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OBSTRUÇÃO

Quarta-feira, 30.09.15

Desde um outubro morno e sonso e ela a seu lado, a frequentar as mesmas salas, a circular pelos mesmos corredores, a ter uma ou duas reuniões em conjunto, mas não se falavam. Apenas conversas informais e os cumprimentos da praxe. Muito estranhos, sempre desencontrados à espera de coisa nenhuma. Tempos livres ao relento, por ruas e livrarias. Mas chegou o novembro frio e chuvoso e meteu-se o inverno a obstaculizar passeatas, a tornar tudo mais despretensioso. Além disso, era tempo de acabar com a displicência, com devaneios curriculares e completar horários. Juntou-os a sorte! Na mesma hora, na mesma sala! E a amizade entre eles foi um ar que lhes deu. Fiados no desinteresse dos alunos, na sua generosa objeção de consciência a horas vácuas, pareciam conectados desde há muito, desde de que o mundo era mundo. Um alvoroço estonteante domou-os. Um tumulto demolidor encafuou-os. Puseram-se num aconchego íntimo, agregador e afetuoso. Sem dar ouvidos aos outros que cochichavam numa bisbilhotice intrigante e veníflua. Eles alheados, juntos no desprendimento, felizes da vida, muito aconchegados a entregarem-se em volúpias emocionais, apenas idealizadas, transformando tempos e espaços de suposto trabalho em sonhos de marasmo afetuoso, redutor de insolubilidades. Ele mais afoito e expedito, ela mais audaz e arrojada. Depressa se acacularam de miragens mirabolantes e se entrincheiraram num amor sem misturas. Era o cerco desusado duma pirâmide de desejos, o arrojo inebriante de aspirações. Lá longe Recarei jazia no marasmo da indiferença, da superficialidade.

O Natal chegou com a primeira separação, reciprocamente, dolosa. Embora certos de que o janeiro não tardaria, perante um enlevo tão profundamente gerado, esta primeira separação pareceu-lhes uma eternidade. Ele desolado no silêncio de madrugadas obscuras, ela acaçapada como se lhe tivessem dito que o fim do mundo era naquele instante. Apenas Recarei, saindo do marasmo, rejuvenescia provisoriamente.

Os horários em janeiro não renascem no início do mês. As primeiras semanas são de tréguas e o acerto vai-se impondo com denodada demora. Só lá para o fim do mês tudo parece renascer, retornando os contubérnios de novembro e dezembro. Em contrapartida o enlevo crescia, parecia mesmo chegar até ao céu. Que lhes aumentassem a carga horária. Só ali, juntos estavam bem. Já não ansiavam pelo intervalo seguinte, já não olhavam o relógio, nem a claridade gratificante do dia que, outrora, os cativava. Tal era o enlevo! Falavam de filhos, de projetos, de sonhos, do passado, de tudo! Ele ainda tentou uma saída conjunta, um almoço, um passeio... Uma investida. Ela que não. Sentia-se muito bem ali, lado a lado, naquele enlevo arredondado, naquela entrega virtual, sem suplício, sem tormento, sem mágoa ou mácula, toda embebida uma ternura desusada mas gratificante e bonançosa. Havia de o compensar de outra forma.

E foi numa manhã de um maio florido. Ela, despretenciosamente, encostou-se e agarrou-se a ele como se duma entrega amorosa se tratasse. De soslaio, ele ainda pode ver-lhe uma nesga do peito tumescente e fumegante. Depois encolheu-se. E ele, o palerma, a adorá-la, a controlar ganâncias num imbecil disfuncionamento. Ainda o cetro da impossibilidade o excluía de um atrevimento desmedido, complexado e ela num lisonjeiro panegírico do marido. Um herói!

Ele contorcendo-se com tamanha atrocidade cuidou que tudo ficava por ali. Mas depressa ela se refez. Nem assim se quebrava o transcendental remanso de uma hora semanal. Engoliram a desfeita e ficaram como dantes. Regressaram ao enlevo, ao acariciamento, ao sonho emocional, enquanto, ao longe, o Sol se ia desvanecendo por entre as montanhas e Recarei, pátria de origem, remanescia numa quietude transtornante.

Mas Recarei que se aquietasse! Que fenecesse entre os umbrais do desinteresse e do abandono! Queriam mais? Mas prendê-la num desprendimento absoluto, conduzi-la a uma serenidade abstraída, encaminhá-la pela vereda da doação não era fácil. O espetro da montanha, apesar de distante, meteu-se-lhes de permeio, perseguindo-os a ferro e fogo. E o fim do ano havia de atrofiar tudo por completo, trazer-lhes uma obstrução definitiva. O destino traçar-lhes-ia outros caminhos.

Ela partia, para sempre, numa caminhada definitiva desfazendo os sonhos de um enlevo curto, cerceado e estranho

Apesar de afastada, distante, talvez já o tendo esquecido, ela continua, ainda hoje e tal como ontem, postada na grelha de partida, viva, serena, meiga e doce como sempre. Via-a em delírios ofegantes, em sonhos de magia. Arquejante, tentava libertar-se do pesadelo. Não conseguia. Cada vez mais dorido, confuso, no emaranhado de sonhos opulentos.

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publicado por picodavigia2 às 00:04





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