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ULISSES

Segunda-feira, 07.12.15

Ulisses foi, nas mitologias grega e romana, um personagem da Ilíada e da Odisseia, de Homero. É o personagem principal dessa última obra, e desempenhou um papel importante na Guerra de Troia. É um dos mais ardilosos guerreiros de toda a epopeia grega, mesmo depois da guerra, quando do seu longo retorno ao seu reino, Ítaca, uma das numerosas ilhas gregas.

Como herói grego, Ulisses era rei de Ítaca e filho de Laerte e Anticleia. Seu pai era filho único de Arcésio e sua mãe era filha de Autólico, um famoso ladrão.

Quanto Tíndaro, rei de Esparta, teve conhecimento de que havia vários pretendentes para sua filha Helena, para resolver o imbróglio, Ulisses, também chamado de Odisseu, sugeriu que todos os pretendentes jurassem defender o escolhido de qualquer mal que fosse feito contra ele. Aceite esta condição, Tíndaro escolheu Menelau para casar com Helena e ordenou ao seu irmão Icário que casasse a sua filha Penélope com Ulisses. Da união de Ulisses com Penélope nasceu Telêmaco, de quem o pai teve de se separar muito cedo para lutar ao lado de outros nobres gregos em Troia. Ulisses foi um dos elementos mais atuantes no cerco de Troia, no qual se destacou principalmente pela sua prudência e astúcia, com destaque na construção do célebre cavalo de madeira.

Durante a guerra de Troia, muitas foram as batalhas que os gregos venceram sob o comando de Ulisses, que assim se revelou um notável guerreiro, apesar de sua baixa estatura. Após a derrota dos troianos, Ulisses iniciou uma atribulada viagem de dez anos de regresso a Ítaca onde a sua mulher, Penélope, o esperava com uma fidelidade obstinada, personificada na célebre manta que tecia de dia e desmanchava de noite. Mas Penélope, sobretudo devido à demora de Ulisses, não o reconheceu de imediato. O único ser vivo que o reconheceu foi o seu cão Argus.

Esta atribulada viagem mereceu a criação por Homero do poema épico Odisseia, no qual são narradas as aventuras e desventuras de Ulisses e dos companheiros desde que deixaram Troia, algumas causadas por eles e outras devido à intervenção dos deuses.

Quando levado por uma corrente chegaram a uma ilha estranha, cegaram o ciclope Polifemo que a habitava, despertando a ira de Posídon, que os atormentou durante o resto da viagem. Assim foram atracar à ilha de Calipso, onde uma mulher os seduziu e aprisionou, durante anos e não o soltaria de lá até que Hermes, Deus mensageiro, apareceu para a deusa Calipso e deu ordens de Zeus a ela, ordenando que Ulisses fosse libertado. A deusa ajudou-o a construir uma jangada, a fim de que continuasse o seu caminho rumo à sua pátria e ao seu lar.

Com a ajuda de Zeus e de outros deuses, Ulisses chegou a casa sozinho para encontrar o filho Telémaco, já feito homem e sua esposa Penélope, importunada por vários pretendentes. Disfarçado como mendigo, primeiro verificou se Penélope lhe fora fiel durante a sua ausência e, em seguida, matou os pretendentes à sua sucessão que a perseguiam, limpando o palácio de todos aqueles malévolos que, diariamente, a importunavam. Com isso, iniciou-se uma batalha final contra as famílias dos homens mortos, mas a paz foi, finalmente, restaurada por Ulisses com a proteção e o auxílio da deusa Atena.

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A MATANÇA

Domingo, 06.12.15

O dia que Júlia mais adorava era o da matança do porco. Nesse dia nem ia à escola. A mãe preparava tudo com muita antecedência. A enorme salgadeira, os alguidares, os caldeirões, as selhas e as panelas, tudo era muito bem limpo e lavado. Na véspera, Júlia ajudava a mãe a descascar uma enorme quantidade de alhos, a picar as cebolas de rama, destinadas às morcelas e a salsa, a arranjar os temperos e a preparar as toalhas branquinhas, enquanto o pai aprontava a palha e o mato para a chamusca, serrava e fendia a lenha, secava a cerca e amolava as facas e o serrote. Mas era sobretudo durante a tarde, a prolongar-se até altas horas da noite que a mãe, com a ajuda da tia Augusta, se estafava a cozer o bolo e os inhames, a assar as batatas-doces e a preparar o peixe, a carne de ovelha, o feijão para assar no forno, as lulas e outras iguarias. À tardinha Júlia nunca se esquivava de ir com o pai à adega buscar dois ou três garrafões de vinho.

No dia da matança, logo de manhã, ao lusco-fusco, a casa enchia-se de gente. Vinham os tios, os primos, os avós dos Cabeços, alguns vizinhos e até um amigo do pai que morava na Madalena. Todos desejavam ajudar e eram recebidos com muita alegria. Os homens, mesmo sendo madrugada e estando em jejum, não se furtavam um traguinho de aguardente ou de traçado. As crianças ficavam-se pelos figos passados e as mulheres embrenhavam-se, de imediato, a colaborar nas lides da cozinha, amassando as cebolas e preparando as refeições. Pouco depois, ainda antes de clarear por completo, os homens aproximavam-se do curral, apreciando o suíno, avaliando o seu peso e qualidade, ao mesmo tempo que enrolavam uma ou duas pitadas de tabaco numa folha de casca de milho, transformando-as em cigarro que iam acendendo, sucessivamente, uns nos outros. Pouco depois chegava o Senhor Joaquim, o matador que o pai contratava todos os anos e que trazia umas facas enormes. Juntamente com o pai e os outros homens saltavam para o curral, agarravam o cevado, amarravam-lhe as pernas e punham-no em cima duma tábua apoiada sobre dois enormes cepos de madeira, simulando uma mesa. Júlia, de longe, apreensiva e cheia de medo, tapava os ouvidos com ambas as mãos para não ouvir os gritos de aflição que o porco emitia ao ser apanhado e, sobretudo, quando lhe espetavam a faca. A mãe, de avental novo ao peito, aproximava um alguidar do pescoço do porco e enchia-o com o sangue que se esvaía a jorros do buraco que lhe havia feito a faca certeira do senhor Joaquim. De seguida juntava-lhe umas gotas de vinagre e misturava as cebolas picadas, a sala, os alhos e os outros temperos. Mais atarde havia juntar uns bocadinhos de gordura da barriga. Era com este preparado que se haviam de encher as morcelas.

Os homens, depois de tomar mais um traguinho, iniciavam os trabalhos. Primeiro chamuscavam com as vassouras de palha e mato todo o pelo do porco que, de seguida era muito bem lavado e rapado. Com baldes de água e sabão azul o suíno era lavado e depois esfregado com pedras e escovas até ficar totalmente branquinho e limpo que era um regalo. Era ao senhor Joaquim que, com um enorme facalhão, abria o porco traçando-lhe um enorme corte desde o focinho até ao rabo. Todo encharcado em sangue, retirava-lhe o fígado, os bofes, o coração, as tripas e a bexiga. As tripas eram embrulhadas em panos, de maneira a não secarem, a fim de que mais tarde fossem muito bem lavadas. O fígado era cortado em bifes muito bem temperados e a bexiga era a alegria dos primos que a enchiam de ar, jogando com ela como se fosse uma bola de futebol. Chefiadas pela tia Augusta um grupo de mulheres atiravam-se às tripas, descosendo-as da gordura com muito cuidado para que não rompessem, separando-as, a fim de se proceder à sua rígida, cuidadosa e exigente lavagem, com água, sal, farinha de milho e limas azedas. Júlia, embora temerosa e apreensiva, ajudava em todas estas operações. As tripas grossas, assim como o bucho, eram cheias com o preparado das morcelas. As outras guardadas para as linguiças. Os bofes, o coração e uns pedacinhos de carne da barriga eram guisados com batata branca, e, juntamente com as sobras do almoço, constituíam a ceia. De tarde, os homens, enquanto esperavam que o porco arrefecesse, jogavam ao truque e à sueca. Mas a mesa não se levantava e, já pela noite dentro, entre jogos de cartas e copos de vinho, provava-se a morcela. Entre folguedos e cantigas todos eram brindados com vinho e comida, onde não faltava a saborosa morcela. Por fim e antes de partir, quase todos voltavam a tomar mais um traguinho.

- Este é p’ra a viagem. – Dizia o pai de Júlia, batendo palmadinhas nas costas dos que apresentavam sinais de terem bebido um pouco mais.

De tarde, o pai, com a ajuda de outros homens, havia pendurado o porco, pelo focinho, a um tirante na loja, tendo-o aberto nas costas, de cima para baixo e espetado umas canas atravessadas que mantinham o interior do animal aberto, a fim de o enxugar. Por baixo fora à Júlia, sempre disposta a ajudar, que o pai pedira para colocar, por baixo, a selha pequenina, a fim de aparar os restos de sangue e água que escorriam do interior do animal. Quando anoiteceu por completo, o pai trancou muito bem a porta, não fossem os gatos entrarem e atirarem-se ao porco, na calada da noite.

No dia seguinte, voltaram apenas os parentes mais íntimos. A mãe quase nem se deitara. Passara toda a noite a lavar, a varrer, a limpar, a arrumar e a preparar o dia seguinte. Ainda muito ensonada, Júlia via desmanchar o porco, parti-lo aos pedaços, separando, carne, ossos, lombos e toucinho. Algumas postas foram destinadas a presentes e uma grande talhada de toucinho foi salgada e guardada para ser arrematada no adro da igreja, no domingo seguinte. A mãe fez do lombo, os primeiros bifes para o jantar. Depois vestiu-lhe uma saia de chita, uma blusa de malha, prendeu-lhe uns lacinhos no cabelo e lá foi ela, toda contente e vaidosa, de cestinha em riste, levar um presente a casa do senhor padre, do senhor professor, a casa de quantos o pai devia favores. Separada a cabeça a mãe limpou-a muito bem e preparou-a para com ela fazer sopas, que exalavam um cheirinho a noz-moscada e a cominhos que enchia a casa e, juntamente com o fumo, saía pelo telhado e se propagava pela vizinhança. Era o manjar mais apreciado nesse dia. O toucinho foi derretido, quase na totalidade e, depois de lhe retirar a banha, transformou-se em pequenos mas deliciosos torresmos de graxa. Júlia adorava trinca-los. Uma parte da carne e os ossos foram salgados e guardados nas salgadeiras, enquanto outra foi finamente picada para as linguiças, que se haviam de encher alguns dias depois, a fim de ir garantindo, juntamente com a carne, os torresmos e o toucinho, o sustento do pai, da mãe, da irmã e dela própria, ao longo do ano.

Júlia, com alegria, ajudava a mãe em todas estas tarefas.

 

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A RECICLAGEM DOS SABUGOS

Sábado, 05.12.15

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, eram poucas as casas que gozavam do privilégio de dispor de quarto de banho. Talvez duas, talvez três. Decerto que mão chegaria a meia dúzia. Daí as parcas e limitadíssimas condições de higiene da população da altura e as consequências gravosas que eventualmente tinham na mesma, sobretudo no que à saúde dizia respeito, mais concretamente, à das crianças e dos mais fragilizados.

Nesses tempos a quase totalidade das casas da Fajã Grande, em vez dos quartos de banho, tinha retretes, situadas no rés-do-chão, numa loja, ao lado d local que servia de palheiro aos bovinos. Outras casas, as mais abastadas, em vez das retretes nas lojas tinham as casinhas, ou seja, pequenos cubículos, geralmente anexados à cozinha da própria habitação, quase exclusivamente destinadas à defecação. Tanto as retretes como as casinhas eram constituídas por uma ou duas canecas de madeira, no caso das retretes, geralmente isoladas num canto da loja e separadas por um biombo, por um pano ou por uma espécie taipau de tábuas velhas, remendadas, retiradas dos caixotes de sabão. As canecas tinham, por vezes, uma tampa de madeira, mas na maioria dos casos estavam destapadas à espera das moscas varejeiras. Quando rigorosamente cheias tinham que ser transportadas às costas ou à cabeça e eram levadas geralmente para um terreno, não muito longe de casa, de preferência onde houvesse couves ou caseiras. A limpeza do rabiosque era feita, a maioria das vezes, com sabugos, outras com casca de milho ou feitos secos e, algumas vezes, com um pano velho. No caso do pano, talvez o uso menos comum pois qualquer panacho era sempre útil e aproveitado mesmo que fosse para ser cortado em tiras e com elas fazer uma colcha, este ia sendo usado por uns, por outros e por todos até que, por fim, ficava tão borrifado, tão atafulhado e tão cheio de sujidade, que se assemelhava a uma espécie de mapa da Polinésia. Nessa altura já não havia ponta por onde se lhe pegar, nem muito menos sítio para limpar o dito cujo. Mas na verdade, para a limpeza do rabo, posterior à evacuação, era aos sabugos que se recorria com mais frequência, pois estavam sempre à mão. Como o milho era pendurado no estaleiro com a casca, de lá eram retirados cambulhões, com alguma frequência, ao longo do ano, a fim de descascar e debulhar as maçarocas para se encher a moenda e a levar ao moinho. Mas os sabugos esgotavam-se depressa até porque também eram muito usados na cozinha, para acender o lume. Era preciso poupá-los e aproveitá-los muito bem. Um sabugo não podia servir para limpar o rabo apenas para uma pessoa e para uma vez. Era, por isso, necessário trata-los de modo a que pudessem, no mínimo, servir para mais duas ou três vezes. Para isso procedia-se à sua reciclagem, pese embora o termo ainda não fosse conhecido, na altura. A reciclagem dos sabugos, destinada a limpar o rabo após nova defecação, era feita do seguinte modo: como as paredes das retretes e das casinhas, geralmente, eram esburacadas, porque feitas de pedras soltas, os sabugos, uma vez usados, eram enfiados nos buracos das paredes, a fim de que secassem com a circulação do ar. Passados dois três dias estavam secos e aptos a serem usados de novo. Este processo, para além de útil, servia para uma decoração primorosa das paredes e, no inverno, ajudava a tapar o frio que vinha de fora, através dos buracos.

Santos e puros tempos!

Acrescente-se, no entanto, que, sobretudo em casos de aperto, as relvas, as canadas e as terras de mato ou as de milho quando este já estava crescido, possuíam recantos bastante encobertos e muito adequados ao largar da “poia”, constituindo, assim, uma sustentável alternativa às retretes e casinhas e, consequentemente, à poupança dos sabugos.

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O COELHO BRANCO E O GALO PRETO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sexta-feira, 04.12.15

Uma outra estória muito engraçada que meu avô contava era da do Coelho Branco e do Galo Preto. Se bem me lembro a estória era mais ou menos assim: Havia em tempos antigos um homem muito bruto e mau mas que era muito devoto e tinha por hábito rezar todos os dias um Pai Nosso a Senhor São Francisco. Quando estava para morrer apareceu-lhe um anjo e disse-lhe:

- Para te salvares não chegam as orações. Terás que dar uma esmola avultada a um pobre. Caso contrário irás parar ao Caldeirão de Pero Botelho.

Passado algum tempo entrou um velhinho no pátio da casa onde homem morava e os cães não lhe fizeram mal. O criado que trabalhava para o homem quando viu o velhinho dirigiu-se até ele e disse-lhe:

- Como é que entraste aqui sem os cães te impedirem?

O velho respondeu:

- Eles são mansinhos, fiz-lhes umas festas e eles não me fizeram mal.

O velhinho entrou em casa e foi visitar o homem que estava deitado na sua cama, às portas da morte e pediu-lhe uma esmola. O homem virando-se para o criado disse-lhe:

- Dá-lhe cinquenta alqueires de milho.

- Mas ele não trás saco. - Contrariou criado.

- Dá-lhe um saco dos melhores e maiores que temos para levar o milho.

- Mas o pobrezinho também não tem carro para transportá-lo.

- Então carrega tu o milho no carro de bois e vai levá-lo a casa dele.

O criado assim fez e lá foi mais o velhinho.

Quando já iam a meio caminho ouviram o sino da igreja tocar a finados. Era o sinal de que o homem que tinha dado o milho ao velhinho tinha falecido. Nisto passou-lhes por perto um coelho branco a fugir de um galo preto. O velhinho voltou-se para o criado e disse-lhe:

 - O teu patrão já morreu, e o coelho branco, que passou, significa que ele se salvou, o galo preto era o inimigo que vinha a correr atrás dele, mas não o apanhou porque ele foi generoso e deu uma grande esmola. Aquele que fizer o bem neste mundo e repartir os seus bens com os pobres há-de salvar-se e tu, meu amigo, podes levar o milho e ficar com ele para alimentar os teus filhos, porque eu não preciso dele.

Dito isto o velhinho desapareceu.

O criado percebeu, então, que aquele velhinho, a quem o homem deu a esmola e com que o acompanhara com o carro carregado de milho era São Francisco, o sento a quem o seu patrão rezava todos os dias um Pai Nosso.

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EU ME OFEREÇO A JESUS

Quinta-feira, 03.12.15

 

Eu me ofereço a Jesus,

À sua bendita mãe,

À sua bendita cruz,

À hóstia consagrada.

Ao menino Jesus.

Ao sagrado Pai Eterno

Ao Senhor Sant'Antonho

Em Roma foi nascido

E em Roma batizado,

Lá tem seu corpo sepultado.

Que me livre do poder,

Do Demónio infernal,

E do pecado mortal.

Que não empece em mim.

Nem tenha essa autoridade.

O meu guia é Jesus,

O meu patrono São José.

Na minha última agonia.

Valei-me Jesus, Maria, José.

 

Oração Antiga – Fajã Grande.

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O MILHO DA FONTINHA

Quarta-feira, 02.12.15

Naquele ano, meu pai encheu de milho uma terra que tinha na Fontinha, em frente à casa de Tio José Teodósio, junto a um fontanário que ali existia. O terreno era muito fértil, produtivo, fora bem estrumado e o ano bom de milho. A Fontinha produziu milho como nunca. Maçarocas enormes, robustas, admiravelmente suculentas, admiradas e elogiadas por quantos ali passavam e olhavam por cima das paredes.

Perante tão desabitual abundância, que em anos anteriores meu pai nunca enchia aquela terra de milho, meu tio Luís logo se disponibilizou para acarretar tão exuberante colheita para casa, de carro. Criara uns bezerros, agora gueixo e gueixa, fortes e possantes, bons para a canga. Ele um belo modelo de bovino, quase todo branco, manso, robusto, filho da Mimosa, a puxar pela direita e a quem alcunhara de Damasco. Ela lavrada de preto e branco, um projeto falhado de vaca parideira que permanecia teimosamente incólume na sua virgindade, incapaz de parir e de se tornar uma vaca boa de leite como a mãe, a Formosa. Tio Luís, com uma arte e paciência desusadas, ensinara-os e habituara-os na canga que era um regalo. Trabalhavam na perfeição, de dia ou de noite, puxando carros, corsões, lavrando, gradeando sem ninguém diante, o que fazia inveja a muita junta de bois.

Meu pai mostrou algum desinteresse e, inicialmente indeferiu a disponibilidade do cunhado. A terra era muito perto de casa. Sempre acarretara o milho da Fontinha em cestos, às costas. Mas como Tio Luís insistisse, meu pai anuiu e combinou-se o dia.

Meu pai levantou-se muito cedo e, ao amanhecer, quando chegámos, já tinha meia terra apanhada. A meio da manhã a tarefa estava terminada e as belas e amareladas maçarocas jaziam, amontoadas umas sobre as outras, em enormes montículos, à espera do transporte que as havia de trazer até à nossa casa, na Assomada, baldeando-as pela porta dentro, atafulhando a cozinha quase até ao teto. De tarde haviam de ser encambulhadas e dependuradas no estaleiro.

Chegou tio Luís com os gueixos encangados a puxar o carro. A Maria Pedra, filha adotiva de Tio José Teodósio, a quem catrapiscava o olho desde há muito, apareceu, de imediato, por dentro dos vidros e por detrás das cortinas. Mais para se vangloriar junto da amada, talvez para a impressionar e ser admirado, tio Luís não se fazia rogado. Meu pai preferia que o carro estacionasse fora da terra, junto à parede e que o milho, enchido nos cestos, fosse baldeado lá para dentro, de cima da parede. Mas o tio Luís não lhe deu ouvidos. Abriu, de rompante, o largo portal de pedras pesadas e irregulares que só se abria no dia em que se acarretava o esterco e entrou com o carro pela terra dentro, desfazendo milheirais, calcando uma ou outra maçaroca e cravando profundas rilheiras no terreno amolecido pelas chuvas dos dias anteriores.

De seguida o milho foi sendo, aos poucos e às macheias, atirado para dentro da ceira de vimes que o tio Luís havia prendido aos fueiros do carro, até ficar cheia. Depois, escolhendo as maçarocas maiores, tio Luís fez uma espécie de borda falsa, espetando-as umas a seguir às outras, muito bem apertadas e prensadas, o que permitiu aumentar a capacidade da ceira, que se encheu de novo. Tio Luís, pachorrentamente e com alguma arte e sabedoria, voltou a fazer uma outra borda e depois várias outras até terminar no centro do carro, formando assim uma espécie de zigurate do antigo Egipto. Terminada a obra, para encanto meu e mais uma vez contra a opinião do meu progenitor, sentou-me em cima da carrada de milho. De seguida deu ordem às rezes para que andassem e conduziu o carro na direção do portal. Agora, já com a janela aberta, a Maria Pedra observava e admirava, encantada, todas estas operações.

A saída do portal da terra para o caminho era irregular e, para descer a Fontinha, obrigava os bovinos a virar à esquerda, com alguma celeridade, pois o caminho era apertado. Além disso as rezes eram acicatadas pelos desejos cada vez mais evidentes em tio Luís de impressionar a Maria Pedra. Eu, escarrapachado em cima do carro de milho, delirava em deslumbrante aventura.

De repente, a roda esquerda do carro salta sobre um enorme calhau bem encravado no limiar do portal. O carro dá um enorme solavanco e tomba por completo para a direita, espalhando-me a mim e à quase totalidade do milho no meio do caminho. A minha sorte foi de que ao embrulhar-me com as maçarocas, estas serviram-me de almofada protetora, pelo que apanhei apenas umas arranhadelas e um enorme mamulo na cabeça.

Eu chorava. Tio Luís vergastava os gueixos para que se levantassem e culpava-os. A Maria Pedra punha as mãos e rezava. Meu pai barafustava e praguejava:

- Ó alma do diabo, para além de me espalhares o milho quase todo, mais um nada e davas-me cabo do pequeno!

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O PONTO MAIS OCIDENTAL DA EUROPA

Terça-feira, 01.12.15

O ponto mais ocidental da Europa é o ilhéu do Monchique, localizado a oeste da ilha das Flores, mais concretamente, em frente à orla costeira da Fajã Grande, também ela a localidade mais ocidental da Europa. Assim, dos vários ilhéus situados ao longo da costa das Flores, o mais emblemático, o mais mítico, o mais exuberante e o mais conhecido é o Monchique. Tudo, porque este o pedaço de lava vulcânica mais ocidental da Europa, serviu nos tempos da navegação astronómica, como ponto de referência para acertar as rotas e verificar os instrumentos de navegação aos inúmeros navios e embarcações que por ali passavam ligando a Europa e a África à América. Trata-se duma enorme e altíssima rocha basáltica, em forma de torre, achatada na parte superior, encravada no meio do oceano, situado a cerca de cinco milhas da Ponta dos Pargos, na Fajã Grande. O interesse, a importância e o significado deste fragmento de lava adormecido no meio do Atlântico, na verdade, advêm do facto de ele ser o ponto mais ocidental de Portugal e da Europa.

O Monchique, atulhado de cracas, sargaços, algas, lapas e búzios, é um enorme rochedo de sólido basalto, provável resíduo de um cone litoral desmantelado pela erosão marinha. Apresenta uma forma irregular, o que confere aos seus fundos circundantes uma espécie de microrrelevo acentuado. São também essas formas irregulares que, em parte, permitem que seja visto com formas diversas, quando observado de longe e de lugares diferentes, como da Fajã, do Albarnaz, do Corvo ou até do alto da Rocha.

O Monchique também se revela de grande interesse para os biólogos, para os estudiosos da fauna marítima e para os mergulhadores submarinos, uma vez que são numerosas as cavidades submarinas nas suas encostas e no seu sopé e, além disso, está no centro de uma região de grande diversidade biológica, com cerca de uma centena de espécies marinhas identificadas, ao seu redor. Mas a razão principal do seu interesse e importância, advêm-lhe do facto de, na realidade, ele ser o ponto mais ocidental da Europa e disso se orgulha o concelho das Lajes e suas gentes.

Interesse e significado tem também o Monchique por ser uma espécie de ex-libris da Fajã Grande, por fazer parte da sua história, da sua cultura, dos seus costumes e até dos seus ditos ou falares. Na verdade, consta que alguns dos nossos avós, em tempos muito remotos, dançaram a chamarrita em cima do Monchique, que outrora se realizavam excursões e passeios do Porto da Fajã exclusivamente para o Monchique, a fim de os visitantes poderem observar e ver de perto as suas rochas e encostas, as suas veredas e as espécies marinhas que o revestem e circundam. Entre estas viagens, algumas destinavam-se exclusivamente à apanha de lapas, que as havia por lá grandes e boas, ou até de cracas, embora estas fossem de mais difícil captação e menos rendosas a comer. Muito usada na Fajã Grande era a expressão “por trás das raízes do Monchique”, a significar que algo era muito difícil ou até impossível de ter acesso, ou ainda esta outra “Quem te dera debaixo das raízes do Monchique” a indicar que se não gostava ou não se queria ver alguém.

Para a ganapada miúda de outrora o Monchique entrava em muitas das brincadeiras, pois sempre que se divertiam com barcos de madeira ou de papel, em qualquer pequeno lago, poço ou celha cheia de água, lá estava sempre no meio, uma pedra negra, de plantão, a representar e simbolizar o Monchique. Outras vezes faziam-se apostas, quando um barco surgia no horizonte, a ver quem adivinhava se ele passaria por dentro ou por fora do Monchique.

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