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TURBULÊNCIA DE VENCIDO

Segunda-feira, 21.12.15

Era a moça mais linda e mais airosa da freguesia. Prócer de virtudes, branda de costumes, trabalhadora, honesta e humilde, não havia homem que não pusesse a vista nela, rapaz que não lhe catrapiscasse o olho, rapariga que não a invejasse e a maioria das mulheres desejavam-na como filha. Meiga, terna, sempre afável e solícita, as crianças adoravam-na e era estimada pelos velhinhos. Um tesouro de rapariga!

Foi o estafermo do filho do Chicória que lhe borrou a escrita.

O Lourenço do Zé da Quebrada apaixonara-se pela moça com um ímpeto louco e desmedido. Pelos vistos, apenas era, parcialmente, correspondido. Lídia senão o amava de verdade, no mínimo gostava dele. Não lhe era indiferente, o Lourenço.

Invejoso, o do Chicória apressou-se a inventar aleives e espalhar mentiras. Que fora o primeiro. Gabava-se à Praça, na Máquina, ao subir a Rocha por tudo o que era sítio. Mas não se ficava por aí, o safardana:

- Uma puta! Enrola-se com quantos há na freguesia...

Foi no dia em que foram às Lajes, às sortes, que o Lourenço lhe partiu as ventas, enfiando-lhe dois balázios no focinho. Nunca mais havia de repetir semelhante afronta, tamanha aleivosia. Mas o do Chicória, mesmo com os queixos inchados, a sangrar do nariz e a bufar veneno não se aquietou. Armaram tamanha zaragata, em frente à Camara, que só faltou tocar os sinos a rebate. O do Chicória a proclamar a desonra da Lídia e o Lourenço que dava cabo dele, que o comia vivo se continuasse com tamanhos insultos à honra e dignidade de tão virtuosa donzela. Foi o Administrador do Concelho que, ouvindo a algazarra, saiu esbaforido do seu gabinete, tentando acabar com a peleja. Como aquilo não parasse foi obrigado da dar voz de prisão aos dois.  

A notícia chegou à Fajã deturpada. O arrogante, o bruto, o malcriado que começara a briga, fora o do Zé da Quebrada. Vítima inocente e indefesa, apanhado à falsa fé tinha sido o Chicória. Era o que faltava, comê-las em seco. Tinha que se defender, o coitado. Lídia não hesitou em tomar partido. Embora nunca o revelasse, desde há muito que a sua grande paixão era o do Chicória. Escolha difícil. Hesitara centenas de vezes entre uma paixão desmedida e uma simpatia desmesurada. Venceu a paixão e, agora, tudo se clareava. O seu amado fora agredido selvaticamente, por um bruto, por um fraco, por um badameco que não prestava para nada. Muito chorosa, muito dolente, passava pela Assomada acima em direção das terras de mato, a ir dar comida às galinhas, na horta do Delgado. E o povo inteiro, perante a sua mágoa e o seu choro, rendia-se em coro, na condenação suprema do filho do Zé da Quebrada. Quem atacara à falsa fé não tinha perdão, nem complacência, nem piedade. O do Chicória, sim. Um inocente a entronizar.

Fizeram-se os proclamas, anunciou-se a data, fez-se o casamento, perante a mágoa e o desgosto do Lourenço que, ingloriamente, havia tentado impor, na freguesia, a verdade da sua inocência. Nada! A prova da sua culpa estava estampada na cara do rival. E o rapaz impotente na sua defesa sentia-se destroçado, desfeito, como se uma montanha lhe caísse em cima. Vingara-lhe a desonra que o sacripanta alastrara e agora via-se preterido. Ele, o pulha, o pelintra, o canalha vencera. E de que maneira. Atirando-se para os braços da mulher que ele amava e, cuja honra, defendera de unhas e dentes. E ela, uma ingrata, uma desagradecida, uma inocente que se deixara levar pela lábia perversa e mentirosa do tirano…

Mas não durou muito a felicidade desejada por Lídia. Alguns meses após o casamento, já despejava lamúrias junto da Benta, a vizinha da frente. Bem arrependia estava. Haviam de lhe ter amarrado os pés e as mãos no dia em que saíra de casa dos pais para a igreja, para se casar com aquele tratante. Mas agora era tarde. Havia que aguentar. Sempre quisera viver um grande amor, sentir uma paixão louca, ter prazer em estar do lado de alguém que também a amasse… Sempre sentira essa necessidade, mas enganara-se na escolha… Dali só insultos, maus tratos, abandono e desdém. Fora ludibriada pelo pelintra e agora estava verdadeiramente perdida. Era triste ver os seus olhos tão cheios de um verde puro, de ternura e de verdade mas arrasados de lágrimas, a jorrarem tristeza e dor. No seu rosto percebia-se a mágoa que lhe enchia o peito. Aquele pulha nunca percebera nem nunca havia de entender quanto ela o amava, quanto o estimava, de quanto abdicara para o escolher. Ele não a merecia, de verdade.

Lídia guardou aquela dor tão profunda para sempre. Mas continuava linda, bela, doce, nobre e digna como sempre fora, enquanto ele, o Lourenço passava os dias imerso numa dolente turbulência de vencido que, aos poucos, lhe ia definhando o corpo e destroçando a alma.

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