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PARTE VIII - VII ATO CENA 16

Quinta-feira, 23.03.17

ÁLVARO     (Entrando numa correria) – Ei! A bênção avó!

AVÓ             - Deus te abençoe e te faça um santo. Mas tu não devias estar a dormir? A que horas vocês chegaram?

ÁLVARO     - Chegámos à Ponta às três e à Fajã às quatro.

GRAÇA       - E a que horas caminharam de Ponta Delgada para chegar a essas horas? Dizem que de Ponta Delgada aqui, a andar devagar são mais ou menos cinco horas. Saíram às onze e atravessaram o mato à meia-noite! Credo! Santo Deus!

ÁLVARO     - Não tia. Nós saímos de Ponta Delgada ainda era cedo. Não sei que horas eram… mas estavam a bater as Trindades…

LUZIA         - Então saíram por volta das sete.

GRAÇA       - Por esta altura do ano, em toda a parte, as Trindades são por volta das sete horas.

LUZIA         - Aqui, fui tocar as Trindades ainda não eram bem sete…

JULIANA     - E porque é que demoraram esse tempo todo?

ÁLVARO     - Foi porque nos perdemos.

GRAÇA       - Perderam-se!? De noite!? No mato!? Está ouvindo, mãe? Eles perderam-se nos matos, por isso demoraram esse tempo todo…

AVÓ             - Eu bem dizia… Eu bem sabia… Tinha cá uma coisa dentro de mim que dizia que se iam perder… Foi por isso que pedi tanto a Santa Rita, por eles, para que lhes mostrasse o caminho... Foi um milagre! Um grande milagre1…

ÁLVARO     - Ó avó!...

AVÓ             - Foi um milagre! Foi mais um milagre da minha Santa Rita.

LUZIA         - Ó mãe, deixe-o contar primeiro e depois vamos ver… Também Deus não faz milagres assim, por tudo e por nada…

GRAÇA       - Claro que não… E então com um ateu… Com uma pessoa que nem vai à missa ao domingo…

JULIANA     - Nem cumpriu a desobriga…

GRAÇA       - E este ano, pelos vistos, nem pagou o culto, nem as bulas nem os indultos… A Floripes, coitada, é que ia sempre pagá-los…

ÁLVARO     - Mas querem ouvir ou não?

JULIANA     - Conta lá, conta lá como foi que vocês se perderam.

ÁLVARO     - Foi assim: o senhor Algarvio sabem quem é, o amigo de meu pai, queria que a gente dormisse lá, em casa dele, mas meu pai tinha prometido a minha irmã que vínhamos p’ra casa e teve medo que ela ficasse muito preocupada se a gente não aparecesse. E então, nem por nada deste mundo ficava lá. Depois ele pensava que ia fazer Lua… Meu pai conhece bem o caminho… mas chegámos a uma relva, como a noite estava escura como breu e a gente nem sequer tinha um foco, nós não víamos nada e perdemos o carreiro. E começamos a andar na relva sem saber onde é que estávamos…

JULIANA     - Ui! Que grande mamulo que tens na cabeça! Onde é que fizeste isto? Bateste em algum sítio?

ÁLVARO     - Foi na rocha da Ponta… Eu caí…

AVO             - Valha-me o não sei-que-diga! Teu pai perdeu o juízo! E se tu caías por aquela descampado abaixo!?

ÁLVARO     - Não caía avó. Meu pai foi muito leste! Agarrou-me logo…

GRAÇA       - Então como fizeste o mamulo?

ÁLVARO     - É que meti o pé num rego, tropecei, dei um trambolhão e bati com a cabeça numa pedra…

LUZIA         - E teu pai não pôs nada?

ÁLVARO     - Ó tia!? Não tinha lá nada p’ra pôr. Quando chegámos à Ponta é que entrámos em casa do senhor Gomes e a filha dele pôs-me uma faca fria aqui. Olhe, está ver? Esta muito mais pequeno e já só dói uma pinguinha…

JULIANA     - E ainda foram acordar gente da Ponta a essas horas! É preciso não ter vergonha! Teu pai não tem vergonha nenhuma!

ÁLVARO     - Eles estavam acordados… Estava lá muita gente… o senhor Gomes estava deitado na cama, quase a morrer… Já tinha ido lá o senhor padre dar-lhe os últimos sacramentos.

GRAÇA       - Credo! E entraram lá?…

JULIANA     - Oh! Então já deve ter morrido, porque esta manhã eu ouvi os sinos da igreja da Ponta dobrarem a finados e era homem porque tocou três laudes… Mas no mato? Perderam-se no mato, de noite… e depois?

AVÓ             - Foi Santa Rita… Foi um milagre de Santa Rita… Vamos acender-lhe a luzinha e fazer-lhe as novenas, rezando o terço e as ladainhas…

ÁLVARO     - Ó avó. Não foi milagre nenhum. Sabe como foi que nós descobrimos o caminho?

AVÓ             - Foi Santa Rita, foi Santa Rita que vos acompanhou.

ÁLVARO     - Não foi avó! Fui eu, com os meus pés. Descalcei-me e com os pés a arrastar na relva, descobri o carreiro onde a relva estava mais amachucada e depois meu pai, com as mãos, apalpando uma parede descobriu para que lado ficava a Fajã. Depois foi sempre a andar, andar e quando chegámos acima da rocha a Lua apareceu por trás da rocha dos Paus Brancos.

AVÓ             - Foi um milagre de Santa Rita… Fui eu que lhe pedi tanto para ela vos acompanhar e guiar até a casa…

ALVARO     - Ó avó, então se foi a Santa Rita que nos acompanhou porque é que ela me deixou cair na rocha e fazer este mamulo? Podia-me ter aguentado para eu não cair! (Sai a correr).

AVÓ             -Eu me benzo!... Vamos! Vamos! De que estão à espera? Acendam a luzinha a Santa Rita. Vamos rezar-lhe o terço.

                     Cai o pano.

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