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MATANÇA

Quinta-feira, 04.08.16

O Silvestre todos os anos, uns dias antes do Natal, matava um porco. Engordado ao longo do ano com os cuidados excessivos da mulher que passava horas e horas a alimentar o bicho, os porcos que o Silvestre matava em cada ano eram coisa que se visse. Grandes, gordos, pesados, com uns bons palmos de toucinho no lombo. Os porcos do Silvestre eram sempre muito gabados por todos.

A matança do Silveste era um verdadeiro dia de festa. O Silvestre convidava sempre os familiares e os amigos, muitos amigos. E no dia da matança a casa do Silvestre enchia-se como nunca. Muitos ajudavam-no a apanhar o bicho, a meter-lhe a faca, aparar o sangue, lavá-lo, raspá-lo, barbeá-lo e até a abri-lo. Depois de um lauto almoço, onde não faltava, inhames, peixe assado, polvo guisado, a molha de carne e até bifes de toninha, tudo acompanhado com o vinho de cheiro que o próprio Silvestre ia buscar à adega, era o “desfranchar” do bicho, esquartejando-o, partindo, cortando, serrando, picando a carne para a linguiça, derretendo os torresmos. As mulheres numa azáfama medonha, a lavar tripas, a preparar as morcelas e a fazer os bifes para o jantar.

E à noite a casa do Silvestre enchia-se, não apenas dos que haviam ajudado durante o dia mas tmbém de muitos outros amigalhaços que, a convite doSilvestre, ali chegavam apenas com a intenção de jantar e depois, quiçá talvez jogar as cartas.

Quem nunca faltava â matança do Silvestre era o amigo Matias. Era um costume de há muitos anos, uma espécie de tradição que não podia diluir-se. Todos os anos o Matias, a mulher e os filhos eram presença certa na matança do Silvestre.

Um ano houve em que o Matias tinha em sua companhia um sobrinho. Filho duma irmã que morava na Serreta, na ilha Terceira. O rapaz ao acabar os estudos no liceu de Angra, fora estudar economia para Coimbra, onde se formara. Terminado o curso, ao regressar aos Açores, decidiu-se por concorrer para as Finanças. Como rareassem vagas na Terceira, a pedido da mãe, concorreu para o Pico, sendo colocado na Madalena, para gáudio da progenitora. O convite que o Silvestre fazia era para toada a família, incluindo o sobrinho.

O rapaz, embora tímido e pouco à vontade, acabou por aceitar o convite, comparecendo em casa do Silvestre, apenas à noitinha, para o jantar. Sentaram-se à mesa, aumentando os cuidados e exagerando nas atenções que em casa nunca lhes havia entrada tão ilustre visitante. O senhor doutor merecia todas as atenções e comidinha à farta. A abundância do cardápio e a excelência do repasto havia de ocultar e sublevar a pobreza e humildade do casebre do Silvestre.

Quem mais se esmerou em cuidados e atenções à volta do senhor doutor, foi a filha mais velha do Silvestre, a Lucília, muito solícita, a colocar-lhe na frente travessas de inhames fumegantes, bifes de lombo muito bem temperados e rodelas de morcela frita, muito frescas e a cheirar a cebola e temperos. Lucília não era bonita, mas era deliciosamente bela e encantadora. Não era linda, mas era fascinante e atraente. O rosto acentuadamente moreno, com uma boa parte encoberta por um cabelo muito negro, liso e sedoso. Tinha um ar destemido, ousado, quase selvagem embora simulasse, sobretudo ao aproximar-se de tão ilustre hóspede com uma simulada timidez. Tinha um sorriso muito límpido e transparente e resplandecia um encanto sublime e uma ternura atraente.

Terminado jantar os homens fumaram, a maioria tomou o seu traçadinho, outros um copo de aguardente pura, mas da boa, da safra do Silvestre. Mas o senhor doutor não estava habituado a estas bebidas… O Silvestre que sim e ele que não… Insistência daqui e recusa dacolá, até que a Lucília veio resolver a contenda com um cálice de angelica, pese embora, perante os protestos da rapariga que, com unhas e dentes defendia o senhor doutro das risotas e garçolas dos outros que afirmavam, à socapa, que aquilo era bebida de mulheres.

Sentaram-se, de novo á mesa, à mesa para as cartas. E como o senhor doutora fazia par com o Silvestre, logo após a primeira partida a dar um capote, fosse muito elogiado o senhor doutor pela sua hábil e sábia arte de jogar e Lucília nem por nada queria perder aquele momento. Inquieta, a arfar desejos e a vassalar-se numa tremenda paixão que o primeiro olhar dele, terno meigo e sedutor consubstanciara veio sentar-se ao seu lado. Pouco depois os seus corpos tocavam-se, ao de leve, inicialmente e depois com uma maior e mais destemida intensidade…

No dia seguinte foi ela que se adiantou, a, como era costume, ir levar uma postinha de carne e uma morcela a casa do amigo Matias. Foi o senhor doutor que a recebeu porque não estava mais ninguém em casa. Ele muito preocupado e aflito e ela nervosa e decidida. Iam despedir-se. O tio Matias havia de agradecer ao pai.

Mas antes de sair, Lucília, num impulso da sua gigantesca e indomada paixão, sem que ele o persentisse, deu-lhe um enorme beijo que havia de selar o amor que entre eles, nascia naquele momento.

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