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A FEITICEIRA DO CORVO

Terça-feira, 21.08.18

Era uma vez um homem que regressava, sozinho, do mato, depois de um longo e cansativo dia de trabalho, já quase noite escura. Vinha cansado e carregando, às costas, um pesado molho de lenha. Vinha de longe, do Queiroal e atravessara veredas ingremes e sinuosas, saltando grotões e atravessando valados, até chegar ao Cimo da Rocha. Pensou descansar ali um pouco, mas cuidando que já era muito tarde, resolveu não parar, iniciando a descida. Degrau após degrau, volta atrás de volta, lá foi descendo com muita dificuldade. É que para além do cansaço e do peso que carregava, o caminho era muito íngreme e sinuoso. O escuro da noite ainda lhe dificultava mais a descida. Ao chegar à Furna do Peito, o cansaço já era tal que cuidava não poder continuar a descida e chegar a casa, por isso sentou-se à entrada da furna para descansar. Para entreter o tempo começou a falquejar um pau com a navalha. Era a única forma de se distrair e passar o tempo.

Estava ele entretido no falquejo, quando vinda não se sabe de onde apareceu uma galinha que, saltando por cima dele, entrou na furna e começou a andar de um lado para o outro e a ciscar na terra, esgravatando tudo ao redor do homem, que começou a ficar incomodado com a poeira que se levantado e muito admirado por ver uma galinha naqueles descampados. Passava por ali quase todos os dias, entrava frequentemente na furna e nunca vira uma galinha naquele local. Ela, porém, continuava a esgravatar o chão e a cacarejar sem parar e com insistência. Apesar de o homem a enxotar, ela não saía do pé dele. Já farto, de a ver e de a ouvir, tentou afasta-la, espetando-lhe a navalha.

De repente e para espanto do homem, ao ser picada, a galinha transformou-se imediatamente numa mulher nova e bonita mulher, que se apresentou na sua frente, completamente nua. Apanhado de surpresa, o homem ficou muitíssimo espantado e sem saber o que fazer. Quando recuperou a calma, o homem despiu o casaco que tinha vestido e colocou-o por cima da mulher, como forma de lhe tapar a nudez. A mulher, então, agradeceu-lhe e disse-lhe que era uma feiticeira e que precisava que ele a levasse com urgência até à sua ilha, o Corvo.

O agricultor tentou esquivar-se, dizendo-lhe que a não podia levar, pois tinha a família em casa, à sua espera e que além disso não tinha barco nem era homem do mar. Mas a feiticeira tanto insistiu e tanto lhe suplicou que o homem, compadecido, acedeu. Do mar e do barco havia ela de tratar. Ela pediu, então, que ele lhe pegasse ao colo e desse um passo para trás, mas sem olhar para nenhum lado. Apesar de estar cheio de medo e muito apreensivo, o homem queria ver-se livre da mulher e, por isso, fez o que ela lhe pediu.

Mal deu o passo para trás, olhando à sua volta, percebeu que já estava no Corvo. Aterrorizado e sem saber o que fazer, apenas perguntou:

- E agora? Como volto para as Flores?

Agradecida com o que lhe tinha feito e por a ter salvado, a feiticeira foi buscar um bocado de pano da loja de sua casa e disse que ele o segurasse e desse, novamente, um passo para trás, mas com os olhos fechados. Ele assim fez. Logo se encontrou nas Flores, junto à furna do Peito, onde se sentara para descansar. Era como se esta viagem de ir e vir ao Corvo tivesse acontecido num tempo que não correspondia ao tempo real, fosse uma espécie de sonho.

Assim que recuperou do acontecido, pôs-se logo a caminho de casa, esquecendo-se de deitar fora o pano que a feiticeira lhe tinha dado. Quando chegou a casa, a mulher começou a perguntar onde ele tinha buscar aquele pano com cheiro de mulher e quem lho tinha oferecido. Com medo de falar da feiticeira, o homem não quis contar o que tinha acontecido à mulher. Isto levou a grandes desconfianças e ciúmes por parte dela, que começou a dizer que ele tinha uma amante, levando ao divórcio algum tempo depois.

Esta estória correu pela freguesia e, para que nada de semelhante, voltasse a acontecer foi colocada uma cruz de madeira no interior da Furna do Peito, para afastar as feiticeiras e proteger do perigo os que ali se sentavam a descansar, nas suas idas e vindas para o mato.

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