espaços iniciais, possui as instalações próprias para os dias de maior movimento, como sejam as Coroações do Espírito Santo. Por fim, veio a luz comunitária, hoje é pública a rede elétrica. Sempre na Ribeirinha se fizeram cantares pelo Natal, pelas Matanças, pelo Carnaval, pelo Espírito Santo. Sempre se cultivou o hábito das chamarritas e dos bailes de roda, antigamente nas salas maiores das casas de habitação, hoje nos salões comunitários. Notáveis foram os Ranchos do Natal, os Bandos do Carnaval, os Foliões, sem esquecer as satíricas festas dos cornos do 25 de Abril, dia de São Marcos. São também de assinalar os eventos criados por professores, padres e outros carolas de habilidade nata, como sejam os teatros populares, comédias e dramas, e atos de variedades, nos palcos improvisados por ocasião das festas de verão, à claridade da luz incandescente de petróleo, dependurada nos cantos da boca do palco. Hoje, os salões da Ribeirinha e da Baixa são espaços que esperam pelo público e pelos artistas.

Nos tempos que correm, a freguesia da Ribeirinha goza de estatuto próprio e soube aproveitar os benefícios da Autonomia e do seu estatuto próprio. A água pública vai a todas as casas. A luz também. O asfalto cobre os caminhos principais. A qualidade de vida chegou. Importa conservar, consolidar, não estagnar.

 

NB – Dados retirados do blog de E.P. “Alto dos Cedros.

 

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