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RESSARCIMENTO

Terça-feira, 02.02.16

Há alguns anos, no início de um novo ano letivo foi-me atribuída uma turma vinda da, então denominada, quarta classe. Havia de tudo. Um punhado de bons alunos, educados e trabalhadores, possuindo competências e capacidades de aprendizagens invejáveis. Outros, a maioria, assim e assim. Finalmente, uma diminuta parte, constituída por um grupo de pequenos meliantes, pouco interessados, permanentemente distraídos, desanexados dos livros e desleixados nos trabalhos, revelando inúmeras dificuldades de aprendizagem. Como se isto não bastasse, ocupavam os recreios com brincadeiras violentas e, por vezes, estúpidas, que, para além de amachucarem e ofenderem os colegas, punham os cabelos em pé a professores e funcionários.

Entre os primeiros havia um aluno pequeno, franzino e indefeso que aparentava uma origem disfarçadamente burguesa e um feitio revelador de uma excessiva proteção familiar, nomeadamente por parte da avó, que passava os dias à porta da escola e não dava tréguas à Diretora de Turma. O aspeto físico do garoto, o feitio ameninado que transparecia dos seus gestos e atitudes e o exagerado protecionismo por parte avó, transformaram-no em alvo preferido de chacota na turma.

Preocupado com a situação do “Pedrinho” e analisando-a melhor, verifiquei que havia um aluno na turma, um dos mais atrevidotes do grupo dos meliantes, que se envolvia, permanentemente, em confusões, em brigas e em zaragatas, mas com o “Pedrinho nunca se metia. Pelo contrário, protegia-o com notório e exagerado cuidado. Se o insultavam era empurrão garantido ao ultrajante, se lhe batiam era bofetão certo no agressor, se o injuriavam era um chorrilho de ameaças intimidativas.

Tão exagerado protecionismo inquietou-me. Percebi que algo de especial se passava sem, no entanto, entender o que quer que fosse.

Por isso, certo dia, no fim duma aula, pedi ao Hugo (assim se chamava o suposto paraninfo do “Pedrinho”) para não sair da sala, com os outros. Queria falar com ele. Barafustou, crispou-se, mas lá esperou contrariado.

Depois de todos saírem e de eu ambientar a conversa, perguntei:

- Olha lá. Tu és parente do Pedrinho?

- Não.

- És vizinho ou amigo dele?

-Não?

- Então porque é que estás sempre a protegê-lo quando lhe batem ou o ofendem e não fazes isso aos outros?

Baixou os olhos e calou-se. Como eu insistisse, ele, continuando absorto e sem olhar para mim, respondeu simplesmente:

- Não sei.

Cada vez mais intrigado, insisti. Não respondeu. Depois, sempre com os olhos fixos no chão, indagou:

- Se eu lhe contar o Setôr não vai dizer nada à Diretora de Turma?

- Claro que não. Podes falar à vontade.

- Nem vai fazer queixa ao Conselho Diretivo.

Que não ia fazer queixa a ninguém, que estivesse descansado, que aquela conversa ficava entre nós.                                                       

Permanecemos os dois em silêncio, durante algum tempo. Finalmente o garoto levantou os olhos e olhou para mim. Foi então que vi à minha frente um rosto que, apesar de queimado pelo Sol e salpicado de sujidade, revelava um débito indefinido de ternura misturado com uma sinceridade incontroversa. Foi então que eu vi uns olhos azuis, ofuscados por lágrimas, mas sinceros, a difundirem um arrependimento autêntico e um remorso verdadeiro. Foi então que eu vi uma criança fustigada pelo infortúnio, mergulhada na desventura, travada pelo intransponível tapume da injustiça humana, mas ávida de saldar e ressarcir o “seu crime”. Estancando com as costas da mão o monco que lhe escorria do nariz, aos soluços, o Hugo disse-me com medo, com muito medo:

- Setôr, eu… uma vez … gamei… gamei cem paus à avó dele

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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