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JOÃO E ANGELINA

Terça-feira, 06.02.18

Tarde de Inverno! Na aba de uma parede da Silveirinha, a abrigaram-se da chuva e a protegeram-se das intempéries. Ela exausta de carregar um cesto de inhames da Alagoinha, ele vergado ao peso de um enorme molho de lenha do Pocestinho. A chuva, cada vez mais intensa, opunha-se ferozmente à pertinente resistência da aba e começava a penetrar-lhe nos corpos, misturando-se com suores e canseiras. Encolheram-se mais, aconchegaram-se em demasia junto à parede e os seus corpos, tolhidos pela chuva e encharcados de inocência, tocaram-se, ao de leve. Ela mais nova, mais tímida, mais triste, mais dolente, mais silenciosa, mais embaraçada e menos requintada de desejos. Ele mais velho, mais ousado, mais afoito, mais conversador, mais habituado a bailaricos e folias e menos comedido em ousadia. A chuva, agora, caía mais forte, em catadupa e, por mais que se encostassem à parede e por mais que os seus corpos se embrenhassem na aba, não podiam resistir nem à intempérie, nem à troca de afectos. Deram as mãos e estremeceram. Olharam-se de frente e enterneceram-se. E com o cair permanente e cada vez mais intenso da chuva e com um simples acenar de cabeça e com um sorriso do tamanho do mundo, perceberam que tudo começava ali.
Os pais dela rejeitaram, condenaram, intimidaram, proibiram e ameaçaram. As irmãs zombaram, chacotearam, escarneceram e ridicularizaram. Um badameco daqueles, que não tinha onde cair morto, um zé-ninguém com o pai a finar-se, a mãe acamada e com uma irmã tola, um simplório sem sonhos e sem futuro que nem à América aspirava. Que não lhes batesse à porta, o palerma, que havia ouvir das boas. Fosse procurar mulher para junto dos da sua laia. Ela triste, deprimida, magoada, chorosa, sentindo cada vez mais o aperto da sua mão, o calor do seu corpo e a grandiosidade do seu sorrisos. Ele insistiu, nas Águas, nos Lavadouros, na Cabaceira, onde quer que fosse, quer ao sabor refrescante da chuva quer ao calor angustiante das tardes solarengas. 
Certo dia, ele, subjugado ao amor e enchendo-se de coragem, entrou-lhe pela porta dentro, disposto a pedi-la. Enxovalharam-no, tentaram afugentá-lo, pediram-lhe que desistisse, exigiram que a deixasse em paz. Ele emudeceu mas ela ressurgiu, revoltou-se, interpôs-se e declarou, sem rodeios, a sua vontade. Era ele o seu eleito e dele não havia de desistir. Que se não a deixassem concretizar os seus sonhos havia de fugir. Encolheram os ombros… Que fugisse! Era lá com ela. 
Não fugiu ela mas fugiram eles! Uma boda sem bodo, um vestido branco sem folhos e um dia sem festa e sem folia! Apenas uma flor de laranjeira porque isso, sabiam que ela merecia. Mas ele que não lhes entrasse mais pela porta dentro.
João amou Angelina apenas durante catorze anos, porque quis o destino que ela partisse. E ele ficou à espera de também, em breve, ir ao seu encontro.
Destinos cruéis. Traços rasgados a sangue em horizontes perdidos. Sulcos de dor tracejados em sonhos desfeitos. Efémero amanhecer onde a certeza se confunde com a impertinência angustiante de um sofrimento perene. 
João e Angelina escreveram, com pinceladas de sofrimento um amargo poema de amor que até as gotas da chuva caídas, naquela tarde de Inverno, sob a aba de uma parede da Silveirinha, não compreenderam ou não quiseram compreender.

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