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AZÓRICAS

Sábado, 14.04.18

(TEXTO DE MARIA ANTÓNIA FRAGA)

Quando os navegadores avistaram ao longe as ilhas atlânticas, terão sentido a vontade compreensível de as visitar, não só pela curiosidade natural do descobridor como também para obter água e mantimentos frescos, e já agora para delas se apossar, em nome de El-Rei e para glória de todos. Abrigados os pequenos barcos nas poucas angras viáveis, ei-los que desembarcam num território que até então só pertencia às aves e à vegetação – e pouco mais.

Nas zonas mais baixas, encontraram as plantas de costa, tão densas em alguns locais que até o nome deram à ilha em questão; é o caso das Flores, que terá sido deste modo chamada por se encontrar literalmente coberta de cubres amarelos, na orla costeira, e decerto não de hortênsias azuis, como sucede hoje, mas que parecem ter achado nessa ilha, como um pouco por todo o arquipélago dos Açores, o seu verdadeiro lugar ao sol. Sol suavizado, é certo, pela humidade constante, chuvas abundantes e vento fresco, pois poderia ter sido Flores muito bem chamada a ilha das brumas eternas, ou aquela que dá de beber ao mar, segundo um poeta...

Nas zonas mais altas, geralmente acima dos 500 metros nos grupos central e oriental - no ocidental, a menos do que isso - observaram, aflitos (como é que se vai arrotear isto?) a floresta a que hoje nos referimos quase postumanente como laurissilva, ou floresta de louro e cedro, pois dela agora pouco resta, a não ser nos locais menos acessíveis das ilhas (*) como por exemplo a daqui bem próxima serra da Tronqueira. Árvores centenárias, algumas de preciosa madeira, arbustos e vegetação rasteira, (quase) tudo acabou por ser minuciosamente derrubado, desbravado e desmontado, numa actividade a princípio lenta e penosa, tornando-se mais rápida e descuidada com o melhoramento dos utensílios e o advento da perniciosa mania de que o que vem de fora é que é bom, e que levaria à introdução de muitas espécies alienígenas e agressivas para a flora local. Desta, onde estão agora os cedros do mato - em alguns locais conhecidos por zimbreiros ou zimbros – os loureiros, vinháticos, paus-brancos (ou paus-branqueiros), sanguinhos, azevinhos, tamujos e folhados, e quem os conhece hoje? A queiró (ou urze, nalgumas ilhas) lá se foi aguentando e é das poucas relíquias da laurissilva que pertence ao nosso quotidiano; a faia da terra também, até certo ponto, e devido talvez à sua utilização como abrigo para plantas fruteiras.

Muitas destas espécies são endémicas, ou seja nossas e só nossas; a algumas foi-lhes dado até o nome que entre todas as plantas deste mundo as distinguirá: “Laurus Azorica”, o loureiro açoriano; “Erica Azorica”, a nossa urze ou queiró; “Picconia Azorica”, o pau-branqueiro de nobre madeira; “Frangula Azorica”, o sanguinho de flor vermelha, etc.

O olhar do passante recai na mesma, nos dias de hoje, sobre o verde profundo das árvores, mas praticamente só distinguirá as exóticas “Cryptomeria Japonica” de crescimento rápido, sob as quais pouco ou nada consegue sobreviver, alguns “Eucalyptus Globulus” e abundantes incensos, “Pittosporum Undulatum”, também ao que parece introduzidos inicialmente para abrigo de pomares. Verá também outras colonizadoras eficientes, como as canas, “Arundo Donax”, a ornamental e competitiva “Hydrangea Macrophylla”, mais conhecida decerto por hortênsia ou novelão, e as atraentes conteiras (em algumas ilhas, roca-da-velha ou cana-roca), “Hedychium Gardneranum”, que lá por serem bonitas não deixam de ser também uma boa peste de erva, e a pior das ameaças para a pobre e açoriana laurissilva.

Fui buscar boa parte destes nomes, científicos e sonoros, já se vê, a um pequeno e muito útil livrinho, pois a única coisa aqui que é da minha especialidade é a verificação diária da (quase) geral indiferença pública e privada pelo desaparecimento das “azoricas”, quer sejam vegetais quer não. Entretanto, dois aspectos me chamaram a atenção logo à partida no dito livro. Em primeiro lugar, o facto do seu autor ser um estrangeiro - o sueco Eric Sjogren; e em segundo, uma das frases com que inicia o seu precioso trabalho: este livro foi "elaborado para turistas" que se encontrem no arquipélago dos Açores ou planeiem visitá-lo… as aspas são minhas.

Para turistas. E ainda há quem negue que quem está de fora vê melhor, e rapidamente se apercebe daquilo que a casa gasta. Depressa terá constatado Eric Sjogren de que os açorianos não se ralam excessivamente com as azoricas.

(*) nas Flores, junto das casas, praticamente ao nível do mar. Há mesmo, nessa ilha, quem tenha o seu zimbreiro no pátio… estas linhas foram escritas na ilha de S. Miguel, onde infelizmente os restos da laurissilva só se conseguem encontrar em altitudes elevadas.

 

 (Do blog Janela de Guilhotina http://janeladeguilhotina.blogspot e publicado no Correio do Norte)

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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