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RETALHOS DE GUERRA

Quinta-feira, 31.12.15

Quando no início de 1974 cheguei à Guiné, entrei em pânico. Haviam-me integrado, contra a minha vontade, num cenário de uma guerra estúpida, aberrante e tremendamente horrível para a maioria das famílias portuguesas. Por essa altura estavam na Guiné, a lutar contra o PAIGC, cerca de trinta mil homens, na sua maioria oriundos de Portugal Continental dos Açores e da Maneira. No meio centenas, milhares de nativos inocentes. Nessa altura a situação naquele território era tremendamente explosiva, como se pode concluir dos relatos que se seguem, retirados do livro Os Anos da Guerra Colonial de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes:

“A operação "Amílcar Cabral", durante a guerra colonial na Guiné, foi realizada por forças do PAIGC contra o quartel de Guileje junto à fronteira com a Guiné-Conacri, ataque que apontava para uma tentativa de tomada do quartel.

 Durante a execução duma coluna de reabastecimento, as forças de Guileje foram fortemente emboscadas por duas vezes, a cerca de dois quilómetros do quartel, tendo sofrido um morto, sete feridos graves e quatro feridos ligeiros. Por falta de evacuação aérea, um dos feridos graves pouco depois. O comandante enviou mensagens a alertar para a gravidade da situação. Mas o PAIGC, antecipou-se e iniciou os ataques a Guileje que solicitou apoio urgente, pois estava debaixo de fogo contínuo. Foi-lhe respondido que seria efectuado o apoio aéreo logo que possível. No dia seguinte foi recebida, em Gadamael, a última mensagem de Guileje: "Estamos cercados de todos os lados". Seguiu-se o silenciamento das comunicações com o quartel.

Finalmente a guarnição portuguesa retirou-se do quartel de Guileje para Gadamael-Porto, depois de cinco dias de contínua flagelação pelo PAIGC, que ocupou a base. Os militares portugueses seguiram a pé para Gadamael, deixando para trás as viaturas e o armamento pesado, destruído ou inutilizado. Nos quatro dias seguintes Guileje foi bombardeada 36 vezes. O interior do aquartelamento tinha sido atingido durante um ataque com 200 impactos de granadas, que causaram grandes danos materiais; Por essa altura realizou-se uma visita do chefe de Estado-Maior General, à Guiné, perante a grave situação que se vivia, onde acompanhou a última fase das operações e analisou as medidas a tomar para garantir a manutenção duma capacidade militar mínima.

Durante um mês o PAIGC realizou 220 acções militares de sua iniciativa, atingindo o valor mais elevado desde o início da guerra. Gadamael esteve, durante mais três dias debaixo de fogo de armas pesadas e ligeiras continuadamente, com disparos de morteiros, canhões sem recuo e lança-granadas foguete, com um número de rebentamentos estimado em cerca de 700, que causaram cinco mortos e 14 feridos e elevados prejuízos materiais.

 A companhia de Caçadores de Cacine transmitiu, então, a seguinte mensagem para Bissau: "Informo Gadamael-Porto destruído. Feridos e mortos confirmados. Pessoal daquele fugiu para o mato. Solicito providências e instruções concretas acerca procedimento desta". Perante isto, o Comando-chefe determinou que as tropas pára-quedistas, que se encontravam em Cufar, seguissem para Gadamael.

Durante um mês as forças portuguesas na Guiné sofreram 63 mortos, 269 feridos e um prisioneiro, tendo o PAIGC realizado 166 ataques a posições militares portuguesas, 36 emboscadas, 12 ataques contra aeronaves, um contra embarcações, e implantado 105 minas, das quais 66 foram accionadas por militares portugueses, o que dá ideia do agravamento da situação sofrida na Guiné neste período. Na sequência destes acontecimentos, realizou-se em Bissau, a 8 de Junho, uma reunião de comandos, com a presença do general Costa Gomes, Chefe do Estado-Maior General. Concluiu-se pela necessidade de efectuar um retraimento do dispositivo, por forma a garantir um reduto final, em torno da zona central do território, com afastamento das guarnições de fronteira. A manobra proposta configurava uma acção retardadora em profundidade para “ganhar tempo e consolidar um reduto final que in extremis, ainda possa permitir a solução política do conflito”. Esta solução era a clara admissão de que as forças portuguesas tinham de abdicar da posse de boa parte do território da Guiné e das suas populações para se concentrarem num reduto central.”

 

NB - Excertos retirados do livro Os Anos da Guerra Colonial de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes.

 

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publicado por picodavigia2 às 14:48

NOVAMENTE ERREI

Quinta-feira, 31.12.15

 

Mais uma vez em meu olhar descrente,

Se formou nova imagem, nova luz,

Que infinita e incógnita reduz

Meu ser à escravidão, eternamente.

 

Foi toda a minha esperança que em ti pus;

Me entreguei em doação terna e ardente,

Na procura do amor que, debilmente,

Purifica, extasia e a ti conduz.                                          

 

Errei nessa doação, que de sublime,

De nobre, de infinito, nada tem.

E que nem o amor mais puro a redime.

 

Nada! Nenhuma luz, nenhuma imagem…

Mas em meu peito iludido se imprime,

Tristeza tão infinita como o além.

 

Angra, 31 de Dezembro de 1967

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publicado por picodavigia2 às 10:53

DIÁRIO DO ÚLTIMO DIA DO ANO

Quinta-feira, 31.12.15

Decidi que hoje me havia de levantar cedo. Ainda é noite escura mas é o último dia do ano. Revolvo-me e retorço-me na cama. Penso, imagino e sinto. Este será o último dia de mais um dos anos da minha vida. Muito lentamente adormeço. Por fim acordo e, espantada, olho o relógio. Que horror! São nove horas da manhã. Bem queria ter-me levantado mais cedo e aproveitar da melhor forma este último dia do ano. De propósito, ontem à noite, deixei levantada a persiana da janela do meu quarto. Agora entra-me um sol vivo, benfazejo e acariciador que me convida a deixar o leito. Atiro com o edredão e levanto-me de um salto. O meu corpo exala sobras do perfume do dia anterior. Lavo-me, penteio-me e renovo o perfume. Estou meio tonta ainda porque a reviver as emoções do dia anterior. O dia em que ele me veio visitar e… despedir-se. Melhor fora, pois que o dia de hoje não aparecesse com este sol, com esta claridade, com esta beleza mas que a natureza me surgisse neste último dia do ano com um aspeto mais sombrio e triste. Ele talvez nunca imaginou que, ao despedir-se, ao partir, deixasse um pesadelo e uma angústia tão grandes sobre mim.

Abro a janela. O dia está belo e maravilhoso O céu azul, o sol acolhedor, os montes serenos e discretos a ufanarem-se de um silêncio arrogante, as árvores pintadas de um verde amarelado, palpitando de alegria, os arbustos das sebes a agitarem-se, levemente, ao sopro de um vento plácido e suave, os prédios vetustos silenciosos e herméticos a contrastarem com os pequenos casebres afoitos e laboriosos. Mais ao longe vejo a torre duma igreja e ouço os sinos a badalarem num reboliço festivo. O céu, as árvores, os arbustos, as casas, o repicar os sinos, tudo me lembra o tempo em que sem cuidados nem remorsos eu brincava feliz nos pátios traseiros da casa onde nasci.

Passa tão veloz o tempo. São dez horas. Descuidei-me, postada à janela, a observar o meu mundo e esqueci-me do pequeno-almoço. Porque será que, por vezes, descuidamos tanto o nosso pequeno-almoço, que afinal é primeira refeição do dia, depois de dormirmos entre 7 e 10 horas, sem comermos nada. É fácil entender porque é que o pequeno-almoço deve ser uma refeição forte e suculenta, talvez a melhor do dia, uma vez que é aquela que nos proporcionará a energia suficiente para iniciarmos o dia de trabalho e sermos capazes de render física e intelectualmente. E isso para mim é muito importante. Sento-me à mesa rodeada de leite, cereais, queijo, sumos de fruta naturais e uma sanduíche de fiambre. Apesar de tudo comi pouco, muito pouco e não me sinto forte e capaz de iniciar com ânimo e alegria este último dia do ano.

Vou sair. Não sei para onde nem fazer o quê e, por isso, não tenho pressa. Sento-me, na sala, numa poltrona forrada de couro e olho as fotos dos meus antepassados. Alguns deles já de avançada idade, a morrerem quando o mundo lhe começava a ser pesado. Depois olho-me ao espelho. Vejo aí refletido o meu corpo belo, jovem, coberto de roupas simples e sem adereços. Nunca gostei nem de berliques, nem de adornos supérfluos ou de pinturas exageradas.

Desço as escadas e saio. São quase onze e as ruas estão repletas de pessoas e de carros. Espero os júbilos de um novo dia, como recompensa da mordaça de ontem. Luto para não me encontrar com quem quer que seja. Imagino que o vejo… Mas sei que não passa de uma fascinação, de uma brincadeira sem graça da minha imaginação, desejosa de o ver, desolada da sua ausência. Continuo a peregrinar pela rua sem saber para onde vou… Não sei exatamente para onde vou... Inadvertidamente, passo em frente ao infantário onde outrora trabalhei. Também ali o silêncio é impressionante e dominador. Ouço o respirar do sopro que ficou dele que por ali passava tantas vezes. Sem medo, continuo. Creio que as pessoas não me veem porque os cães não ladram à minha passagem. Vagueio como alguém que não sabe para onde vai.

Meio dia e meio... Regresso a casa, embora sem pressa. O pequeno-almoço foi tardio embora pouco suculento. Mas não tenho fome. Alegra-me, comove-me, alvoroça-me a ideia de que tenho sobras de ontem, embora saiba que isso me trará amargas recordações…

Uma hora da tarde. Sento-me à mesa. Em frente, a televisão traz-me notícias de um mundo triste, desolado. Enxurrada arrasta doze carros nos Açores. Dezenas de pessoas desalojadas pelas cheias. Mulher assassinada pelo companheiro deixa três filhos menores. Padrasto viola criança de três anos. Ladrões assaltam, violam e roubam idosa de 82 anos que vivia sozinha… Revoltada desligo a televisão. Foi este patê de camarão que ele mais adorou. Volto à madorna das tristes recordações. Creio até que adormeci um pouco. Tive um sonho. Caminhava de braço dado com ele, assistindo à sua coroação com meu rei e soberano. Mas ao redor as flores estavam murchas e os pássaros silenciosos. As árvores cobriam-se de negro e as janelas das casas tinham cortinados vermelhos. São as relíquias do tempo da fé pura e da paz do espírito. Sentada no meu quarto incendeio tudo o que me é útil. E dou comigo a escrever um poema na última folha de papel que me sobra…

Quando acordo já entardeceu... Tudo se aquietara ao meu redor. O vento continuava a soprar, agora mais forte, mais macio como que a enrolar-se no reboliço das folhas caídas. As nuvens haviam acordado e tapavam o sol, escurecendo o dia e antecipando a noite. E eu encostada ao parapeito da janela do meu quarto, à espera que o sino badale a meia-noite.  

Cinco e meia. A tarde desapareceu por completo. A ausência do sol escureceu tudo, por completo. A noite chegou e impôs a sua escuridão, sem que eu lhe pudesse por termo. A terra cobriu-se com um manto negro que nem a lua ajudou a desmistificar.

Dez… Onze… Onze e meia… Aproxima-se a meia-noite. No ar, um deslumbrante murmúrio, uma fervorosa reminiscência, um entontecedor silêncio. Uma chuva miudinha e adocicada cai em fios finos, suaves, deslumbrantes unindo o céu à terra. De repente, todas as luzes se apagam e todas as ilusões se desvanecem como se fossem fumo a sair das chaminés adormecidas...

Nem quis ouvir as badaladas da meia-noite, nem comer as doze passas ou beber uma taça de champanhe porque tinha a certeza que ele nunca mais voltaria…

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publicado por picodavigia2 às 00:05

WINDGURU NA FAJÃ GRANDE

Quarta-feira, 30.12.15

Segundo noticiaram, recentemente, a Rádio Atlântida e o Fórum Ilha das Flores, a SpotAzores estabeleceu parceria com o "sítio" WindGuru para a instalação de oito estações meteorológicas WindGuru Live no arquipélago açoriano. Recorde-se que o Windguru é um serviço especializado em previsões meteorológicas, orientado, entre outros, muito especialmente para os amantes de windsurf e kitesurf. As previsões emanadas do WindGuru são baseadas em modelos meteorológicos, pelo que este serviço Windguru está capacitado para fornecer previsões para qualquer local no planeta Terra. A principal razão que levou à criação deste site, que dentro em breve terá uma estação no ponto mais ocidental da Europa, foi a obtenção de previsões de uma forma simples e rápida sem necessidade de pesquisar uma série de mapas meteorológicos através da internet. A sua importância é grande pese embora as previsões que se podem visualizar neste site não são declaradamente previsões oficiais, dado que o Windguru desenvolveu o site apenas para ajudar os utilizadores nas previsões. O que fornece o Windguru são apenas dados numéricos convertidos num formato legível. Cabe a cada utilizador decidir a forma de os interpretar. Dado que a previsão do tempo é extremamente difícil e os modelos que utiliza este site são bastante complicados é normal que as previsões incorram numa pequena dose de imperfeição. Isso no entanto em nada desvaloriza a colocação desta estação Na Fajã Grande. As previsões são apresentadas em tabelas que mostram como serão as condições meteorológicas nos próximos dias num dado local. Sendo certo que a velocidade e direção do vento são as informações mais importantes, mas são indicadas também a temperatura, a precipitação, a nebulosidade e as características das ondas. Neste site existem também um histórico de vento, a previsão de marés, alguns mapas com previsões e um pequeno forum para utilizadores...

A estação meteorológica WindGuru instalada na Fajã Grandessim como outras construídas noutras ilhas açorianas estará operacional no primeiro trimestre de 2016. Os dados recolhidos serão disponibilizados nos dois "sítios da Internet", com destaque para a informação WindGuru Live nas páginas das respetivas webcams dos locais, bem como a marca SpotAzores em destaque nas páginas de informação meteorológica dos respetivos locais no WindGuru.

Além dos dados a disponibilizar, esta parceria pretende também promover o próprio arquipélago dos Açores através da pesquisa no "sítio" WindGuru, referência internacional para todos os entusiastas de desportos aquáticos e de aventura.

 

NB – Dados retirados do Forum Ilha das Flores, Rádio Atlântida e Internet.

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publicado por picodavigia2 às 20:22

MARTA FARTA

Quarta-feira, 30.12.15

“Morra Marta, morra farta.”

 

Mais um interessante adágio muito usado, antigamente, na Fajã Grande e que terá sido importado, provavelmente trazido para a ilha das Flores pelos primeiros povoadores pois é conhecido e usado em muitas outras localidades. A dúvida que se levanta, relativamente à sua estrutura frásica, é a de que quem terá sido esta Marta, sendo muito provável que apareça aqui, como Pilatos no Credo, isto é, apenas por razões de rima, elemento preponderante nos provérbios e em todos os textos orais. Assim em vez de Marta poderia ser muito Maria, Joana, Francisca ou o nome de qualquer outro elemento do conjunto dos seres humanos.

Dizem os especialistas na matéria que este provérbio deve ser entendido como uma exortação epicurista do tipo de convite ou apelo a que cada homem aproveite bem a vida. Na verdade, para o filósofo grego da antiguidade, Epicuro e para os seus discípulos e seguidores o sumo bem reside no prazer. Trata-se, no entanto, de um prazer entendido como quietude da mente e o domínio sobre as emoções e, portanto, sobre si mesmo. Mas o único e verdadeiro prazer é o do corpo porque o prazer do espírito é apenas lembrança dos prazeres do corpo. O homem é um animal cujo deus é a barriga. Por isso em qualquer situação da nossa vida, incluindo a dor ou na morte, o que importa é ter a barriguita cheia. Estar farto!

Mas por outro lado, parece ser evidente que este adágio também exorta a uma espécie de insensata sensatez de se viver bem, de se gozar a vida e de se gastar o dinheiro que se tem e, sobretudo, o que se não tem. Viver à farta, viver bem. Isto torna-se muito mais desejado e querido numa sociedade pobre, limitada, que depende exclusivamente do seu trabalho e das condições climatéricas. Assim, havia que aproveitar a vida quando os condicionalismos a tal obrigavam. As pessoas sabiam e sentiam o sacrifício, o esforço, a míngua e as limitações do seu quotidiano e sabiam que a isso não podiam fugir. O mesmo acontecia com a morte. Pois, ao menos, que vivessem com a barriga cheia. Mas convenhamos que, regra geral, isto na Fajã Grande, na década de cinquenta, tudo isto não passava de um mero desejo. Uma miragem!

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publicado por picodavigia2 às 00:05

O PATINHO FEIO

Terça-feira, 29.12.15

Era uma vez uma patinha que teve quatro patinhos muito lindos, porém quando nasceu o último, a patinha exclamou espantada:

- Meu Deus, que patinho tão feio!

Quando a mãe pata nadava com os filhos, todos os animais da quinta olhavam para eles e, reparando naquele patinho estranho, diziam:

- Que pato tão grande e tão feio!

Os irmãos tinham vergonha dele e gritavam-lhe:

- Vai-te embora porque é por tua causa que toda a gente está a olhar e a fazer pouco de nós!

E assim o pobre patino ficou conhecido por todos como o Patinho Feio.

Muito triste e acabrunhado, certo dia, o pobre Patinho Feio afastou-se tanto, tanto que foi ter à outra margem do ribeiro. De repente, ouviram-se uns tiros. O Patinho Feio observou, então, como um bando de gansos se lançava em voo fugindo dos tiros. O cão dos caçadores vendo-o, ali sozinho, começou a persegui-lo furiosamente.

Muito a custo, o Patinho Feio conseguiu escapar do cão mas ficou muito atrapalhado pois estava ali, sozinho e não tinha para onde ir. Decidiu ficar por ali. Finalmente o inverno chegou. Os animais do bosque olhavam para o pobre e abandonado patinho cheios de pena.

- Onde é que irá o Patinho Feio com este frio? – Perguntavam entre si.

Não parava de nevar. Para afastar o frio, o Patinho Feio escondeu-se debaixo de uns troncos e foi ali que uma velhinha com um cãozinho o encontrou.

- Pobrezinho! Tão feio e tão magrinho!

Cheia de pena, a velhinha pegou no patinho, aqueceu-o no seu regaço e trouxe-o para casa.

Em casa, todos trataram muito bem do patinho, tornando-se grandes amigos dele. Todos, menos um gatinho cheio de ciúmes, que pensava: "Desde que este patusco cá está, ninguém mais me ligou".

Voltou a primavera. A velha cansou-se do patinho, porque não servia para nada: não punha ovos e além disso comia muito, porque estava a ficar muito grande.

Foi o gato que o expulsou:

- Vai-te embora! Não serves para nada!

A nadar o Patinho Feio, agora já muito grande e forte, chegou a um lago em que passeavam dois belos cisnes que olhavam para ele. O Patinho Feio pensou que o iriam enxotar. Muito assustado, ia esconder a cabeça entre as asas quando, ao ver-se reflectido na água, viu, descobriu que um belo cisne cuja imagem se refletia na água não era outro senão ele próprio.

Os cisnes desataram a voar e o Patinho Feio voou atrás deles.

Quando passou por cima da sua antiga quinta, os patinhos, seus irmãos, olharam para eles e exclamaram:

- Que cisnes tão lindos! E aquele, o último, é o mais bonito!

 

(Aos meus netos.)

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publicado por picodavigia2 às 00:05

LABUTA DIÁRIA

Segunda-feira, 28.12.15

Na Fajã Grande, comunidade cuja economia dependia fundamentalmente da agricultura e da criação de gado, até à década de cinquenta, o calendário como que era profundamente condicionado e estabelecido pelas exigências de uma e outra destas atividades. Assim o ano como que começava não em um de janeiro, mas em outubro, a partir da altura em que se iniciava o novo ciclo agrícola e em que as terras não tinham nada. Era por isso que quem fizesse uma terra de meias, ou a tivesse de renda, se pretendesse terminar o contrato, entrega-la ao dono ou iniciar um novo período de arrendamento ou contrato de meias, devia fazê-lo nos fins de outubro.

Assim, podia dizer-se que o ano agrícola começava quando se iniciava um novo período de produção, ou seja nos princípios de novembro, altura em que a agricultura como que estava na sua fase de hibernação. Por estas alturas, pouco mais se fazia do que tratar do gado, preparar a matança do porco e do Natal. Mas iniciavam-se também as novas atividades agrícolas todas elas tendo em conta não apenas os ciclos lunares e as marés, mas também uma série de crenças, de mitos, de tradições e de costume ancestrais e ainda o clima, o tempo, o vento, o sol, a localização das terras, a sua proximidade do mar, a natureza do terreno, etc. etc. Tudo isto, obviamente, condicionava e influenciava o ano agrícola.

Em dezembro e janeiro o mau tempo que se fazia sentir na freguesia cerceava fortemente as atividades agrícolas. Mas em janeiro já se preparavam algumas terras, sobretudo as que ficavam mais próximas do mar, limpando, estrumando, transformando-a de modo a o terreno ficar limpo, fofo e sem torrões. Dava-se continuidade ao semear das favas, iniciado em dezembro, pela Senhora da Conceição, plantavam-se couves e cebolinho. Em fevereiro, com o tempo a melhorar já se cavavam ou lavravam as terras que não tinham forrageiras ou que estavam livres e que recebiam o estrume retirado dos palheiros ou o sargaço armazenado nos lagos, no Rolo da Ribeira das Casas. Nalgumas terras semeavam-se os feijões, as caseiras e os tomateiros, plantava-se couves. Fazia-se o canteiro para a batata-doce e, no fim do mês, já se plantava alguma rama se a houvesse.

Em março continuavam-se os trabalhos iniciados em fevereiro, nomeadamente os respeitantes ao acarretar para os campos o estrume e o sargaço, lavrava-se e cavava-se, preparando-se os terrenos para as sementeiras e plantações para o presente mês e para o seguinte. Já se semeava algum milho nas terras próximas do mar, como Areal, Furnas, Porto, Cambada, Estaleiro, Rego do Burro e outras. Procedia-se, se o tempo o permitisse, às primeiras sachas de algumas culturas já desenvolvimento. A plantação da bata-doce tinha o seu apogeu nesse mês. Em abril já se sachava e mondava o milho, enquanto se semeava nas terras mais distantes do mar e que haviam sido trilhadas pelo gado amarrado à estaca, e que antes deveriam ser abertas com o arado de ferro. Estas terras, geralmente não necessitavam de estrume. Semeavam-se batatas. Em maio dava-se continuidade a tudo isto e já havia muito milho para sachar e abarbar. O mesmo acontecia em junho, altura em que o milho já deveria estar todo sachado, mondado, desbastado e abarbado. Apanhavam as primeiras batatas que também haviam sido sachadas, mondadas e calçadas. Era preciso também sachar os inhames, apanhar alguns e plantar outros novos.

Em julho e agosto, enquanto o milho crescia limpavam-se as terras de mato, ceifando a cana roca e os fetos, assim como as relvas que tinham feitos. Estes eram postos a secar e depois amarrados às mancheias ou pavias, sendo guardados nas casas velhas para servirem de cama para o gado, no inverno. Muito milho ainda era sachado no início de julho. Setembro era altura de quebrar a espiga ao milho, de o desfolhar sendo as folhas também amarradas em mancheias com folhas de espadana e presas nos milheiros para que secassem. Serviriam de comida para o gado no inverno. Iniciava-se a apanha do milho nas terras perto do mar. Em outubro era a apanha do milho, encambulhá-lo e guardá-lo nos estaleiros, arrancar os milheiros e limpar as terras que deviam ser entregues no fim do mês. Era o fim de um ciclo, o ciclo do milho que na verdade dominava todo ou quase todo o ano agrícola. Na verdade era o milho que estava na base da economia da Fajã Grande, nos anos 50, baseada numa agricultura de subsistência, na qual o cultivo daquele cereal se revelava muito importante, dado que dele dependia a sobrevivência da população.

Toda esta labuta diária, a que se juntavam muitas outras atividades como o cortar lenha, ceifar erva, apanhar incensos, tratar do gado, tirar o leite, limpar palheiros e currais, ir, muitas vezes ao leite ao mato, constituía um desmesurado trabalho, um cansativo esforço que no entanto era extremamente compensado, com tudo aquilo que as terras davam, nomeadamente o milho, que constituía grande parte do sustento anual de cada família. O milho era pois rei e senhor, servindo inclusivamente como moeda e forma de pagamento. Um dia de trabalho era pago com um alqueire de milho.

Tudo no milho era aproveitado. Em primeiro lugar o produto final, ou seja, o que de mais importante se extraía do milho – a farinha, com a qual se fazia o pão e o bolo, elementos básicos no cardápio alimentar de então. Mas não se ficavam por aqui os lucros e benefícios de tal produção. As maçarocas, quando o milho estava verde e ainda vertiam leite eram cozidas juntamente com as batatas brancas ou assadas no espeto e constituíam um bom e saboroso alimento. Outras vezes os grãos eram torrados, servindo não só para se comer mas para se juntar e moer com o café. As folhas tinham um peso substancial na alimentação do gado no inverno e as espigas, ainda verdes, também alimentavam os bovinos no verão; a parte interior da casca das maçarocas, depois de desfiada e alisada, era utilizada para encher os colchões e travesseiros e com a restante também se alimentavam os bovinos; uma parte dos milheiros utilizava-se para fazer o lume em que se cozinhava a comida do porco, enquanto outros eram picados em pequenos pedaços e utilizados para secar o curral do suíno das húmidas imundícies em que era profícuo, graças ao seu desassossegado e hediondo reboliço; os sabugos eram utilizados para acender o lume, para as crianças brincarem e até para limpeza e higiene do rabiosque; uma boa parte das maçarocas, sobretudo aquelas cujos grãos eram mais raquíticos bem como as excedentes da produção da farinha, eram utilizados para alimento das galinhas, do porco e das vacas à engorda e até com os fios da cabeleira que saíam da ponta da maçaroca, depois de secos, se fazia chá, muito recomendado nos achaques dos rins e nas infeções urinárias. Além disso e depois de peneirada, a farinha deixava no fundo da peneira um farelo que era utilizado em parte para engrossar as águas das lavagens do porco e também para alimento das galinhas, fazendo-se com ele uma espécie de bola a que se juntavam couves e cascas de batatas, geralmente cozidas e picadas. Finalmente, com a farinha do milho ainda não seco faziam-se as tradicionais papas grossas.

Daí que toda esta riqueza resultante do cultivo do milho justificasse, durante o ano, um trabalho excessivo e cuidadoso e envolvesse toda a população no seu cultivo, a que dedicava grandes cuidados e gigantescos esforços. O milho era, na realidade, a causa e a razão de tudo, até determinando e delineando o calendário da Fajã Grande, obrigando os seus habitantes a uma árdua e persistente labuta diária.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

DIMAS E JESUS

Domingo, 27.12.15

Era por alturas do Natal que a minha avó, nos serões das longas e frias noites de inverno, depois de rezado o terço e outras orações, contava um conto adequado à época, no qual se desvendavam alguns lendários acontecimentos, subsequentes ao nascimento do Menino Jesus, na noite de Natal e que rezava mais ou menos assim:

Numa das noites depois do nascimento do Menino Jesus, o seu pai, São José teve um sonho, durante o qual viu um anjo que lhe disse:

- Levanta-te, toma o Menino e Sua Mãe e foge para o Egito. Fica lá até que eu te avise, porque o rei Herodes quer matar o Menino.

São José, muito assustado, levantou-se logo. Ainda era muito cedo mas ele acordou a Virgem Maria, Mãe do Menino Jesus e resolveram partir de imediato, ainda durante a noite. São José pegou no burrinho que estava na gruta onde o Menino nascera, sentou sobre ele Nossa Senhora e colocou-lhe o Menino no colo. De imediato e sem que ninguém soubesse puseram-se a caminho do Egito. Mas a viagem era muito longa e a caminhada muito demorada e cansativa pelo que, durante o caminho, tiveram que parar várias vezes.

Numa dessas paragens, numa localidade muito pobre, Nossa Senhora quis dar banho ao Menino Jesus, mas tão tinha nem selha, nem balde, nem toalha, nem outros preparos quaisquer para aquecer a água. Então São José foi bater à porta duma casa e explicou que estava de viagem com uma criança e que precisava de lhe dar banho mas não tinha com quê. Que por favor o ajudasse.

A dona da casa logo lhe abriu a porta e prontificou-se para ajudar. São José foi chamar Nossa Senhora e entraram na casa com o Menino.

Nossa Senhora lavou o Menino Jesus numa bacia, renovando a água por duas vezes, mas não despejou a última. A mulher, ao lado tentava ajudar e observava atentamente Nossa Senhora e o grande cuidado que Ela tinha com o seu filho. Depois do banho enxugou o Menino numa toalha que a mulher lhe emprestou. Esta, no entanto, fazia muitas perguntas: de onde eram, quem eram, de onde vinham, para onde iam, por que andavam a viajar, se não tinham mais filhos… Nossa Senhora explicava tudo e falava de Deus, do céu, das coisas santas e de Nosso Senhor, o salvador do mundo. Embora não compreendendo muitas coisas do que Nossa Senhora lhe explicava a mulher estava extasiada. Como Nossa Senhora também lhe fizesse algumas perguntas a mulher, muito triste e chorosa, a mulher acabou confessando que o seu marido era um ladrão e moravam ali na mais extrema pobreza. Também lhe disse que tinha um filho um pouco mais velhinho do que o dela, que se chamava Dimas, mas que estava doente desde há alguns dias e não havia meio de ser curado.

Nossa Senhora preparou-se para sair e continuar a viagem. Mas antes de se irem embora, Ela e São José agradeceram à mulher. Quando já ia a sair Nossa Senhora disse à mulher:

- Dá banho ao teu filho na mesma água em que eu lavei o Meu e ele ficará curado.

A mulher, logo a seguir, fez o que Nossa Senhora lhe disse e, para espanto seu, o seu filho ficou curado imediatamente. Louca de contentamento, saiu logo para a rua, a correr, a ver se encontrava aquela família para lhe agradecer. Correu por todos os lados, mas já era tarde, São José, Nossa Senhora e o Menino já iam longe, pelo que a mulher não os conseguiu encontrar nem lhes agradecer.

A notícia, no entanto, espalhou-se naquela terra mas ninguém sabia onde Nossa Senhora e a sua família estavam, nem para onde tinham ido.

Passaram-se muitos anos e o filho daquela mulher cresceu, mas devido ao mau exemplo do pai, acabou por também se tornar num ladrão que anos mais tarde, foi preso e condenado à morte.

Como era costume naquele tempo, o ladrão condenado à morte foi mandado crucificar juntamente com dois outros condenados. Ele não sabia era que um deles era Aquele que, quando menino, lhe salvara a vida, pois a mãe dera-lhe banho na água em que ele se lavara. Era Dimas que, muito arrependido dos seus pecados e dos roubos que fizera disse a Jesus:

- Senhor, lembra-te de mim quando entrares em seu Reino.

No entanto o outro cruxificado blasfemava contra Jesus, dizendo:

- Se és o Cristo, desce da cruz e salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!

Mas Dimas repreendeu-o:

- Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo, pois recebemos o castigo que merecemos pelos nossos crimes, mas Ele não fez mal algum. - E acrescentou - Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!

Jesus respondeu-lhe:

- Em verdade te digo: ainda hoje estarás comigo no paraíso.

E foi assim que um ladrão se tornou em São Dimas, o bom ladrão arrependido.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

ERGUE-TE CORAÇÃO

Sábado, 26.12.15

(POEMA DE COELHO DE SOUSA)

 

“Ergue-te coração

para que as mãos

não fiquem no chão

e os olhos

sejam estrelas

que não haja escolhos

nos caminhos delas.

 

Contigo,

ninguém deixará de ser pastor

ou anjo amigo

no colo da manhã

do grande dia-amor.”

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

NOITE DE NATAL

Sexta-feira, 25.12.15

A noite estava fria e escura. Das encostas do Pico da Vigia e do Outeiro desciam sibilos de vento, míticos e sonantes, que se diluíam sobre os telhados das velhas casas da Fajã, perdendo-se na imensidade escura do Oceano. No ar, pairava um cheiro a canela e um perfume de hortelã e, das janelas semicerradas das pequenas habitações, saía uma luz trémula, baça e insegura. As ruas eram um deserto escuro e quase terrificante.

Na torre da igreja, os sinos haviam, há pouco, anunciado a missa do galo. Esperavam-se, agora, as três badaladas, indicadoras da aproximação da hora. E estas não se fizeram esperar. Logo que soaram na velha torre, sobrepondo-se aos sibilos angustiantes do vento e ao bramido roufenho do mar, como que misteriosamente, de todas as portas, começaram a sair vultos negros, inseguros e indefinidos. Enrolados em roupas grossas, tapavam a cabeça com mantas ou bonés, amparavam-se à incerteza, balouçavam-se no escuro. Uns, seguiam em pequenos ranchos, transportando lanternas de vidro tisnado e luz amarelada, baça e trémula. Outros seguiam só, guiando-se no escuro, amparados a bordões e às paredes e muros dos pátios. Sincronamente, fechavam as portas e encaminhavam-se, para a igreja, situada no centro da freguesia.

Eu era um deles!... Dos mais pequenos, dos mais hesitantes e medrosos…

Era o primeiro Natal em que me fora reconhecido o direito de ir à missa do galo, o que, para mim significava a certeza de já ser um homenzinho. Por isso me preparara dignamente para tal evento. A roupa, apesar de pobre, era a melhor que tinha. Além disso, contrariamente ao habitual, ia calçado, o que me dava um ar de maior dignidade e me conferia uma importância desusada. O silêncio escuro da noite, apenas entrecortado pelo contínuo silvar do vento e pelo bater emaranhado dos sapatos nas pedras da calçada, porém, assustava-me.

Saíramos juntos de casa: meu pai, meus irmãos e eu. Porém, ao passarmos frente ao botequim do Aires, onde os homens, habitualmente passavam os serões e a cujo balcão alguns já estavam encostados, meu pai, assumidamente arredado das cerimónias religiosas e das celebrações litúrgicas, despediu-se de nós e ficou por ali, enquanto seguíamos num grupo que, a pouco e pouco, à medida que se aproximava da igreja, se avolumava e quase transformava em romaria.

Aquela noite, não apenas em minha casa, mas também em todas as da freguesia, fora diferente. De manhã, minha irmã Amélia matou um galo, depenou-o e fez-lhe vinha-d’alhos. A casa foi lavada de ponta a ponta, tarefa em que eu, contra a minha vontade, fui cúmplice. Passei a tarde a acarretar baldes e baldes de água, da fonte para casa. Um bom par de metros!... E os baldes eram pesadíssimos!... Era tal a dificuldade que tinha em fazê-lo, que, numa das viagens, uma das Silveiras, apiedando-se de mim, veio pôr-me o balde em casa. Que alívio! Pena ter sido só uma vez…

De tarde, minha irmã fez o arroz doce e polvilhou-o com canela. Cozeu um caldeirão de inhames e guisou o galo. À hora da ceia, sentámo-nos à mesa. Tudo era diferente, naquela noite. Sobre a toalha esbranquiçada, tilintavam pratos e talheres, contrariamente à habitual tigela de sopas de pão de milho, por vezes bolorento, e leite. Aos inhames, muito quentinhos, a fumegar, juntava-se, em cada prato, um pedaço do galo, acompanhado dum molho aromático, muito bem temperado. Depois o arroz doce, muito amarelado, salpicado com canela. E logo um prato a cada um! Cada qual poderia saboreá-lo, ali, inteirinho, ou então, comer apenas metade e guardar o resto para o dia seguinte:

- Guardá-lo na amassaria é um risco enorme – sentenciava o Alípio – É que o lambão do Justino, levantando-se, durante a noite, limpa tudo o que lhe aparecer pela frente.

Pelo sim pelo não, todos, seguindo a sugestão do Alípio, optámos por limpar, na íntegra, o pratinho do arroz doce. Ninguém quis arriscar. Comê-lo inteirinho era jogar pelo seguro… No dia seguinte se veria…

Ao lado, num dos cantos da sala, estendia-se um grande presépio. Para além da gruta, com as figurinhas, possuía casas, caminhos, ribeiras, lagos,montes, ovelhas, pastores, uma igreja, um anjo e uma estrela grande e brilhante. Num dos cantos o sumptuoso palácio de Herodes e no outro a humilde casa de Barbearias, onde São José fora pedir lume, para fazer a fogueira e aquecer a água para lavar o Menino. Fora montado alguns dias antes, com a colaboração das tias da Fontinha, depois de muita hesitação e discussão:

- Quem está de luto, ainda por cima, pela mãe, não faz presépio – opinavam os mais conservadores.

- São crianças, ninguém leva a mal. E um presépio não é nenhuma festa. – decretavam os mais tolerantes.

Foi esta a opinião que prevaleceu e o presépio fez-se, mas sem a motivação habitual, pois era certo e sabido que o Menino Jesus, este ano, não traria nada, embora eu não percebesse bem porquê…

Era nisto que cismava quando transpusemos o tapa-vento. Entrámos no templo semi-escuro. Apenas a lâmpada do Santíssimo e, no altar-mor, algumas velas acesas. Esquivei-me de junto de minha irmã, de ir para os lugares das mulheres, e esgueirei-me, na companhia de meu tio Lúcio, para o coro.

O templo estava repleto de vultos negros, de tossidelas, de rouquidões, de arrastar de cadeiras, de bichanar de orações e de cheiro a velas a arder. De repente, tio Onofre, de opa vermelha, saindo apressadamente da sacristia tocou, veementemente, uma enorme campainha. Toda a gente se levantou e, de imediato, fez-se um enorme silêncio. Padre Silvestre emergiu, de seguida, todo de branco, envergando, na cabeça, o barrete negro das três quinas, enquanto segurava na mão o cálice devidamente coberto com um véu esbranquiçado. Fazendo uma enorme genuflexão diante do altar-mor, tirou o barrete, preparou o altar do sacrifício, genuflectiu frente ao sacrário e bichanou, silenciosamente, as primeiras orações, em latim, às quais, apenas, tio Onofre respondia, sem se perceber nada ou coisa nenhuma:

O povo, de joelhos e contrito, batia com a mão direita no peito e inclinava, religiosamente, a cabeça...

Pouco depois, o padre aproximou-se do centro do altar, ergueu os braços e entoou:

- “Glo-ó-ó-ó-óó-ria in excelsis-sis De-e-e-o”.

Tio Onofre, já preparado, de campainhas em riste, começou a badalá-las prolongadamente com enorme intensidade, enquanto os sinos repicavam e a igreja se enchia de luz e de cor.

Passados estes momentos de êxtase, comemorativos do nascimento do Menino Jesus, a missa continuou, entre preces, louvores e orações. O povo levantava-se, sentava-se, ajoelhava e tornava a sentar-se, consoante as indicações da campainha de tio Onofre.

No fim, padre Silvestre, envergando a capa de asperges, dirigiu-se para o altar da Sr.a do Rosário. Era lá, na parte mais baixa, num gruta simulada, que estava o Menino, com a Virgem, São José, a vaca e o burro. Eram imagens enormes, comparadas com as do meu presépio.

O padre recebeu das mãos de tio Onofre o turíbulo fumegante. Deitou-lhe mais incenso, extraído da naveta com uma pequena colher e, balouçando-o diante das figuras do presépio, enchia a igreja de fumo, de odor e de louvor. Depois, tomou o Menino nas mãos, beijou-O e colocou-se no meio do cruzeiro, enquanto o povo formava uma enorme fila para também O beijar.

Eu não fui excepção. Também me incorporei, numa marcha lenta...

Ao aproximar-se a minha vez, verifiquei que tio Onofre segurava uma cesta, na qual, à medida que beijavam o Menino, a maioria dos fiéis deitava uma moeda.

De repente levei a mão a bolso. Lá estavam os vinte centavos que minha irmã me dera, para comprar um chocolate no dia seguinte. Apenas naquele dia e no da festa da Sra da Saúde gozava privilégio semelhante...

Sobre mim recaía a certeza de que, este ano, o Menino Jesus não nos traria nada. Todos confirmavam: - “A quem está de luto, ainda por cima pela mãe, o Menino Jesus não traz presentes.”

Eu, porém, achava esta razão tão indigna do Menino Jesus! Que culpa tinha eu de estar de luto!? Já não bastava ter ficado sem mãe!? E agora ficar sem prenda!? De repente, sem saber porquê, decidi negociar com o Menino. Preferia ficar sem a moeda, não comer o chocolate no dia de Natal, mas sentir a alegria de chegar a casa e ter uma prenda junto do presépio!... Disso não podia abdicar!... E depois dizer ao Câncio, ao Rodrigues e a tantos outros, que não tivera nada!?...Não podia ser...

Hesitei!... Levei a mão ao bolso, senti a moeda fria. Tirei-a, olhei-a e voltei a guardá-la no bolso e a hesitar... A minha vez de beijar o Menino, no entanto, aproximava-se... E eu não conseguia decidir!...Hesitava e continuava a hesitar...

Porém, ao aproximar-me do padre, os meus olhos fixaram-se nos do Menino. Enchi-me de confiança e de uma enorme coragem, beijei-lhe um dos pezinhos, ao mesmo tempo que, levando a mão ao bolso e pegando novamente na moeda, deitava-a na cesta e fazia com Ele um contrato:

- Vou dar-te a moeda, mas tens que me dar um presente.

Terminada a cerimónia regressámos a casa. No adro as pessoas cumprimentavam-se e desejavam umas às outras, incondicionalmente:

- Bom Natal!... Bom Natal!...

Nós tivemos que nos esquivar à frente. Era-nos interdito, porque de luto, receber as boas-festas ou dá-las aos outros!...

Ao passar, de novo, em frente ao Aires, meu pai, sentindo a nossa presença, juntou-se a nós...

Chegámos a casa! Dirigi-me para a sala, numa correria louca, na esperança de saber se o Menino Jesus fora fiel ao nosso contrato...

E não é que foi!... Lá estava, junto à gruta, um enorme embrulho. Fui eu que o abri! Eram figos passados!...Tantos figos passados!...

Sentámo-nos todos à mesa da cozinha e comemo-los com pão. Que maravilha! Valera a pena hipotecar os vinte centavos, embora, nunca o tenha confessado a ninguém.

 

...

 

Só algum tempo depois, soube que o Aires vendia figos passados no botequim e que meu pai, a propósito de tratar das vacas, tinha vindo a casa, durante a missa do galo.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

FELIZ NATAL

Quinta-feira, 24.12.15

Votos sinceros de um Natal muito feliz para quantos, por estes dias, visitam este blogue.

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publicado por picodavigia2 às 22:53

ROSAS BRANCAS

Quinta-feira, 24.12.15

A noite estava escura e do céu caíam flocos de neve que aos poucos iam atapetando o chão, transformando a verde alfombra num gigantesco e esbranquiçado tapete.

Joana há muito que se refugiara na cabana. No inverno, a noite caía bem mais cedo e naquela tarde, o frio descambara sobre os montes, sem dó nem piedade, mais violento, mais agressivo e mais abrupto. As ovelhas, que durante a manhã e uma boa parte da tarde haviam pastado, famintas, as ervinhas verdes e apetitosas, manifestaram, ao fim da tarde, uma enorme vontade de se recolherem, de se enfiarem dentro da cabana, de se enrolarem e enroscarem umas nas outras, protegendo-se do forte nevão que os flocos de neve caídos ao relento, anunciavam aproximar-se, cada vez com mais evidência. Até o Fiel, o seu amigo e companheiro de pastorícia, se apressara a enfiar-se porta dentro e enroscar-se junto ao brasido que Joana, num dos cantos da cabana, acabara de acender. Tirou o leite à Danada, migou-lhe uns pedaços de pão e repartiu o cardápio com o Fiel. Pouco depois, espreguiçando os braços como que a convidar e a abraçar o sono, repartiu o feno pelas ovelhas, despediu-se delas, uma a uma e deitou-se sobre uns montículos de bracéu, embrulhando-se num velho e grosseiro cobertor.

Todos os dias repetia este ritual, embora, noites frias como aquela rareassem. A mãe, há muito que falecera e o pai, pobre, doente, sem eira nem beira, tinha nela e na guarda do pequeno rebanho que pastoreava nos montes contíguos à aldeia, os proventos que lhe adocicavam, levemente, uma existência dolorosa, sofredora, quase mesmo angustiante.

Nos primeiros tempos, após a morte da mãe, o pai, ocupado durante o dia no cultivo duma pequena courela, junto de casa, apenas à noite, abandonava o povoado e subia as íngremes encostas dos montes, levando-lhe o pão, ensinando-a na ordenha e no fabrico dos queijos, pernoitando, ele próprio na cabana para que a menina se habituasse, de futuro, àquele ermitério. De manhã, ainda lusco que fusco, descia a encosta, umas vezes com um queijo que ia vendendo na aldeia, outras, apesar do choro e dos protestos de Joana, com um cordeirinho que, eventualmente, algum lavrador mais abastado lhe encomendava. Joana ficava só, durante o dia, ansiando pela noite e pela companhia do pai. A doença, no entanto, fora galopando, assustadoramente. A petiza compreendera. As visitas do progenitor começaram a rarear durante uns meses, passados os quais cessaram por completo. Agora já se habituara a ficar sozinha, com o Fiel, o seu amigo e companheiro de sempre e com as suas ovelhas. Apenas desejava que a morte, impiedosa e cruel, não levasse o pai como fizera com a mãe, era ela ainda uma criança.

Aos poucos Joana habituara-se aquela vida de solidão, de isolamento, de afastamento do povoado. Ao seu redor, para além da frescura e singeleza dos campos, do vigor e serenidade dos ares, do silêncio eloquente das madrugadas e do vento a confundir-lhe os desejos, tinha a amizade de cada uma das suas ovelhas e a protecção do Fiel. Conhecia as ovelhas uma a uma, chamava-as pelo nome, dialogava como elas como se fossem pessoas e tinha a firme certeza que elas a entendiam. Mas era o Fiel, um portentoso e meigo pastor alemão, o seu grande amigo e destemido protetor.

Naquela noite, porém, uma enorme nostalgia perfurava-lhe o espírito e uma tremenda angústia trespassava-lhe o peito. Não adormecia. Revoltava-se sobre o bracéu, enrolava-se mais no cobertor e sobressaltava-se com o menor ruído. De repente, ouviu um barulho mais forte e prolongado. Erguendo-se, escutou mais atentamente. Pareciam-lhe passos, mas passos leves, suaves, sublimes, deliciosos. Tão afáveis e doces que nem o Fiel, sempre atento ao menor ruido, deles se havia apercebido. Aproximou-se, apreensiva, da única fresta que a cabana possuía e viu que desciam, em rancho, entre cânticos de glória e de louvor, um grupo de pastores e os três Reis Magos. Foi então que se lembrou que aquela era a noite de Natal. Os pastores e os reis, decerto, que se dirigiam, apressadamente, para o estábulo onde Jesus acabara de nascer e onde estaria em palhas deitado, junto de Maria e José. Os pastores levavam presentes simples e pobres mas generosos. Os três Reis Magos levavam ricas ofertas: ouro, incenso e mirra.

Joana, apressada e sem que o Fiel desse por nada, pegou num cordeirinho que nascera dias antes. Como os outros pastores levá-lo-ia ao Menino Jesus. No entanto, a mãe, apercebendo-se de que lhe era retirado o filhote, entrou num berreiro desolado, triste e sofredor. Joana entendeu, de imediato, que não podia, nem devia levá-lo, retirando-o da pobre mãe. O Menino Jesus, decerto não exigia tal sacrifício à sua querida ovelhinha. Mas o que havia de levar se não tinha mais nada? Agasalhou-se, abriu a porta e saiu, cuidando que no exterior da cabana havia de encontrar algumas flores. O chão porém estava coberto de neve branca e nem uma flor se via. Desesperada, na ânsia de se juntar ao rancho dos pastores e aos Reis Magos, Joana arrancou do chão uma mão cheia dos primeiros arbustos que encontrou, cujas folhas estavam cobertas de neve e largou numa correria louca, na senda da gruta.

Ao chegar junto da gruta, donde emanava uma luz brilhante e resplandecia um brilho acariciador, Joana ficou muito triste. Os Reis e todos os outros pastores de joelhos diante do Menino, de Sua Mãe e de São José, estavam muito contentes e felizes, pois todos haviam oferecido os seus presentes. Ela não tinha nada para oferecer ao Menino Jesus, a não ser aqueles pequenos arbustos, cobertas de neve. Começou a chorar. De repente, um anjo, que descera sobre a gruta, ao ver tamanha tristeza misturada com tão sublime inocência, passou junto de Joana e, tocando-lhe ao de leve com a brancura das suas asas, transformou os pequenos arbustos em lindas rosas brancas, que Joana, com o coração carregado de alegria e felicidade, ofereceu ao Menino Jesus.

Na manhã seguinte, ainda noite escura, bateram à porta da cabana, onde Joana dormia. O Fiel, sempre atento e vigilante, latiu. Joana acordou. Veio abrir. Era o pai! Estava melhor. Trazia uma cestinha com doces e vinha passar o dia de Natal com ela.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

KIHEI NO PICO DA VIGIA

Quarta-feira, 23.12.15

Salve Kihey, Havai!

Hoje, creio que pela primeira vez, alguém residente em Kihey, no Havai, Estados Unidos, visitou o meu blogue, Pico da Vigia. Fiquei muito feliz, por isso.

Kihei é uma Região censo-designada localizada no estado americano de Havaí, no Condado de Maui. Segundo o censo americano de 2000, a sua população era de 16.749 habitantes, que vivem num território com uma área de 30,8 km², mais ou menos o dobro da ilha do Corvo. Mas destes 30,8 km2, apenas 26,3 km² são terra e os restantes 4,5 água.

Recorde-se que o Havai é um dos 50 estados dos Estados Unidos, localizado num arquipélago constituído por 132 ilhas com a superfície de 2 450 km. A capital e maior cidade é Honolulu. O condado de Maui é um dos cinco condados do Hawái, cuja capital é Wailuku. Kiley é uma região deste condado.

Pico da Vigia 2 deseja um Feliz Natal a todos os habitantes de Kiley.

 

Hello Kihey, Hawaii!

Today, I believe that the first time, someone residing in Kihey , Hawaii, United States, visited my blog, Pico da Vigia 2 . I was very happy for that.

Kihei is a region Census-designated place in the US, state of Hawaii, Maui County. According to the US Census 2000, its population was 16,749 inhabitants, who live in a territory with an area of ​​30.8 square kilometers, roughly twice the island of Corvo. But these 30.8 km2, only 26.3 square kilometers is land and the remaining 4.5 water.

It is recalled that Hawaii is one of 50 states in the United States, located in an archipelago consisting of 132 islands with a surface of 2450 km. The capital and largest city is Honolulu. The County of Maui is one of the five counties of Hawaii, whose capital is Wailuku. Kihey is a region of this county.

Pico da Vigia 2 wishes a Merry Christmas to all the inhabitants of Kihey. 

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publicado por picodavigia2 às 14:33

SONETO DE NATAL

Quarta-feira, 23.12.15

 

(Machado de Assis)

 

Um homem, - era aquela noite amiga,

Noite cristã, berço no Nazareno, -

Ao relembrar os dias de pequeno,

E a viva dança, e a lépida cantiga,

 

Quis transportar ao verso doce e ameno

As sensações da sua idade antiga,

Naquela mesma velha noite amiga,

Noite cristã, berço do Nazareno.

 

Escolheu o soneto... A folha branca

Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,

A pena não acode ao gesto seu.

 

E, em vão lutando contra o metro adverso,

Só lhe saiu este pequeno verso:

"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

 

Machado de Assis, in Poesias Completas - Ocidentais

 

PS – Dedico este belo soneto de Machado de Assis a todos os leitores e visitantes do Pico da Vigia 2, formulando os meus mais sinceros votos de um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

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publicado por picodavigia2 às 00:04

O NATAL NA FAJÃ GRANDE NA DÉCADA DE CINQUENTA

Terça-feira, 22.12.15

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, como naturalmente em todas as outras freguesias açorianas, os preparativos para o Natal começavam alguns dias antes, por vezes e nalguns casos, quase no princípio do mês de Dezembro, sendo que durante todo aquele mês, sobretudo as crianças viviam atafulhadas numa pequena grande azáfama. Na verdade, para os mais pequenos havia várias tarefas a realizar, nomeadamente, o fazer das casas e outros edifícios para o presépio e para as quais era necessário arranjar, por vezes até pedir nas lojas, restos de caixas de sapatos e caixotes de papelão, semear os pratinhos de trigo, arranjar material para a gruta. Aos adultos, nomeadamente às mulheres, era tempo de começar a fazer os licores, reservar ovos, engordar um galo ou uma galinha e arranjar ou mandar fazer uma ou outra fatiota para a noite e dia de Natal. Mas era sobretudo a preparação da ceia e do presépio que estava em causa. Na maioria das casas, sobretudo naquelas em que havia crianças, o presépio era, na verdade, o epicentro de toda a preparação do Natal. O presépio, para além de representar a gruta de Belém onde Jesus nascera pobremente, numa manjedoura, ao lado de um burro e de uma vaca, servia também para representar, não apenas a típica freguesia açoriana, com casas, igreja, ribeiras, caminhos, moinhos, campos, etc, mostrava também cenas do quotidiano da população das ilhas, nomeadamente a ida ao moinho, os trabalhos agrícolas, a criação de gado à porta ou das ovelhas do mato, a matança do porco, a ida á fonte, o mexerico pelas ruas, etc., etc. No meio de toda esta panóplia representativa e metafórica, nunca faltava, num dos cantos, lá bem distante da gruta, a humilde casa de Barbearias, onde segundo a lenda S. José foi pedir lume para fazer uma fogueira e aquecer água para lavar o Menino e, no outro, o grandioso palácio de Herodes, perverso e malvado tetrarca da Galileia. As figuras humanas, assim como as ovelhinhas, nalguns casos, eram de barro, geralmente compradas nas lojas ou trazidas por algum familiar de outra ilha e guardadas de um ano para o outro. A maioria, no entanto, eram figuras desenhadas e recortadas de papelão. Nas ovelhas de papelão colava-se um pouco de lã ou algodão do lado que ficava voltado para fora. As personagens humanas eram pintadas ou revestidas através da colagem de pedacinhos de papel a simular as roupas. Por sua vez os montes eram construídos com pedras ou papel amarrotado e cobertos com leivas musgo verde e fofo, as ruas que circulam entre as casas eram feitas de farelo de serragem de madeira, as ribeiras que corriam pelas encostas com pratas de papel de chocolate e os lagos onde desaguavam feitos com vidros partidos, nos quais nadavam patinhos também eles de barro. A igreja, as casas e as outras construções eram de papelão e, para a cobertura dos telhados, usava-se papelão canelado. Recortavam-se as janelas e as portas, colavam-se cortinados… Enfim, nada faltava, mas todo este material tinha que ser recolhido com antecedência, o que nem sempre era fácil.

A ceia da Noite de Natal era muito diferente das dos restantes dias. Para além dos torresmos e da linguiça com inhames e pão fresco, comia-se uma galinha guisada ou assada e recheada com debulho. Mas, sobretudo para as crianças, o mais desejado era o arroz doce e os figos passados e, nas casas mais abastadas, o bolo doce de frutas.

O que, no entanto, atraía mais a atenção de todos, na noite do dia vinte e quatro era a tradicional Missa do Galo, à meia-noite e que fora precedida, nos nove dias anteriores, pelas novenas de Natal, celebradas sempre de madrugada, ainda noite escura. 

O dia de Natal era dia de visitar os presépios dos amigos, vizinhos, de toda a freguesia. Nessa altura comia-se um biscoito ou uma fatia de bolo e bebia-se um cálice de licor, alcunhado com muito carinho e ternura de Chichi do Menino Jesus.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

TURBULÊNCIA DE VENCIDO

Segunda-feira, 21.12.15

Era a moça mais linda e mais airosa da freguesia. Prócer de virtudes, branda de costumes, trabalhadora, honesta e humilde, não havia homem que não pusesse a vista nela, rapaz que não lhe catrapiscasse o olho, rapariga que não a invejasse e a maioria das mulheres desejavam-na como filha. Meiga, terna, sempre afável e solícita, as crianças adoravam-na e era estimada pelos velhinhos. Um tesouro de rapariga!

Foi o estafermo do filho do Chicória que lhe borrou a escrita.

O Lourenço do Zé da Quebrada apaixonara-se pela moça com um ímpeto louco e desmedido. Pelos vistos, apenas era, parcialmente, correspondido. Lídia senão o amava de verdade, no mínimo gostava dele. Não lhe era indiferente, o Lourenço.

Invejoso, o do Chicória apressou-se a inventar aleives e espalhar mentiras. Que fora o primeiro. Gabava-se à Praça, na Máquina, ao subir a Rocha por tudo o que era sítio. Mas não se ficava por aí, o safardana:

- Uma puta! Enrola-se com quantos há na freguesia...

Foi no dia em que foram às Lajes, às sortes, que o Lourenço lhe partiu as ventas, enfiando-lhe dois balázios no focinho. Nunca mais havia de repetir semelhante afronta, tamanha aleivosia. Mas o do Chicória, mesmo com os queixos inchados, a sangrar do nariz e a bufar veneno não se aquietou. Armaram tamanha zaragata, em frente à Camara, que só faltou tocar os sinos a rebate. O do Chicória a proclamar a desonra da Lídia e o Lourenço que dava cabo dele, que o comia vivo se continuasse com tamanhos insultos à honra e dignidade de tão virtuosa donzela. Foi o Administrador do Concelho que, ouvindo a algazarra, saiu esbaforido do seu gabinete, tentando acabar com a peleja. Como aquilo não parasse foi obrigado da dar voz de prisão aos dois.  

A notícia chegou à Fajã deturpada. O arrogante, o bruto, o malcriado que começara a briga, fora o do Zé da Quebrada. Vítima inocente e indefesa, apanhado à falsa fé tinha sido o Chicória. Era o que faltava, comê-las em seco. Tinha que se defender, o coitado. Lídia não hesitou em tomar partido. Embora nunca o revelasse, desde há muito que a sua grande paixão era o do Chicória. Escolha difícil. Hesitara centenas de vezes entre uma paixão desmedida e uma simpatia desmesurada. Venceu a paixão e, agora, tudo se clareava. O seu amado fora agredido selvaticamente, por um bruto, por um fraco, por um badameco que não prestava para nada. Muito chorosa, muito dolente, passava pela Assomada acima em direção das terras de mato, a ir dar comida às galinhas, na horta do Delgado. E o povo inteiro, perante a sua mágoa e o seu choro, rendia-se em coro, na condenação suprema do filho do Zé da Quebrada. Quem atacara à falsa fé não tinha perdão, nem complacência, nem piedade. O do Chicória, sim. Um inocente a entronizar.

Fizeram-se os proclamas, anunciou-se a data, fez-se o casamento, perante a mágoa e o desgosto do Lourenço que, ingloriamente, havia tentado impor, na freguesia, a verdade da sua inocência. Nada! A prova da sua culpa estava estampada na cara do rival. E o rapaz impotente na sua defesa sentia-se destroçado, desfeito, como se uma montanha lhe caísse em cima. Vingara-lhe a desonra que o sacripanta alastrara e agora via-se preterido. Ele, o pulha, o pelintra, o canalha vencera. E de que maneira. Atirando-se para os braços da mulher que ele amava e, cuja honra, defendera de unhas e dentes. E ela, uma ingrata, uma desagradecida, uma inocente que se deixara levar pela lábia perversa e mentirosa do tirano…

Mas não durou muito a felicidade desejada por Lídia. Alguns meses após o casamento, já despejava lamúrias junto da Benta, a vizinha da frente. Bem arrependia estava. Haviam de lhe ter amarrado os pés e as mãos no dia em que saíra de casa dos pais para a igreja, para se casar com aquele tratante. Mas agora era tarde. Havia que aguentar. Sempre quisera viver um grande amor, sentir uma paixão louca, ter prazer em estar do lado de alguém que também a amasse… Sempre sentira essa necessidade, mas enganara-se na escolha… Dali só insultos, maus tratos, abandono e desdém. Fora ludibriada pelo pelintra e agora estava verdadeiramente perdida. Era triste ver os seus olhos tão cheios de um verde puro, de ternura e de verdade mas arrasados de lágrimas, a jorrarem tristeza e dor. No seu rosto percebia-se a mágoa que lhe enchia o peito. Aquele pulha nunca percebera nem nunca havia de entender quanto ela o amava, quanto o estimava, de quanto abdicara para o escolher. Ele não a merecia, de verdade.

Lídia guardou aquela dor tão profunda para sempre. Mas continuava linda, bela, doce, nobre e digna como sempre fora, enquanto ele, o Lourenço passava os dias imerso numa dolente turbulência de vencido que, aos poucos, lhe ia definhando o corpo e destroçando a alma.

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AVENTURA

Domingo, 20.12.15

Quando Álvaro Belchior terminou o curso, na escola do Magistério Primário da Horta, respirou de alívio. Para trás ficavam dificuldades, desânimos e, por vezes, uma vontade quase incontrolável de desistir. Agora havia superado tudo. Os anos seguintes, no entanto, apresentavam-se incertos e atordoados com a constante ameaça da tropa e, pior do que isso, com a guerra do Ultramar. Mas custasse o que custasse, havia de singrar numa carreira profissional digna e nobre, de que ele e, sobretudo, os seus progenitores se haviam de orgulhar.

Por vontade dos pais ter-se-ia ficado pela 4ª classe, que frequentara durante dois anos. No primeiro instalara-se uma enorme confusão na freguesia e, sobretudo, na escola. É que a acentuada diminuição da população originara a que a “Escola Mista” da Fajã Grande das Flores fosse, por decisão governamental, transformada em “Posto Escolar”, perdendo o direito a professora diplomada, sendo a mesma substituída por uma regente escolar – a Dona Rita. Mas a Dona Rita nunca granjeou as simpatias da população, nem da maioria dos alunos, sendo considerada, por todos, má e antipática, excedendo-se frequentemente em repreensões exageradas, castigos excessivos e reguadas sem dó nem piedade. Álvaro foi, desde o início, a maior vítima do mau génio da Dona Rita, não pela preguiça ou desmazelo nos estudos, nem sequer pelos erros ou má caligrafia, parâmetros de avaliação em que era exímio, chegando mesmo, nas lições de cor, a ser o melhor da classe. Onde, segundo a opinião da regente, prevaricava, contínua e permanentemente, o mais novo rebento dos Belchiores, era na limpeza e arranjo do Caderno Diário. Não eram os erros ortográficos nem sequer a caligrafia – era pura e simplesmente a sujidade. Todos, na classe, primavam por uma limpeza excessiva e por um requinte desmesurado nos seus cadernos o que acentuava mais e mais a imundície e o desmazelo do Caderno do filho do Joaquim Belchior, fruto das míseras e degradantes condições da casa em que viviam. Assim o caderno diário do garoto, normalmente, se transformava numa execrável, sórdida e hedionda bodeguice, com a qual a Dona Rita nunca se compadecia e implicava continuamente, tomando-o de parte e acertando-lhe vezes sem conta, uma série de reguadas que lhe deixavam marcas nas mãos e faziam aumentar o ódio pela mestra. Além disso, a despromoção que a vinda da Dona Rita trouxe à freguesia provocou no povo uma sistemática e contínua onda de protestos e manifestações que aumentaram o ódio acentuado contra a regente. O ano escolar foi uma catástrofe! Faltas, tareias, participações, queixas, deslocações às Lajes, ao Delegado Escolar... Uma miséria!... Conclusão: no final do ano, dos quatro inscritos na quarta classe, apenas uma aluna fez o exame. Os restantes, entre os quais Álvaro, por incitamento dos pais, recusaram-se a fazê-lo, como forma de protesto e, consequentemente reprovaram, sendo forçados a repetir a 4ª classe.

Para apaziguar os ânimos e acalmar as revoltas, foi prometido ao povo que tudo regressaria ao normal e que no ano seguinte, viria novamente uma professora diplomada para a freguesia. Álvaro ansiava a sua chegada, dada a enorme vontade que tinha de completar a quarta classe. E a nova professora chegou no Carvalho de setembro. Vinha do Faial, de Castelo Branco e chamava-se Madalena. Hospedou-se em casa das Garcias, na Assomada, mesmo ali, pertinho da casa dos Belchiores. Tal vizinhança e a enorme vontade do Álvaro em completar a 4ª classe provocaram no garoto um carinho e uma amizade excessiva pela professora. Álvaro adorava-a e ela gostava imenso dele. Como morava ali perto, fora da escola, era ele que lhe fazia os recados e as compras. Para além disso, vezes sem conta, ia levar-lhe meio litro de leite ou um quarto de bolo de milho, quentinho e a fumegar, acabadinho de sair do tijolo, que a mãe lhe mandava. Ela, com ternura e carinho, solicitava-lhe, então, que entrasse e ficasse um bocadinho. Ele, embora tímido e envergonhado, aceitava o seu convite. Umas vezes ficava horas a conversar com ela, outras lendo histórias maravilhosas de livros que ela lhe aconselhava e emprestava. Mas era sobretudo na escola que o Álvaro mais a apreciava a professora. Acostumado às reguadas e ódios do ano anterior, habituara-se a uma preguiça sistemática e a um desinteresse efectivo. Agora, porém, considerava a escola um oásis de ternura e carinho a fazer-lhe esquecer as agruras e canseiras da vida. Alem disso, motivado pela doçura da D. Madalena, revelava uma vontade gigantesca de aprender tudo o que ela, de modos tão meigos e ternos, ensinava. Nunca levou uma reguada e nunca foi posto de castigo. É que a Dona Madalena aboliu a palmatória e, embora mantendo o caniço, usava-o apenas para bater levemente nas carteiras, chamando a atenção dos mais distraídos e acordando os dorminhocos. Os da quarta, nesse ano, eram oito, dado que aos três que se haviam recusado a fazer o exame da quarta no final do ano anterior se juntaram os cinco que passaram da terceira. Mas o fim do ano aproximou-se rapidamente e, com ele, finalmente o exame da quarta, nas Lajes.

Foi na viagem de regresso à Fajã, que a dona Madalena aproximando-se de Álvaro, lhe segredou:

- O Senhor Delegado Escolar deu-me os parabéns pelo brilhante exame que tu fizeste. E sabes o que ele me disse mais?

- Não sei, senhora professora, não sei.

- Pois ele disse-me o que eu já te disse tantas vezes. Uma cabecinha como a tua tem que continuar a estudar. Ouviste bem? Tem que continuar a estudar. Os teus pais já te disseram alguma coisa?

- Não senhora professora, não me disseram nada. Mas eu sei muito bem que eles não me podem pagar os estudos e precisam de mim para os ajudar nos campos.

- Vou falar com eles e vou convencê-los.

- Não adianta Dona Madalena, não adianta.

Mas a Dona Madalena não desistiu e no dia seguinte apareceu em casa dos Belchiores.

- É uma injustiça – argumentava ela – uma criança com as capacidades do Álvaro ficar-se pela quarta classe.

O Joaquim Belchior bem ripostava. Estudar é para os malandros e vadios. Vida digna é a do trabalho, ficar por aqui, na ilha, vergado ao peso da enxada ou agarrado à rabiça do arado, acartando molhos de lenha e cestos de inhames, galgando as encostas da Rocha ou transpondo as veredas dos Matos. Isto é que é vida…

Foi difícil a libertação dos entraves paternos e da oposição dos irmãos, atormentados pelas lides árduas dos campos. Mas a D. Madalena, não cessava de proclamar aos quatro ventos a inteligência do garoto. E a muito custo, com a intervenção de uma tia da América, que assumia colaborar nas despesas, foi-se demovendo o persistente carracismo do velho Belchior. Eram os irmãos de enxada às costas e foice na mão a caminho da Eira-da-Quada e dos Lavadouros e Álvaro a tomar a camioneta para Externato de Santa Cruz, que Liceu nas Flores não havia,

Terminado o 5º ano, seguiu para o Faial, com destino à Escola do Magistério, enquanto os outros, por entre protestos execráveis e reclamações improfícuas, mais se excruciavam a cavar as belgas do Mimóio ou a sachar as courelas do Areal e viam o leite mingar na tijela das sopas. Tirar o Magistério e seguir as pegadas da dona Madalena foi a escolha inequívoca de Álvaro.

Os dois anos que passou na Horta não foram fáceis. Dinheiro apenas para a pensão. Livros emprestados. Gastos supérfluos, nem pensar. Além disso, o Carvalho que chegava mensalmente das Flores e atracava à doca da Horta, trazia, juntamente com o correio e uma caixita de vitualhas diversas, uma enxurrada de ameaças:

- Olha lá se me reprovas! Acaba-se tudo!... Teu pai diz que há muitos fetos e cana roca para ceifar no Pocestinho e o cerrado das Furnas está à espera do arado e da enxada.

Nas férias matava-se a trabalhar. Os irmãos atiravam-lhe para o lombo os molhos mais pesados e os cestos maiores. O pimpolho havia de trabalhar no verão, para compensar a boa vidinha que levava durante o inverno.

Mas chegou o fim do Magistério e o concurso para professor. Como lhe segredassem que as vagas nos Açores eram poucas e, porque há muito sonhara abandonar o arquipélago, decidiu concorrer para o Continente. A Graça, a colega de curso que por ele se havia perdido de amores desde há algum tempo, bem o tentava demover, assustando-o com Trás-os-Montes e com o Alentejo, locais onde, na opinião da apaixonada, proliferavam aldeias mais pobres e mais isoladas do que o Corvo ou as Fajãs de S. Jorge.

A decisão, porém, estava tomada e nada ou nenhum argumento o demoveu.

Seguiram-se dias de ansiedade. Finalmente chegou a colocação – Terronhas.

Foi o Dr San-Bento que esclareceu. Terronhas era um lugar da freguesia de Recarei, no Concelho de Paredes. Tivera muita sorte. Uma excelente colocação. Terronhas, apesar de ser um pequeno lugar situava-se num grande e próspero concelho. Além disso ficava perto do Porto, sendo também apeadeiro da linha do Douro, entre Paredes e o Porto. Se assim quisesse até se poderia hospedar no Porto

Ao pedido do Dr. San-Bento, o Rodrigo, filho do amigo Dr Reboredo que morava no Porto, veio receber Álvaro a Campanhã, levando-o à Rua do Bonfim, onde já lhe havia garantido alojamento.

Mas só depois de se despedir do Rodrigo, quando ficou só, no pequeno quarto da Sá e Sá é que o Belarmino teve consciência que começava ali o princípio duma nova aventura no norte do país.

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PÁS E VARREDOUROS

Sábado, 19.12.15

Na década de cinquenta, cozer pão era um hábito semanal em quase todas as casas da Fajã Grande. Geralmente cozia-se pão de milho, de vez em quando de trigo e, muito raramente, de mistura, feito com farinha destes dois cereais.

Para cozer pão eram necessários alguns meios e vários utensílios domésticos. Entre estes últimos destacavam-se as pás e os varredouros.

Quanto às pás, existiam, geralmente, duas em cada casa. Uma maior e mais grosseira ou tosca, destinada à cozedura do pão de milho e uma outra mais pequena, mais fina e de melhor qualidade, para o pão de trigo. As pás eram feitas de madeira e constituídas por duas partes: o cabo e a pá propriamente dita. As pás usadas na confeção do pão de milho eram, geralmente, de fabrico caseiro. Cada qual construía a sua pá. Para isso munia-se de uma comprida vara de madeira rija e cilíndrica, cortada nas terras de mato, que depois de seca era limpa de cascas e nós, na ponta da qual se pregava um pedaço de tábua, de forma arredondada. A parte da frente desta tábua, ou seja, a parte oposta ao cabo era afiada, como o gume de uma faca. Assim ficava mais fina, a fim de, por um lado, a padeira conseguir empurrá-la para baixo do pão cozido, pegando-lhe e retirando-o do forno com mais facilidade, mas também para, antes de cozido, o colocar no forno de forma adequada e no lugar que desejasse. A pá usada na cozedura do pão de trigo, bastante mais fina e leve, tinha forma semelhante, mas era constituída por uma peça única, também de madeira, sendo a pá uma continuidade do cabo. Estas pás, assim como muitas das usadas para o pão de milho eram feitas por carpinteiros. Havia vários na freguesia.

Por sua vez os varredouros, destinados a varrer o forno, eram sempre de fabrico artesanal, sendo, geralmente, a própria mulher que cozia o pão que os fabricava. Para tal necessitava de um pau ou vara semelhante ao cabo da pá. Depois amarrava-lhe numa das extremidades uma mancheia de ramos de árvore, recorrendo geralmente às que existiam mais à mão: faia-do-norte, loureiro, faia, sanguinho e, na ausência destes, a fetos ou cana roca. Havia também quem substituísse a verdura por umas tiras de pano, retiradas de roupas já não usadas, o que, embora tendo a vantagem de poder ser usado em várias cozeduras, exigia que estivesse constantemente a ser molhado em água para que o pano não ardesse.

Mas para além de varrer o forno e padejar o pão em cru ou já cozido, era necessário puxar as brasas para fora da porta, colocando-as amontoadas em cima de uma espécie de peanha que existia fora da porta, a fim de se manter, por mais tempo, o calor do forno. Essa difícil operação era efetuado com uma espécie de pá virada. Numa das pontas de um pau, igualmente semelhante ao cabo da pá ou do varredouro, era pregada uma tábua retangular, formando uma espécie de sacho e que, por vezes tinha uma outra finalidade: empurrar o pão já colocado no forno para se adequar mais o espaço aos que lá dentro ainda era necessário colocar.

Enfim… Trabalhos e esforços notáveis estes e muitos outros, os dos nossos antepassados.

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A MATANÇA DO PORCO NA FAJÃ GRANDE NA DÉCADA DE CINQUENTA

Sexta-feira, 18.12.15

A matança do porco, na Fajã Grande era um acontecimento de grande relevo, importância, significado e transcendência, dado que para além de ser um dia de convívio e reunião da família e dos amigos, constituía a mais relevante forma de armazenar alimento para todo o ano, nomeadamente, para os invernosos meses que se seguiam ao Natal. Daí que se pusesse grande cuidado, empenho e esforço não apenas na sua realização mas também e sobretudo na sua preparação.

Esta começava pouco tempo depois da matança do ano anterior, com a aquisição ou compra do novo bároco, o qual ficaria em rigorosa engorda durante todo o ano, a fim de que se transformasse em porco e, por alturas do Natal, estivesse o mais gordo e pesado possível. Tempos mais tarde era-lhe colocada uma arcada no focinho para que ele não fossasse e assim se alimentasse melhor e não destruísse o curral onde ia crescendo e engordando com as lavagens e restos da cozinha e ainda com milho, couves e com batatas brancas e doces.

Nos meses e dias mais próximos do Natal, no entanto, muitas outras eram as tarefas realizadas a fim de que no dia, atempadamente agendado, nada, mas mesmo nada, faltasse. Era necessário ceifar e acarretar muita cana roca, não só para enxugar o curral mas também para colocar debaixo das postas de carne depois do porco estar estraçalhado. Se a cana roca não fosse suficiente para secar o curral recorria-se aos milheiros. Outra tarefa que ocupava uns bons dias inteirinhos era a de ir ao Mato, cortar uma grande quantidade de queirós, as quais eram acarretadas, em molhos, às costas, até à beira do cimo da Rocha, sendo atiradas no arame da Ribeira cá para baixo e depois trazidas para casa onde eram postas a secar. Só então estavam prontinhas para o chamusco.

Não havia matança que se prezasse cujas refeições não incluíssem inhames. Daí que se cultivassem sempre alguns com uma adequada programação, de maneira a que estivessem prontos a ser apanhados por altura da matança, o que resultava em muitos outros dias de trabalho árduo e cansativo. Outra tarefa espinhosa mas necessária era a de arranjar a lenha suficiente para cozinhar no dia da matança, para derreter os torresmos e, dias depois, para afoguear a linguiça. Eram quantidades excessivas de toros de faia e de incenso, acarretados aos ombros ou em corções que depois tinham que ser serrados, cortados e fendidos, sendo posteriormente postos a secar, empilhados e arrumados em lugar que não apanhassem chuva. Era preciso também semear e cultivar as cebolas e o cebolinho, cuja rama era necessária para as morcelas. Finalmente na véspera amolavam-se as facas e as raspadeiras. Estas eram feitas com pedaços de corda de relógio presos em semicírculo a cabos feitos de pedacinhos de madeira. Era necessário ainda preparar muitas outras coisas que não podiam nunca falhar, como: lavar as salgadeiras e o alguidar para aparar o sangue, lavar a mesa, arranjar as cordas, preparar os temperos, fazer queijos, manteiga e doce, cozer muito pão, incluindo pão de trigo que era “obrigatório” nas matanças, apanhar os limões e as laranjas azedas para lavar as tripas, comprar muito sal, uma garrafa de aguardente de cinco estrelas e uma outra de traçado e, sobretudo, não dar comida ao porco na véspera da matança.

No dia da matança era necessário levantar cedo, mesmo muito cedo, ainda noite escura. Antes de realizar qualquer tarefa e à medida que os familiares e outros convidados iam chegando almoçava-se. A mesa era lauta nesse dia: tigelas e tigelas bem cheias de café, que havia sido moído na véspera, com leite, açúcar e pão de trigo com manteiga, queijo e doce.

De imediato começavam as tarefas. As mulheres preparavam o alguidar para aparar o sangue. Os homens abriam o portal e, por vezes depois de várias tentativas infrutíferas, apanhavam o porco e amarravam-no pelo focinho, enquanto ele guinchava e tentava esquivar-se, ingloriamente. De seguida tiravam-no do curral e conduziam-no para junto da mesa já devidamente preparada. Uma vez deitado em cima da mesa, o suíno era amarrado de pés e mãos e preso pelos homens que se colocavam ao redor da mesa, uns a aguentar-lhe os pés e as mãos, outros o rabo e outros a cabeça, enquanto o matador, depois de lhe lavar o cachaço muito bem lavado, lhe enfiava a faca que devia ir certeira ao coração, a fim de que morresse de imediato e expelisse a maior quantidade possível de sangue, o qual era recolhido e muito bem mexido dentro do alguidar, segurado por duas mulheres de avental novo ao peito.

Seguia-se o chamuscar. Feita uma fogueira nela se acendiam ramos e ramos de queirós que, a arder em grandes labaredas, eram lançados sobre o porco queimando-lhe todo o pêlo, enquanto um cheiro a chamusco e a pêlo queimado subia pelos ares e anunciava que ali havia matança. Com uma maior dosagem de lume e calor eram-lhe retiradas as unhas. Para se aquecerem “por dentro” que por fora já o estavam, os homens iam bebendo cálices de cinco estrelas e de traçado. Depois o porco era raspado de uma ponta à outra com as raspadeiras, em seguida, lavado com água e sabão e esfregado com grossas pedras e escovas, ficando alvo como a neve. Por fim era barbeado com facas muito bem amoladas e com lâminas de barba nas partes mais rugosas e recônditas, sendo novamente muito bem lavado. Sempre que o porco era virado para ser lavado de um outro lado a mesa também era muito bem lavada esfregada.

Finalmente o porco era colocado em cima da mesa de costas para baixo e pernas para o ar e era aberto a fim de se lhe tirarem as vísceras, aproveitando-se apenas: o coração, o fígado, a língua e as tripas. Os bofes e os rins eram enterrados ou dados aos gatos.

Com o coração e o fígado e alguns pedacinhos de carne fazia-se a caçoila que seria o jantar daquele dia, acompanhada de inhames, escaldadas e pão de trigo. Por sua vez as tripas eram despegadas umas das outras e guardadas em cestos forrados com panos de maneira a não secarem, a fim de que mais tarde fossem muito bem lavadas na Ribeira. A bexiga era dada às crianças para jogarem à bola e a língua salgada e guardada para oferecer às Almas do Purgatório, sendo arrematada no adro, num dos domingos seguintes.

Durante o jantar o porco normalmente ficava pendurado pelo focinho para escorrer os líquidos e arrefecer, aos tirantes da cozinha ou duma casa velha, da loja ou até ao ar livre, numa armação adequada, feita com paus em cruz.

De tarde voltava-se ao trabalho. O porco era aberto pelas costas e partido em duas metades, sendo depois desmanchado. Era-lhe retirado a parte com o toucinho, destinada aos torresmos, pedacinhos de carne da barriga com gordura para as morcelas, a carne para os bifes e para a linguiça e as orelhas e os ossos para salgar. A carne assim partida era colocada ao ar, em cima de folhas de cana roca, para arejar. Às crianças era atribuída a honrosa tarefa de vigia a fim de enxotar os gatos e impedi-los de se atiraram às postas de carne fresca.

As mulheres, sobretudo as mais novas e as raparigas iam lavar as tripas para a Ribeira. Regressavam a casa e voltavam a lavá-las muito bem lavadas, viravam-nas e reviravam-nas por dentro e por fora, voltavam a lavá-las, esfregando-as com folhas de cebola, farinha, sal, salsa, laranjas azedas, água morna para que ficassem muito bem limpinhas. O bucho também era rapado e muito bem lavado, pois geralmente tinha destino igual ao das tripas grossas, com as quais se faziam as morcelas enchidas com pedacinhos de carne, arroz cozido, muita cebola e cebolinho refogados e temperos variados: canela cominhos, noz cada, cravo-da-índia, sal e malaguetas. As morcelas eram cozidas juntamente com os pés e constituíam a ceia, na qual participavam apenas as pessoas da casa e uma ou outra mais chegada ou amiga.

Os dias subsequentes ao da matança também eram de grande azáfama, sobretudo, para os donos da casa. No dia seguinte salgava-se uma parte do porco, nomeadamente os ossos da coluna e das pernas, as orelhas e a cabeça. Era uma tarefa que só os mais velhos e experientes sabiam fazer: é que os pedaços do porco tinham que ser todos muito bem passados pelo sal a fim de não se deteriorarem. Depois de salgados eram guardados numa ou mais salgadeiras, geralmente feitas de barro. As mulheres faziam enormes fogueiras sobre o lar, por vezes até ao ar livre, onde se colocavam grandes caldeirões ou tachos dentro dos quais era derretido o toucinho, com o duplo objectivo: fazer os torresmos e obter a gordura resultante do “derreter” para nela, mais tarde, se guardar a linguiça. A carne destinada a estas era posta numa calda ou salmoura, devidamente temperada, na qual se colocava um ovo para testar se a quantidade do sal era necessária e suficiente, o que acontecia quando um ovo, colocado lá dentro, vinha ao de cima. A carne ficava ali a marinar durante três ou quatro dias, devendo ser virada e revirada vezes sem conta a fim de que toda ela apanhasse bem o sal e os temperos.

Passados três dias enchiam-se as linguiças com a carne assim temperada e que antes era partida e picada em pedaços pequenos e lascados a que se juntavam cominhos moídos e em grão e outros temperos, sendo depois enfiada no interior das tripas finas, com “engorladeiras” feitas de lata. Colocadas em cima de tábuas, eram todas e cada uma picadas de ponta a ponta e de um lado e outro, com uma agulha de coser em cujo fundo se enfiava um bom pedaço de linha dobrado uma ou mais vezes, não fosse a agulha escapulir-se pela tripa dentro e perder-se entre os pedacinhos de carne. Uma vez cheias, bem apertadas e fechadas nas extremidades, geralmente com pedacinhos de pau, as enormes tripas agora recheadas com a carne e os temperos, eram penduradas no “pau das linguiças” e afogueadas no lar, durante vários dias. Os três primeiros eram muito importantes, pois tinha que se lhes dar o calor necessário e adequado e que era controlado não apenas pela maior ou menor quantidade de lenha que se ia metendo no lume mas também pela subida ou descida do pau, a fim de que o calor que lhes era dado não fosse de mais ou de menos. Além disso, as linguiças eram viradas de vez em quando, voltando-se necessariamente para cima o lado que estava sobre o pau, para que este também apanhasse lume e calor e toda a linguiça adquirisse a mesma cor alourada. Finalmente baixava-se o pau e as linguiças eram colocadas na beira do lar, para apanhar apenas o calor resultante do brasido. Ao mesmo tempo que se afogueavam as linguiças colocavam-se as morcelas nas extremidades do pau, a fim de secarem melhor.

Uma vez bem afogueadas, as linguiças eram retiradas, lavadas, partidas aos pedaços e colocadas debaixo de banha, em vasilhas geralmente de lata, sendo a sua prova realizada no dia de Ano Bom.

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O MANETA

Quinta-feira, 17.12.15

Júlia Rodrigues escapuliu para a América, ainda muito nova. Nada e criada num emaranhado reboliço de quase uma dúzia de irmãos, por ser mais velha, cedo foi condenada a ajudar, permanentemente, o pai nas lides agrárias, cavando, sachando, mondando, carregando, umas vezes, cestos de inhames e de batatas, outras molhos de lenha e de incensos. Por isso se revoltava vezes sem conta nesta quase espécie de escravatura a que fora condenada pelo próprio progenitor. Mas como isso de nada lhe servisse ou sequer a aliviasse, começou a germinar-lhe na alma o desejo íntimo de seguir as pegadas da irmã mais velha: esgueirar-se para a América. As cartas que recebia davam-lhe ânimo e permitiam-lhe sonhar com uma vida digna, folgada e feliz.

Feita a carta de chamada, contra a vontade dos progenitores, no primeiro Lima que demandou a ilha, partiu sozinha. Depois de uma longa e atribulada viagem, atravessando o oceano e o continente chegou à Califórnia, sendo recebida com muito gáudio pela irmã e pelo cunhado.

Alguns meses depois envolveu-se de amores com o Frederico Portela, de Ponta Delgada, também ele emigrado havia poucos anos. Casaram fixando residência em Benícia, perto de Pinole, onde vivia a irmã. Dois anos depois, nascia Glória, a única filha que lhes havia de fazer companhia até ao fim dos dias. Primeiro Frederico, depois Júlia.

Glória nunca casou. Vivendo sozinha, após a morte da mãe, conservava um enorme sonho, que nascera e germinara no tempo dos pais. Visitar a ilha onde os seus progenitores haviam nascido. Eles muitas vezes também o desejaram fazer, mas nunca o conseguirem. Inicialmente por falta de meios, mais tarde, quando já viviam mais folgados porque os pais de um e outro já haviam partido e segundo diziam, nada lá mais tinham que os atraísse. Mas verdade é que nunca haviam esquecido a sua ilha, da qual sempre lhe falavam, contando estórias, recordando costumes e ditos, descrevendo pessoas, lugares, tradições e festas. Os pais haviam-lhe deixado um legado memorável e inaudito, a memória de uma ilha pequena, pobre, repleta de trabalhos e canseiras mas local de rara beleza e de brandos costumes, a ilha da Flores, nos Açores. Mas era sobretudo a mãe que mais falava e contava estórias, acontecimentos e costumes do pequenino lugar onde nascera, a Fajã Grande. Glória conservava toda essa informação, como um tesouro precioso, reavivada em encontros e convívios com primos e amigos e jurara a si mesma que um dia havia de visitar a ilha de seus pais.

Se bem o jurou, melhor o cumpriu. Contatou uma agência de viagens e, no verão seguinte, rumou aos Açores, mais concretamente às Flores.

Em Ponta Delgada já não se lhe conheciam antepassados ou parentes. Mas na Fajã Grande vivia um primo, filho de uma das irmãs da mãe. Professor de História em Santa Cruz, nas horas vagas dedicava-se à agricultura e à criação de gado. Era pessoa culta, detentor de grande sabedoria e conhecia a ilha das Flores como ninguém. Recebeu a prima com agrado, disponibilizando-se para lhe mostrar a ilha e lhe revelar os mais recônditos recantos da terra onde a mãe nascera e onde ele sempre vivera. Deram longos passeios pela ilha, visitando as vilas, os matos e as lagoas, apreciando os mais belos miradouros. Vasculharam a freguesia de lés-a-lés, percorrendo muitos dos caminhos que a mãe pisara em criança, agora cobertos de silvados e ervaçais. O primo descobria, mostrava, descrevia, narrava, dando-lhe uma perfeita imagem da Fajã Grande, nos anos cinquenta, coincidindo os seus relatos com tudo aquilo que a mãe lhe havia contado.

Certo dia, Glória voltando-se para o primo disse-lhe:

- Primo, quando em minha casa se partia um prato, uma tigela, avariava um mechim, ou sempre que se destruía ou estragava alguma coisa, minha mãe dizia logo: “La se foi para o Maneta”. Segundo ela tudo o que se quebrava ou destruía ia para o Maneta. E eu nunca percebi quem era este Maneta. Primo quem é este Maneta de quem a minha mãe tanto falava?

O primo sorriu e explicou:

- Isso é, na verdade, uma expressão muito usada não só aqui nos Açores mas também no norte de Portugal Continental, para indicar que algo foi quebrado ou destruído. A origem desta expressão prende-se com as invasões francesas. Conta-se que durante as mesmas, um general francês, chamado Loison, que acompanhava o general Junot, comandante supremo da primeira das três invasões que a França fez a Portugal, perdera um braço numa das batalhas anteriores, o que o impedia de combater. Por isso Junot o nomeou como responsável pelas torturas e castigos a aplicar aos prisioneiros de guerra. Ora o general Loison parece que não era nada meigo, pelo contrário era muito cruel e malvado. Os seus castigos eram tão duros e tão violentos que causaram muitas mortes entre os prisioneiros que lhe eram confiados. Por ser tão terrível nas torturas que executava, o povo tinha muito medo dele e chamavam-lhe o Maneta, por não ter um braço. Quando havia o perigo de alguém ser capturado em combate e, posteriormente, ser castigado, ouvia-se logo o conselho: "Tem cuidado, que ainda vais para o Maneta" ou então “Aquele já foi para o Maneta”. A expressão alastrou-se e, mais de duzentos anos depois, ainda é, habitualmente, utilizada.

- E eu que andei toda a vida sem saber quem era aquele Maneta de que a mamã tanto falava! – Exclamou Glória cada vez mais entusiasmada.

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MADRUGADA DE DEZASSEIS DE DEZEMBRO

Quarta-feira, 16.12.15

Era o dia dezasseis de dezembro. A noite estava escura e fria. Era o primeiro dia de Novenas de Natal. Na véspera, por mandato expresso da minha irmã mais velha, havíamo-nos deitado muito cedo. A ordem até foi cumprida com a alegria. Deitar cedo para nos podermos levantar de madrugada e ir à igreja. Na verdade era nessa manhã que começavam as novenas do Natal. Não podíamos nem queríamos faltar

Ainda o velho exemplar da Ansónia Clok de Nova Iorque, encastoado numa peanha, na parede da sala, não tinha dado as cinco da madrugada e já minha irmã nos abanava, sucessivamente, em violentas tentativas de nos afastar dos braços de Morfeu. Sonolentos, virávamo-nos para o outro lado, mas ela insistia. Por fim acordávamos esbaforidos com a persistente convicção de que ouvíamos o repicar dos sinos na torre da igreja. Na cama ao lado, meu pai ainda dormia. Levantar-se-ia depois de nós, mas com outro destino. Ceifar e carregar um molho de erva à lagoa das Covas. Vestíamo-nos à pressa, passávamos pela cara um pingo de água que ficara da véspera no lava mãos da cozinha e partíamos em correria esbaforida. A noite continuava escura e, agora, mais fria. Das encostas do Pico da Vigia e do Outeiro desciam sibilos de vento que se diluíam sobre os telhados das velhas casas da Assomada, perdendo-se na imensidade escura da noite. Das janelas semicerradas de uma ou outra casa saía uma luz trémula, baça e insegura.

Na torre da igreja, os sinos continuavam a badalar, sobrepondo-se aos sibilos angustiantes do vento e ao bramido roufenho do mar. Ao chegar à Praça cruzamo-nos com as tias que vinham da Fontinha. Seguimos juntos, pela Rua Direita, até à igreja. Como que misteriosamente, de todas as ruas e da maioria das casas saiam vultos negros. Como nós, também enrolados em agasalhos. Os homens em grossos casacões, de gola virada ao redor do pescoço, com bonés a proteger a cabeça e as mulheres cobertas com xailes de lã, apertados com as mãos sob o queixo e a tapar-lhes o cocuruto. Alguns seguiam em pequenos ranchos, transportando lanternas de vidro tisnado e luz amarelada, baça e trémula. Outros seguiam só, guiando-se no escuro, amparados a bordões, às paredes ou aos muros dos pátios. O silêncio escuro da noite era apenas entrecortado pelo contínuo silvar do vento e pelo bater emaranhado das passadas nas pedras da calçada.

Finalmente chegámos ao adro e entrámos no templo quase às escuras. Apenas a lâmpada do Santíssimo e, no altar-mor, algumas velas acesas. Mas já estava repleto de vultos negros, de tossidelas, de rouquidões, de arrastar de cadeiras, de bichanar de orações e de cheiro a velas a arder. De repente, meu tio Chico, o sacristão, de opa vermelha, saindo da sacristia tocou, veementemente, uma enorme campainha. Toda a gente se levantou e, de imediato, fez-se um enorme silêncio. O pároco saiu de seguida, todo de branco, envergando, na cabeça, o barrete negro das três quinas. Fazendo uma enorme genuflexão diante do altar-mor, tirou o barrete e entoou:

- Deus in adjuto-o-rium meum intende.

- Um grupo de mulheres desafinadamente respondeu de imediato:

- Domine, ad adjuvandum me festina.

O pároco continuava:

- Gló-ó-ria patre…

***

Começavam, assim as tão desejadas e maravilhosas novenas de Natal, na igreja de São José, da Fajã Grande. Para além do seu conteúdo religioso orientado no sentido de anunciar preparar os fiéis para a celebração de tão majestoso acontecimento cristão, as Novenas do Natal tinham uma característica interessantíssima: eram sempre celebradas de madrugada, muito antes do romper do dia ou do despontar da aurora. Esse ancestral hábito dava-lhes um sentido especial, um significado transcendente, fazendo com que fossem amplamente desejadas por todos. Na verdade em cada uma das manhãs dos nove dias que antecediam o dia 25 de dezembro, alta madrugada, as crianças e os mais novos acordados pelos adultos, levantavam-se muito cedo. Passavam um pingo de água pela cara, que não se devia sair para o frio da madrugada com o rosto quente da cama, vestiam umas roupas selecionadas de véspera e, bem agasalhados porque o frio era muito. De lanterna de petróleo na mão encaminhavam-se para a igreja, acompanhados pelo alegre repicar dos sinos. As ruas enchiam-se de pequenas e trémulas luzinhas e de vultos apressados. O templo, num de repente, enchia-se de gente e iluminava-se com as titubeantes luzes emanadas das frouxas lanternas de candeeiros tisnados, com o pavio muito baixo a formar uma espécie de penumbra e a exalar um mefítico cheiro a petróleo mas como que a simbolizarem que a verdadeira luz havia de chegar em breve.

Entre preces, cânticos e orações ali ficámos uma boa meia hora à espera que os rituais, os cânticos, o sermão e as orações, liturgicamente, apresentados pelo pároco se esgotassem. Depois era o regresso a casa ainda a noite estava escura.

Nesse dia as vacas iriam para perto, por isso, minha irmã, autorizou-nos a voltar para a cama. Ela também interessada nisso… Nem que fosse mais uma pequenina nesga de tempo.

Mas o que todos mais esperávamos era o canto final, o mágico e deslumbrante, verdadeiro precursor da grande festa que dias depois havia de vir:

 

“Quando virá senhor o dia,

Em que apareça o Salvador,

E se efectue a profecia:

- Nasceu no mundo o Redentor?

 

Aquele dia prometido,

Da antiga fé dos nossos pais,

Dia em que o mal será banido,

Mudando em risos nossos ais.”

 

Quando virá senhor o dia,

Da suspirada redenção,

Encha-se o mundo de alegria,

De Deus se faça a encarnação.

***

Nesse dia coube-me ir levar as vacas, ordenhadas por meus irmãos mais velhos, à Pedra d’Água. Ao subir a ladeira do Covão ainda parecia ecoarem os cânticos que pouco antes ouvira na igreja.

Regressei pela Bandeja e pela Fontinha. Às nove horas em ponto estava na escola.

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publicado por picodavigia2 às 10:23

PALAVRAS, EXPRESSÕES E DITOS UTILIZADOS NA FAJÃ GRANDE (XX)

Terça-feira, 15.12.15

Água de cheiro – Perfume de mulher.

Aguantar-s’impé – Estar de saúde.

Aguardente queimada – Xarope caseiro usado para a tosse e feito de aguardente e açúcar. Ao incendiá-lo o álcool ardia e o suco adocicado e meloso que ficava constituía o xarope.

Alma do outro mundo – Fantasma.

Alvacória – Albacóra.

Alvoradas – Cantares dos foliões do Espírito Santo, nas noites da terça, quinta e sábado da semana que antecede a festa.

Apoitar – Sentar-se comodamente e sem vontade de se levantar.

Arremedar – Troçar, imitar ou fazer pouco de alguém.

Arrepiado – Mau penteado. Com aspeto estranho.

Assim e assim – Mais ou menos

Assinar as ovelhas – Marcar nas orelhas das ovelhas o sinal de posse da cada família. Ex – Forcada e troncha com três moças, numa orelha e na outra – Troncha fendida.

Astrever-se – Atrever-se.

Atromentar – Atormentar.~

Bafo – Mau cheiro. Fedor.

Baleia – Mulher grande e gorda.

Batata - Mentira

Bliscão – Aperto dado com as unhas no corpo de outrem para o ferir.

Boa pra cortar manteiga – Faca ou navalha quando cortam mal.

Boieiro – Homem que acompanhava o gado na viagem para Lisboa, a bordo do Carvalho Araújo.

Bom bastante – Satisfatório.

Boqueira – Espécie de rede, em forma de semicírculo, colocada na boca das vacas, impedindo-as de comer, enquanto trabalhavam.

Bota ben sintide – Presta muita atenção.

Bota d’injarroba – Botas de borracha e de cano, usadas, sobretudo, nos terrenos alagadiços.

Brabeza – Estado de quem está muito zangado. Fúria.

Buída – Bebida.

Cotim – tipo de tecido usado nas calças de homem, semelhante à ganga (angtrim)

Cordada – Espaço de forrageiras dado ao gado quando amarrado à estaca.

Comer numa dentada – Comer à pressa.

Chove como Deus a dá – Chove muito.

Chocalhado (mar) – Mar um pouco revoltado.

Chiqueiro – Abrigo das galinhas ou do porco

Cana da índia – Bambu.

Dar bada – Dar trabalho. Dar que fazer.

Desgraçado – Maldito.

Fervura – Inquietação.

Festada (roupa)– Vincada de pois de passada a ferro.

Flaichelaite – Lanterna de bolso com pilhas.

Impige – Borbulha na pele.

Incardido – Sujo

Ir à máquina – Levar o leite a fim de ser desnatado.

Lampreiro – Esperto. Manhoso.

Madeirame – Madeira que suporta o teto da casa.

Madorna – Sono leve.

Mansidade – Estado do mar quando está muito calmo.

Maré cheia – Praia mar.

Nica ou nisca – Pouco.

O que não mata engorda – expressão utilizada para significar que quem é pobre pode comer de tudo.

Rebanhada – Grande número de filhos.

Ribanceira – Grande lance de terra, pedras e entulho caído da rocha e provocado pela chuva.

Saia plissada – Saia com dobras e folhos.

Salamaleque – Cortesia exagerada.

Servir – Caber (roupa).

Tabaco de cheirar – Rapé.

Tapona – Bofetada

Tirar uma rês – Vender uma rês a fim de ser embarcada para Lisboa.

Tocar as vacas – Conduzir as vacas.

Uiste – Zona leste dos Estados unidos.

Vazaneira – Diarreia.

Velho – Fantasma que atacava e levavas as crianças se elas não comessem ou se portassem mal.

Vir do Corvo na cestinha da velha – Nascer (para as crianças)

Zarpar – Sair, imediatamente, de um lugar.

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AS PASTORAIS

Segunda-feira, 14.12.15

Naquele verão, o novo bispo visitava a ilha. Para além de ainda não conhecer a maioria do clero, desjava fazer a tradicional visita canónica a cada paróquia. Pretendia assim, à maneira de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, integrar-se na vida e costumes das paróquias, visitando uns e conhecendo outros.

O pároco de São Cristóvão, um dinâmico e ativo sacerdote, saído do Seminário há três anos, era alvo de muitas críticas e mexericos, por parte não só de colegas mas também das autoridades e poderes locais, contra cujas decisões muitas vezes pouco democráticas e favoráveis aos interesses do povo, se insurgia e opunha, pregando a doutrina social da igreja, enriquecendo-a com reflexões e críticas que, por vezes até punham em causa a autoridade da própria hierarquia eclesiástica. Pelo meio, os delatores da sua imagem, não se furtavam de lhe atribuir um ou outro namorico, alcunhando-o de verdadeiro rabo de saias. O bispo disso já havia sido informado pelos elementos do clero que o rodeavam, em salamaleques, mesuras e vénias logo depois que chegara à diocese e, segundo se dizia entre os párocos da ouvidoria, era essa a razão pela qual o bispo revelara tanta urgência em visitar as paróquias da ilha.

O pároco havia-se formado no Seminário, ao eco dos documentos do Concílio Vaticano II e e no estudo das encíclicas Rerum Novarum e Quadragésimo Anno, orientado por mestres exímios, sábios e competentes, formados em Roma, alguns deles recentemente chegados à diocese, trazendo consigo a pureza do pensamento teológico dos grandes mestres das universidades romanas e que punham em causa os velhos manuais de Teologia, de Moral, de Direito Canónico, de Sagrada Escritura e até de História da Igreja. Despojara-se, por completo da indumentária eclesiástica, convivia com o povo, acompanhando-o nos trabalhos, no descanso e nos divertimentos. Não se lhe reconhecia grande atração pela oração e pela penitência, embora fosse exímio e rigoroso nas celebrações litúrgicas, dando-lhe a dignidade e o simbolismo que mereciam.

O prelado chegou à freguesia sem se fazer anunciar nem da hora nem do dia. O jovem sacerdote a essa hora ainda dormia. No dia anterior levantara-se muito cedo. Decidira acompanhar alguns pastores aos matos da ilha, a fim de conhecer melhor e de se inteirar do seu trabalho, dos seus sacrifícios, auscultando os seus problemas, confortando-os nas suas angústias.

Foi um colega que lhe bateu à porta, anunciando-lhe que o senhor bispo, acompanhado do senhor ouvidor estavam na igreja à espera dele. Sua Excelência Reverendíssima queria ouvi-lo. O pároco sorriu entre desconfiado e indiferente. Tanto se lhe dava. O bispo se quisesse falar com ele devia tê-lo procurado em casa. Mas, pelo sim, pelo não, enfiou, à pressa, umas calças e uma camisa, calçou umas havaianas e lá foi.

Recebeu-o o bispo, na sacristia, ornado de púrpura e de ar sombrio, estendendo a mão para que o pároco lhe osculasse o anel. 

- Não tem batina, nem cabeção. – Indagou o bispo com rigor.

- Obviamente que tenho, pois trouxe-os do Seminário. Mas muito raramente os uso.

- E breviário?

- Não tenho.

- Não tem!? – Exclamou o pontífice com ar rigoroso. - E os livros paroquiais? Os paramentos, as alfaias litúrgicas, em suma as Pastorais, onde está tudo isso?

Perante o silêncio do pároco o bispo continuou. Falava austero, em devoção e santidade, em prudência e castidade, em o obediência e responsabilidade. As leis eclesiásticas eram para serem cumpridas e as penas canónicas para serem aplicadas. Quando terminou, o pároco, sorrindo disse-lhe:

- Vou-lhe mostrar tudo isso, se o senhor bispo fizer o favor de me acompanhar.

O bispo hesitou. Como o pároco insistisse sairam da sacristia e entraram no velho automóvel do pároco. Este, dando uma pequena volta pela freguesia, parou em frente a um enorme edifício. Era o Centro Social da paróquia que ele, com a ajuda dos paroquianos, construíra em menos de três anos. Saíram do carro e entraram. Numa sala um grupo de idosos tomava o pequeno-almoço em alegre e animado contubérnio. Noutra sala outros idosos praticavam exercícios físicos sob a orientação duma jovem animadora. Um grupo de crianças, noutra sala, juntamente com uma catequista ensaiavam cânticos para o Natal, enquanto outro grupo aprendia catequese. Algumas mulheres enchiam um atelier no fabrico de artesanato. Um grupo de jovens estudava noutra sala. No bar, alguns homens descansavam e conversavam. Depois de mostrar tudo isto ao prelado, o pároco, parando no hall de entrada do centro exclamou:

- Aqui estão as minhas Pastorais, senhor bispo.

Do lado um velhinho trémulo de corpo mas seguro de espírito, aproximou-se do bispo e puxando-lhe a manga da batina como quem lhe queria dizer alguma coisa, a assoando-se num lenço vermelho, acrescentou:

- E mais, senhor bispo… Ainda nem são dez horas da manhã! O senhor bispo havia de ver isto de tarde… E aos domingos e feriados…

 

NB – Este texto foi inspirado no conto com o mesmo título, do contista Nunes da Rosa, do livro Pastoraes do Mosteiro.

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UNIVERSITÁRIA

Domingo, 13.12.15

Era, para ambos, o primeiro ano na Universidade. Ela terminara o décimo segundo com uma boa nota, o que lhe permitira escolher curso e faculdade. Finalmente conseguia o tão desejado objetivo. Com muito esforço, com muito sacrifício, com o apoio, sempre incondicional, dos pais que viam na filha uma forma de realizar um sonho que nem um nem outro havia conseguido. Jovem, meiga, sensata, possuidora de uma maturidade impressionante, afetava e atraía quantos a rodeavam. O seu sonho era ser socióloga. Ele mais velho, mais experiente na vida, com emprego, agora suspenso, e uma licenciatura em Filosofia, optara por uma segunda, em Sociologia. Ocasionalmente inscreveram-se na mesma turma e nas mesmas disciplinas.

Foi numa das primeiras aulas de Epistemologia e Metodologia das Ciências Sociais que se conheceram. Sem o perceberem, deram por si, sentados lado a lado, na mesma carteira. A professora, ainda jovem, ostentando uma simpatia contagiante aliada a uma notável profundidade de conhecimentos, insistia com rigor:

- A Epistemologia tem como objetivo primordial o estudo da origem, da estrutura, dos métodos e da validade do conhecimento humano, por conseguinte, também é conhecida como sendo uma teoria do conhecimento e, consequentemente, está intimamente ligada com a metafísica, com lógica e com a filosofia da ciência. É, digamos assim, uma das principais áreas da filosofia e compreende a possibilidade do conhecimento, ou seja, permite-nos determinar se é possível ao ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno. É pois a Epistemologia que explica a origem do conhecimento.

De seguida fez uma pausa. Olhou os alunos, convidando-os a que pronunciassem, que dissessem o que quisessem sobre o que acabara de dizer. Fez-se um silêncio total e absoluto na sala. Eram alunos novatos, inexperientes, provenientes do ensino secundário, incapazes de abordar o tema. Perante o silêncio geral e sem que ela se apercebesse, ele levantou o braço. A professora anuiu e ele numa linguagem eloquente, clara e segura explicou:

- A Epistemologia também pode ser vista como a filosofia da ciência, uma vez que estuda não apenas a natureza, a origem e a validade do conhecimento, mas também analisa o grau de certeza do conhecimento científico nas suas diferentes áreas, com o objetivo principal de estimar a sua importância para o espírito humano. A epistemologia surgiu com Platão, embora ele, obviamente, não utilizasse esta palavra com o significado que hoje a utilizamos. Platão, sob o ponto de vista epistemológico, opunha à crença ao conhecimento. A crença é um ponto de vista subjetivo e o conhecimento é crença verdadeira e justificada. A teoria de Platão diz-nos que o conhecimento é o conjunto de todas as informações que descrevem e explicam o mundo natural e social que nos rodeia. Assim a epistemologia provoca duas posições ou apresenta-se em duas vertentes. Uma empirista que afirma que o conhecimento deve ser baseado na experiência, ou seja, no que for apreendido durante a vida, e a posição racionalista, que defende que a fonte do conhecimento se encontra na razão, e não na experiência. A minha pergunta é no sentido de saber se o seu estudo e a sua análise nestas aulas nos vão permitir clarifica-las.

Ela quase cegara de encanto, a ouvi-lo. Ainda não havia reparado muito bem nele. Nem ele nela. Enquanto a professora continuava as suas explicações, sussurrou-lhe baixinho, não sem antes elogiar a sua intervenção:

- Uau! Isto é que é… Não sabia que estava tão bem acompanhada…

Ele, olhando-a com maior atenção, sorriu. Tudo nela era simplicidade e beleza. Tudo nela era simpatia e generosidade. Loura, com o cabelo ligeiramente curto, a encobrir-lhe uma parte da tez. Os olhos de um azul muito límpido e cristalino. A pela muito branca, aveludada e macia. As suas palavras eram doces, puras, simples e contagiantes. Saíram lado a lado da sala e foram dar consigo, sentados num café, nos arredores. Foi ali que fizeram o epicentro duma amizade que acabava de nascer. Era ali que, todos os dias, antes do início das aulas, esperavam um pelo outro. Era ali que vinham desanuviar, ao fim da tarde, terminadas as aulas. Era ali que muitas vezes almoçavam. Era ali que passavam as tardes a estudar, quando não havia aulas.

Foi numa dessas tardes que ele se apercebeu que estava apaixonada por ela. Pela colega maravilhosa e simpática, companheira indelével. Mas também pela mulher bela, atraente, incontestavelmente desejada. Ela apercebeu-se. Não era parva e ele não era muito hábil em encobrir sentimentos. Pior. Ele também não lhe era indiferente. Não sabia como os seus destinos se haviam de prolongar. No primeiro trabalho escolar proposto, escolheram exatamente o mesmo tema e decidiram trabalhar em conjunto. Obviamente, ela sabia muito bem que em termos de benefícios, as vantagens estavam todas do lado dela. Mas não queria acomodar-se a tal. Nunca havia de servir-se do que ele sentia por ela para singrar. Abominava facilitismos. Nem era interesseira.

Foram horas e horas de trabalho, de muito esforço e de grandes sacrifícios. Tudo compensado com o prazer de estarem horas a fio, lado a lado. O trabalho mereceu os mais rasgados elogios da jovem mestra e foram objeto de discussão pública, perante a turma. Um sucesso indiscutível! Ela cada vez mais a orgulhar-se dele. Ele cada vez mais apaixonado por ela. Seguiram-se novos trabalhos noutras disciplinas e novas oportunidades de um contacto mais próximo, mais íntimo e, frequente. Ela sentia que, na sua qualidade de universitária não podia viver sem ele. Ele percebia que, como mulher, ela era a consubstanciava todos os sonhos da sua vida.

O ano escolar acabou e as férias foram, para ele, um sufoco. Mas ao primeiro seguiu-se um segundo e mais dois, com encontros e convívios cada vez mais íntimos e frequentes. Ele apaixonadíssimo ela a perceber que ele era absolutamente necessário à sua vida.

Terminaram o curso com sucesso invejável. A aproximação profissional também se consolidou. Quando a licenciatura chegou as propostas e ofertas de trabalho, para um e para outro, foram muitas. Ele, apesar de cada vez mais apaixonado, sabia que os seus destinos haviam de separar-se. E separaram-se…

Os anos passaram. A paixão foi-se diluindo no tempo. Mas o destino havia de os voltar a encontrar. Na Câmara das Caldas, onde ambos foram parar, preenchendo duas vagas que a edilidade pusera a concurso, destinadas a sociólogos e que tinham como objetivos principais, proceder a um planeamento urbano, local e regional, acompanhar e gerir a gestão e intervenção urbanística, a animação local, os agentes de desenvolvimento e a reabilitação urbana, elaborar estudos de impacto ambiental e projetos de desenvolvimento regional e local.

No dia em que se encontraram para iniciar a sua atividade ela apareceu-lhe de aliança. Casada!

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A PRIMA ALICE

Sábado, 12.12.15

Alice Mendonça de Sousa, a “Prima Alice” como era conhecida em minha casa, era uma das mais simpáticas primas da minha mãe. Filha de um irmão da minha avó Joaquina, António Maria de Sousa, conhecido por “Ti Britsa” e de sua esposa Maria da Glória Mendonça, irmã das Senhoras Mendonças, que viviam na Assomada, nasceu a 23 de Novembro de 1923, no cimo da Fontinha.

Bastante mais velha do que eu, não a conheci em jovem, mas diz quem com ela conviveu que era uma das jovens mais bonitas da Fajã Grande. Mas o que mais caracterizava a prima Alice, para além da sua beleza, era a sua bondade, a sua simpatia, a sua simplicidade e, sobretudo o carinho que dispensava a quantos com ela conviviam, nomeadamente com a minha mãe. Essa a razão pela qual na minha casa, todos nos habituamos a trata-la sempre familiarmente pela “Prima Alice”.

Ainda jovem casou com o Teodósio, filho de Ti José Teodósio, que morava também no alto da Fontinha, em casas muito próximas, dando continuidade a uma vida árdua, de muito trabalho, grandes sacrifícios a que já se iniciara em casa de seus pais durante a sua juventude. 

Como a minha mãe, a Prima Alice teve muitos filhos, nove a todo. Como a minha mãe, a Prima Alice tratava das lides da casa, criava os filhos, cozinhava, lavava, arrumava e até rachava lenha. Como a minha mãe, para além das lides domésticas, a “Prima Alice” ainda tinha tempo e força para ajudar o marido nas lides agrárias, nomeadamente, a semear, a plantar, a sachar, a mondar, a acarretar cestos de inhames e batatas. Esta intensa atividade advinha sobretudo de o marido, o Teodósio, ser um dos mais dinâmicos, ativos e esforçados lavradores da freguesia. Herdara os dons do trabalho e da música do velho pai. Cantava no Outeiro, nas noites da Quaresma, era folião do Espírito Santo e fora jogador de futebol do Atlético Clube Fajãgrandense. Para além de trabalhar as terras, criava muito gado, ia ao leite ao mato duas vezes por dia, subindo e descendo a rocha com uma velocidade e uma destreza notáveis e consta que foi o único homem da Fajã Grande que lavrou terras e semeou milho no mato, mais concretamente no lugar do Queiroal. Era a esposa e companheira fiel, trabalhadora, mãe extremosa que o apoiava em toda estas dinâmicas atividades, enquanto ia criando os filhos, dois deles, infelizmente já desaparecidos. Muito feliz ficava quando, nas férias de verão, eu regressava à Fajã, a bordo do velho Carvalho Araújo, trazendo, também de volta, uma das filhas, a Leónia, a estudar em Angra, em casa de uma das suas irmãs, a Maria da Paz.

Permanece e acompanha-me, ainda hoje, a imagem da Prima Alice, dois anos antes da sua morte, ocorrida em 20 de Maio de 1995, quando, após trinta e três anos de ausência, regressei à Fajã Grande. Recebeu-me com um misto de alegria e de felicidade, manifestando um enorme contentamento. Irradiando aquele sorriso simpático e carinhoso de que era seu timbre, deu-me um abraço tão grande e tão terno como se fosse o da minha mãe.

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AS POMBAS E O MUNDO

Sexta-feira, 11.12.15

Quando eu era criança estava condenado a ver o mundo, exclusivamente, da janela da sala da minha casa que ficava voltada a oeste. Minha mãe havia falecido há pouco e eu, apesar dos meus sete anos, era obrigado a permanecer em casa e a associar-me aos adultos a fim de, juntamente com eles, guardar o devido luto, como se isso a trouxesse de volta.

O mundo que eu observava dali era pequeno, simples e diminuto mas belo, sublime, deslumbrante e, sobretudo, repleto de pombas. À minha frente, separada das dos meus vizinhos por bardos de faias do norte e muros de basalto negro, a pequena courela onde meu pai trabalhava, semeando milho e batatas, plantando couves e cebolinho - por vezes quase tudo era devastado e destruído pelas pombas - e onde construíra o estaleiro, o cepo da lenha, o largo do estrume, o estendal de corar a roupa e os currais do porco e das galinhas. E até no estaleiro as pombas se metiam. Um pouco mais além a canada do Pico, com casas de arrumos, palheiros de gado e algumas moradias, onde viviam os vizinhos de meus pais e alguns dos meus amigos. Mais atrás a pequena montanha, raiada de verde e de silêncio, povoada de faias, canaviais e belgas de batata-doce, encastoada numa claridade azulada e maviosa, que se iniciava nas Courelas e que ia subindo muito lentamente até se perder nos contrafortes do Pico da Vigia. Sobrevoavam-na bandos e bandos de pombas, à mistura com melros, lavandeiras e tentilhões. Eram, incontestavelmente, as pombas que viviam em maioria neste meu pequeno e limitado mundo e que, consequentemente, mais prendiam a minha atenção. Ao lado da minha, a casa do meu vizinho faroleiro e, mais além, os telhados duma pequena parte do casario das Courelas, lá para os lados do Areal e que, de tão baixo que era me deixava visionar uma pequena parte do oceano, sulcado, umas vezes por enormes navios, lá longe, a delinear melhor a linha do horizonte, outras por pequenas embarcações costeiras, na safra da pesca. Mesmo em frente à porta da cozinha da minha casa, um pátio de cimento, cuja parte inferior era constituída pelos chiqueiros do porco e das galinhas. Era neste pátio que a minha irmã secava o milho novo quando o velho se acabava no estaleiro. Nos dias de sol quente, logo de manhã, varria muito bem todo o pátio sobre o qual espalhava cuidadosamente o milho que recolhia à noitinha. E eu escalonado, de vara em riste, para ali ficar, durante todo o dia a espantar e afastar as malditas pombas que, loucamente, se atiravam ao milho. No fim do dia, por mais que varrêssemos e por mais cuidado que tivéssemos ficava sempre um ou outro grãozito escondido num canto, aqui e além. Eram esses que as pombas, esvoaçando dos esconderijos da encosta do Pico, com uma avidez desmesurada e com uma incúria premente, procuravam, muitas vezes, em vão.

Ora certo dia, em que a minha irmã decidira não secar milho, assolou-me a ideia de que deveria apanhar uma daquelas pombas que atafulhavam o meu mundo. À mão, seria impossível. Eram pombas bravas, traumatizadas pelas minhas persistentes enxotadelas. Mal sentissem abrir a porta haviam de esvoaçar todas pelos ares numa correria louca. Mas decidi que havia de me vingar.

Fui à loja de arrumos que ficava por baixo da cozinha e trouxe um cesto e duas folhas de espadana. Desfiei-as muito finas e, atando os fios uns aos outros, fiz um enorme cordão. Prendi uma das extremidades à janela da sala e na outra amarrei, pelo meio, um pedaço de pau, devidamente cortado, com uma altura aproximada de três dos meus palmos. Voltei ao pátio e virei o cesto de fundo para o ar, colocando-lhe em cima uma pedra. Depois, com muito cuidado levantei-lhe, levemente a borda, do lado voltado para a janela, até uma altura igual à do pau que amarra na ponta do fio. De seguida ajeitei o cesto sobre o pau erguido ao alto, como se estivesse a calçá-lo, mantendo-o, assim, levemente levantado. Fui buscar meia-dúzia de grãos de milho que espalhei no pátio, colocando três, de forma visível debaixo do cesto. Espalhei os restantes fora, mas perto do cesto e vim esconder-me à janela agarrando o fio com ambas as mãos.

Não demorou muito. Duas pombas, acicatadas pelo milho, vieram pousar no pátio. A medo, talvez desconfiadas de tão grande esmola, foram-se aproximando do milho e do cesto. Enquanto a primeira se ocupava a comer o milho que estava fora, a segunda não hesitou. Muito lesta entrou para debaixo do cesto na mira do milho que lava estava. Com firmeza puxei o cordão, descalçando o cesto que de imediato e com o peso da pedra que tinha sobre o fundo, caiu ao chão, impedindo a pomba de sair. A outra, muito espantada fugiu. Mas a armadilha resultara em cheio.

Na minha ingenuidade de criança, cuidei que a partir de agora tudo seria fácil. Dirigi-me, novamente, ao pátio e, com muito cuidado, levantei um pouquinho a borda do cesto, de maneira que pudesse caçar a pomba sem ela fugir. Eu tentava e ela esvoaçava e esquivava-se. Nesta luta permanecemos algum tempo. De repente e sem me aperceber levantei mais um pouco a borda do cesto e a maldita: zás! Pirou-se. Saindo da prisão muito veloz, em voo picado foi pousar lá longe, juntando-se às suas congéneres, pousadas nos beirais da casa da vizinha Maria do Rosário, nos contrafortes da pequena montanha do Pico, onde tinham os seus esconderijos.

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GRAFITAR

Quinta-feira, 10.12.15

Ontem, aconteceu um lamentável acidente na estação de comboios de Ermesinde. Três jovens que grafitavam um comboio foram colhidos por um outro que seguia em sentido contrário. A dramática notícia foi divulgada nas televisões, nos jornais e nas redes sociais. O verbo grafitar surgiu, assim, em pleno, conjugado nos seus diversos tempos e modos.

Razão tinha Ferdinand Saussure quando afirmou que as línguas são organismos vivos: nascem, crescem, desenvolvem-se, vivem e morrem.

E ainda há quem se oponha radicalmente ao acordo ortográfico.

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ESTIGMAS

Quinta-feira, 10.12.15

 

As ribeiras estão desertas de água,

Encheram-se de ervaçais,

Atulharam-se de pedregulhos toscos,

Transformaram-se em caminhos sinuosos.

Nas margens, álamos e salgueiros

Perderam as folhas

E amortalharam-se de fantasmas.

As pontes atafulharam-se de segredos,

Emergiram num silêncio profundo,

Transformando a paisagem circundante

Num deserto.

Os peixes definharam

Estrangulados pelo rumor dos ervaçais,

Os pássaros fugiram

Com medo das tempestades ressequidas

E uma enorme esponja de bruma

Cobriu o céu de lés-a-lés

Apagaram-se todos os murmúrios do vento.

 

Ali ao lado,

No charco deixado pela chuva de ontem,

Uma criança, só uma,

Brinca com barcos de papel!

  

Estigmas anexados ao destino…

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publicado por picodavigia2 às 00:05

O NECASPICIAS

Quarta-feira, 09.12.15

Desde que entrámos em casa do senhor Algarvio, ele, a mulher e meu pai não haviam cessado de lamentar a morte da minha mãe. Era sobretudo a dona Josefa quem mais se desfazia em lágrimas e lamentos. Foi o senhor Algarvio que, colocando o braço sobre o ombro do meu progenitor, interrompeu as lamúrias da sua consorte, ordenando, meigamente:

 - Ora vamos deixar coisas tristes e vamos conversar é com este nosso homenzinho, que desde que chegou ainda não disse nada. – E voltando-se para mim com um olhar terno e mavioso:

- Como te chamas?

Como eu permanecesse calado, insistiu

 - Perdeste a língua?

- Álvaro. – Respondi tímido e envergonhado.

Meu pai, vendo a minha atrapalhação, interveio em minha defesa.

- Ele está um bocado mal disposto. É que nós viemos de barco…

- No do Gregório, que foi levar farinha à Fajã? – Indagou o Algarvio

- Sim, sim. Mestre Gregório apareceu lá na Fajã e ofereceu-se para me trazer. O pequeno, quando soube que o trazia comigo ficou todo contente, porque nunca tinha andado no mar. No início da viagem, vinha bem-disposto, mas depois o mar piorou e ele começou a enjoar. Vomitou e passou mal durante quase toda a viagem… Uma desgraça! Sorte foi ter adormecido a partir da ponta do Albarnaz.

Dona Josefa, olhava-me com um misto de ternura e piedade tentando consolar-me:

- Coitadinho! Então deve estar muito fraquinho e cheiinho de fome.

- Ó mulher, - Exclamou o Algarvio com um enorme vozeirão, recriminando o estaticismo da consorte - E tu aí parada a fazer o quê!? – Depois, retorcendo as pontas do enorme bigode que quase lhe enchia o rosto, ordenou em tom imperioso – Vá lá. Vai buscar alguma coisa para esta criança comer.

Dona Josefa, levantando-se agarrada com ambas as mãos às ancas, aproximou-se de mim:

- O menino quer uma tigelinha de leite e uns biscoitinhos que tenho ali dentro, ainda quentinhos? Quer?

Cada vez mais tímido e envergonhado, imerso num mundo a que não estava habituado fiz sinais negativos com a cabeça:

 – Não senhora. Não quero nada. Obrigado.

O senhor Algarvio é que não desistia:

- Ó Josefa, francamente. Isso é pergunta que se faça a uma criança, ainda por cima a uma criança que enjoou toda a viagem, da Fajã até aqui, a Ponta Delgada, que deve estar cheia de fome? – E voltando a retorcer as pontas do bigode, voltou a ordenar com alguma rispidez – Vai imediatamente buscar alguma coisa para esta criança comer. Nunca se pergunta a um doente se quer saúde.

Dona Josefa, arrastando os pés nuns chinelos de veludo acastanhado, entrou na cozinha, chamando:

- Muda! Ó Muda! Despacha-te mulher! Ai meu Sagrado Coração de Jesus! Esta mulher nunca me ouve. Está cada vez mais surda.

O senhor Algarvio, tentando aliviar a minha timidez, continuou:

- Então chamas-te Álvaro. Sim senhor. Bonito nome. Fazes muito bem em acompanhar sempre o teu pai. – E voltando-se para o meu progenitor – Ainda tens dois mais novitos, não tens?

- Tenho uma menina de três e um rapaz de meses. Mas estão quase sempre em casa de minha sogra.

Dona Josefa não demorou. Entrando na sala com uma bandeja com biscoitos e uma tigela de leite, dirigiu-se para mim:

- Ora vamos lá a comer, que deves estar mortinho de fome.

Perante a minha insistente recusa, mais gerada pela vergonha que sentia do que pela falta de fome que tinha, meu pai ordenou:

- Álvaro, não te faças rogado. Se a dona Josefa oferece é de boa vontade. Bebe o leite…

Levantei-me e, levando à boca a tigela do leite, bebi-o sofregamente. Esboçando um leve sorriso e feliz por sentir que eu agora já estava mais à vontade, o senhor Algarvio comentou em tom jocoso:

- Então o leite das vacas cá do Algarvio não é melhor do que o das do teu pai? Quantas vacas tens, agora, António?

- Duas. Mas vou embarcar uma, a Toucada. Já está à engorda. Quero ver se me dá pelo menos um conto, para por água em casa e mandar fazer uma pia para lavar roupa. A água faz muita falta numa casa e a pequena é muito novinha e fraquita, não pode andar a acarretar baldes e baldes de água ou ir lavar sozinha para a ribeira. Tenho uma bezerra deste ano, que vou criar para fazer vaca. – E voltando-se para mim que terminara o bródio: – E agora? Como se diz à senhora Josefa?

Mais animado e recomposto, respondi prontamente:

- Obrigado, senhora dona Josefa!

O senhor Algarvio, continuando a alimentar o seu velho hábito de retroceder o bigode, voltando-se para mim, perguntou:

-Sim senhor! Muito bem, Álvaro. Agora que já recuperaste as forças, diz-me lá: já andas na escola?

- Não senhor. Só tenho seis anos, mas em Março faço sete e a senhora Professora já disse que no dia a seguir entro logo para a escola.

O pai esclareceu:

- Ele já sabe ler. São minhas cunhadas que o ensinam. Depois ouve os irmãos a estudar as lições de cor e aprende tudo.

- Depois de fazer a 4ª classe deves pô-lo a estudar, que ele parece muito inteligente

- Ui! Como, António? Isso é uma loucura. Só se for com conchas de lapas. Já a Amélia também era muito esperta e quando acabou a 4ª classe a senhora professora disse-me o mesmo. Mesmo que fosse aqui na ilha eu não podia… Mas então, ir para o Faial… Nem pensar…

- Isto é uma vergonha! Numa ilha como esta só haver escolas primárias! Não há um liceu! Quem quer continuar a estudar tem que ir para o Faial, para a Terceira ou para S. Miguel. Isto não se admite!...

- As crianças fazem muita falta aos pais para os ajudar nas terras. Olha em toda a Fajã, que me lembre, só duas raparigas é que foram estudar para o Faial.

Enchi-me de coragem e interrompi, orgulhosamente:

- Eu já sei os rios de Portugal todos. Quer ver senhor António: Minho, Lima, Cávado, Ave, Douro, Vouga, Mondego, Tejo, Sado, Mira e Guadiana. E também já sei os reis da 1ª dinastia e os seus cognomes…

- Álvaro, não aborreças mais o senhor António.

- Deixa lá gosto de ouvi-lo. Além disso, com esta idade e já saber tudo isso não é muito vulgar.

- E rezar? Também já sabes rezar? – Interveio dona Josefa, voltando-se para mim.

- Claro que sei dona Josefa. Até já sei o Pecador em latim e o Necaspicias. Sabe o que é o Necaspícias? É a resposta que se dá ao De Profundis, o responso que o senhor Padre reza quando morre alguém: O senhor Padre diz: “De profundis blábláblá até domine.” E a gente responde: “Necaspicias nevisonis”, três vezes seguidas.

- Louvado seja o Sagrado e Imaculado Coração de Maria! – Exclamou, pasmada dona Josefa: - Até já sabe o Necaspicias.

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IMACULADA

Terça-feira, 08.12.15

(SONETO DE VALÉRIO FLORENSE – PADRE JOSÉ LUÍS DE FRAGA)

 

Se o anjo Te saudou de gratia plena

E te chamou bendita entre as mulheres;

Se digna foste para receberes

Em teu seio de cândida açucena;

 

Quem faz tremer o Inferno quando acena,

Quem reparte a existência pelos seres;

Se nesses braços te foi dado teres

Deus, em criança e pequena.

 

Se te dirão bendita as gerações;

Se o Pai Te deu um trono de Rainha

E o Amor te aceita por esposa amada;

 

Se a ti se elevam mãos e corações,

E esmagaste a infernal Serpe daninha

- Foi por seres de sempre a Imaculada.

 

Valério Florense, in Caminhos.

 

NB - Valério Florense é o pseudónimo literário de um dos mais ilustres filhos da Fajã Grande, o padre José Luís de Fraga e que ocupa lugar de destaque, entre os mais importantes vultos da cultura açoriana, naturais da ilha das Flores. Filho de “Ti’Antonho do Alagoeiro”, nasceu em 1901, numa casa da rua da Tronqueira, mas passou a sua meninice e foi criado na casa do Alagoeiro, no cimo da rua que atualmente herdou o seu nome.

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