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O PRIMEIRO DIA DO ANO NA FAJÃ GRANDE NA DÉCADA DE CINQUENTA

Sábado, 02.01.16

O primeiro dia do ano, ou dia de Ano Novo, sobretudo para as crianças, na Fajã Grande, nos anos cinquenta, era um verdadeiro dia de festa. A última noite do ano, no entanto era como todas as outras. Destinada ao sono. No entanto, antes de adormecer, as crianças ouviam todos os anos uma curiosa lenda, segundo a qual, à meia-noite, no Outeiro, junto à cruz, o Ano Velho e o Ano Novo travavam uma árdua luta, com o objetivo de decidirem entre si quem ficaria a mandar no próximo ano: se o Ano Velho se o Ano Novo. Assim adormeciam nas suas camas de palha e casca de milho, uns agarrados aos outros, muito bem cobertos e caladinhos, com os olhitos muito arregalados por fora dos cobertores, com os ouvidos à escuta, a tentar descortinar algum ruído ou barulho indicador da luta e a desejar que fosse o Ano Novo a vencer. E não é que tinham uma sorte danada, pois no dia seguinte de manhã, ao indagar junto dos adultos quem teria sido o vencedor, havia sempre uma fonte fidedigna que jurava que tinha sido o Ano Novo a vencer a peleja. Outra lenda, esta mais destinada aos adultos, era a de que tudo o que acontecesse neste dia havia de acontecer durante todos os dias do ano. Assim quem trabalhasse neste dia havia de trabalhar todos os dias do ano, pelo que este dia deveria ser um dia de descanso.

Mas a grande festa era de tarde. Depois da missa e do jantar, sempre melhorado nesse dia com galinha guisada, inhames, linguiça e torresmos, as crianças que nos dias anteriores haviam formado grupos e ensaiado os cânticos adequados, percorriam todas as ruas da freguesia, a cantar os Anos Bons, junto das portas de quase todas as casas, exceção para as que estavam de luto ou tinham algum enfermo em estado grave. Em cada grupo havia um chefe ou líder que tinha como funções principais formar, preparar e liderar o grupo e ainda a de receber o dinheiro e no fim o dividir, equitativamente, por todos os membros do grupo. Durante a tarde do dia de Ano Novo lá iam pelas portas das casas, tocando gaita, ferrinhos e cantando, a fim de que a dona da casa desse uma moedita ou um copinho de licor ou uns figos passados.

Chegados junto à porta da sala de cada casa cantavam:

 

Anos Bons e tão Bons Anos,

Deus vos dê de melhorados,

Tudo isto passou Cristo

Perdoai nossos pecados.

 

Ó senhora dona da casa

Raminho da salsa crua

Lá aos pés da sua cama

Nasce o Sol e põe-se a Lua.

 

Se a porta se abria logo, sinal de que a dona da casa daria alguma coisa, cantavam esta quadra:

 

A senhora Mariquinhas

Assentada na cadeira

Parece um botão de rosa

Apanhado na roseira.

 

Se a porta demorava em abrir-se ou nem se abrisse, sabendo o grupo que a dona estava em casa, cantava:

 

Ó Senhora Mariquinhas

Coração de pedra dura,

Venha-nos abrir aporta

Estou co’a mão na fechadura.

 

No fim do dia, já ao anoitecer, o chefe de cada grupo dividia o dinheiro, equitativamente por todos. Geralmente dava mais do que um escudo a cada um, o que já era muito bom! Cada qual ia comprar um chocolate, por vinte centavos e guardava o restante para o dia da Festa da Senhora da Saúde.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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