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CALIFÓRNIAS DE ABUNDÂNCIA

Sábado, 31.10.15

Durante a segunda metade do século XIX e a primeira do século XX, a América era encarada pelos habitantes da Fajã Grande, encurralados entre o mar e a rocha, com limitadíssimas condições de vida, como uma terra mítica onde todos, mesmo os mais tansos, singravam com sucesso e enriqueciam abruptamente. Alguns dos emigrados, na Fajã Grande, antes de partirem, mal sabiam conduzir um carro de bois e um ano depois de chegar à América já possuíam e guiavam um automóvel. Mais tarde, a este mundo de sonhos, juntou-se o Canadá. Ambos a darem uma machadada tremenda no desbaste da população da mais ocidental freguesia portuguesa, como aliás em quase todas as outras freguesias dos Açores.

Mas desde há muito que esse fluxo migrante como que estacou e hoje, quer a demanda da América quer a do Canadá já não exercem tão grande fascínio na população, tendo, inclusivamente e por óbvias razões, perdido o seu carácter utópico de únicos exemplares de terras promissoras, das quais dependia em parte a sobrevivência dos que haviam ficado atrás. Mas na verdade, nem a América nem o Canadá eram benéficos apenas para os que os haviam demandado, muitos clandestinamente outos através dos célebres papeles ou por carta chamada. Muitos dos que ficavam, familiares, parentes e amigos dos que haviam partido beneficiavam da riqueza exagerada, muito especialmente da proveniente da terra do Tio Sam e, mais concretamente, da Califórnia. À Fajã Grande chegavam, semanalmente resmas e resmas de sacas de roupa, de cartas recheadas com cheques e dólares que trocadas a vinte e oito escudos cada uma redundavam em sustento de muitas famílias. Além disso a maioria dos que vinham de visita traziam baús carregados de tudo um pouco e que iam enriquecendo o pecúlio dos que haviam ficado. A América e mais concretamente a Califórnia transformou-se, assim, numa espécie de mina. Com razão Pedro da Silveira a apelidou de Califórnia de Abundância. Na verdade aquele ilustre e conceituado escritor e poeta fajãgrandense, ao longo da sua obra, revela essa América de abundância e riqueza, referindo esse país com contornos concretos, metamorfoseado em sonho do povo, para quem o desejo de algo mais, se projeta nas «Califórnias perdidas de abundância» expressão que sintetiza, de forma magistral, a duplicidade inerente a América de contrastes, uma terra onde se pode experienciar tanto triunfos como derrotas e também a América dos que ficam apenas a imaginá-la para lá do horizonte e que a ela só acedem pelas encomendas e pelas dolas dos outros. Esta dupla faceta de contrastes também se manifesta nalguns contos de outros autores açorianos, nomeadamente Nunes da Rosa, em Pastoraes do Mosteiro, até porque a maior parte da ficção açoriana elege a América como um dos seus temas recorrentes e como que transforma a emigração na grande narrativa insular, ou seja, num processo em que a caminhada para Oeste, com as suas vicissitudes, dramas, derrotas e triunfos, é ao mesmo tempo procura e descoberta de um universo diferente, aprendizagem da vida, abertura ao novo mundo. Em muitas destas obras a América é-nos apresentada, na verdade, como a terra da abundância, onde há muito dinheiro, muitas estradas, muitos mechins, onde as casas são bonitas e limpas, com talavejas e frizas cheias de alimentos, enfim um mundo de sonho, opulento e farto, onde até o cheiro é muito bom. Um mundo com a qual apenas se pode sonhar, onde as pessoas vestem roupas vistosas e perfumadas e vivem no conforto e na riqueza, uma terra onde o progresso dita um ritmo de vida muito mais acelerado. Uma terra onde não existe pobreza, onde a fome e a dificuldade de sustentar os filhos foram banidas, uma terra que oferece um futuro radioso a todos os açorianos que decidiram para lá partir. A América é Califórnias de abundância.

Mas o que mais tornou apelativa esta terra deslumbrante, esse mundo de sonhos e de magia foi a descoberta de ouro na Califórnia, na segunda metade do século XIX, e que originou uma corrida desenfreada de pessoas vindas não só dos Açores mas de muitas outras partes do mundo, levadas pela intensa avidez de obter lucros fáceis. Nessa altura era sobretudo os homens que partiam, geralmente fugindo nas baleeiras, muitas vezes correndo grandes riscos mas regressando alguns anos de pois com umas águias de ouro nos baús, casando, construindo uma casa e comprando algumas terras. Infelizmente muitos deles, porém, regressavam tristes, depois de andarem nos montes a pastorear mal ganhando para o seu sustento e para a viagem de regresso. Califórnias perdidas de abundância!

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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