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O GUILHERME, O HOMEM DOS SETE OFÍCIOS

Quinta-feira, 28.12.17

O Guilherme morava na Fontinha, numa casa que ficava em frente à Fonte Velha e paredes-meias com a dos meus avós, de quem era também sobrinho. O seu pai era o Augusto Pimentel, mais conhecido pelo “Arionó” e a sua mãe a Mariana “Batelameira”, nascida do terceiro casamento do meu bisavô materno. Por isso e para além de primo, tratava o Guilherme por vizinho, uma vez que me habituei, desde sempre, a chamar vizinhos aos vizinhos dos meus avós. Além disso, o Guilherme tinha um coração bom e generoso, era um prócer de atitudes prestáveis e solidárias, o que de facto o tornava amigo de todos. Não se lhe conheciam inimigos e ninguém lhe desejava mal ou infortúnio. Deu-me um enorme prazer, uma alegria desmesurada e uma comoção transcendente, passados quase quarenta anos, ver o Guilherme, já de cabelos brancos e alquebrado pelo passar dos anos mas sempre com ar jovial e galhofeiro, num programa recentemente transmitido pela RTP Açores, no exercício de uma das várias actividades que sempre desenvolveu e em que era exímio executante – na manufactura de utensílios de vimes: cestas, cestos e cabazes e afins. Na realidade e para além de se dedicar à actividade de cesteiro o Guilherme ainda exercia outras actividades, não sendo menos eficiente e hábil na execução das mesmas. É que o Guilherme, para além de cesteiro, era agricultor, criador de gado, caiador, tocador de trombone, pescador e admoestador de cães. Um verdadeiro homem de sete ofícios!

Desde pequeno que o Guilherme ajudava o pai na agricultura, lavrando os campos ou simplesmente andando à frente do gado, levando os animais aos prados, ceifava molhos de erva nas lagoas das Águas e da Figueira e acarretava-os aos ombros com desenvoltura e com eles alimentava o gado. O Guilherme carregava às costas pesados cestos de batatas e de inhames, lavrava, sachava, mondava, desbastava, quebrava espiga, rachava lenha e a empilhava-a ordenadamente no cepo ou debaixo do lar da cozinha. Subia a Rocha com desenvoltura e carregava os pesados molhos de lenha do Cabeço da Rocha e do Pocestinho. Levava as vacas a pastar, alimentava-as à manjedoura, atrelava-lhes o corsão ou o arado, ordenhava-as, tirava-lhes o esterco e despejava a urina da poça. Era também o Guilherme quem cultivava e apanhava os vimes com que ele próprio fazia cestos, as cestas e os cabazes, numa palavra era ele que produzia a matéria-prima para obter os produtos finais de cestaria que executava com enorme competência. O Guilherme também tocava trombone na filarmónica “Senhora da Saúde, sendo talvez um dos mais antigos músicos daquela filarmónica, ainda residente na Fajã. O Guilherme era um bom caiador de casas, dava dias para fora e era a seu cargo que estava o caiar da igreja antes da festa da Senhora da Saúde, sendo que era ele o único caiador capaz de o fazer sem colocação de andaimes, subindo e descendo pela sineira, saltando da torre para a cruz e da cruz para a torre, deslocando-se à vontade sobre as cimalhas, chegando mesmo a desafiar os que pela rua andavam, com um à vontade extraordinário. Desde pequeno que se afeiçoou também pelo mar. Aprendeu a nadar no Porto Velho com a ajuda e mestria do pai que também o iniciou nas lides da pesca, tornando-se um exímio pescador. Fartura de peixe em casa era fruto da perícia piscatória do Guilherme. E não é que para o entronizar como o “verdadeiro homem dos sete ofícios” da Fajã Grande, o Guilherme foi um verdadeiro criador de cães dos quais se tornou também um perspicaz e astuto “admoestador”.

Guilherme ou o homem dos sete ofícios. Faleceu hoje, paz à sua alma.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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