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VALÉRIO FLORENSE

Sábado, 07.04.18

Valério Florense ou Florence, como consta no “Dicionário de pseudónimos e iniciais de escritores portugueses” é o pseudónimo literário de um dos mais ilustres filhos da Fajã Grande, o padre José Luís de Fraga e que, ao lado de Pedro da Silveira, ocupa lugar de destaque, entre os mais importantes vultos da cultura açoriana, naturais da ilha das Flores.

Filho de “Ti’Antonho do Alagoeiro”, nasceu em 1901, numa casa da rua da Tronqueira, na década de cinquenta já transformada em palheiro de gado, mas passou a sua meninice e foi criado na casa do Alagoeiro, situada no lugar do mesmo nome, lá para além das últimas casas da Fontinha, rua que actualmente herdou o seu nome. A casa situava-se ao lado daquele descansadouro onde parei tantas vezes para tomar fôlego, aliviar-me dos molhos que trazia às costas e, sobretudo, beber a água fresquinha que saia duma bica encravada num muro, que corria, permanentemente, a manter cheio o poço onde as vacas bebiam. Dizem os que o conheceram e privaram com ele que “era um menino forte, inteligente e bonito. De boa estrutura orgânica, escapou com vida, enquanto os seus cinco irmãos mais velhos, como ele todos Josés, tinham descido a rua empedrada da Fontinha nos seus caixõezinhos de cedro, de branco alvaiados”. Abandonou a ilha para fazer a tropa e estudar e “anos mais tarde voltou, revestido da glória e de feitos intelectuais, para dizer a missa nova na velha igreja de São José; cheia à cunha, a freguesia em peso lhe foi beijar a mão”. Precursor dos padres operários dos anos 60, pois, “apesar de padre ia lavrar com os lavradores, caiar a Igreja com os caiadores, à pesca com os pescadores”. Para além de sacerdote humilde e exemplar, distinguiu-se como músico exímio, como orador eloquente e como poeta de sensibilidade requintada. Deixou um espólio notável, quer a nível musical quer literário, encontrando-se o mesmo, felizmente, em boas mãos, até que alguém com responsabilidades a nível da cultura açoriana o divulgue junto dos seus conterrâneos, prestando-lhe a homenagem que merece.

Tive o privilégio de privar com ele no último verão em que visitou a Fajã Grande. Apesar de vítima de Parkinson, revelava uma lucidez, uma sabedoria e uma cultura invejáveis aliadas a uma bondade, a uma ternura e a uma sensibilidade adoráveis. A cegueira de que também sofria levara o Bispo da Diocese a autorizar que celebrasse apenas as duas missas, naquele tempo ainda em latim, com textos mais pequenos e que ele sabia de cor: a missa votiva de Santa Maria in Sabato e a missa Quotidiana dos Defuntos. Naquela altura habituado eu a revirar, de trás para frente e da frente para trás, compêndios, manuais e outros calhamaços em latim, ofereci-me para ler, em vez dele, as partes variáveis da missa, da liturgia de cada dia, permitindo-lhe assim recordar e saborear a liturgia da palavra e a mensagem litúrgica de cada dia. Também adorava passear, sobretudo, pela tardinha. Pressentindo-o, dispus-me a acompanhá-lo. Percorremos e voltamos a percorrer o Areal, as Furnas, o Porto, o Delgado e a Bandeja e creio que se lhe tivesse proposto subirmos a Rocha ele teria aceitado de bom grado, talvez para me fazer a vontade. Foram longos e quotidianos passeios, durante os quais muito aprendi sobre história, sobre literatura, sobre cultura geral e, muito especialmente, sobre poesia.

Nascido na Fajã Grande, Lajes das Flores, a 6 de Outubro de.1902  e tendo falecido em Fall River, nos Estados Unidos da América, a 21 de Junho de 1968, José Luís de Fraga fez os estudos primários na Fajã Grande, depois de estudou no Liceu de Angra do Heroísmo e cumpriu o serviço militar obrigatório. Só então deu entrada no Seminário de Angra, completando o curso de Teologia e ordenando-se sacerdote, em 1927. Depois de ter ensinado naquele Seminário a disciplina de Música e exercer o cargo de prefeito, foi colocado nas paróquias de Santa Luzia, ilha Terceira, Castelo Branco, ilha do Faial, e Santa Cruz das Flores, esta em 1929. Por razões que provocaram a contestação dos paroquianos, em 1940, foi transferido para a paróquia da Ribeira Seca, ilha de S. Jorge. Onde se manteve até ao início da década de quarenta. Em 1943, foi colocado na vila do Nordeste, ilha de S. Miguel, sendo, em 1947, transferido para a paróquia de São Pedro, da cidade de Ponta Delgada e em 1957, para Vila Franca do Campo, onde exerceu as funções de ouvidor.

Quando, em 1968, visitava os Estados Unidos da América, morreu no seguimento de um acidente de viação.

Com o pseudónimo Valério Florense, deixou colaboração dispersa por jornais e revistas. No jornal As Flores, publicou, entre outros, os conjuntos de artigos Cartas de Longe e Impressões de uma Viajem a Roma. Deixou várias obras que interessam à música popular, fez recolha do folclore açoriano. Publicou vários livros de poesia, sobre a qual Ruy Galvão de Carvalho escreveu: « (...) é de feição geralmente tradicional, e os temas que trata inspiram-se em fontes populares, regionais e bíblicas. É, além disso, uma poesia descritiva e sugerida, evocativa e circunstancial, sem todavia deixar de ser pessoal e sincera, íntima e espontânea.»

NB - As citações não referenciadas são da sobrinha M. A. Fraga.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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