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UMA NOITE DE TERROR

Sexta-feira, 02.02.18

José Pereira de Azevedo deitou a mão à taramela da porta de casa já noite escura. Na cozinha, mais atónita do que atarefada, a mulher segurava, no regaço, o pequeno António, num berreiro aflitivo, angustiante e pouco habitual. No lar, entre duas pedras toscas, fumegava um lume frouxo, a definhar-se de instante a instante e como que a deixar a cozinha envolta em penumbra. Sobre o lume, um caldeirão de ferro negro e tisnado, prestes a suspender a cozedura.

Deste há muito que Madalena de São João, numa aflitiva agonia, desistira de atiçar o brasido com uma acha ou sequer com um garrancho. Aguardava com uma ansiedade desmesurada e uma aflição desmedia a chegada do marido. Por isso, mal ouviu o barulho do levantar da taramela da porta da cozinha, que dava para um pequeno pátio exterior, agarrou ainda mais o filho, apertou-o ao peito com maior intensidade e veio postar-se frente à porta, ao mesmo tempo que o marido a abria:

- Credo, homem! Que te demoraste tanto! E eu aqui, numa aflição tão grande! Numa agonia por ele, por mim e por ti! Ainda há pouco, tudo voltou a tremer! Sentiste? Parecia que a casa vinha abaixo… E eu aqui… Sozinha, com ele ao colo… Cheia de medo, sem saber onde me esconder, para o proteger! Agarrei-o, debrucei-me sobre ele! Se a casa desabasse, se estas paredes caíssem eu havia de o proteger e o Senhor Espírito Santo havia de fazer o milagre de salvar o nosso menino.

José arrumou num canto da cozinha o alvião e o foicinho que trazia ao ombro, limpou as mãos num pano amarelado, suspenso da borda de um lava mãos de ferro, arrumado junto do lar, pegou no filho ao colo e abraçou-se a ela, na tentativa de a acalmar. Talvez a sua presença transmitisse tranquilidade ao filho e permitisse à mulher recuperar o ânimo perdido.

Na realidade, Madalena de São João, sentindo a presença reconfortante do marido, calou-se, por uns minutos. Também o menino, vendo ali o pai e, sentindo os seus braços a envolver-lhe o corpito, pareceu aquietar-se um pouco. José sabia que todas as palavras que proferisse naquele momento seriam uma farsa em que ela não acreditaria, mas arriscou:

- Também não foi tanto assim, mulher. Foi grande, foi um grande abalo de terra, é verdade, mas os da semana passada foram bem maiores. – E sentindo que a mulher ia acalmando enquanto o ouvia, acrescentou com mais convicção: - Deus teve piedade de nós. Protegeu-nos e protegeu a nossa casa. Cuidei que isto já tinha acalmado… E há-de acalmar, Deus é pai de misericórdia - e com gestos de carinho e blandícia tentava distrair o pequeno António que, de imediato, estendeu os bracitos vacilantes na direcção da mãe, a querer, também, encavalitar-se no colo dela.

A arfar cansaço e suor, José, aconchegando a si o pequeno, sentou-se num banco, junto ao lar. O lume que a mulher agora se entretinha a reanimar, iluminava-lhe o rosto tisnado de sol, que o filho fixava com ternura.

De repente, um outro abalo, mais forte, mais vertiginoso, mais abrupto, mais terrível, mais apavorante e mais ameaçador do que todos os que durante aquele anoitecer, até então se haviam feito sentir. Seguiu-se um forte estrondo, que acometeu com enorme violência o velho casebre. Madalena expeliu um grito de horror, de aflição e de angústia, ao mesmo tempo que invocava a protecção divina. José, procurando manter uma calma que não tinha, tentava, sem proveito, proteger com o seu, o corpo do filho. Fora um abalo fortíssimo e demorara uma eternidade. Algumas das frágeis paredes do velho casebre começavam a ruir. José Pereira de Azevedo, aconchegando mais o pequeno ao colo, deitou o braço sobre os ombros da mulher e, empurrando-a, à sua frente, saiu de casa, numa correria louca e numa aflição inexaurível.

Na realidade, desde há alguns dias que abalos muito fortes, tremores de terra assustadores, estrondos tão espantosos que pareciam trovões secos, se haviam feito sentir, não apenas, em Santa Luzia, mas também ali ao lado, nas Bandeiras e em muitos outros lugares e freguesias do Pico. Uma tragédia terrível que atormentava e punha em alvoroço as populações. Muitas pessoas já pernoitavam na rua, algumas casas já haviam ruído quase por completo. O medo e o terror haviam-se apoderado de todos.

Aquela noite porém estava a ser a mais trágica, a mais sinistra e a mais desoladora. Uma noite de terror permanente! A pior de sempre! Já iam em mais de meia-dúzia o número de abalos sentidos, desde o anoitecer. Alguns com uma intensidade fortíssima e uma duração prolongada e assustadora.

As ruelas circundantes ao casebre de José Pereira de Azevedo, ao lado da pequena ermida de Santa Luzia, embora fosse Inverno e a noite estivesse muito fria e escura, estavam cheias de gente, de medos, de desânimos, de preces e de súplicas ao Altíssimo. A aflição, o medo, a angústia, o desespero apoderavam-se de todos. Amparando-se e confortando-se uns aos outros, novos e velhos, homens e mulheres, jovens e crianças, numa prece comunitária, imploravam a misericórdia e a compaixão divinas, pediam, publicamente, perdão pelos seus pecados, ao mesmo tempo que se iam enrolando com cobertores de lã, a fim de se protegerem do frio.

Há noites e noites que era aquele martírio sobressaltado, aquele susto contínuo, aquela maldição permanente! Tudo havia começado quase no início do ano e já íamos a seis de Fevereiro. Toda a população vivia num enorme angústia. Todos estavam apavorados e cheios de medo. Quase não pregavam olho, durante a noite, e se adormeciam, era com um passar por brasas, para, logo a seguir, acordarem com um estrondo maior do que o anterior. A pequena casa de José Pereira de Azevedo e os outros casebres de pedra negra e solta, espalhados por aqui e por acolá, ao redor da pequenina ermida, só por milagre do Divino Espírito Santo ainda não haviam ruído por completo.

Estávamos nos primórdios do século XVIII, mais concretamente no início de Fevereiro do ano de 1718 e não apenas a freguesia de Santa Luzia mas quase toda a ilha do Pico vivia num medo e numa angústia permanente desde há algumas semanas assoladas por abalos de terra, constantes, permanentes, pavorosos e aterradores.

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