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A FILARMÓNICA SENHORA DA SAÚDE

Segunda-feira, 08.08.16

Foi à Praça, areópago de crítica e da má-língua mas também berçário de projectos e planos, onde os homens descansavam à sombra nas tardes escaldantes de Verão, que, no final da década de quarenta, nasceu a ideia de criar uma Filarmónica, na Fajã Grande, ilha das Flores. A decisão final, no entanto, só seria tomada, naquele ano em que a Filarmónica da Lomba, contratada para abrilhantar a festa da Senhora da Saúde, uma das maiores da ilha das Flores, falhou o compromisso assumido, faltando à festa, por alegadas razões de mau tempo.

Inicialmente poucos apoiavam tão ousado desiderato. Com o tempo, porém, tão grande foi a insistência dum pequeno grupo que pouco a pouco a ideia foi germinando, nas mentes dos mais afoitos: comprar uma Filarmónica não era um projecto de todo impossível, para a freguesia. Para isso bastava que todas as casas oferecessem o leite do primeiro domingo de cada mês. As contas eram fáceis: mais ou menos duzentas casas a uma média de dez litros de leite por mês, eram dois mil litros. Em doze meses seriam vinte e quatro mil litros. Se todos entrassem, daria à volta de trinta e cinco a quarenta contos por ano. Em nove ou dez anos, porque havia que pagar os juros, a Filarmónica estaria paga.

O plano era aliciante. Para a sua concretização bastou que, num domingo, no fim da missa, o pároco anunciasse da grade:

- Hoje à tarde há uma reunião na Casa do Espírito Santo de Cima, na qual devem participar todos os chefes de família. Vamos decidir se a freguesia vai comprar uma Filarmónica. Basta que cada um ofereça o leite do primeiro domingo de cada mês, durante alguns anos. Os poucos que, como eu, não têm vacas, darão o valor correspondente em dinheiro. É preciso é que todos participem!
No Verão de 1951, houve grande agitação em toda a freguesia. Os instrumentos estavam a chegar. Vinham de Lisboa, no Carvalho de Julho.
Um grupo de jovens com melhor ouvido e mais apetência para a Música, já há muito que se havia iniciado no solfejo, enquanto outros aperfeiçoavam o que tinham aprendido na tropa. Finalmente chegaram os instrumentos! Vinham dentro de enormes caixotes, protegidos com palha e farripas e brilhavam como prata! Dois contrabaixos, dois bombardinos, duas trompetes, dois trombones, duas trompas, dois cornetins, um saxofone, cinco clarinetes, uma requinta, o bombo, a tarola e os pratos. Tudo direitinho e em óptimas condições. Distribuíram-se pelos diversos músicos, de acordo com as capacidades de cada um e intensificaram-se os ensaios, agora sob a orientação de um sacerdote, professor de Música do Seminário de Angra, que vinha habitualmente, passar férias à freguesia, donde era natural.

No fim de Agosto estava tudo preparado e afinado. A banda estava, na abalizada opinião do maestro, preparadíssima para actuar. A inauguração e a primeira apresentação em público foram agendadas para o dia da festa da Senhora da Saúde, a maior festividade que se realizava na freguesia e uma das maiores da ilha.

A festa foi de arromba! Vieram, como convidadas, todas as Bandas Musicais das Flores e até Lira Corvense! Veio clero, autoridades e povo de toda a ilha.
Na Casa do Espírito Santo de Cima, os músicos fardados a rigor, calças e boné brancos, casaco azul com botões amarelados, acotovelavam-se nervosos, apreensivos e de instrumento em riste. Fora as restantes Filarmónicas esperavam pacientemente que o cortejo se organizasse. O Ouvidor das Lajes, paramentado a rigor, leu algumas orações em latim e aspergiu água benta sobre homens e instrumentos, traçando, vezes sem conta, cruzes no ar.
Pouco depois formou-se o cortejo em que seguiam as bandas convidadas. As ruas estavam engalanadas com bandeiras multicolores e o chão atapetado de pétalas e verdura, como se duma procissão se tratasse. Das varandas e janelas pendiam colchas de seda, no ar estalejavam foguetes e os sinos repicavam festivamente.

A seguir à missa, num coreto provisório, colocado no adro da igreja, as bandas tocaram à porfia. E a opinião era unânime: - a que melhor tocava era da Fajã. Pudera! Se os instrumentos estavam tão fresquinhos… Passou a chamar-se “Filarmónica União Musical Senhora da Saúde” e a partir de então abrilhantava todas as festas da freguesia, sendo muitas vezes convidada para tocar noutras partes da ilha, enquanto o leite do primeiro domingo de cada mês, com que quase todos contribuíam, ia pagando os juros.

Os anos passaram e a Filarmónica foi paga com o dinheiro do leite oferecido por todos, no primeiro domingo de cada mês. Dezenas e dezenas de jovens aprenderam música, para substituir os que se ausentavam ou simplesmente desistiam. Todos se orgulhavam da “Senhora da Saúde” e acarinhavam-na, porquanto consideravam a importância que ela tivera no desenvolvimento sócio cultural da freguesia.  

 

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