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A RECICLAGEM DOS SABUGOS

Sábado, 05.12.15

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, eram poucas as casas que gozavam do privilégio de dispor de quarto de banho. Talvez duas, talvez três. Decerto que mão chegaria a meia dúzia. Daí as parcas e limitadíssimas condições de higiene da população da altura e as consequências gravosas que eventualmente tinham na mesma, sobretudo no que à saúde dizia respeito, mais concretamente, à das crianças e dos mais fragilizados.

Nesses tempos a quase totalidade das casas da Fajã Grande, em vez dos quartos de banho, tinha retretes, situadas no rés-do-chão, numa loja, ao lado d local que servia de palheiro aos bovinos. Outras casas, as mais abastadas, em vez das retretes nas lojas tinham as casinhas, ou seja, pequenos cubículos, geralmente anexados à cozinha da própria habitação, quase exclusivamente destinadas à defecação. Tanto as retretes como as casinhas eram constituídas por uma ou duas canecas de madeira, no caso das retretes, geralmente isoladas num canto da loja e separadas por um biombo, por um pano ou por uma espécie taipau de tábuas velhas, remendadas, retiradas dos caixotes de sabão. As canecas tinham, por vezes, uma tampa de madeira, mas na maioria dos casos estavam destapadas à espera das moscas varejeiras. Quando rigorosamente cheias tinham que ser transportadas às costas ou à cabeça e eram levadas geralmente para um terreno, não muito longe de casa, de preferência onde houvesse couves ou caseiras. A limpeza do rabiosque era feita, a maioria das vezes, com sabugos, outras com casca de milho ou feitos secos e, algumas vezes, com um pano velho. No caso do pano, talvez o uso menos comum pois qualquer panacho era sempre útil e aproveitado mesmo que fosse para ser cortado em tiras e com elas fazer uma colcha, este ia sendo usado por uns, por outros e por todos até que, por fim, ficava tão borrifado, tão atafulhado e tão cheio de sujidade, que se assemelhava a uma espécie de mapa da Polinésia. Nessa altura já não havia ponta por onde se lhe pegar, nem muito menos sítio para limpar o dito cujo. Mas na verdade, para a limpeza do rabo, posterior à evacuação, era aos sabugos que se recorria com mais frequência, pois estavam sempre à mão. Como o milho era pendurado no estaleiro com a casca, de lá eram retirados cambulhões, com alguma frequência, ao longo do ano, a fim de descascar e debulhar as maçarocas para se encher a moenda e a levar ao moinho. Mas os sabugos esgotavam-se depressa até porque também eram muito usados na cozinha, para acender o lume. Era preciso poupá-los e aproveitá-los muito bem. Um sabugo não podia servir para limpar o rabo apenas para uma pessoa e para uma vez. Era, por isso, necessário trata-los de modo a que pudessem, no mínimo, servir para mais duas ou três vezes. Para isso procedia-se à sua reciclagem, pese embora o termo ainda não fosse conhecido, na altura. A reciclagem dos sabugos, destinada a limpar o rabo após nova defecação, era feita do seguinte modo: como as paredes das retretes e das casinhas, geralmente, eram esburacadas, porque feitas de pedras soltas, os sabugos, uma vez usados, eram enfiados nos buracos das paredes, a fim de que secassem com a circulação do ar. Passados dois três dias estavam secos e aptos a serem usados de novo. Este processo, para além de útil, servia para uma decoração primorosa das paredes e, no inverno, ajudava a tapar o frio que vinha de fora, através dos buracos.

Santos e puros tempos!

Acrescente-se, no entanto, que, sobretudo em casos de aperto, as relvas, as canadas e as terras de mato ou as de milho quando este já estava crescido, possuíam recantos bastante encobertos e muito adequados ao largar da “poia”, constituindo, assim, uma sustentável alternativa às retretes e casinhas e, consequentemente, à poupança dos sabugos.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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