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A MINHA GUEIXA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Terça-feira, 14.08.18

Sexta-feira, 17 de Maio de1946

“Hoje estou muito contente. A minha gueixa alfeira apanhou boi, já está coberta e vai dar cria lá para Fevereiro. Eu andava muito triste com esta gueixa. Já tinha pensado até embarca-la para Lisboa. Só não o fiz porque ela ajuda-me muito nas lavouras, trabalha muito bem, quer de junta quer de canguinha. Não a quis matar quando ela nasceu, como muitas vezes se faz aqui aos bezerros logo que nascem. Matam-nos porque, para os criar, eles têm que beber o leite das vacas que o pariram, o que para nós, lavradores é um grande prejuízo. Além disso ninguém os quer comprar porque aqui não se come a carne dos vitelos, como na Califórnia. Mas esta bezerra, eu quis criá-la, embora me tenha dado muito trabalho e muito prejuízo. Deu-me muito trabalho a alimentá-la e a ensiná-la a trabalhar, mas valeu a pena. Ela ajuda-me muito a lavrar e gradear os campos, a semear o milho e ainda a puxar o corsão. Mas há uma outra razão porque a criei e ainda não a embarquei: foi por ela ser filha da minha Benfeita, a melhor vaca que tive até hoje, e uma das melhores de toda a Fajã. Mansa, trabalhadeira, boa de leite e de cria e ainda de boa boca. Come de tudo. Mas agora, que está velha tenho que embarcar aquece cramelhano. Sei que me vai custar muito, mas tem que ser e o que tem que ser tem muita força. Agora que a filha se vai fazer vaca, já não vou ter tanta pena de me separar da minha Benfeita. Vou ficar com uma filha dela, que, de certeza, fará com que nunca a esqueça. Oxalá a filha seja em tudo como a mãe. Mas lá que vou ter um desgosto muito grande, lá isso vou.

Eu já andava desconfiado que a maldita da gueixa, mais dia menos dia, ia querer boi. Por isso andava muito atento, sempre de olho nela. Hoje quando a fui levar, a ela e às duas vacas, às Águas, mal chegou à relva, a atrevida atirou-se para cima da outra vaca, da Toucada, Depois corria, saltava e pulava que até parecia doida. Já nem a deixei na relva que ela ia saltar as paredes de tão maluca que estava. Amarrei-a, para ela não me fazer asneiras e lá a levei ao palheiro do Cardoso, ao boi da Junta. Aquilo foi logo, pegou que nem tinha. Tenho a certeza que ficou coberta e há-de dar cria lá para Fevereiro. Assim vou ter que mandar a Benfeita ver os Senhores de Bengala quanto antes. Sei que me vai custar muito… mas lá terá que ser. Eu não tenho erva suficiente nas minhas relvas para três rezes. Por isso assim que vier o arrolador de Santa Cruz arrolar gado para embarcar, a minha Benfeita vai logo. Espero que me dê ainda algum dinheiro.”

 

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