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A VISITA PASTORAL À FAJÃ GRANDE NA DÉCADA DE CINQUENTA

Segunda-feira, 28.09.15

Foi no início de agosto de 1954, que D. Manuel Afonso de Carvalho, ainda na sua condição de bispo coadjutor Diocese de Angra e bispo titular de Rhaedestus, realizou a sua primeira visita pastoral à Fajã Grande. Toda a freguesia aguardava, expectante e esperançada, a visita do bispo. Há dezenas de anos que um bispo não visitava a Fajã, uma vez que a última visita tinha sido realizada por Dom Guilherme Augusto da Cunha Guimarães muitos anos antes. O pároco, preocupado para que tudo corresse da melhor forma e Sua Excelência Reverendíssima fosse recebido com pompa e circunstância, como convinha a um príncipe da Igreja, mobilizou a parte mais crente do rebanho, na preparação e arranjo de tão abençoado e santificado evento.

Foi, sobretudo, nos dias que antecederam a chegada do Prelado que quase toda a freguesia se empenhou na preparação de tão desejado evento, não apenas na ornamentação das ruas, do adro e da igreja mas também no que à preparação espiritual dizia respeito, nomeadamente confessando-se. É que o prolongado interregno das visitas episcopais originara que quase metade da freguesia tivesse que se preparar para receber o crisma. Mas muitos outros paroquianos também estavam ligados à cerimónia, uma vez que tinham sido recrutados como padrinhos ou madrinhas. A todos fora imposto a necessidade prévia de lavar culpas e confessar pecados, branqueando costumes e purificando atitudes. Daí que durante a tarde da véspera da chegada do bispo a igreja abarrotasse de gente para se confessar. Uma procura penitencial como há muito se não vira e que ultrapassava, de longe, a desobriga pascal. Assim o pároco foi obrigado a convidar para o ajudar no confesso os reverendos párocos de outras freguesias e alguns professores do Seminário a passar férias na ilha. Para além dos confessionários laterais, acrescentou dois ralos suplentes, encravados na grade da capela-mor, enquanto outros padres atendiam os penitentes ao lado d altar-mor e até na sacristia.

O templo convidava à oração e à penitência. Ensombrado numa penumbra clarificante, exalava um cheiro a silêncio, a perdão e a arrependimento simulados. Dos altares, recheados de sécias, gladíolos, azáleas e velas a arder, emanava um perfume doce, atraente e sereno. Das altas janelas suspendiam-se sanefas de damasco vermelho, debruadas a amarelo e cortinas de linho rendado. Homens e mulheres, de joelhos ou sentados, cabisbaixos, entretinham-se, indistintamente, a simular arrependimento e penitência, num esforço improfícuo, de lembrar as culpas de que iriam solicitar perdão. Alguns, menos pacientes, esgueiravam-se, na tentativa de procurar confessor mais benevolente. Outros, já aliviados, bichanavam Padres-Nossos e Ave-Marias, em quantidades variáveis, conforme lhes fora imposto, pelo confessor, de acordo com a quantidade e a gravidade das faltas declaradas. O templo transformara-se, enfim, num epicentro de arrependimento e de perdão! Não havia falta, culpa ou pecado declarado pelo arrependimento dos penitentes, que escapulisse à fúria benevolente e perdoadora dos confessores. Algumas senhoras mais experientes em alfaias litúrgicas haviam preparado a sacristia, colocando sobre o mesão, para que o bispo observasse o seu estado de conservação, a casula festiva, de damasco branco, debruada e bordada a amarelo e que o bispo vestiria, ao chegar ao templo, substituindo a capa de asperges que envergaria desde a Casa do Espírito Santo. Ao lado, os outros paramentos usados ao domingo, o cálice, a píxide, a custódia, a caldeirinha com o hissope, o turíbulo e a naveta, tudo muito limpo e areado, brilhando a novo. Cuidavam as desveladas e castas senhoras que o Senhor Bispo vendo o empenho que o pároco colocava no asseio e manutenção das alfaias litúrgicas, concluísse do seu zelo espiritual, da dedicação religiosa e dos cuidados e orientação que dedicava ao rebanho que, por mandato canónico, lhe havia sido confiado.

No adro, muitos dos que já se tinham aliviado dos pecados e cumprido a penitência imposta iniciavam a ornamentação. Bandeiras multicolores suspendiam-se, cruzadas, das varandas e beirais das casas. Muitos portões eram revestidos com verdura, a fim de ocultar a sua rudez e pobreza. Uns picavam ramos e folhas, enquanto outros desfolhavam as pétalas das flores. As azáfamas eram grande e a confusão ainda maior do que dentro do templo.

No dia seguinte toda a população, acompanhada da filarmónica Senhora da Saúde, dirigiu-se para o cais, a fim de esperar o Prelado, vindo de Santa Cruz num gasolina, utilizado, habitualmente, na caça à baleia. O Sucessor dos Apóstolos foi recebido, no Cais, com palmas e foguetes. Seguiu-se um cortejo, subindo o caminho do Porto, o Matadouro e a Via de Água até à Rua Direita, onde se situava a casa do pároco, onde D. Manuel se recolheu para descansar uns minutos. A freguesia inteira era um mar de regozijo e satisfação, onde se movimentavam marés de contentamento e ondas de felicidade. O povo todo havia saído à rua ou acorrido às janelas e varandas para ver, saudar e aclamar o Pontífice, que não se poupava a distribuir bênçãos, indulgências e sorrisos.

Passado algum tempo já paramentado de capa de asperges, báculo e mitra, assumindo a verdadeira razão de ser do epíteto de Príncipe da Igreja, o bispo saiu da Casa do Espírito Santo de Cima, percorreu em majestosa procissão a rua Direita toda atapetada e engalanada À frente, os anjinhos de asas brancas e cestas de flores e as crianças da Cruzada Eucarística, cobertas com a cruz de Malta, desenhada a vermelho, em faixas brancas, atravessadas sobre o peito. A seguir os que iam crismar e os padrinhos. Depois os homens de opas brancas e vermelhas, carregando lanternas, pendões, cruzes e velas. Finalmente o clero, envergando sotaina negra e sobrepeliz branca e o pálio, sob o qual seguia o bispo, acolitado pelos ouvidores das Lajes e da Vila. A Senhora da Saúde, persistindo nos seus acordes, por vezes, abafados pelo toque dos sinos ou pelo ribombar dos foguetes, fechava o cortejo. Das janelas, varandas ou pátios, jovens donzelas atiravam pétalas de flores, que o prelado retribuía com bênçãos e sorrisos.

Chegando à igreja, o bispo pegou no hissope que o pároco lhe oferecia e levou-o à cabeça, desenhando cruzes sobre si próprio e no ar. De seguida aspergiu o povo, humildemente ajoelhado, submisso e contrito, enquanto o coro entoava o "Ecce Sacerdos".

Seguiu-se a missa, durante a qual sua Excelência Reverendíssima administrou o Crisma a dezenas de fiéis, muitos deles já adultos e pais de família.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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