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DIANAS

Domingo, 20.09.15

Num dos últimos anos do meu percurso como professor, na lista dos nomes dos alunos de uma das turmas que me foram atribuídas, no início do ano lectivo, constavam nada mais, nada menos do que sete “Dianas”. Uma enorme confusão, agravada com a coincidência de cinco serem “Diana Maria” e destas, pior coincidência ainda, serem “Diana Maria Pereira”, com agravante de todas elas teimarem em serem tratadas por nenhum outro nome ou sobrenome que não fosse o primeiro e original - Diana. Um imbróglio de difícil solução. É verdade que a uma fora atribuído o número nove, a outra o dez e à terceira o onze, precisamente e em função dos outros apelidos, mas isso resolvia muito pouco, sobretudo no estabelecimento do nosso relacionamento quotidiano ou na sua própria identificação. Tinha lá algum jeito chamar pela Diana Nove, ou pedir à Diana Dez que se calasse, ou à Diana Onze que viesse ao quadro! Claro que não.

Depois de muita discussão decidiu-se que o melhor era ficar cada qual com o seu nome. Ninguém queria ser Diana Dez, Diana Pequena, Diana de Beire ou Diana de outra coisa qualquer a não ser dos sobrenomes com que foram registadas e que haviam herdado dos seus progenitores. E assim ficaram, cada qual com o nome que era seu, não tendo nenhuma culpa de que alguma outra o tivesse partilhado ou dele se apropriado.

E o ano foi decorrendo, não sem alguma confusão, diga-se em abono de verdade.

Certo dia, já ia o ano letivo no segundo período, uma delas, furiosa, veio ter comigo, a ameaçar que pretendia trocar de nome. Já não aguentava mais aquilo. Estava farta de passar por preguiçosa, desatenta, mal-educada e de ser responsabilizada por fazer coisas que afinal eram as suas homónimas que faziam. É verdade que o seu nome era motivo de orgulho. Mas um grande problema havia surgido. Na secretaria enganaram-se e mandaram uma carta paras os seus pais quando afinal os destinatários deveriam ser os pais de outra com o mesmo nome. Raios! Eles abriram a carta e quase morreram de desgosto e vergonha. Notas negativas, mau comportamento e outras más referências. Foi a mãe que impediu que o pai lhe chegasse a roupa ao pelo. Perante tamanha indignação, bem argumentei que mudar o nome não adiantava nada nem coisíssima nenhuma e que essas trocas, por vezes, aconteciam mesmo com alunos que tinham nomes diferentes. Os pais não liam o envelope, abriam a carta e zás – deparavam-se com uma enxurrada de desagravos que não pertenciam ao seu educando. Mas ela insistia: que estava simplesmente no top escolar da indecência e da má figura, sem, obviamente, ter culpa alguma. Continuei a tentar acalmá-la. Mas nada. A raiva e contestação continuavam viçosas. Tentei demonstra-lhe que em Portugal existem mais de mil cidadãos com o nome de José Pereira da Silva… E que a confusão é iminente e inevitável. Nos tribunais, na polícia, nas finanças, nos hospitais, nos correios, nas portagens das autoestradas e até na igreja. Que um amigo meu ao ir tirar o registo criminal lhe foi passado um documento em que ele estava implicado em processos judiciais por tráfico de drogas e homicídio e que já tinha estado preso. E era tudo falso devido a uma confusão de nomes. Ela nada. Teimava em querer mudar de nome e não havia maneira de a fazer mudar de ideias. Ainda lhe expliquei que mesmo quando os nomes de duas ou mais pessoas são exatamente iguais é possível distinguir uma pessoa da outra, observando, por exemplo, o documento de identidade, uma vez que a diferença se faz na filiação, na naturalidade, na data de nascimento e, principalmente, nas impressões digitais. Que não queria saber de impressões digitais nem de nenhumas outras impressões… Queria simplesmente saber o que havia de fazer para mudar de nome.

- Trocar o nome não é tão fácil. – Expliquei. – É um processo muito complicado e interdito aos menores. Segundo a legislação em vigor: No caso de homônimo, não há previsão legal para a mudança. “Vão depender de um parecer do Ministério Público, em primeiro plano, que pode ser favorável ou não, e em segundo plano do juiz, que pode conceder ou não”. Além disso, - acrescentei. - O processo é demorado, muito demorado. Pode levar anos e anos a ser decidido.

Como ela insistisse, curioso, indaguei:

- Mas afinal que nome gostarias de ter se pudesses mudar?

- Carlos! – Respondeu sem hesitar,

Estarreci, ao mesmo tempo que senti um enorme orgulhozinho!

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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