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VIDA SOFRIDA

Terça-feira, 30.10.18

Meu pai não sabia ler nem escrever, mas acho que era um sábio. Eu fui dos seus filhos o que mais andei com ele a pé percorrendo não só os campos da Fajã Grande, mas até grande parte da ilha das Flores, de dia e de noite, com os pés descalços, de lés-a-lés. Meus irmãos mais velhos iam ceifar e lavrar os campos e meu pai, nas suas idas pelas vilas e freguesias da ilha, a tratar do que necessitava, às Lajes, à Vila, ao Mosteiro, a Ponta Delgada, levava-me com ele por companhia, apesar de eu ser, ainda, muito pequeno. Durante essas viagens aprendi muito. Foram grandes lições que ainda hoje recordo.

Ele era o filho mais novo de um grande grupo de irmãos. Os que sobreviveram, dado que muitos faleceram em criança, pisgaram-se todos para a América e ele ficou só, a acompanhar e tratar dos pais, já muito velhinhos e de uma irmã deficiente mental. O namoro com a minha mãe sofreu grande oposição por parte da família dela, que orgulhosa e altiva, sempre se opôs ao casamento, pois para além de meu pai ser pobre, entendiam os meus avós que ele só pretendia a filha para o ajudar no trabalho e para lhe tratar dos velhotes e da irmã tolinha. Meu pai chegou a ser impedido de entrar em casa de meus avós maternos. Já depois de casado e por solidariedade, minha mãe também deixou de lá ir. Deixaram de se falar, durante algum tempo. Meu pai não era de ir igreja nem sequer pela desobriga pascal. Isso agravou os desprezos que por ele nutriam.

Casaram e os filhos começaram a aparecer com uma “planificação familiar” de fazer inveja aos métodos mais modernos de controlo da natalidade. Os dois primeiros com um ano de intervalo, os restantes de três em três anos. Eu fui o quarto. Vieram mais dois, depois de mim.

Até à morte da minha mãe meu pai viveu, pobre mas feliz, sustentando os filhos com o pouco que as terras lhe davam e com o leite duma ou duas vacas, mas cuja maior parte tinha que ir para a Cooperativa, a fim de que com o dinheiro resultante do leite vendido, comprasse os produtos que a terra não lhe dava. Era o único dinheiro que entrava em casa, mas e infelizmente, só quando a Cooperativa pagava.

Meu pai, em jovem, desempenhou o papel principal numa peça de teatro feita na freguesia. Alguém lhe “soprou” o texto ao ouvido ou ele estudou-o cuidadosamente. Decorou-o todo com perfeição e apresentou-se em palco, com grande performance e competência. Anos mais tarde, já era eu criança, a mesma peça teatral foi representada por outros actores populares e lembro-me de ouvir dizer, às pessoas mais velhas, que a representação de meu pai teria sido muito melhor do que a do actor que agora representava o mesmo papel. E era uma personagem gago.

Meu pai metia-se na sua vida e não na dos outros, nunca o ouvi falar na vida alheia, nunca teve brigas nem zangas com ninguém, não devia nada nas lojas e comprava apenas o que podia e quando podia. Ensinou-me também que nunca deveria pegar em nada que não fosse meu e que devíamos sempre ser gratos para com as pessoas que nos fazem bem. Ensinou-me até a orientar-me nos matos de noite e com nevoeiro. Basta acariciar uma parede com as mãos, a que tiver mais verdura indica-nos o Norte, porque é a mais húmida, porque o Sol lhe bate menos. Meu pai tinha expressões e ditos interessantíssimos, muitos dos quais, lamentavelmente, esqueci. Quando eu, miúdo, me esquivava ao trabalho, o comentário dele era o seguinte: “Lá estás tu a fugir com o cu à seringa”. Perante um problema que surgia aqui ou acolá, comentava “Estamos no mato sem cordas”. Certa vez um fulano que chegara do Faial, com grande vaidade e ar garboso, contava à Praça, perante todos os que ali estavam e ouviam estupefactos, o que tinha visto na cidade da Horta, misturado com algumas mentiras. O meu progenitor comentou, num aparte: “Muito aprende quem sai desta terra, mesmo que vá só até ao Faial”. Outra vez, ele e um irmão dormiam sentados num botequim. Alguém, no gozo, pôs um caniço – símbolo burlesco de pescar sargos - na mão de cada um e, de seguida, acordou-os, simultaneamente. O meu tio, furioso e enraivecido, levantou-se, barafustou, “preguejou” e recriminou e, depois de partir o caniço e o atirar pelos ares, recolheu a casa. Meu pai, muito calmo e tranquilo, pegou no caniço e, simplesmente, disse com ar de felicidade subtil: “Já que mo deram vou aproveitar para continuar a pescar.” – e continuou a dormir, descansadamente.

Certa vez ao passar à frente da minha casa uma rapariga que ostentava um ar vaidoso e empolgante, meu pai saiu-se com esta quadra, não sei se de improviso ou que ele conhecesse de tempos idos:

Não há coisa como a morte,

Para acabar com a presunção,

Um laço de fita preta,

Sete palmos e um caixão.

O que veio irremediavelmente destruir a vida simples e desprendida dele e nossa foi a morte de minha mãe. Meu pai, além de tudo, acho que tinha um coração de oiro e gostava muito de nós e, após o falecimento da minha progenitora, preocupou-se tanto, connosco que acabou por adoecer, acometido por uma grave doença mental. Eu e meus irmãos, ainda eramos crianças. Assistimos e suportamos as trágicas consequências desse trágico descalabro. A tragédia, a desgraça e o infortúnio, desalmadamente e sem piedade, haviam-nos batido à porta e assolado, terrivelmente, o nosso quotidiano. Ainda ficou quase um mês à espera do Carvalho, a fim de se deslocar para a Terceira, sendo internado na Casa de Saúde de S. Rafael, então popularmente conhecida por “Casa Amarela”. Felizmente curou-se e passado algum tempo regressou às Flores, mas já não era o mesmo.

Alguns anos mais tarde e porque a angústia e a temeridade continuavam a açudar-lhe os dias, meu pai voltou a adoecer, sendo, de novo, internado na Casa de Saúde de S. Rafael, donde nunca mais saiu, até à sua morte, no dia 16 de Janeiro de 1966.

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publicado por picodavigia2 às 00:04

A CASA DO CHILENO

Domingo, 28.10.18

A “Casa do Chileno” poder-se-ia, na realidade, considerar, na altura em que eu era criança, como o verdadeiro “ex libris”(1) da Fajã Grande.

Situada quase no termo da Via d’Água, à esquerda de quem descia, o deslumbrante e altivo edifício ficava sobranceiro ao caminho, logo a seguir à antiga casa do Senhor Arnaldo, aquela que existia na curva, em frente ao chafariz e que foi derrubada quando da construção da estrada Porto/Ladeira do Pessegueiro, a fim de desfazer e aligeirar aquela enorme curva em L, ali mesmo em frente à casa de José Furtado. O edifício impunha-se aos que por ali passavam, salientando-se entre os pequenos casebres que o rodeavam, ostentando uma imponente sumptuosidade e um soberbo encanto, envolvendo-se num misto de grandiosidade, de mistério e até de sonho.

Habitualmente desabitado, sabia-se que pertencia a um ilustre fajãgrandense que raramente visitava a freguesia e que ainda jovem partira para o Chile, na demanda de sorte e de fortuna, as quais supostamente e a julgar pela grandiosidade e riqueza do edifício, o haviam bafejado. Daí o seu epíteto de “Casa do Chileno”.

A fachada principal tinha três portas uniformemente distribuídas ao nível do piso térreo. A verga da porta central tinha inscrita a presumível data da sua construção - "1884". No piso superior e alinhadas por cima das portadas do inferior, a fachada tinha três vãos: uma janela de peito axial e duas janelas de sacada com guarda em ferro fundido. Lá bem no alto, por cima do restante casario, quase a desafiar em altura a torre da igreja e muito bem centrado, um belo torreão, raridade na freguesia, com duas janelas de sacada geminadas e com varanda comum, rematadas em arco de volta inteira.

A planta da casa era em forma de L correspondendo a fachada lateral esquerda ao braço maior daquela letra, tendo uma porta no piso térreo e outra ao nível do segundo, ao qual se tinha acesso através duma escada exterior, que dava para a cozinha.

A casa do Chileno, como a maioria das da Fajã, era construída em alvenaria de pedra rebocada e pintada de branco, excepto os cunhais, a cornija, as consolas das varandas e as molduras dos vãos. Apenas a fachada principal da torre era em alvenaria de pedra rebocada e caiada, dado que as laterais eram em ripas de madeira pintada de verde. Por sua vez a cobertura era igual à das restantes casas ou seja em telha de aba e canudo com beiral simples e telhão na cumeeira. A torre era rematada por um interessante elemento decorativo em madeira.

As madeiras interiores eram de pinho e dizia-se que era mobilada com luxuosas mobílias e recheada de louças e móveis também de grande valor, a contrastar com a pobreza e miséria da maioria das casa da Fajã Grande, na altura.

(1)“Ex libris” – é uma expressão latina que significa a “marca” ou a característica fundamenal de alguém, de alguma coisa ou lugar. Por exemplo, um dos “ex-libris” da cidade do Rio de Janeiro é a monumental estátua de Cristo-Rei e de Lisboa a Torre de Belém

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publicado por picodavigia2 às 00:05

PALAVRAS, EXPRESSÕES E DITOS UTILIZADOS NA FAJÃ GRANDE (I)

Quinta-feira, 25.10.18

 

Anamudo – Aquele que não tem medo.

Andar ao deus-dará – Viver irresponsavelmente, sob as ordens de ninguém.

Apanhar sargos – Tontear ou dormitar sentado, deixando cair a cabeça de vez em quando.

Atira-te da roch’ábaixo – Desaparece da minha frente.

Barra – Cama.

Bicho da buraca – Pessoa muito envergonhada.

Bisca malina – Mulher muito má.

Bota sintide – Presta atenção.

Caninos da caixa – Pequena gaveta que existia num dos lados das caixas da roupa e servia para guardar linhas, agulhas, tesouras, dedais, etc.

Deitar as tripas p’la boca fora – Vomitar muito.

Entregar – Proferir o nome do Diabo.

Está muito somenos – Está muito mau tempo ou qualquer outro estado mal.

Estar à mão de semear – Estar a fazer algo que merece um castigo

Estar entre a cruz e a caldeirinha – Estar quase a morrer.

Estar no mato sem cordas – Ter um problema grande e não dispor de meios suficientes para o resolver.

Estar por de trás das raízes do Monchique – Estar perdido ou estar tão longe de algo que se torna impossível alcançar.

Eu me benzo do Coiso-Mau – Expressão de revolta contra algo que se julga errado.

Falquejar – Cortar um pau com uma navalha ou canivete.

Faz trás – Incentivo aos animais bovinos para voltarem no fim de um rego, quando se lavravam os campos, ou noutra situação.

In coire – Completamente nu.

Mulher escoimada – Mulher muito limpa.

Naitigão – Camisa de dormir.

Não parar em ramo verde – Não estar quieto.

Os diabes te levem – Expressão para recriminar  quem fez uma grande asneira.

Pagar com conchas de lapas – Não ter dinheiro para comprar algo.

Pronto pra ir ver os senhores de bengala – Animal bovino, suficientemente nutrido, para ser vendido e embarcado para Lisboa.

Repnicar – Comer pedacinhos de um alimento antes da refeição ser servida.

Ser como as terras do Areal que prometem muito e dão pouco – Prometer muito mas fazer pouco.

Ser da pele do Eira-má – Ser muito mau.

Tá mais à mão – Está mais perto ou está disponível para ser usado.

Ter o diabe no corpe –Ser muito mau.

Tirapuxas - Discussões.

Toca a baixe e/ou toca à riba – Saudação entre duas pessoas, quando passavam uma pela outra, um a descer e o outro a subir.

Toca a descansar – Saudação de alguém que passava por outro ou outros que estavam sentados.

Tremer como varas verdes – Ter muito medo.

Ua grandeza – Grande quantidade.

Ui monços piquenes – As crianças.

Valha-mo nam sei-que-diga. – Expressão usada para indicar grande atrapalhação.

Xisqueiro – Casota do porco, anexa ao curral.

Xou pa trás – Incentivo ao porco ou às galinhas para se afastarem a fim de se lhes poder dar a comida.

 

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CORSÕES DE MILHEIROS E BOIS DE SABUGO

Quarta-feira, 24.10.18

Na Fajã Grande das Flores, como naturalmente em quase todas as freguesias açorianas, no início dos anos cinquenta, não se compravam brinquedos, por duas razões muito simples: primeiro porque não havia dinheiro e, em segundo lugar, rareavam os brinquedos nas tradicionais lojas daqueles tempos.

Assim, excetuando um ou outro automóvel de baquelite ou alguma boneca de loiça que vinham da América muito bem embrulhados nas roupas que traziam as encomendas, éramos nós próprios, crianças de então, que construíamos, por vezes de maneira tosca e rudimentar, todos os nossos brinquedos, a maioria dos quais se baseava ou imitava objetos e utensílios utilizados pelos adultos na sua principal faina quotidiana – a agricultura.

Ora um dos objetos mais imitado na elaboração dos nossos brinquedos era o corsão com que brincávamos em cada dia, em cada hora e em cada minuto. Fazíamos corsões minúsculos com uma rapidez, uma competência e uma agilidade fantásticas. Por vezes fazíamo-los de madeira mas, como esta era rara e mais difícil de trabalhar, utilizávamos habitualmente e como alternativa, as canas do milho. Pegávamos num milheiro ou em dois e cortávamo-los em dois pedacinhos do mesmo tamanho. Depois aguçávamos em forma de proa de navio uma das extremidades de cada um dos pequenos troncos do milho e arranjávamos cinco ou seis “fochos” a fazer de travessas que cravejávamos nos milheiros, formando assim um verdadeiro corsão em miniatura. Faltavam apenas os fueiros, tarefa também muito fácil de concretizar pois bastava apenas fixar mais uns pauzinhos na parte de cima dos milheiros e lá estava o corsão completo. Depois era só carregá-lo com lenha, incensos, ervas, casca de milho, produtos que eram sempre bem presos e amarrados com cabos de espadana e apertados com arrochos, como se de um corção de verdade se tratasse.

E o cabeçalho? Bem o cabeçalho era feito com um fio de espadana bem grosso que se prendia a uma canga, também de espadana com duas laças nas pontas onde se enfiavam dois sabugos a fazer de bois que assim ficavam verdadeiramente “encangados”. E então se conseguíssemos um sabugo vermelho!...

E assim nos entretínhamos horas e horas a brincar, tão felizes e alegres, com estes brinquedos tão simples, apesar da pouca durabilidade de que eram dotados, pois o corção desfazia por completo assim que os milheiros secavam.

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A ANTIGA FREGUESIA DAS FAJÃS DESCRITA PELO PADRE CAMÕES

Segunda-feira, 22.10.18

Continuando a percorrer a ilha de Ponta Delgada para Oeste, segue-se à distância, dizem, de 4 léguas, pouco mais ou menos, a freguesia das Fajãs, de que é orago Nossa Senhora dos Remédios. Te vigário, com o ordenado de 7 moios, 4 alqueires 1/4 8 de trigo e 11$666 reis em dinheiro; cura com 4 moios, 57 alqueires de trigo e 8$000 reis em dinheiro; e tesoureiro, com 1 moio de trigo e 6$000 reis em dinheiro; paga El-Rei à fábrica (da Igreja) 3$000 reis.

Esta freguesia é dividida em 6 povoações que, começando do Norte para o Sul são:

A Ponta da Fajã é a primeira a que se chega de Ponta Delgada, tem "juíz pedoneo" ou da "vintena", com seu escrivão, porteiro, "rendeiro do verde" e jurado, sujeitos à jurisdição de Santa Cruz; os soldados da Ordenança que nela existem são subordinados ao capitão da primeira companhia de Ponta Delgada; há nela 30 fogos onde residem 165 almas, a saber 81 homens e 84 mulheres; tem 50 cabeças de gado bovino, 160 de gado ovino, 40 de gado caprino e 80 porcos; nela existe 1 carpinteiro e 1 fragueiro. Não tem monte algum, pois é situada numa breve planície onde fica eminente uma disforme e altíssima rocha, que excede o dobro da largura da povoação. Dão à dita rocha 300 barças de altura. Esta mesma rocha continua e cerca toda a freguesia e suas povoações, à exceção da Caldeira do Mosteiro, que ficam fora, e para a parte Sul, e finda a dita rocha numa ponta a que chamam o Pontal, para cá da Ponta dos Bredos, bem conhecida nos mapas. Há na localidade 2 casas de telha e nenhum homem calçado. Existe nela um fortezinho muito antigo com uma casinha da guarda e outro chamado "a Mesquita", com uma casinha de guarda.

A Fajã Grande, passada a Ribeira das Casas, onde começa a jurisdição da Vila das Lajes, segue a povoação da Fajã Grande onde há uma ermida da invocação de S. José, na qual, havendo-o sempre os moradores desse lugar e os da Ponta, têm capelão, que lhes diga a missa, aos Domingos e dias de preceito, a quem pagam à sua custa. Isto por não lhes ser possível chegarem à paróquia (da Fajãzinha), principalmente nos meses de inverno, por impedimento da caudalosa Ribeira Grande - que separa aquelas localidades - e que certamente é a mais "brava e furiosa" de todas as ribeiras desta ilha. Desta grande consternação e urgente necessidade, têm feito várias súplicas a Sua Majestade, para lhes dar para lá um cura pároco, mas até aqui não houve decisão sobre este assunto, e a razão, ao que se conjetura, é por não terem chegado aos reais ouvidos de Sua Alteza os seus justíssimos clamores, por falta de agentes. Tem esta povoação da Fajã Grande 136 fogos, onde residem 495 almas, 240 homens e 255 mulheres. Tem "juíz vintenário" com seu escrivão, porteiro, "rendeiro do verde" e jurado, sujeitos à jurisdição da Vila das Lajes.

Tem 25 casas de telha, entre elas a melhor e mais bem edificada de toda a ilha e 12 homens calçados.

A Cuada segue-se sobre uma eminência a terceira povoação da freguesia, quase sobranceira ao mar, na qual há 122 almas - 61 homens e 61 mulheres - 2 casas de telha e nenhum homem calçado.

A Fajãzinha, passada aquela povoação encontra-se logo a Ribeira Grande, que divide a freguesia, como já se disse, e se registou a sua força e impetuosidade que certamente é grande.

Cai a referida ribeira de uma formidável cascata, eminente à freguesia da Fajãzinha, a que dão de altura 200 braças; a ela vêm sucessivamente incorporar-se e ajuntar-se todas as águas da rocha, que serve de demarcação à freguesia, desde Leste a Sudoeste - que vem a ser a Ribeira dos Ferreiros, 4 grotas, sem nome, provenientes da Rocha do Velho, a grota do Enchente, a grota da Santinha, a grota da Laje Negra e a grota da Picada, a engrossam e "enfurecem" tanto que no Inverno, e ainda mesmo, havendo chuvas, de Verão, a fazem inultrapassável. Basta dizer-se que tendo-se feito quase ao fim dela, perto do mar, por dirção do já referido Juíz de fora, Doutor José Gonçalves da Silva, em 1789, uma ponte de pedra - que para a ilha foi uma construção formidável, uma vez que continha 80 palmos de vão, 50 palmos de altura e 30 palmos de largura; era uma ponte muito bem feita, ao uso do Reino. Todavia, houve tal inundação e enchente, no dia 9 de Setembro de 1794, que não só derrubou a dita ponte, como nem sequer ao menos dela ficou o menor vestígio, nem rasto. A referida ribeira, saindo do seu leito natural ao desembocar no mar, deixou um largo areal com mais de 30 braças, uma perda para inestimável para os pobre lavradores que possuíam terras a ela contíguas, que foram todos arrastadas para o mar. Logo além da Ribeira Grande, a uma curta distância, sobre uma pequena eminência, fica a povoação da Fajãzinha, lugar assente da igreja paroquial de toda a freguesia, onde residem vigário e cura, que no princípio já se falou. Tem "juíz vintenário", escrivão, porteiro, "rendeiro do verde" e jurados sujeitos à jurisdição da Vila das Lajes. Há nela 142 fogos, onde residem 505 almas, 250 homens e 255 mulheres.

Há nesta freguesia duas lagoas que produzem belíssimas "eirozes" (ou enguias) e patos bravos ou marrecos. À primeira chamam Poço da Alagoinha e fica ao pé da rocha a Sul-sudoeste; tem uma pedra ao meio, é rasa com a terra e há-de ter 150 braças e a largura 100 braças, pouco mais ou menos. A segunda, a que chamam o Poço da Ribeira do Ferreiro, situa-se ao pé da rocha, onde cai a mesma ribeira a Leste; é também rasa com a terra, e há-de ter pouco mais ou menos 50 braças de comprimento e 30 de largura. Está formada nas três povoações - Fajãzinha, Fajã Grande e Cuada - uma companhia de ordenanças, com 1 capitão, 1 alferes, 5 tenentes, 3 sargentos e 218 soldados.

Já se disse que estas 4 povoações - Ponta, Fajãzinha, Fajã Grande e Cuada - são rodeadas por uma formidável rocha. Esta começa ao Norte e finda ao Lés-Sudoeste, ficando as ditas povoações numa grande profundidade, que configura uma caldeira quebrada, como se faltasse, até ao fundo, a terceira parte da sua circunferência.

A Caldeira. Saindo-se da Fajãzinha para a parte do Lés-Sudoeste por uma íngreme ladeira chamada a Ladeira do Portal, além da conhecida Ponta dos Bredos de que atrás se falou, a uma pequena distância fica uma pequena povoação chamada Caldeira, com 5 fogos, contendo 20 almas, 9 homens e 11 mulheres. Nela há 3 casas de telha e nenhum homem calçado.

Mosteiro, muito pouco para diante, ao Sul, segue-se a povoação do Mosteiro, em que há 31 fogos, nos quais residem 175 almas, 83 homens e 92 mulheres, que fica numa eminência muito alta. Tem 8 casas de telha e nenhum homem calçado. Há nela "juíz vintenário", com seu escrivão, sujeitos à jurisdição da Vila das Lajes. Os soldados da ordenança que há na referida aldeia são subordinados à 2ª companhia da Vila das Lajes. Tem duas ribeiras, uma chamada Ribeira do Mosteiro e a outra designada por Ribeira dos Ladrões, mas que os moradores conhecem como a Ribeira do Fundão, onde acaba a paróquia dos Remédios e começa a de Nossa Senhora do Rosário das Lajes.

Na freguesia dos Remédios, no ano de 1814, casaram 15 casais, nasceram 78 crianças e morreram 44 pessoas.

 

Padre José António Camões in "Memória da Ilha das Flores" (1815-1822) transcrição de Ana Monteiro in FB

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A FESTA DE ESPÍRITO SANTO

Domingo, 21.10.18

Durante toda a semana, quer a que antecedia a festa da Casa de Cima, no domingo de Pentecostes, quer a da Casa de Baixo, no da Trindade, na Fajã Grande das Flores, nos anos cinquenta, cantavam-se, à noite, às terças, quintas e sábados, as Alvoradas.

Um foguete, lançado por um dos cabeças, logo ao anoitecer, indicava que a partir daquele momento a Casa estava aberta. Os que iam chegando aos poucos, após entrar, rezavam por um momento em frente ao altar do Divino, iluminado e enfeitado, onde estava a coroa e, de seguida, sentavam-se em bancos dispostos de forma rectangular, contra as paredes laterais da enorme casa, ou ficavam a conversar pelo meio do amplo salão, enquanto a garotada ia fazendo jogos como o de descobrir um objecto a toque de tambor, o jogo do lenço, o burrinho do Lamé e muitos outros.

À hora marcada e com a casa à cunha, anunciada por um segundo foguete, principiava a Alvorada. Numa fase inicial a cantoria começava no pátio, fora da porta da Casa. De seguida, os foliões, um dos quais tocando tambor e outro, “testos” ou pratos, entravam na Casa, formavam uma roda e iniciavam uma dança típica, durante a qual cantavam,  “Alvorada Santa” e outros cânticos apropriados. Curiosamente e durante a dança, cada um ao passar em frente ao altar, onde estava a coroa, rodopiava sobre si próprio e invertia a sua postura habitual na roda, de modo a ficar, durante os segundos que por ali passava, voltado de rosto para o altar, a fim de que ao andar em frente ao Divino Espírito Santo, não o fizesse de costas voltadas, sinal óbvio do respeito devido à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

De seguida, o grupo parava, postava-se em frente ao altar e cantava as sete “Ave Marias”, seguindo-se o “Oferecimento” das mesmas, após o qual a Alvora terminava.

Após a cerimónia, a maior parte do povo, sobretudo os mais jovens, permanecia pela noite dentro na Casa, fazendo jogos de roda diversos, entre os quais o do Anel e outros jogos tradicionais em que todos paricipavam. Estes jogos, durante os quais todas as brincadeiras eram permitidas e as manifestações amorosas toleradas, eram uma excelente ocasião de se iniciarem ou até se solidificarem muitos namoricos, noutros lugares e noutros espaços proibidos pelos pais.

Na sexta-feira, antes da festa, de tarde, matava-se o gado. Os cabeças haviam elaborado antecipadamente uma lista com a quantidade de carne que cada mordomo, pertencente ao Império, desejava. Depois de tudo somado, era imperioso apalavrar, de seguida e atempadamente, umas duas ou três reses que perfizessem em quilos o total de carne desejado pelos mordomos.

O gado previamente seleccionado era levado para junto da Casa do Espírito Santo, onde aguardava a organização do cortejo, assim constituído: à frente os animais e a garotada, depois a bandeira branca, as duas vermelhas e a coroa, atrás da qual caminhavam os foliões a cantar, seguidos duma enorme chusma, mais de meia freguesia. Na torre da igreja os sinos em alegres repiques e o estalejar dos foguetes juntavam-se à procissão, que caminhava, lesta, em direcção ao sítio onde gado seria abatido – o Matadouro. Este situava-se no fim da rua da Via  d’Água, já quase no Porto, ali mesmo à beirinha da Baía d’Água, num pequeno rolo que separava o baixio do caminho e no qual havia um nicho apropriado, onde era colocada a coroa, ladeada pelas bandeiras, durante o tempo que demorava a matança, esfola e esquartejamento dos animais. Quanto às vísceras, o fígado, o coração e a língua ficavam para os matadores, com os quais normalmente guiavam uma apetitosa “caçoila”, o sangue era dado a quem o quisesse para fazer um saboroso sarapatel, assim como o bucho com o qual, depois de muito bem lavadinho, se fazia dobrada. Os bofes e  a cabeça eram dados aos cães e as tripas atiradas ao mar, para gáudio dos peixinhos.

Terminadas todas estas operações, o cortejo regressava à Casa. A carne das rezes era espetada pelos tendões em grossos paus, de palanca, transportados por homens, aos ombros, suspensa, ainda a escorrer os últimos pingos de sangue, enquanto os sinos, os foguetes e o cantar dos foliões, as pessoas, a coroa e as bandeiras enchiam as ruas de som, de cores, de desejos, de festa e de alegria. Colocada no chão da Casa, devidamente forrado com folhas de cana roca, a carne ficava ali a arejar e a aguardar que as mãos experientes de um grupo de homens, durante a noite, a desmanchasse e cortasse aos pedaços e com eles fizessem montinhos, de acordo com os pedidos formulados pelos mordomos e outros para os pobres, escrevendo num papelinho que lhe colocavam em cima, o nome do destinatário.

No sábado de tarde distribuía-se a carne pelas casas dos mordomos que a haviam solicitado na segunda-feira de Páscoa, anterior. Nesse dia, as duas coroas em conjunto e acompanhadas pelos cabeças e foliões de ambas as Casas, haviam percorrido todas as moradias da Fajã, de um ponta à outra, a fim de “atestar” os mordomos de cada uma, ou seja, saber de qual das casas pretendiam a carne, se apenas de uma ou das duas, assim como a quantidade que desejavam.

A cerimónia iniciava-se pela manhã, com a bênção da carne e do pão, este cozido por promessas de alguns dos mordomos e que seria distribuído pelos pobres juntamente com alguma carne. O pároco dirigia-se para a Casa do Espírito Santo de sobrepeliz e estola branca, acompanhado pelo sacristão com a caldeirinha e o hissope. Colocava-se em frente aos montículos de carne e às pilhas de pão, aspergia-os com o hissope, rezava algumas orações em latim e depois de fazer um cruz sobre tudo e todos, retirava-se.

Competia às crianças da freguesia, da parte da tarde, levar carne a casa dos mordomos. Munidas de pequenas cestinhas ou travessas, aos pares e em constante rodopio, uns levando o pão e a carne aos pobres e outros a carne aos mordomos, de acordo com o nome indicado no papelinho e que um dos cabeças, à medida que partiam, ia riscando no rol elaborado na 2º feira de Páscoa. Acompanhavam-nas os foliões, as bandeiras, a coroa e algumas pessoas. A coroa entrava nas casas de todos os mordomos, juntamente com as oferendas, para que cada elemento da família beijasse a pombinha, símbolo do Divino Espírito Santo, encravada numa das extremidades do ceptro.

A distribuição iniciava-se no cimo da Assomada. Seguia-se o Alagoeiro e a Fontinha, o Caminho de Baixo, as Courelas, a Rua Direita, a Rua Nova, a Tronqueira e terminava, já ao início da tarde, no fim da Via d’Água. Os sinos tocavam durante todo o dia, logo de manhã durante a bênção e pela tarde fora, enquanto demorava a distribuição, alternando o seu alegre repicar com os sons do tambor e dos testos e com o cantar dos foliões.

Meu tio era o sacristão, cargo a que estava anexo o de sineiro. A sua pouca disponibilidade para um e outro cargo, obrigara o pároco à contratação de um ajudante, tendo a escolha recaído sobre mim. Por isso me iniciei cedo no papaguear do latim da liturgia e no tocar dos sinos, tarefa esta em que me orgulhava e ufanava, pois tocava-os como ninguém. Do alto na sineira via e ouvia o canto dos foliões acompanhados pelo tambor e pelos testos. Por isso, assim que eles paravam, iniciava logo um harmonioso e prolongado repique que para além de permitir um bom descanso aos foliões, fazia com que o Divino Espírito Santo não andasse a circular pelas ruas e pelas casas, um momento que fosse, sem ser acompanhado por música: ou pela do cantar dos foliões ou pela do toque dos sinos.

No domingo realizava-se a verdadeira festa do Espírito Santo. De manhã, depois de aberta pelos cabeças e com o tradicional foguete, os mordomos e outras pessoas afluíam à casa, onde de imediato a garotada, enquanto esperava pela saída do cortejo, organizada os jogos e as brincadeiras habituais. À hora marcada organizava-se um cortejo, com destino igreja paroquial, enquanto os sinos repicavam e os foguetes estalejavam no ar e em abundância, ecoando nos outeiros e rochas circundantes. Quanto mais foguetes melhor era à festa e, neste aspecto a Casa de Baixo ultrapassava de longe a de cima, pois para além do fogo preso, à noite, ainda se dava ao luxo de, em pleno arraial, disparar um tiro de canhão. Como era habitual, o cortejo abria com a bandeira branca, depois as vermelhas transportadas por meninas e a seguir a coroa levada também por uma menina, ladeada por outras transportando o ceptro e flores, vestidas com trajes adequados e cercadas por outras quatro formando um quadrado com as varas. Seguiam-se os foliões, os mordomos e uma boa parte do povo. O restante esperava, no adro, a chegada à igreja, onde o pároco, como nos domingos anteriores, embora com mais solenidade também aguardava o cortejo e a coroa, à porta do Guarda-Vento.

De seguida, entravam todos na igreja, ao som do “Veni Creator Spiritus ”. A Missa era cantada e terminava com a bênção e a incensação da coroa, enquanto se cantava o  “Alva Pomba”. O cortejo reorganizava-se novamente e regressava à Casa, fazendo o trajecto inverso.

Todos voltavam às suas casas para o jantar, a fim de saborearem a carne que cada um havia cozinhado a seu gosto. Na véspera, a carne havia sido temperada e posta em “vinha-d’alhos”. De manhã era “rosada” em banha de porco e depois guisado em caldeirões de ferro, ficando prontinha antes da missa. A refeição era acompanhada normalmente com inhames e pão de trigo, havendo também, quase sempre, pão doce.

De tarde o povo juntava-se de novo na Casa, para as arrematações, para os cantares, para os jogos e, sobretudo, para o convívio. As arrematações resultavam das promessas que muitos mordomos. Eram feitas de massa igual à do pão doce, mas representando uma parte do corpo, geralmente pés, mãos, braços ou cabeça, que haviam sofrido alguma maleita, ou animais, geralmente suínos ou bovinos, que haviam estado doentes mas que tinham sido curados, por graça do Divino Espírito Santo, a quem agora se agradecia. Outras pessoas ofereciam a massa, mas simplesmente na sua forma habitual de pão. Muitos mordomos que haviam feito promessas mas não tinham conseguido cozer pão, arrematavam uma oferenda semelhante à que haviam prometido e ofereciam-na, a fim de que fosse novamente arrematada.

Como era grande a quantidade de massa oferecida, muita não era arrematada. Era partida às fatias, colocada em açafates e distribuída por todos juntamente com cálices de licor ou de  “vinho fino”.

Todo o pão, tanto o das promessas como o doce e o de trigo, que sobrava era distribuído pelos pobres.

A festa prolongava-se até ao anoitecer.

No dia da festa, à tardinha, realizavam-se as sortes, ou seja, a escolha e indicação dos nomes dos dois cabeças que, no ano seguinte, seriam os responsáveis pela preparação e organização da festa, uma vez que cada mandato, regra geral, durava apenas um ano. Os cabeças eram dois, normalmente designados por primeiro e segundo, sendo que o primeiro assumia as funções de líder.

Da lista dos mordomos, os cabeças em exercício, por sua livre iniciativa, escolhiam nove nomes que liam bem alto perante todo o povo, que com o seu aplauso, aprovava tais escolhas. De seguida escreviam-nos, um por um, num papelinho que dobravam muito bem para que se não visse o nome que lá estava escrito e colocavam-nos todos dentro da coroa do Divino Espírito Santo. De seguida escolhiam uma criança de tenra idade e pediam-lhe que tirasse da coroa dois bilhetinhos.

Fazia-se um enorme e profundo silêncio na sala e todos aguardavam com grande expectativa os nomes sorteados e que, dentro de momentos, iam ser conhecidos. Um dos cabeças, muito devagar e com estranha solenidade, abria o papel, fazia uma pausa, e de uma golfada e em voz bem alta, anunciava o nome sorteado. Uma enorme e estrondosa ovação se fazia sentir por toda à casa, seguida por uma grande salva de palmas e um imediato atirar de foguetes, saudando o novo primeiro cabeça, para o ano seguinte. Idêntico procedimento se verificava, quando era tirado e lido o outro nome que indicava quem seria o segundo cabeça.

Mas nem sempre assim acontecia. Por vezes, quando os mordomos entendiam que a festa tinha sido boa, graças à brilhante acção e ao profícuo trabalho daqueles cabeças, tentavam, umas vezes com sucesso outras não, cobri-los com a bandeira vermelha. Se o conseguissem fazer, antes de serem lidos dos dois nomes, as sortes paravam de imediato e seriam eles os cabeças, no ano seguinte. Daí que por vezes se verificassem interessantíssimas tentativas de “ataques e fugas” entre os mordomos que pretendiam cobrir os cabeças para que continuassem e estes que permaneciam de olhos bem abertos e muito atentos para fugirem à cobertura e assim se libertarem de tão trabalhoso e imponente cargo.

A festa terminava, já lusco-fusco, com um novo e último cortejo com a coroa, as bandeiras, os foliões e o povo que se organizava e, partindo da Casa de Espírito Santo, se dirigia às casa de ambos os novos cabeças a fim de lhes dar conhecimento oficial e entregar-lhes “as sortes”.

Entre as festas de Espírito Santo da Casa de Cima e da Casa de Baixo havia grande rivalidade e até alguma competição, pois cada qual se esforçava por fazer uma festa melhor do que a outra. A Casa de Cima, da qual meu pai foi sempre mordomo, tinha contra si um senão: é que fazia sempre a festa, no próprio domingo do Pentecostes e a de Baixo no domingo seguinte, ou seja no da Trindade, o que obviamente lhe concedia alguma vantagem ou favoritismo.

Interessante, no entanto, é que toda esta rivalidade era salutar e respeitada. Basta recordar que as duas coroas em conjunto e acompanhadas pelos cabeças, pelos foliões e por muitos adeptos de ambas as Casas, percorriam em conjunto e lado a lado todas as moradias da Fajã, de um ponta à outra, afim de, em cada ano, “atestar” os mordomos de cada uma, ou seja, saber de qual das Casas pretendiam a carne e a quantidade desejada, por altura da festa. Tudo isto era realizado no maior e mais salutar espírito de colaboração.

No entanto era opinião generalizada e quase unânime de que a festa da Casa de Baixo ultrapassava de longe a da Casa de Cima: um cortejo mais solene, as meninas que levavam a coroa mais bem vestidas, pois os pais eram mais ricos, mais fogo, incluindo fogo preso à noite e, sobretudo, pelo tiro disparado pelo canhão, em pleno arraial, a meio da tarde do domingo e pelo qual todos esperaram com ansiedade. Simplesmente espectacular!

A origem do dito cujo era desconhecida, embora se cuidasse que tivesse, outrora, sido recolhido na costa, onde por vezes vinham parar muitos restos e objectos de navios naufragados. O canhão era uma enorme boca de fogo de artilharia que estava montado sobre uma carreta e que consistia basicamente num tubo fechado numa das extremidades e dentro do qual, através da outra, se ia metendo pólvora, papelão e outro entulho, o qual era muito bem batido e calcado com uma soquete, de forma a ficar compacto e simular uma espécie de projéctil, que, depois de pronto, era incendiado através do lume que dentro dele se introduzia por meio de um rastilho que atravessava um pequeno orifício na parte superior da grossa parede do tubo. O canhão era colocado sobre o chafariz que existia junto à empena Sul da Casa, do lado do altar. Enquanto se preparava o material, a rua Direita e os caminhos e pátios ao redor enchiam-se, para apreciar aquele grandioso e imponente momento da festa. Uma vez tudo preparado, todos se afastavam, enquanto um homem, o mais “anamudo” e expedito, largava lume ao rastilho, afastando-se logo em grande correia. O rastilho ia ardendo lentamente até fazer chegar o lume ao interior do tubo e incendiar a pólvora ali armazenada, provocando uma enorme explosão, projectando a grande distância aquele entulho transformado em bala e provocando, simultaneamente, um grande estrondo, que alguns segundos depois se repetia em eco, na Rocha das Águas.

Era a alegria total! Um dos momentos mais altos e mais emocionantes da festa.

Conta-se ainda hoje, que num determinado ano, alguém, de propósito ou não, no final da operação de batimento do entulho, se esqueceu de tirar o soquete, sendo este projectado juntamente com a bala e encontrado, dias depois, numa terra lá para as bandas do Mimoio, já próximo da Ribeira, o que permitiu, assim, esclarecer as duvidas que existiam sobre o alcance daquela antiga arma de guerra, transformada, na altura, em canhão  do Espírito Santo.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

SE NÃO FOSSE O BRASILEIRO

Sábado, 20.10.18

As primeiras aulas de cada ano lectivo destinavam-se, geralmente, ao conhecimento recíproco dos alunos e do professor, o qual, no fim do tempo indicado no horário e no espaço que lhe era reservado, gatafunhava no livro do ponto: “Apresentação professor/aluno”. No entanto, alguns professores, sobretudo os que consideravam aquela tarefa precursora de um eficiente relacionamento pedagógico que decerto havia de reflectir-se positivamente na aprendizagem dos alunos durante os três longos períodos lectivos, dedicavam-lhe mais uma aula, registando, desta feita no livro de ponto: “Apresentação aluno/professor”. Outros, com a denodada intenção de fazer “render o peixe”, chegavam a prolongar a referida tarefa por uma terceira aula. Neste caso, porque o número de alunos por turma era bastante elevado, muito simplesmente escreviam no dito livro:”Continuação da aula anterior”.

No ano do meu quadragésimo quinto aniversário, numa dessas aulas - confesso que geralmente dedicava àquela tarefa apenas  uma aula - ao apresentar-me, esqueci-me de referir um dado que os alunos consideravam importante – a idade. Não me perdoaram o olvido. Foi um garoto de olhos vivos e ar de espertalhote, sentado na fila da frente, que me exprobrou de imediato:

- E a idade?! Esqueceu-se da idade. Que idade é que o “Setô” tem?

Lamentei o meu imperdoável esquecimento. Depois, como que a querer recompensá-lo pela sua atenção e perspicácia, desafiei-o:

- Olha lá! Que idade é que achas que eu tenho?

O Rui, era assim que se chamava o arguto, olhou para mim de alto abaixo, avaliou-me com denodado rigor e atirou sem hesitação:

- Quarenta! Aposto que “Setô” só tem quarenta anos.

Fiquei lisonjeado mas, com a maior das inocências, retorqui:

- Mais!... Tenho mais…

Eis senão quando, lá do fundo da sala, um sonso mas bargante mocetão levantou-se e, de rompante, antes que alguém alvitrasse alguma alternativa mais plausível, gritou exasperadamente:

- Cinquenta! Cinquenta!

Fiquei perplexo. Eram cinco a mais. Mas já que me dava cinquenta, decidi continuar, com um misto de expectativa e jocosidade, aquela espécie de leilão pedagógico que ali se iniciava, a fim de tentar descobrir até onde a minha aparência anatómica me poderia levar, perante o inocente mas sincero julgamento dos meus jovens interlocutores. Por isso, em ar de desafio, de maneira que sentissem que eu estava a falar a sério e não descortinassem a minha perplexidade, insisti:

- Mais… Mais…

Uma miúda, tímida, hesitante e como que a arrepender-se a meio da conversa, lá disse:

- Cinquenta e… três?

Logo uma outra, sentada ao seu lado, muito lesta a corrigi-la:

 - Cinquenta e cinco.

Como eu continuasse a insistir no “mais e mais” de forma aparentemente convicta, a fasquia foi subindo assustadoramente. Ultrapassou os sessenta, sessenta e cinco, sessenta e seis, sessenta e oito e fixou-se, provisoriamente, nos setenta.

Confesso que me arrepiei dos pés à cabeça, ao mesmo tempo que me arrependia de ter provocado semelhante imbróglio, do qual eu era obviamente o culpado número um. Temia, seriamente, que aquilo não parasse por ali…

Foi então que um brasileiro, o único que havia na sala, levantou o braço e pediu autorização para falar. Como lhe acenasse afirmativamente, ele, com um misto de seriedade, de convicção e de certeza, pôs, finalmente, a devida água na fervura, esclarecendo definitivamente a amargosa e desconfortante trapalhada em que eu, minutos antes, me havia metido:

- Puxa, professor! Não pode ser! Você está a mangar co’a gente. Então meu avô tem sessenta e cinco e você parece muito mais novo do que ele.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:06

VACAS DE FAVA E PORQUINHOS DE BATATA-DOCE

Sexta-feira, 19.10.18

Não será prolixo, nem muito menos cansativo repetir-se que na longínqua década de cinquenta, ali na Fajã Grande, ora protegidos pela alta Rocha dos ventos e dos temporais, ora a levar com as tempestades e maresias trazidas pelos ventos do Norte e do Oeste, num e noutro caso, consequentemente, impedidos de trabalhar e com tempo para a brincadeira, éramos nós próprios que, geralmente, construíamos os nossos brinquedos, aproveitando tudo o que tínhamos à mão e que para tal fosse adequado. E verdade é que geralmente o fazíamos, com muita imaginação, perícia e performance. Além disso, idealizava-se a construção dos nossos brinquedos no que fazia parte do nosso quotidiano e no dos nossos progenitores.

Ora as vacas e os porcos eram animais que, para além de presentes no nosso dia-a-dia, constituíam uma espécie de epicentro de toda a actividade laboral, diária, da maioria dos habitantes da Fajã Grande. Por isso e naturalmente era relacionada com essa actividade que arquitectávamos grande parte das nossas brincadeiras e era também ela que delineava os limites da nossa imaginação, configurava a nossa criatividade e como que se personificava na maioria dos nossos brinquedos. Entre estes tinham lugar de destaque as vacas feitas com as vagens das favas e os porquinhos feitos com batatas-doces.

As vacas de fava eram construídas geralmente no tempo em que o gado andava no “oitono”, ou seja, durante os meses da Primavera. À tardinha, enquanto os nossos progenitores e os outros homens, agrupados em função das proximidades das terras onde tinham o gado amarrado à estaca, aguardavam, em amena cavaqueira, a hora da ordenha e enquanto os animais ruminavam a última “cordada”, ou porque as houvesse ali por perto ou porque as fôssemos procurar mais além, apanhávamos algumas vagens de fava, escolhendo as mais compridas e grossas e as que julgávamos de maior beleza estética. Depois arranjávamos quatro “fochos”, cortávamo-los todos do mesmo tamanho e “falquejávamo-los” numa das extremidades. Eram essas extremidades que depois espetávamos no bordo mais côncavo da fava ou seja do lado em que o pé da mesma se curvava, de maneira a simular o focinho do animal, enquanto os pauzinhos espetados representavam as mãos e os pés. Depois descascávamos uma outra fava, escolhíamos um grão que prendíamos entre as pernas da vaca recém-criada, a fazer de “mojo”, e cujo tamanho variava consoante queríamos uma vaca acabadinha de parir ou uma gueixa alfeira. Aos bois era-lhes espetado um pequeno “focho” na barriga a imitar o falo. Finalmente dois “fochos” no lado da fava que representava a cabeça e estava um animal perfeito, com o qual brincávamos durante alguns dias apenas, pois as favas tinham um prazo de validade bastante limitado.

Por sua vez os porcos com que também gostávamos de brincar, eram feitos de batata-doce, a qual, na altura, abundava na Fajã. Da mesma forma escolhíamos criteriosamente a bata mais redondinha, rechonchuda e que considerávamos mais parecida com o corpo de um suíno. Quatro “fochos”, desta feita mais pequenos e mais grossos do que os das vacas de fava, transformavam-se nos pés e nas mãos do suíno enquanto outros dois mais pequeninos, espetados do lado contrário simulavam-lhe as orelhas. E aí estava um porco perfeito. Depois era criá-lo, matá-lo e até, por vezes comê-lo, porque na realidade muitas vezes, naqueles tempos, até comíamos batata-doce crua.

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O BURRINHO DO LAMÉ

Quinta-feira, 18.10.18

Muitas eram as brincadeiras e os jogos, individuais e colectivos, que fazíamos em criança, na Fajã Grande, sobretudo para ocupar da melhor forma as tardes de domingos e feriados.

No top dos jogos colectivos figurava “O Burrinho do Lamé”. Bastava que alguém convocasse a malta miúda e era uma correria louca e imediata para o adro da Casa do Espírito Santo, local estrategicamente apropriado para tal: - Vamos brincar ao Burrinho do Lamé.

O jogo em si era simples e fácil, tendo como objectivo principal que todos os participantes evitassem, da melhor e mais astuta forma possível, figurar como burro, durante o jogo.

Os participantes, em número indeterminado, sentavam-se todos na soleira da porta e degraus circundantes, enquanto o líder do grupo, que orientava o jogo, ocupava um lugar numa banqueta que havia no lado oposto, depois de escolher quem ele muito bem entendesse para figurar de burrinho no início do jogo. Vergava-lhe então a cabeça sobre os seus joelhos, tapava-lhe os olhos com as suas próprias mãos, colocando-lhe de seguida o traseiro em condições de levar uma pequena palmada. Do outro lado alguém se levantava, normalmente por indicação do líder (porque todos queriam vir) e vinha bater ao de leve no rabiosque do suposto burrinho, voltando de seguida ao seu lugar, sem ser visto por aquele. Destapava-se o burrinho que de imediato era obrigado, a fim de perder o seu ocasional estatuto de asno, a tentar identificar o agressor. Pegava-lhe então às cavalitas, não fizesse ele papel de burro, apresentando a sua carga ao líder, que o interrogava do seguinte modo:

- O Burrinho donde vêm?

- Venho do Lamé, - respondia o burro.

Se tivesse acertado no seu agressor, este passaria de imediato a fazer de burro, enquanto o chefe confirmava:

- Deita cá que é.

Se não acertasse ouvia: - Vai por lá que não é. – e continuaria, assim carregadinho para lá e para cá  até encontrar o agressor, o que por vezes se tornava muito difícil.

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O ROGAS

Quarta-feira, 17.10.18

O Rogas era o homem mais rude e bisbórrias da aldeia. Nasceu sem saber quem era o pai. Abandonado, mais tarde, pela mãe, deambulou, sem destino, até que o Cabral o apanhou, vendo nele mão-de-obra gratuita. Não se enganara, o mariola. O moço, embora raquítico e franzino vinha mesmo a calhar. Deixá-lo vingar e serviria perfeitamente para as lides agrárias, quer tratando de leiras e courelas onde florescia o trigo, a aveia e os legumes, quer pastoreando o gado nas encostas e barrocais da serra, enquanto ele, Cabral, se reservava exclusivamente às tarefas comerciais, no execrável e hediondo botequim que herdara do sogro, o qual profligava dia após dia.

Foi, pois, um investimento razoável, o do Cabral. É que o tratante, na ânsia de enriquecer, tornara-se sovina e larápio. Não havia tostão que lhe saísse do bolso. No botequim vendia de tudo: o autorizado e o não permitido, o gamado e o obtido na candonga. Além disso, reinavam mixórdias e salsadas, entre pesos adulterados e medidas falseadas. Como era profícuo em falta de escrúpulos, a contratação do moço veio mesmo a calhar e estava facilitada, pois o garraio era pouco exigente, contentando-se com cama e mesa, prescindindo da roupa lavada.

O moço, no início, adaptou-se servil e perfeitamente ao trabalho. Levantava-se noite escura, levava uma côdea de pão e um naco de queijo e regressava ao lusco-que-fusco, com cada tarefa eximiamente cumprida. Não havia vento, chuvada, procela, nem muito menos escola que o poupasse e os campos do Cabral floresciam como nunca, enquanto as falcatruas, no botequim proliferavam assim como crescia o pecúlio no cofre.

O Rogas cresceu e tornou-se homem. O empenho desmesurado que colocava nas lides agrícolas impediam-no de se aventurar nas extravagâncias duma juventude fogosa e trivial. Nem domingos, festas, folguedos ou flostrias. Namoro, apenas passageiro. À cidade viera apenas uma vez. Foi para se inscrever no serviço militar do qual, por influências interesseiras do Cabral, foi dispensado. É que o Rogas, forçado às exigências do biltre, via-se obrigado a abdicar de tudo. Não possuía nada, nem coisa nenhuma. No entanto, com o rolar do tempo, foi-se apercebendo das injustiças de que era vítima e entendeu a promiscuidade que o rodeava e que singrava nos negócios e nas atitudes quotidianas do seu amo. Daí ao grito de libertação foi um ar. Continuar a ser explorado por aquele vigarista, aldrabão e gatuno é que não. O somítico nunca lhe dera uma folga, nem sequer um tostão.

Saiu, pois, do Cabral, pese embora desconhecesse o seu destino. Era certo porém que ninguém aceitaria como fâmulo um embusteiro embalado e formado na doutrina intrujona do Cabral.

Assim deambulou, algum tempo, sem dinheiro e sem destino. O primeiro dia foi de jejum e na primeira noite teve como abrigo as ombreiras da Igreja Matriz. Na noite seguinte, porém, foi despejado dali. Cuidando o zeloso sacristão que tal presença punha em risco a dignidade e decência do templo, escorraçou-o sem dó nem piedade. Restou-lhe como refúgio um casebre à porta de entrada do cemitério.

Nas primeiras noites, escuras como breu, sentiu alguns arrepios. Mas vieram, de seguida, as noites de lua cheia e, com elas, a adaptação a tão tétrico habitáculo.

A comida procurou-a por esmola. Pesava contra ele a malvadez e a sovinice do Cabral, com o qual agora como que era identificado. Por isso, vezes sem conta, lhe atiravam à cara:

- Vai pedir a quem te explorou!

Granjeara, sem proveito, a fama desprezível do amo. Agora, isolado no meio de mortos e sepulturas, tornava-se cada vez mais rude, assumindo, além disso, um ar de marginal. Sobre ele despejava-se em catadupa abandono e desinteresse. A roupa, sempre a mesma, não via água há meses e, consubstanciada com a barba por fazer e com o cabelo por pentear, atribuía-lhe, inevitavelmente, um perfeito ar de vagabundo, que levava uns a afastarem-se e outros a não lhe manifestarem qualquer auxílio.

Apenas o coveiro lhe dedicava alguma atenção e cuidados, partilhando com ele palavras e alimentos. Porém, a sua morte, tempos depois, redobrou-lhe a solidão e o isolamento, mas fez com que lhe surgissem novas perspectivas É que não havia, na aldeia, candidatos à vagatura. Por isso se generalizou a sentença: - “O Rogas que vá abrindo as sepulturas.”

Teve que aceitar e a primeira cova que abriu foi a do seu antecessor, assumindo o cargo, com dignidade, sonhando que, um dia, haveria de acalcar o sovina do Cabral.

 

***

 

O Dr Assumido Paixão ocupava, desde a morte do pai, um sumptuoso palácio edificado no centro da aldeia. Era um magnífico e gigantesco edifício, com jardim e grandes escadarias, construído muitos anos antes. O Dr Assumido, que agora dava continuidade às lides agrárias e aos negócios que herdara do avô, tinha uma filha, Isaura. Jovem, bela, crescera isolada entre as grossas paredes e os altos portais de ferro do palácio, pouco conhecedora do mundo que a rodeava. Partira muito nova para Lisboa, para estudar. Regressava à aldeia, apenas nas férias, desconhecendo quase na íntegra, lugares, costumes e pessoas. É que, sem parentes ou amigos, isolava-se no interior do palácio, percorrendo o jardim, contemplando as obras de arte e as espécies botânicas que por ali singravam, graças ao bom gosto artístico e ao amor à natureza do vovô Carmo.

Isaura acabava de terminar mais um ano lectivo, o último antes de entrar para Direito, quando recebeu a notícia do trágico acidente em que morreram o pai e a mãe. Regressou rapidamente à aldeia entre prantos e lamentos.

Aprontou-se o funeral. O Rogas, com trabalho redobrado, maldisse a sua sorte.

O cortejo fúnebre entrou, a passos lentos no cemitério. Atrás dos féretros, Isaura, vestida de negro, era a imagem da dor e do desalento. Uma pequena multidão seguia-a, partilhando o infortúnio e a tristeza.

Terminadas as orações fúnebres a maioria dos acompanhantes retirou-se. Isaura, abandonada ao seu destino, trémula e insegura, lançava-se ora sobre um ora sobre outro dos caixões que jaziam sobre a terra calcada pelos pés dos circundantes. Dos seus olhos rolavam lágrimas de dor e desânimo. Espelhava, no rosto a marca terrificante do infortúnio. De repente, o seu corpo franzino, perdendo o vigor, balançou e caiu por terra.

O Rogas não hesitou. Desde há muito que a sua atenção se fixara naquela jovem dolente e amargurada, despertando nele complacência e compreensão. O amor atrofiada no seu peito desde criança a quando do abandono maternal e a compaixão adormecida desde as sevícias e abusos do Cabral, como que renasceram, naquele momento, explodindo fleumaticamente.

Dirigiu-se para junto da jovem e pegando-lhe nas mãos acariciou-lhe tímida mas carinhosamente o rosto pálido. Alguns circundantes mais chegados a Isaura ainda o tentaram afastar aquele homem sujo e miserável mas sem eficácia. Ela, abrindo os olhos, sorriu-lhe, aceitando os eflúvios carinhosos que emanavam daquele ser até então emocionalmente atrofiado.

E do rosto enegrecido e fleumático do Rogas, rolaram lágrimas, muitas lágrimas de partilha da dor, que perfurando a barba negra, se despegaram do rosto e caindo no chão se misturaram com o dolente sofrimento de Isaura. Pela primeira vez o Rogas chorou!...

A manhã seguinte surgiu cinzenta e enevoada. Entre os dois montes de terra fresca, cobertos de flores e fitas roxas, Isaura ajoelhada orava.

O Rogas aproximou-se. Nem uma palavra... O seu olhar, porém, revelava uma compreensão infinita e uma complacência sem limites. Ajoelhou-se ao lado... Orou também e chorou de novo.

As manhãs repetiram-se. Quando ela entrava, o Rogas, disponibilizando carinho e compaixão, já estava junto às sepulturas, sobre as quais as flores amareleciam.

Passaram-se dias, passaram-se meses. Entre muitas hesitações, Isaura decidiu continuar a manutenção do palácio, de que agora era proprietária, as lides agrárias e os negócios do pai. Parentes, amigos e vizinhos davam conselhos e ofereciam préstimos. Isaura, apercebendo-se de intervenções descaradamente interesseiras, que contracenavam, na sua mente, com a imagem simples daquele homem que a acompanhara no cemitério, ia protelando decisões. Não esquecia a imagem do homem pobre e rude, que, sem a conhecer, se colocara humildemente a seu lado, partilhando a sua dor, oferecendo-lhe compaixão...

Estranhamente tomou uma decisão – aquele homem seria o seu capataz. Depois de o preparar devidamente, confiar-lhe-ia a gerência não apenas do palácio, mas de todos os seus bens e negócios, libertando-o da miséria e da rudez.

O Rogas recusou. O que lhe oferecia era um absurdo. Isaura ultrapassou todos os obstáculos que ele lhe contrapôs. No início ela ajudá-lo-ia, preparando-o devidamente.

E preparou-o. O Rogas aceitou, transformou-se radicalmente, depressa se integrando, com grande dedicação e interesse, nos negócios e bens de sua ama.

Passaram os anos. A doutora Isaura regressou à aldeia licenciada em Direito. Assumiu não exercer a advocacia, sistematicamente e por profissão. Como, no entanto, muitas pessoas, sobretudo as mais pobres, se dirigissem a ela para resolver os mais diversos assuntos, sempre com auxílio e colaboração do senhor Rogas, cedo se espalhou, pela aldeia, a fama da sua eficiência e a excelência das suas capacidades. Tais qualidades, aliadas ao facto de fornecer os seus serviços gratuitamente, fizeram com que o palácio fosse sistematicamente procurado para que a senhora doutora resolvesse os assuntos mais complicados e as questões mais inverosímeis, sempre por intercessão do senhor Rogas.

Certa noite, aproximou-se do portão, um vulto negro de mulher, embrulhado num grosso xaile, que lhe cobria todo o corpo. Tocou ansiosamente a campainha. Como habitualmente, o Rogas veio abrir. Era ele que levava sempre os recados ou as súplicas que julgasse dignas de compaixão, à senhora doutora.

O vulto, ao aproximar-se, retirou o xaile descobrindo o rosto choroso. O Rogas estremeceu. Era a mulher do Cabral. O peito encheu-se-lhe de cólera e de raiva. A mulher, porém, perdida na escuridão da noite, sem se aperceber de que era ele, suplicava incessantemente:

- Peça à senhora doutora que liberte o meu homem! Ai, a senhora que liberte o meu homem, por alma dos seus paizinhos.

O Rogas, sem se dar a conhecer, tremulamente indagou:

- O que se passa? Porque prenderam o seu marido?

A mulher explicou que o seu homem tinha sido preso, junto à fronteira injustamente, por engano, sem ter feito nada. Apenas andava a tratar de uns negócios, nada de contrabando, não senhor, que o seu homem não era desses, que podiam confiar nele e que só uma palavrinha da senhora doutora o libertaria...

O Rogas ouviu-a atentamente.

Passados dois dias, o Cabral foi libertado.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

O REGRESSO DA MARIANA

Segunda-feira, 15.10.18

Era uma vez uma casa pobre, humilde, modesta e muito antiga. As paredes eram de um castanho amarelado, de tal maneira despidas de cal que deixavam ver os pedacinhos de xisto com que haviam sido construídas e que, semelhantes a tabuinhas, se sobrepunham e entrelaçavam uns nos outros, em camadas simétricas e rendilhadas que iam do chão ao telhado e se prolongavam ao longo dos muros e paredes circundantes. Tinha um aspecto muito tosco e rústico, com portadas de madeira carcomida pelo tempo, sem grandes vidraças e com dois andares. No rés-do-chão ficavam as lojas de arrumos, uma adega muito pequenina, a cozinha e a retrete. O primeiro piso, a que se tinha acesso apenas por uns degraus exteriores também de xisto e ladeados por um corrimão de ferro enferrujado, era constituído por uma sala e dois quartos.

Nessa casa morava Mariana, com os pais e um irmão mais novo, o Zezito.

A casa ficava perto de um rio que se chamava Ave. Era um rio de águas límpidas, cristalinas e azuladas, repletas de uma imensidade de barbos, carpas, bogas e outros pequenos peixes que se movimentavam em loucas correrias, em constantes rodopios e em simulados ziguezagues. O rio deslizava calma e suavemente, atravessando uma enorme planície onde, de um lado e outro das suas margens, povoadas de azenhas e moinhos, se acomodavam terrenos divididos por beiradas de amieiros, choupos, castanheiros e carvalhos, mas muito férteis e produtivos. No Inverno, enquanto aguardavam as sementeiras, tinham um aspecto avermelhado e escurecido, mas na Primavera revestiam-se com o verde dos milheirais, dos legumes e das vides e no Verão começavam a amarelecer até alourarem por completo no Outono. Num desses campos, um pouco mais distante do rio, ficava a casa da Mariana. Era nele que os pais trabalhavam de sol a sol porque era dele que tiravam tudo o que era necessário para o seu sustento – milho, legumes, batatas e vinho. Em Fevereiro e Março, quando os dias começavam a tornar-se maiores e mais quentes, os pais, jungindo o Lavrado à charrua, abriam e resvalavam a terra ainda húmida das chuvas invernais e deixavam ficar as leivas e os torrões a secarem e como que a aquecerem-se ao Sol, durante alguns dias. Depois desfaziam-nos e transformavam-nos em terra fina que alisavam umas vezes com enxadas outras com uma grade puxada pelo Lavrado, transformando o campo num enorme e fofo tapete acastanhado. De seguida o pai voltava a atrelar o boi ao arado e traçava regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do campo. A mãe ia atrás e, retirando punhados de milho de uma cesta que levava enfiada no braço, atirava os grãos com tanta agilidade e perícia que eles caiam direitinhos no rego, muito bem alinhados uns à frente dos outros, como se fossem soldadinhos numa parada militar. Cada rego fechava-se com o abrir do seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. Por fim a terra era de novo gradeada e alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos e assim germinassem mais facilmente, com a ajuda do Sol e da chuva dos dias seguintes. Não tardava muito e era um regalo ver o milho a crescer, a crescer, muito verdinho e espevitado. Nas extremidades do campo e nos lugares mais abrigados pelos bardos das beiradas ficavam pequenos canteiros de batatas, feijão, ervilhas e melões e nos mimos crescia a pranta, a couve e o cebolo. Em Abril e Maio, quando o milho ainda estava miudinho, os pais sachavam e mondavam o campo de lés a lés, retirando as ervas daninhas e os pés de milho mais bastos para que os outros crescessem à vontade. Nos dias seguintes o campo transformava-se num enorme tapete de folhas verdes, caneladas e pontiagudas, ladeadas pelos canteiros onde floresciam couves repolhudas e as ervilhas e os feijoeiros começavam a trepar pelas estacas de cana que eram espetadas aqui e além. Os milheiros cresciam de dia para dia, as suas folhas entrelaçavam-se umas nas outras e balançavam como ondas ao sabor das brisas matinais e os troncos, canelados e esguios, tornavam-se altíssimos, enfeitando-se lá no cimo de umas flores estranhas que cobriam o campo com um manto esbranquiçado e fofo. Algum tempo depois nos troncos enrijecidos começavam a formar-se espiguinhas cabeludas que iam crescendo e alourando ao Sol do estio. Em Setembro, as espigas amadureciam por completo e procedia-se à apanha. A mãe arrepelava dos troncos já muito amarelados e envelhecidos as espigas maduras e recolhia-as em enormes cestos, enquanto o pai os ia acarretando para a loja de arrumos, ao mesmo tempo que cortava as folhas e as guardava para alimento do Lavrado. Algum tempo depois marcava-se o dia da desfolhada. Mariana esperava ansiosamente essa noite de sonho e de magia.

O Zezito ainda era muito novo e Mariana desde pequenina, sempre que a mãe a dispensava de tomar conta do irmão, habituara-se a brincar sozinha. Por isso aguardava com grande ansiedade e expectativa os dias da desfolhada, da vindima, da matança e alguns outros que ela considerava diferentes sobretudo porque tinha sempre alguém com quem brincar. Para ajudar os pais na desfolhada vinham muitos vizinhos e amigos, os tios e os primos de Covelas, uns parentes já mais afastados de Alvarelhos e um casal de Laundos. Normalmente o pai escolhia uma noite de Lua Cheia. Os adultos sentavam-se em círculo, na pequena eira, à volta do amontoado de espigas e, enquanto lhes iam arrancando o folhedo, contavam histórias e anedotas ou então cantavam acompanhados pelo acordeão do amigo de Laundos. De vez em quando a mãe levantava-se e ia buscar uma malga cheia de vinho muito vermelho e perfumado, a borbulhar e a escorrer pelas bordas brancas, que todos iam saboreando à vez. Depois de vazia a mãe voltava a enchê-la outras tantas vezes, quantas eram necessárias para que todos bebessem e alguns voltassem a beber. Simultaneamente Mariana e a prima iam oferecendo, em pequenas cestinhas forradas com panos de linho rendado, pedacinhos de broa e presunto espetados em palitos. Depois todos voltavam ao trabalho. De repente e com enorme alarido alguém gritava “Milho-Rei! Milho-Rei!”. A tarefa era suspensa de imediato e fazia-se uma grande festa de regozijo. Mariana e as outras crianças vinham logo sentar-se ao redor do amontoado do milho. É que o feliz contemplado com a espiga de grãos vermelhos teria que abraçar todos os presentes. A isso ela nunca faltava. No fim servia-se a merenda: boroa, presunto, salpicão, chouriças, azeitonas e vinho, enquanto o acordeão continuava a emitir sons alegres e harmoniosos. Então os homens, as mulheres e crianças formavam pares e dançavam pela noite dentro.

A vindima era feita no mês de Outubro. É verdade que não era uma folia tão animada e divertida como a desfolhada. As uvas não eram muitas mas o trabalho era árduo e pesado. O pai passara meses e meses a podar os bacelos, a enxertar e a amarrar as videiras a estacas de pedra granítica e aos amieiros e carvalhos das beiradas que circundavam o campo onde o milho crescia a olhos vistos. Quando as vides já cobriam os bardos de um verde muito escuro e os cachos começavam a desabrochar, suspendendo-se graciosamente das latadas ou pendurando-se desordenadamente nas beiradas, o pai passava horas de máquina a tiracolo a sulfatá-las uma a uma. Depois, já amadurecidas, e muito apetitosas, as uvas eram colhidas e levadas em cestos para o lagar, onde eram esmagadas. Durante dias e dias exalava do mosto um cheiro perfumado, acre e doce que se propagava por toda a casa.

O dia que Mariana mais adorava era o da matança. Nesse dia nem ia à escola. A mãe preparava tudo com muita antecedência. A enorme salgadeira, os alguidares, os caldeirões e as panelas, tudo era muito bem limpo e lavado. Na véspera Mariana ajudava a descascar uma enorme quantidade de alhos, a arranjar os temperos e a preparar as toalhas branquinhas enquanto o pai aprontava o colmo para a chamusca.

Nesse dia, a casa não se enchia de gente como na desfolhada, mas a azáfama era muito diferente e mais divertida do que a da vindima. Não era costume vir nem os vizinhos nem os amigos, porque todos tinham que preparar as suas matanças nesses dias. Apenas vinham os tios e os primos de Covelas e, por vezes, os avós das Caldas com a madrinha Clotilde. De manhã cedo, quando o dia ainda não clareara de todo, chegava o Senhor Joaquim, o matador que o pai contratava todos os anos. Vinha de Valdeirigo e trazia umas facas enormes. Juntamente com o pai e o tio entravam nos aidos, agarravam o cevado, amarravam-lhe as pernas e punham-no em cima duma pequena mesa que se guardava de ano para ano. Mariana de longe, apreensiva e cheia de medo, tapava os ouvidos com ambas as mãos para não ouvir os gritos de aflição que o porco emitia ao ser apanhado. A mãe, de avental novo ao peito, aproximava um alguidar do pescoço do cevado e enchia-o com o sangue que se esvaía a jorros do buraco que lhe havia feito a faca certeira do senhor Joaquim. De seguida dividia o sangue em duas partes: uma para coagular e fazer o sarrabulho para a ceia, enquanto à outra metade juntava umas gotas de vinagre e deitava-a num alguidar, para mais tarde a misturar aos bocadinhos da carne da barriga com que se haviam de encher as chouriças. Com a palha do colmo retirada do centeio e transformada em espécies de vassouras, a que ateavam fogo, os homens chamuscavam o porco de uma ponta à outra. De seguida com baldes de água e sabão azul o suíno era lavado e esfregado com pedras e ramos de carqueja até ficar totalmente branquinho e limpo que era um regalo. Depois pegavam-lhe e levavam-no em ombros para a loja de arrumos, onde era amarado de pernas para o ar, aos tirantes que seguravam o soalho do piso superior. A mãe limpava-o todo com um pano de linho, preparado exclusivamente para este fim e que depois de lavado era novamente guardado para o ano seguinte. O matador, com um enorme facalhão, abria-o de cima para baixo e retirava-lhe o fígado, os bofes, o coração, as tripas e a bexiga. As tripas eram embrulhadas em panos, de maneira a não secarem, a fim de que mais tarde fossem muito bem lavadas no rio. O porco ficava aberto e com umas canas a esticar-lhe o corpo. Por cima das patas e da barriga o pai colocava-lhe o redanho como que a simular um manto. E assim ficava até ao dia seguinte, escorrendo em fio um líquido avermelhado e sujo, recolhido numa bacia que lhe era colocada debaixo da cabeça. A mãe já havia preparado e guisado os miúdos com pedacinhos de batata e, com o fígado, fizera umas deliciosas pataniscas de cebolada. É que o dia começara cedo e a fome apertava. De tarde Mariana acompanhava as tias que iam ao rio lavar as tripas muito bem lavadinhas enquanto a mãe ficava em casa a preparar o unto para fazer o pingue. À noite, todos voltavam a sentar-se à mesa onde as papas de sarrabulho ferviam no velho caldeirão de ferro e exalavam um cheirinho a noz moscada e a cominhos que enchia a casa e, juntamente com o fumo, saía pelos telhados e se propagava pela vizinhança. No dia seguinte voltava o senhor Joaquim com as suas facas para desmanchar o porco. Tirava o redanho para que a mãe o derretesse. Depois extraía a carne da barriga destinada aos rojões, da qual separava as aparas para as chouriças. De seguida, cortava-lhe a cabeça, preparava as orelheiras e dividia o corpo em duas partes, das quais tirava os coelhos. Era com estes que a mãe fazia os melhores salpicões. Depois cortava as pás, tirava as costelas e as tiras da barriga que seriam guardadas na enorme salgadeira. Finalmente cortava os presuntos, que eram colocados juntamente com os salpicões num molho feito alho, sal, vinho e louro e onde permaneciam durante alguns dias, antes de irem para o fumeiro. De modo semelhante eram temperados os ingredientes com que mais tarde seriam feitas as chouriças. Seguiam-se dias e dias de fumeiro, com a queima de rama verde, para o tornar mais lento e demorado. Depois os presuntos eram passados por vinha-d’alhos e postos em sal. Mariana ajudava a mãe em todas estas tarefas e com ela partilhava uma enorme tristeza quando algum presunto, ou porque o tempo estivesse mais quente ou porque não tivesse curado bem, se deteriorava.

Para além destes dias verdadeiramente diferentes para Mariana os restantes eram de uma verdadeira monotonia. Levantava-se cedo e seguia para a escola, onde fazia ditados, resolvia problemas, estudava os rios e as serras, os reis e as batalhas, os vertebrados e invertebrados. Na hora de leitura a senhora professora juntava-as à volta da secretária, por trás da qual ficavam, ladeando um crucifixo pendurado na parede, as fotografias de Craveiro Lopes e Salazar, para lerem à vez e contarem histórias. Terminadas as aulas regressava a casa, ajudava os pais, tomava conta do Zezito e fazia as cópias e as contas que a Dona Ermelinda mandava. Apenas os domingos e os dias de festa em que os pais não trabalhavam no campo eram diferentes.

A festa que Mariana mais adorava era o Natal. Todos os anos faziam, na sala, um enorme presépio com as figurinhas de barro que a mãe trouxera das Caldas: o Menino Jesus, Maria, José, os três Reis Magos, os anjos, os pastorinhos e muitos aldeões que circulavam à volta da gruta, por caminhos cobertos com serrim de madeira e ladeados por casinhas também de barro e por leivas de musgo a imitar os campos onde pastavam as ovelhitas. Mas o que Mariana mais ansiava era a noite de Natal. Nessa noite a ceia era na sala e a mãe enchia a mesa de iguarias deliciosas que aprendera a fazer com a avó da Trofa: rabanadas, mexidos, aletria e sopas secas, que enchiam a casa de um agradável cheirinho a canela. Terminada a ceia partiam, às vezes com o Zezito já a dormir, para a missa do galo. O pai ficava cá fora com os homens, enquanto ela e a mãe entravam na igreja cheia de vultos negros, de tossidelas, de rouquidões, de arrastar de cadeiras, de bichanar de orações e de cheiro a velas a arder. Sentavam-se e esperavam em silêncio ou rezavam baixinho, até que o sacristão, envergando uma opa vermelha, vinha tocar uma enorme campainha. Os homens que aguardavam lá fora entravam para o coro e para os lugares do fundo enchendo a igreja por completo. Toda a gente se levantava e fazia-se um enorme silêncio. O pároco saia da sacristia todo vestido de branco e, segurando na mão o cálice devidamente coberto com um véu esbranquiçado, dirigia-se para o altar-mor. Tirava o barrete negro de três bicos, fazia uma enorme genuflexão e bichanava as primeiras orações em latim, às quais apenas o sacristão respondia. O povo, de joelhos batia com a mão direita no peito e inclinava a cabeça. Pouco depois, o padre aproximava-se do centro do altar, voltava-se para o sacrário e erguendo os braços, entoava em voz muito alta:

- “Glo-ó-ó-ó-óó-ria in excelsis-sis De-e-e-o”.

O sacristão de imediato badalava prolongadamente a campainha enquanto os sinos repicavam e a igreja se enchia de luz, de cor e de alegria. A missa continuava, entre preces, louvores e orações. O povo levantava-se, sentava-se, ajoelhava e tornava a sentar-se, consoante as indicações da campainha.

No fim, enquanto se entoavam cânticos de Natal, o pároco dirigia-se para o presépio que ficava do lado direito da capela-mor, por baixo da imagem de S. Martinho. Recebendo o turíbulo fumegante, balouçava-o diante das enormes figuras de Maria, José e do Menino, enchendo o templo de fumo e de cheiro a incenso. De seguida tomava o Menino nas mãos e colocando-se junto à grade que separava a capela-mor do cruzeiro, dava-o a beijar aos fiéis. Mariana, juntamente com as outras crianças, incorporava-se nos primeiros lugares da longa fila que se formava à espera de vez para beijar o Menino Jesus e para depositar, na cestinha que o sacristão mantinha na mão, os vinte centavos que a mãe lhe dera na véspera.

Em Janeiro havia a festa de S. Sebastião. Em Abril a da Senhora do Desterro e a Páscoa. No mês seguinte, o Espírito Santo. Em Agosto chegava finalmente a maior festa de todas – a Senhora das Dores. Mariana adorava-a. A avó Leocádia, prevendo alguns problemas a quando do seu nascimento, prometera que, logo que a menina andasse pelos seus pezinhos, havia de ir todos os anos, na procissão, vestida de anjinho. A mãe esmerava-se na preparação das roupitas. Faltasse tudo lá em casa, mas promessa era promessa e, por isso, a roupa que a menina vestiria para acompanhar a Senhora das Dores nunca havia de faltar. No dia da festa, Mariana seguia cedo com os pais, para o largo fronteiro à capela. Terminada a missa iniciava-se uma gigantesca procissão, onde se incorporavam dezenas e dezenas de anjinhos, as irmandades e os dez andores representantes das aldeias de Bougado.

Finalmente, em Setembro, havia uma outra festa a que os pais de Mariana também nunca faltavam – a romaria de Santa Eufémia, em Alvarelhos.

Os restantes domingos, da parte da tarde, eram de trabalho. Os pais, no entanto, reservavam para essas tardes os trabalhos mais leves mas considerados necessários. O pai dava feno e erva ao Lavrado, ordenhava a cabra e apanhava os legumes enquanto a mãe tratava do porco e dava uma barrela à casa.

Este trabalho contínuo, persistente e sem futuro começava, por vezes, a indignar o pai da Mariana. Aquilo era uma vida miserável. Trabalhava-se, trabalhava-se para ter apenas o sustento de cada dia. Por várias vezes ensaiara tentativas, todas elas frustradas, de arranjar emprego nalgumas fábricas de serração de madeiras, tecelagem, chapéus, tecidos ou de maceração do linho, que desde há alguns anos começaram a surgir ali na zona de Bougado. Mas não tivera sorte, nunca fora admitido. É verdade que já lhe tinham oferecido emprego nas Ferragens Melo e Sousa, no Porto, mas recusara-o. Muitos homens de S Martinho e de outras localidades ao redor deslocavam-se todos os dias para o Porto, para trabalhar em fábricas ou na construção civil. A escassez de transportes, no entanto, obrigava-os a fazer a viagem de bicicleta, demorando mais de três horas em viagens. Assim ficava totalmente impossibilitado de continuar a trabalhar o campo e a Teresa sozinha e com as crianças muito pequeninas não podia atender a tudo. Além disso os ordenados quer nas fábricas quer na construção eram muito baixos.

Mas a ideia de abandonar a agricultura e mudar de vida nunca saiu por completo do pensamento do pai da Mariana. Muitas vezes, à noite juntamente com a mulher, quando as crianças já dormiam, lamentava aquela vida árdua e cansativa, sobretudo para ela. Não fora para aquilo que a tirara de casa dos pais, da Tornada. E os filhos? Que futuro lhes preparava? Continuarem ali, agarrados à rabiça do arado ou ao cabo da enxada para ter apenas um caldo de couves e um bocado de boroa ao fim do dia? Não, não podia ser assim. Tinham que pensar em mudar de vida, em construir um futuro melhor sobretudo para os filhos. Para isso tinham que se aventurar.

A mulher bem o tentava demover lembrando que não estava nada incomodada com aquela vida. Casara com ele por amor e era por amor que tinha deixado os seus pais e tinha saído das Caldas. Além disso estava habituada à vida do campo. Também na Tornada, desde que terminara a quarta classe, sempre se habituara ao trabalho agrícola, ajudando os pais nas lides agrárias e que a mãe sempre lhe lembrava que não nascera para princesa.

O Libório, porém, não se conformava e não lhe saía da cabeça a ideia de que um dia havia mudar de vida. Esse dia não tardou.

Foi na festa de Santa Eufémia, em Alvarelhos, que o pai de Mariana encontrou um amigalhaço do tempo da tropa que havia emigrado para a França e agora estava em Portugal a passar uns dias. Conversa daqui, conversa de acolá e o sonho de abandonar a vida agrícola tornou-se mais real do que nunca. A vida em Portugal não melhorava, o país não progredia e a agravar a situação o regime de então acabara de iniciar uma guerra em Angola. Dizia-se que também seriam mobilizados os que tinham feito tropa nos últimos anos, mesmo já tendo passado à disponibilidade.

Assim, emigrar para França transformou-se numa decisão irreversível.

A mulher nem queria acreditar e atirava-lhe à cara com inúmeras dificuldades, repetindo constantemente:

- Tu endoideceste por completo, homem de Deus!

Não, não endoidecera. Afinal já estava tudo planeado. É verdade que não tinha quem lhe fizesse carta chamada, mas iria como muitos outros tinham ido – clandestino. A diferença é que ela e os pequenos também iam, apesar dos passadores não quererem levar mulheres, nem muito menos crianças. É que a fuga era muito perigosa.

Foi um tipo de Macedo de Cavaleiros que contactou o pai da Mariana através de um primo de Guidões, para acertar tudo. Era preciso que ninguém soubesse ou desconfiasse de nada. E foi lá, em Guidões, em casa do primo que encontrou o homem. Álvaro Ramalho, assim se chamava o contrabandista, no início recusou levar a mulher e as crianças. Aos poucos foi cedendo. Era uma questão de preço. Mas garantiu-lhe que era sério e honrava os compromissos. O que se combinasse ali seria escrupulosamente cumprido. Oitenta contos: trinta por cada um dos adultos e vinte pelas crianças mas estas, sempre que seguissem de caro ou camioneta, seriam levadas ao colo. Claro que tudo o que lhes acontecesse era da responsabilidade dos pais.

O pai de Mariana regressou sem firmar contrato. O preço era altíssimo. Era-lhe de todo impossível arranjar aquele dinheiro. Um segundo encontro e o Ramalho cedeu:

- Vinte em notas e quarenta em bens. Aceitamos casas, terras… Mas temos que ser nós a avaliá-los – sentenciou o homem, apertando-lhe a mão – e tens emprego garantido em Clermont-Ferrand. Ao chegares lá um tipo chamado Cardoso vai procurar-te, arranjar-te trabalho e dizer-te como deves pagar os restantes vinte mil. Não devem levar muita bagagem. Para além de ser comprometedor é impossível transportá-la. Levem apenas o indispensável.

A mãe de Mariana teve muitas dificuldades em aceitar.

- Vais vender a casa e o campo!? E se temos que voltar para trás? O que vai ser de nós e dos pequenos? Nem ao menos posso avisar meus pais? – perguntava ansiosa.

- De forma nenhuma. Ninguém, absolutamente ninguém pode saber, a não ser o primo de Guidões. E não te esqueças – lembrava – à Mariana e a todas as pessoas deves dizer que vamos às Caldas, a casa dos teus pais.

- E o Lavrado? E a cabra? E as galinhas e o porco?

- O boi está vendido. A casa e o campo ficam ao cuidado de meu primo. Só depois de receber a notícia de que já estamos seguros e em França ele venderá o que puder e fará a entrega da casa e do campo ao passador.

Foi na véspera dos anos de Mariana que ela, os pais e o irmão partiram de S. Martinho de Bougado com destino à França. Para os vizinhos iam às Caldas, a casa dos avós maternos, passar o aniversário da menina. Mas no Porto não foi fácil convencer Mariana de que iam para as Caldas por outro caminho.

Quando chegaram a Bragança um tipo de aspecto esquisito aproximou-se, recebeu-os e ofereceu-se, como taxista, para os levar a Gimonde. Que esperassem um pouco sem dar muito nas vistas. A viagem era curta e só à meia-noite em ponto deviam estar em Talhinhas junto à ponte de Remondes, sobre o rio Sabor. O plano em nada falhou. Ao dar a meia-noite, lá estavam juntando-se a eles outros dois desconhecidos, com quem teriam que efectuar uma longa e perigosa viagem. Finalmente chegou o guia que os acompanhou até à fronteira.

Era Outubro. As noites já eram grandes e frescas. As crianças começaram a sentir fome e frio. O pai prevenira-se com comida em Bragança. Mas o Zezito não se calava e, em vão, pedia leite. O choro e a impaciência começavam a importunar. A mãe vezes sem conta arrependia-se de ter partido.

Na manhã seguinte uns a dormir e outros acordados chegaram a Puebla de Sanabria, juntando-se a alguns pequenos grupos que tinham passado a fronteira noutros locais. Passados alguns dias estavam em Dancharie na França, onde o último guia os deixou.

- Agora tomem o comboio e sigam os vossos destinos conforme as instruções que vos deram. Governem-se, como puderem – e virou costas.

O comboio ainda parou em Puyoô e em Agen onde saíram alguns portugueses. Apenas um pequeno grupo seguiu para Clermont-Ferrand.

Na capital de Auvergne o pai de Mariana procurou o Cardoso, que morava na rua de La Rotunde e desde há muito estava radicado em França. Os conhecimentos que tinha junto dos patrões de algumas fábricas de pneus, metalurgia, produtos farmacêuticos e alimentares proporcionavam-lhe que fosse arranjando alguns empregos para os que o Carvalho lhe recambiava de Portugal. O que tinha disponível de momento era numa fábrica de pneus. Não era grande coisa, mas para principiar, não era mau.

- É um trabalho pesado. Mas és novo e forte. Se com o teu trabalho agradares aos patrões, tens promoção pela certa. Já sabes que para aqui não se vem passar férias.

O alojamento é que estava um pouco complicado. Para já só conseguira um quarto, um pouco distante da fábrica. Era na rua Berlliard. A mulher podia usar a cozinha e o preço era acessível. Em breve lhe arranjaria uma casita. Havia um tipo de Viana que ia tentar melhor sorte em Paris. Quando ele fosse embora ficaria com a casa.

***

O Peugeot dos Dupont seguia a alta velocidade em direcção a Braga. O GPS indicava que devia sair em Santo Tirso/Trofa e depois virar à esquerda. Quando começou a circular em direcção à Trofa, Mariana sentia uma grande ansiedade. Dentro em breve iria percorrer os caminhos e as vielas dos tempos de infância, recordando assim os lugares onde tinha nascido e fora criada. Em França, sobretudo depois do casamento com Pierre Dupont e da mudança de Clermont-Ferrant para Aurillac, poucas informações recebia de Portugal. Mas duma coisa tinha a certeza – tudo estava muito diferente. À medida que se aproximava o coração apertava-se-lhe mais. É que a oportunidade de ver e talvez até de entrar na pequena casinha onde tinha nascido podia estar prestes a concretizar-se. Os semáforos à entrada da cidade causavam-lhe alguma confusão, mas configuravam grandes mudanças. No entanto começava a ver perdidas entre modernas construções, uma ou outra casita de xisto amarelado, que tal como aquela onde nascera, deixavam ver as pedrinhas rectangulares que ela sempre comparara a tabuinhas de madeira. De certo que não se haviam enganado. Mais adiante, uma igreja nova, moderna, de tijolos acastanhados e amplas vidraças e logo à direita, uma escola enorme, rodeada de prédios modernos e altíssimos. Era a Trofa, mas uma Trofa muito diferente da pequenina aldeia que havia deixado quarenta e sete anos antes.

Voltaram à esquerda, tornaram a voltar à direita e seguiram em frente na direcção do sítio onde presumivelmente estaria a velha casa. Mais umas voltas e chegaram ao pequeno largo em frente à igreja matriz, cuja fachada exterior ainda tinha bem presente na memória. Não estaria muito longe da casa, pois lembrava-se que, muitas vezes, à noitinha, da janela do seu quarto via, por cima dos telhados das casas circundantes, a torre da igreja. Vinha então debruçar-se à janela para ouvir o toque das Trindades. A avó havia-lhe ensinado as orações que devia rezar entre as lentas e demoradas badaladas do sino. Mais adiante estendia-se uma área enorme de terreno plano onde se misturavam prédios já construídos e outros em construção. Algumas escavadoras reviravam a terra e removiam enormes calhaus que eram retirados dali por portentosos camiões. Muito isolada, num dos cantos do grande eirado, com paredes e muros parcialmente destruídos, apenas uma casa, em tudo muito semelhante à sua. Era de uma amiga de escola, a Joaninha, lembrava-se bem. Passava por ali todos os dias, parava e chamava por ela. Depois lá iam, de malas a tiracolo, saltando e cantando pelos campos para encurtar caminho, apanhando flores com que faziam um ramo para oferecer à Dona Clotilde. As casas ao redor já tinham sido derrubadas e era, nos seus lugares que edificavam aqueles prédios modernos e abriam novas e largas ruas, onde circulava continua e frequentemente uma enorme quantidade de automóveis.

Ali era S. Martinho, mais além as outras aldeias e o rio. È verdade que também as suas águas já não eram tão limpas, transparentes e cristalinas como as de outrora, muitos moinhos e azenhas haviam desaparecido e ao seu redor os campos já não se enchiam de milho e de couves repolhudas, já não havia matança de porcos, desfolhadas e as vindimas já não eram como outrora. Já não havia casinhas de xisto com os mimos à porta da cozinha, e com os aidos onde se acomodavam os animais. Os homens e as mulheres já não se agarravam, de manhã à noite, à rabiça do arado ou à enxada e as mulheres já não sachavam e mondavam sob o calor tórrido do estio. Mas, em contra partida, nascera ali uma cidade, uma cidade grande e moderna que crescera graças à força, coragem e determinação de um povo. Mais, os trofenses depois de muitas vicissitudes, de empenhadas lutas e de esforços gigantescos haviam transformado aquela terra num concelho - o novo e moderno concelho da Trofa.

Apenas a Senhora das Dores na sua capelinha muito alta e esguia permanecia no seu altar e no coração de quantos como Mariana haviam ali nascido. Em frente à ermida, apertando tremulamente a mão do marido e com duas lágrimas a rolarem-lhe pelas faces, Mariana dizia-lhe baixinho:

- Oh, mon chéri, je suis tellement fiére d’être née dans cette ville.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

HOMENAGEM AO SEMINÁRIO DE ANGRA, AOS PROFESSORES E ALUNOS DAS DÉCADAS DE 50/60

Domingo, 14.10.18

Estamos aqui para prestar homenagem ao Seminário Episcopal de Angra, única instituição de ensino pós-secundário, nos Açores até 1976, ano em que foi criada a Universidade açoriana, que foi um notável e inexaurível alforge de ciência, de arte, de música e de cultura, onde se formaram, para além do clero açoriano, de onde emergiram muitas eminentes figuras da igreja católica, grande parte da classe dirigente, da intelectualidade e da cultura açorianas.

Foi sobretudo nas décadas de cinquenta e sessenta que esta instituição atingiu o apogeu da sua notabilidade e da sua génese formadora. Mas nesta ocasião e neste momento não se pode nem se deve ficar apenas por uma referência a esta notável e excelsa geração das décadas de 50 e 60, a que a maior parte dos que estão aqui presentes se orgulha de ter pertencido. Importa recordar também aqueles que, antes de nós, por aqui passaram, desde o início da fundação deste Seminário, altura em que, durante alguns anos, repartiu as suas instalações com o Liceu desta cidade. Nas primeiras décadas do século passado, nomeadamente, a quando da implantação da República em Portugal e da separação entre Igreja e Estado, no princípio de Outubro de 1911, altura em que o poder civil, invocando os princípios que defendia e proclamava, tomou conta do edifício onde funcionava o Seminário e que pertencia à diocese. Este embora passando por diversíssimas e inverosímeis vicissitudes, sobreviveu. Nessa altura alguns alunos foram forçados a abandonar o curso, enquanto outros se instalaram em casas particulares ou das suas próprias famílias, no caso dos alunos da Terceira, indo receber lições às moradas dos próprios professores, como refere o Cónego José Augusto Pereira, nos seus livros “O Seminário de Angra” e “A Diocese de Angra na História dos seus Prelados”. Entre os alunos que foram forçados a abandonar o Seminário, estava o estudante José Vieira Alvernaz, como narra Maria Guiomar Lima, no livro recentemente publicado, sobre a figura daquele que foi um dos mais credenciados Patriarca das Índias: “Quando o Seminário encerrou o jovem Alvernaz continuou a estudar no Liceu de Angra, reinstalado no Convento de são Francisco. O ensino era mais caro, porém, o pai incentivou-o a não desistir”… Nessa altura, foi colega, amigo e companheiro de Vitorino Nemésio.

Nas décadas de 50 /60 ainda nos chegavam ecos e memórias de toda uma geração anterior que ao longo dos quase cem anos de existência do Seminário, lutara por construir e edificar uma instituição que era incontestavelmente o reflexo da força, do saber e da cultura. Umas vezes eram os professores de então e sobretudo os clérigos das paróquias a que pertencíamos, que recordavam os nomes, referiam a sabedoria e exaltavam a competência dos seus antigos mestres, enquanto noutras, nos era proporcionado ler os escritos e as memórias que muitos antigos alunos de anos anteriores nos haviam legado. Era frequente ouvirem-se os nomes do Dr Cardoso do Couto, este até atribuído à Academia dos Médios, o Dr Botelho, o Dr Bettencourt, o cónego Garcia da Rosa, o cónego Pereira e o Dr José Vieira Alvernaz, entre muitos outros. Do mesmo modo éramos incendiados pelos escritos de muitos homens, alguns deles padres, mas também dedicados às letras, que haviam feito a sua formação no Seminário, como Bernardo Maciel, Nunes da Rosa, José Jacinto Botelho, Valério Florense, Osório Goulart, Cónego Pereira, Diniz da Luz e mais recentemente, José Machado Lourenço, Coelho de Sousa, José Enes e Cunha de Oliveira ou à Música, como Tomás de Borba, Francisco Lacerda, o padre José d’Ávila, o padre José Luís de Fraga que nas letras usou o pseudónimo acima referido de Valério Florense, e tantos outros.

Era todo este passado nobre, glorioso, era toda uma tradição forte, ingente e diversificada que pairavam no Seminário e se iam transmitindo de geração em geração, quer através das frequentes alusões a antigos mestres e a sacerdotes músicos poetas e escritores e ainda a outras eminentes figuras da igreja católica, cujas fotos ornamentavam as paredes do salão de estudo dos Médios e também salão de festas, com destaque para o Cardeal D. José da Costa Nunes e os bispos, D. Manuel Medeiros Guerreiro, D. José Vieira Alvernaz, D. Jaime Garcia Goulart, D. Paulo José Tavares, D. José Pedro da Silva, cujas actividades pastorais, sobretudo por terras do Oriente, caíam sobre nós em catadupa e como que nos acicatavam os ânimos e as vontades, a fim de perseguirmos, sob a orientação dos mestres de então, na senda dos mais nobres ideais do humanismo, da cultura, das ciências, das letras e, também, como não poderia deixar de ser, da formação sacerdotal e da religião.

Assim, durante doze anos, o Seminário de Angra dispunha e disponibilizava, aos que o demandavam, um plano curricular exigente, completo, abrangente e rigoroso, complementado com actividades de índole intelectual e cultural, desde a música ao teatro, passando pelo jornalismo, através de academias, sabatinas, jornais, palestras, reuniões, semanas culturais, etc.

Quanto ao plano curricular, referirei apenas o curso de Teologia, extensivo aos últimos quatro anos de estudo e que se dirigia fundamentalmente à formação específica dos futuros sacerdotes, abrangendo um tronco de disciplinas básicas, com uma exaustiva carga horária Embora não se tendo verificado, nesta etapa final do ensino do Seminário, nenhuma reforma curricular, como no preparatório e no de Filosofia, em termos de alteração ou enriquecimento do currículo, nos finais da década de sessenta verificaram-se grandes e profundas reformas, não só a nível dos conteúdos de algumas disciplinas mas também e sobretudo no que à metodologia dizia respeito. Na génese destas alterações, estiveram alguns dos professores de então, como o Dr Cunha de Oliveira em Sagrada Escritura e dr Francisco Carmo em Economia Social e ainda e sobretudo uma nova geração de professores, recentemente regressados de Roma: o Dr José Nunes em Teologia Dogmática, o Dr Manuel António, em Moral, o Dr Artur Goulart em Liturgia, o Dr Caetano Valadão em História do Cristianismo, o dr Vasco Parreira em Teologia Pastoral. Era o princípio do fim dos velhos compêndios profundamente enraizados nos princípios e axiomas da Escolástica Medieval e o libertar-se dos meandros da Casuística, fechada e obsoleta. Era o dealbar duma nova era, onde pontificavam as orientações e as doutrinas emanadas dos documentos do Concílio Vaticano II e a leitura de teólogos modernos, como Juan Alfaro e Bernard Haring, frequentemente citados por José Nunes e Manuel António, nas aulas de Dogma e de Moral.

Na globalidade, os professores, que leccionavam na década de sessenta, eram quase todos eles formados na Pontifícia Universidade de Roma e revelavam uma competência capaz de mobilizar os parcos recursos pedagógicos disponíveis, na altura, e que quase se limitavam aos manuais, ao quadro e a alguma bibliografia complementar. Muitos deles distinguiam-se culturalmente na sociedade angrense da então, bastante exigente na defesa e promoção da cultura. Alguns haviam publicado livros, outros escreviam para revistas e jornais, chegando um ou outro a assumir a direcção e a redacção do jornal “A União”, fazendo-o com grande qualidade e mestria. Para além de açambarcarem os púlpitos da Sé Catedral e de outras igrejas angrenses, por altura de festividades e comemorações, proferiram conferências na rádio, palestras em sessões culturais e orientavam diversas instituições e organizações sediadas em Angra, como o Instituto Açoriano de Cultura, a Cáritas, a Misericórdia, a Acção Católica, Cursos de Cristandade, Conferência Vicentina, etc. Foi um grupo de professores do Seminário que fundou o próprio Instituto Açoriano de Cultura, dando, posteriormente início à organização das Semanas de Estudo, como ontem foi referido. A um destes mestres, - José Enes - se deveu mais tarde a fundação da Universidade dos Açores, da qual também foi Reitor e professor, sendo-o também noutras universidades. Percursos notáveis, fora do Seminário, tiveram ainda outros mestres, Cunha de Oliveira, Francisco Carmo, Artur Goulart e Caetano Serpa. Outros como Caetano Tomás, José de Lima e Edmundo de Oliveira eram também  professores do Liceu de Angra.

Para a história aqui ficam, por ordem alfabética, os nomes de todos os professores do Seminário de Angra, na década de 60: Afonso Carlos Quental, Alfredo José Tavares, Américo Caetano Vieira, António Pereira da Silva, António Rogério Andrade Gomes, Artur Cunha de Oliveira, Artur Goulart de Melo Borges, Artur Pacheco Custodio, Augusto Manuel de Arruda Cabral, Caetano Valadão Serpa, Edmundo Machado de Oliveira, Francisco Borges Paim, Francisco Caetano Tomás, Francisco Carmo, Francisco Vitorino de Vasconcelos, Horácio da Silveira Noronha, Jacinto da Costa Almeida, Jaime Luís da Silveira, Jeremias Machado da Rocha Simões, José Enes Pereira Cardoso, José Machado Lourenço, José Mendonça de Lima, José Nunes, Manuel António Pimentel, Manuel Coelho de Sousa, Valentim Borges de Freitas, Vasco da Silva Castro Parreira, Weber Machado e um leigo, o dr Mário Lima, médico do Seminário e professor de Medicina Pastoral. De recordar ainda o padre António Rocha que exerceu as funções de ecónomo, o padre Martinho, capelão de São Rafael, que era confessor assíduo, assim como o padre Ivo Correia, o padre Gil Mendonça e outros.

No Seminário Menor de Ponta Delgada, durante os dois primeiros anos da sua existência urge recordar, como professores, os nomes de José de Oliveira Lopes, que exerceu o cargo de reitor, o Simão Leite de Bettencourt, Agostinho Tavares, José Franco Cabral e José Batista, pároco de São Pedro. A partir do ano lectivo de 1958/59, o reitor foi Jacinto da Costa Almeida e, alguns anos depois, Hermínio da Rocha Pontes.

Gostaria também de referenciar e homenagear aqui os monitores, tantas vezes esquecidos. Eram alunos mais velhos, que abdicavam do convívio, da convivência diária e até dos passeios com os seus colegas de curso, nalguns casos até se abstinham de usufruir do seu próprio quarto, que viviam junto dos mais pequenos, dia e noite, colaborando com os prefeitos, na formação, na educação e no acompanhamento dos mais novos. Eram jovens extraordinários, talentosos, bons alunos, que nos dispensavam uma amizade e um carinho muito grande, sendo geralmente bem mais complacentes e permissivos do que o próprio perfeito. Era sobretudo na prefeitura dos Miúdos, onde a diferença de idade entre monitor e alunos era maior, que se fazia sentir mais a sua acção terna e carinhosa. Recordo, dos dois anos que passei na prefeitura de São Luís Gonzaga: José Alvernaz Pereira de Escobar e José António Piques Garcia. Recordar também os últimos dois monitores do Seminário em 1967: Gilberto Amaral e Manuel Francisco Aguiar

E nós alunos? Durante décadas e décadas, centenas, talvez mesmo milhares de jovens de todas as ilhas rumaram a Angra a fim de encontrar no Seminário, sob a sábia competência destes e de muitos outros mestres, na procura de um saber completo e abrangente, uma formação sólida, competente e adequada que ombreava, talvez mesmo ultrapassava a dos outros seminários do país.

Na realidade, e citando o José Gabriel Ávila, no seu blogue “Escrita em Dia”: “Quem passou pelo Seminário de Angra nas décadas de 50 e de 60, ficou marcado pela abertura à cultura, à sociedade, à modernidade, e por novas ideias sociais, políticas e religiosas veiculadas por docentes formados em universidades europeias”

Foi a competência, a sabedoria, o humanismo e a dignidade destes e de outros mestres que constituíam o corpo docente do Seminário de Angra nas décadas de 50/60, os planos curriculares que eles próprios construíram, os conteúdos programáticos das disciplinas que leccionaram e as diversíssimas actividades culturais, artísticas e até de lazer em que connosco se envolviam e nas quais nos acompanhavam com dedicação, amizade e esmero, que fizeram, daquele punhado enorme de jovens açorianos que naquelas décadas procuraram este Seminário e que nela encontravam uma segunda casa e uma segunda família, aquilo que de facto hoje são. É verdade que alguns saíram ao longo do duro e sinuoso percurso de doze anos de estudo. Mas muitos outros chegaram ao fim e ordenaram-se, atingindo o objectivo primordial pelo qual haviam lutado e que constituía o sonho de qualquer simples e humilde família açoriana, na altura – ter um filho sacerdote. Muitos destes, no entanto, alguns anos mais tarde, por isto e por aquilo ou simplesmente porque quiseram, resolveram alterar o destino da sua vida. E, porque haviam armazenado, ao longo do seu percurso no Seminário, uma sólida formação, fizeram-no com dignidade, com convicção, com nobreza de carácter e de acordo com os valores humanos e morais que ao longo dos anos da sua formação haviam adquirido, embora muitos não os tenham entendido ou não os queiram ter entendido.

Seria impossível, para também os homenagear condignamente, referir aqui os nomes de todos estes “os nobres filhos da ciência ” que foram alunos mesta casa nas décadas de 50/60. Mas recordemo-los todos eles prestando-lhes a nossa homenagem, agrupando-os numa espécie de protótipo que se poderia chamar “aluno desconhecido” – onde englobo os mais simples, os mais humildes, os menos “atrevidos” culturalmente. Mas será da mais elementar justiça mencionar aqui os nomes, dos que que mais se distinguiram nas várias áreas da cultura e da sociedade açorianas, sobretudo na década de sessenta. Se algum esquecer agradecia que mo lembrassem. São eles: nas letras, Artur Goulart, Manuel Pereira, Caetano Valadão Serpa, Olegário Paz, Andrade Moniz, Álamo Oliveira, Onésimo Almeida, José Francisco Costa e Urbano Bettencourt, no jornalismo, António Rego, Clemente Cardoso, José Gabriel Ávila, Jorge Nascimento e Santos Narcíso, José Matos, na ciência Weber Machado, Frias Martins, na Sociologia Octávio Medeiros, na Pedagogia, Augusto Cabral, na Música, Armindo Borges, Emílio Porto, José Luís Rodrigues, José Piques Garcia, José Carlos Rodrigues, José Gabriel Ávila, Carlos Sousa, João Elias, António Dionísio, Bartolomeu Dutra e Manuel Azevedo, no dirigismo desportivo Manuel Faria de Castro, na Teologia José Nunes, Rogério Gomes, Manuel António Pimentel, Vasco Parreira, Laudalino Moniz, José Constância, e Ângelo Valadão, na Filosofia Cipriano Franco, na política Emílio Porto, Manuel Serpa, José Adriano Borges Carvalho, Jorge Nascimento e Manuel Azevedo, Sá Couto, na sociedade e no ensino João Esaul, Eduardo San-Bento, João Carlos Carreiro, José Augusto Borges, Gualter Dâmaso, Heriberto Brasil, Manuel Francisco Aguiar e Manuel Tomás e ainda a exercerem o sacerdócio, na diocese de Angra, Agostinho Barreiro, Fernando Teixeira, Daniel Correia, Pedro Lima, Abílio Morais, José Alvernaz, Aurélio Nóia, José Carlos Simplício, Machado Alves, Garcia da Silveira, João Luciano, João de Brito Meneses, António Varão e Abel Nóia, Francisco Dolores, João Maria Vieira Brum, e Agostinho de Sousa Lima, na de Santarém João de Brito Costa, nos Estados Unidos, Victor Vieira, Ivo Rocha, Gastão Altino, recentemente agraciado com o título de Monsenhor e no Brasil, José Francisco Correia. Muitos outros se distinguiram, sobretudo no ensino e na gestão bancária, com destaque, nesta área, o Noé Carvalho, António Manuel Carvalho e o Duarte Miranda. Na realidade seria extenso enumerar todos os outros nomes, não só das décadas de 50 e 60, mas também os que ao longo das outras épocas, durante 150 anos engrandeceram e honraram o Seminário de Angra, através da formação académica ali obtida e que singraram com êxitos assinaláveis nos mais diversos âmbitos das letras, das artes, da ciência, da cultura e da religião.

Finalmente julgo não dever terminar esta homenagem, sem referir aos que embora não sendo professores, nem alunos, partilhavam connosco, nalguns casos dia e noite, esta casa: os empregados. Na globalidade eram homens bons, amigos, dedicados à causa que serviam. Gostaria de destacar aqueles de que lembro melhor e que aqui permaneceram durante mais anos. Em primeiro lugar o Tomé, homem simples, generoso, sempre solícito a ajudar-nos e a fazer tudo por nós. Sempre de vassoura e apanhador nas mãos quando em casa, acompanhava-nos sempre nos passeios grandes, responsabilizando-se pelo transporte das refeições. O Tomé não tinha família. A sua família éramos nós. O sr Julinho que mais tarde veio ajudá-los nas limpezas. O porteiro sr José Natal, mais tarde deslocado para o Seminário de Ponta Delgada e substituído pelo sr Vargas, o cozinheiro, Sr António, natural da Graciosa, que nos brindava às segundas-feiras com um excelente feijão assado e muitos outros, com destaque para um grupo de religiosas que tomaram conta da alimentação e limpeza do Seminário, nos finais da década de cinquenta e da Senhora Maria, a primeira mulher a trabalhar no Seminário.

E termino este o meu pequeno e modesto contributo de homenagem aos alunos, aos professores e, sobretudo, à instituição o Seminário de Angra. É esta a minha mensagem de gratidão para com todos os professores, de quem guardo melhores recordações. É esta a minha solidariedade estima por quantos, como eu foram alunos e se formaram nesta casa.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

AS VÉSPERAS DAS BANDEIRAS

Sábado, 13.10.18

 

Eram alvas,

flocos de neve,

dilúculos de espuma.

 

Entrelaçavam-se

entre os acordes das filarmónicas,

o ribombar do foguetório,

os copos a borbulhar de vinho

os pratos acaculados de favas.

 

E o vento soprava sem destino.

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publicado por picodavigia2 às 00:03

A ENCOMENDA

Sexta-feira, 12.10.18

O aviso amarelo chegou cinco dias após o Carvalho ter demandado a ilha e foi recebido, lá em casa, com enorme alarido e desmesurado alvoroço. Vinha aí uma encomenda da América! Ai vinha, vinha!...

Na manhã seguinte meu pai, aviso no bolso, bordão atravessado sobre os ombros, froca a tiracolo, com um parco farnel numa das mangas, partiu, muito cedo, para as Lajes. Tão cedo que ninguém lá em casa deu por isso, a não ser a minha mãe que se levantou para ir à cozinha aquecer um caneco de alumínio, bem cheio de café, sobre o fogão da luz, que ainda era noite escura. Bem precisava o meu progenitor de forças para fazer tão longa caminhada!

Na véspera, meu pai deixara uma boa parte do dia planeado e todas as tarefas muito bem aclaradas: - O António e eu íamos buscar a Benfeita e os bezerros à Pedra d’Água, enquanto o José limpava o palheiro. Minha mãe tirava o leite à vaca e a Maria ia levá-lo à máquina. Terminada a escola iam todos sachar o milho da Bandeja, que ele quando chegasse haveria de lá ir ter para nos ajudar.

Todas as tarefas, com exceção do milho da Bandeja, foram eximiamente executadas com entusiasmo e competência, mas nenhum deixou de pensar na encomenda, durante todo o dia, por um único momento que fosse. Na verdade sachar o milho da Bandeja era o que mais nos incomodava. Não fosse meu pai chegar a casa com a encomenda e nós não estarmos presentes para a abrir. Por isso, despachamo-nos do milho da Bandeja atabalhoadamente e, cedo, viemos esperar meu pai, sentadinhos na soleta da porta da sala. Uma encomenda da América era de se lhe tirar o chapéu. Não se podia perder por nada deste mundo o momento da abertura. Cada um já se imaginava com um vestido ou uma camisa nova, uns alvarozes, uma froca, umas calças de angrim, um beltro, um caneta de luzinha, lápis de cera e, quem sabe, talvez um brinquedo e muitos candis. Bem desejávamos ir esperar meu pai ao Cimo da Assomada, à Eira da Cuada ou, se pudéssemos, à Ribeira Grande mas… a minha mãe não deixou.

Finalmente, quase ao fim da tarde, meu pai chegou e trazia às costas uma enorme saca branca, com o seu nome escrito a letras azuis, muito grandes, com muitos selos, etiquetas verdes, carimbos pretos e roxos e com a direcção muito certinha. Era remetida de Turlock, Califórnia pelo tio Francisco. Meu pai mal a acabara de colocar no meio da sala e nós atirámo-nos a ela que nem Santiago aos mouros, perante os protestos da minha progenitora que com a tesoura da costura tentava, com dificuldade, abrir o saco sem o danificar, pois daria muito jeito e serviria perfeitamente para levar a moenda ao moinho de tio Manuel Luís. É que o saco que ela usava para levar o milho e trazer a farinha depois de moída, já tinha mais remendos do que lona original. De seguida, com cuidado e perante a nossa exasperada agitação, minha mãe foi tirando as peças de roupa, uma por uma. No fundo do saco, dois pares de sapatos, muito velhos e gastos mas que serviriam ao meu pai, para usar aos domingos. Dentro destes, umas canetas que já nem escreviam, vários lápis usados, borrachas e outras bugigangas. Minha mãe, sempre perante a nossa inquietação, lá foi estendendo tudo pelo chão. Só depois de tudo retirado do saco e de o revirar pelo avesso, não tivesse algum dola lá dentro, deu ordens para que cada ume maneira agarrasse no que quisesse, no que lhe apetecesse ou simplesmente no que os outros deixassem. A sala exalava agora aquele cheirinho tão típico da roupa americana. Parecia que dentro da saca se havia derramado um frasco de perfume. Nós embrenhados não apenas na escolha e na prova mas sobretudo na pesquisa. É que nos bolsos dos casacos e das calças, ou embrulhados em lenços mas muito bem escondidinhos, vinham, por vezes, “candis”, “pinotes”, rebuçados, chocolates, canivetes, sabonetes e frascos de perfume, alguns até vazios. Desta vez, para desânimo nosso, tudo vazio. Apenas roupa, mais roupa, dois pares de sapatos muito usados, um beltro de fivela amarela e pedaços de pano muito coloridos. Mas cheirava tudo tão bem!

Uma vez tudo virado e revirado, vasculhado e apalpado, chegou a hora de dividir o tesouro. Primeiro minha mãe selecionou e guardou as roupas que serviam, com mais ou menos rigor, em cada um e poucas eram. A partir daí a ordem era cada qual ficar com o que quisesse e lhe apetecesse. Mas a minha mãe havia de supervisionar tudo. Foi um ver se te avias: pega, puxa, larga, tira, deixa, mostra e toma. Foi tal escolher e, de seguida, fazer a prova. Sobre as ordens e orientação da minha progenitora, cada qual ficou com o que melhor lhe serviu, embora desajeitadamente, muito desajeitadamente.

Depois de tudo acertado e dividido e da minha mãe guardar o que julgara melhor e de se retirar para a cozinha, decidimos que cada um havia de vestir o que lhe ficasse melhor e iriamos à Fontinha, mostrar à avó e às tias aquelas maravilhas da alta-costura americana. O José vestiu um saiote, que lhe arrastava pelos pés, a Maria um vestido muito largo e comprido, apertado à cintura com um cinto preto, o António umas calças verdes tão largas que tinha que as segurar constantemente com ambas as mãos e eu com um vestido de menina e uma camisa de seda cor-de-rosa por cima. Lá fomos todos vaidosos e contentes com tão adequadas e estéticas vestimentas, todos muito felizes, juntinhos e de mãos dadas. Ao rodar à Praça havíamos de encontrar o Maurício que ao ver aquele quadro estapafúrdio desata numa enorme gargalha e a fazer pouco de nós.

A Maria não esteve com meias medidas e, aproximando-se dele, apontou-lhe o dedo e atirou-lhe à cara:

- Estas a rir porque estás roído de inveja!

E seguimos o nosso caminho, muito felizes, porque uma encomenda vinda da América não se tinha todos os dias.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A ILHA MONTANHA

Quinta-feira, 11.10.18

 

 

No magro chão de lava há perfume   

E o fluxo das marés sabe a frescura.

O Pico é um retalho de verdura

Do sopé da montanha até ao cume.

 

E se as fontes andejam de secura

Ou se o chão treme e arde em cruel lume

- Dias de terror, laivos de negrume -

O mar se abre logo. - Tanta fartura!

 

Zonzos, os currais negros dos vinhedos

Transformam tanta lava em doce mosto!

Trabalhos tão sofridos são folguedos…

 

E nesta ilha de safra compelida,

Até festas e folgas, em Agosto,

Joeiram o chão seco, dão-lhe vida!

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publicado por picodavigia2 às 00:05

LUISA EM VEZ DE EUNICE

Quarta-feira, 10.10.18

Quando, pela primeira vez, recebi o veredicto de que poderia ir sozinho ao arraial da Senhora da Saúde foi, para mim, um total deslumbramento. Eu era ainda muito pequenito, talvez ainda nem tivesse cinco anos. Por impertinência minha, depressa me prepararam, lavando-me, em água fria e com sabão azul das pontas dos pés ao cocaruto da cabeça. Fiquei a cheirar a lavado que era um consolo. Depois inspeccionaram-me a cabeça a pente fino. Mas nada! Nem piolhos, nem lêndeas. De seguida enfarpelei-me eu próprio: uma camisa de seda cor-de-rosa, calças curtas com suspensórios castanhos, ligados à frente e sobre o peito com uma espécie de tira de papelão oval, ornamentada com uma macacada qualquer, peúgas brancas e sapatos de pele de cabra. Um luxo! Bem penteadinho, trinta centavos no bolso, mãos a abanar e com um ar de grande senhor lá fui numa correria louca, numa alucinação inexaurível e com uma alegria viva, contagiante e indescritível.

Era sábado, véspera da festa e o arraial já há muito havia começado. A Praça estava pejada de gente e a Rua Direita toda engalanada. Presas nas varandas ou pregadas nos cantos das casas e estendidas em fio barbante uma enorme quantidade de bandeirinhas de todas as cores suspendiam-se em ziguezague, dando à rua um ar festivo e um colorido desusado. Dezenas e dezenas de pessoas, muitas delas vindas de outras freguesias da ilha, desciam-na e subiam-na para voltar a descê-la, em grupo, em pares ou isoladamente, num vaivém invulgar. O café da Chica estava repleto de homens e a loja do Senhor Rodrigues a abarrotar de gente. Muito a custo lá entrei e fui atendido com alguma dificuldade, até porque o investimento era minúsculo, pese embora significasse uma terça parte do meu pecúlio: um rebuçado com sabor a morango por dez centavos. Saí deliciando-me em doçura e cheguei ao adro da igreja onde se situava o verdadeiro epicentro do arraial.

O adro ainda estava mais ornamentado e povoado do que a Rua Direita. Do alto da cruz da igreja despendiam-se em arcos côncavos carreiros e carreiros de bandeirinhas que vinham prender-se nas varandas e cantos das moradias circundantes. Sobre um coreto de madeira a “Senhora da Saúde”, com os instrumentos ainda a brilhar de novos, deliciava os presentes com os seus acordes musicais. Num dos cantos do adro, um dos locais mais procurados pelos homens, o Albino orientava o jogo em que o principal protagonista era um boneco de madeira suspenso, na cintura, por um eixo e que rodopiava sobre um caixilho também de madeira, apoiado no chão com algumas pedras. O jogo consistia em atirar, de uma distância previamente delimitada, cinco bolas ao boneco, por um escudo. Quem acertasse no dito cujo e conseguisse que ele desse uma volta completa sobre si próprio receberia um prémio: um chocolate, uma laranjada, uma cerveja ou um pirolito, dos de bola. Ao lado o quiosque da quermesse com duas rifas. Uma constituída pela roleta e a outra por pequeninos quadrados de papel muito bem enrolados, uns em branco, outros com um número que correspondia a um prémio. Todos os números e os prémios respectivos constavam de uma lista que, à medida que cada prémio era entregue ao sortudo que o tirara, se ia descarregando. Investi mais dois terços do meu pecúlio: vinte centavos por um bilhete. Desenrolei-o e estarreci por completo: era branco, branco que nem a cal. Bem me apeteceu voltar atrás e ir comprar dois rebuçados, mas já era tarde. Fiquei triste e macambúzio de olhar fixo na roleta que representava a outra rifa ali existente. Era uma roda de madeira presa num pau e a rolar sobre um eixo. A roda tinha colado na frente um papel branco, rigorosamente dividido em dezasseis partes iguais, separadas no bordo por pregos e com oito nomes de homens alternados com outros tantos de mulheres, escritos à mão sobre o papel branco. Na parte superior do pau e encaixada entre os pregos havia uma palheta que ia travando o rodopiar da roleta, depois de movimentada manualmente, até a parar por completo, indicando assim o nome sorteado e que correspondia a um dos bilhetes que havia sido vendido.

Estava eu a observar esta pequena obra de engenharia arraialesca quando me surge pela frente o meu vizinho que era professor no Seminário de Angra e estava a passar férias na Fajã. Sem mais de meias, resolve comprar um bilhete com o nome de uma sua prima chamada Eunice e oferece-mo, dizendo:

 - Está atento ao nome que sair pois o prémio é para ti!

Todo contente e esperançado, fiquei ali bem quietinho até a roleta andar. De bilhete em riste, esperei algum tempo que me pareceu uma eternidade. Finalmente a roleta andou… Rolou… andou... rolou... avagarou e, finalmente, parou. E não é que saiu o nome de Luísa, mesmo ali bem ao lado e coladinho ao de Eunice que o meu vizinho me tinha oferecido e que eu guardava religiosamente

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O MILAGRE DO AMOR

Terça-feira, 09.10.18

Enquanto caminhava pelo Parque da Cidade, num dia destes, uma jovem elegante e, aparentemente, muito simpática cruza-se comigo e sorri com um misto de ternura e sinceridade. Parámos lado a lado. Perante o meu inqualificável espanto, perguntou-me, com um sorriso ainda mais simpático do que o primeiro:

- O senhor já não se lembra de mim? Fui sua aluna.

Não, não me lembrava. As minhas alunas foram sempre meninas entre os dez e os treze anos e que me perdoasse mas ao vê-la já mulher feita, declaradamente elegante e bonita, não a revia a ouvir-me ler o Capuchinho Vermelho ou o Fato Novo do Imperador.

Esclarece daqui, lembra dacolá, nomes para trás e aulas para diante e lá consegui, por entre aqueles olhos de safira e aquele sorriso de ternura e bondade, descobrir a pequenina Alexandra, muito esperta e reguila, que há uns bons anos atrás, me entrava pela sala de aula dentro, em correria louca a disputar aquele lugar da primeira carteira da frente, ali bem juntinho à minha secretária e que, durante a aula, vezes sem conta, me segredava baixinho: - Professor, estou a adorar esta aula.

Sim lembrava-me perfeitamente dela. Meu Deus! Só que sentia que aquilo tinha acontecido há tão pouco tempo que não entendia como tinha crescido tão depressa e como se tinha transformado em mulher tão de repente.

Ela explicou-me. Explicou-me que tinha sido o milagre do amor! Explicou-me que foi quando percebeu que amava alguém que se tornou-se mulher, depois esposa, depois mãe e, finalmente, como muito esforço, com muito trabalho e ainda com mais sacrifício se transformara em professora – professora de Educação Física. Recordava-se muito da escola, dos colegas, dos passeios, das festas e dos professores, especialmente de dois, nos quais eu estava incluído.

Lisonjeado despedi-me e continuei a caminhar. Olhei-a de longe e por entre os ramos acastanhados das árvores e os ziguezagues dos passeios do Parque pareceu-me voltar a vê-la, menina de dez anos, agarrando com ambas as mãos a luz dos sonhos perdidos, erguendo com os braços bem levantados a ternura das quimeras desfeitas mas aspergindo com sorrisos de esperança o alvoroço da felicidade conquistada.

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DEFLUXO, TOPDAS E GODELHÕES

Segunda-feira, 08.10.18

Em criança tínhamos muitas alegrias mas também muitas tristezas e bastante sofrimento. Com uma alimentação deficiente, com condições de higiene limitadíssimas e sem assistência médica, caía-nos em cima tudo o que fosse doenças, achaques e sezões: sarampo, tosse, bexigas loucas, papeira, dedos degolados, bichas, diarreias, mamulos na cabeça, inchaços no pescoço e muitas outras maleitas, entre as quais, tinham lugar de destaque a comichão, as lêndeas e os piolhos. No entanto, as doenças que mais nos apoquentavam, por serem mais frequentes, duradouras e dolorosas eram três: o defluxo, as topadas e os godelhões.

O defluxo atacava-nos quase diariamente e era terrivelmente incomodativo. Os lenços não abundavam e, por isso, vezes sem conta, aquele pegajoso e repugnante escorrimento de humores provenientes da inflamação da mucosa nasal, a que vulgarmente chamavam ranho, tinha que ser recolhido com as costas das mãos ou com as pontas dos dedos e, de seguida, despegado nas paredes, nos muros, nas pedras dos maroiços ou nos troncos das árvores. Para além destes incómodos físicos, éramos também vítimas inocentes de afrontas morais, por parte dos adultos, normalmente libertos de tão perturbante suplício e que não cessavam de nos alcunhar de ranhosos. Pouco agradável, convenhamos.

As topadas, porém, em dor física ultrapassavam de longe o defluxo. Pezinho descalço a circular nos sinuosos e desnivelados caminhos da Cabaceira, da Silveirinha ou do Outeiro Grande, a abarrotar de pedregulhos e calhaus, era batidela certinha, com um dos dedos. Depois, um bom naco de carne levantada, sangue e mais sangue e umas dores fortíssimas. Por vezes, quando a pancada era mesmo grande, até a unha voava, o que duplicava a dor e garantia a desgraça de vir mais tarde a nascer, no lugar daquela, uma outra unha toda enrilhada, enegrecida e desajeitada. As topadas, no entanto, lá se iam curando com um chumaço de pano que se enrolava e amarrava à volta do dedo ferido, não tanto para o curar mas para o proteger de novo embate, o qual traria consequências ainda mais dolorosas. Por vezes os chumaços eram mais do que os dedos livres.

Finalmente a praga dos godelhões, uma espécie de ínguas cheias de matéria e pus que nos cobriam parcialmente o corpo, que lhe davam um aspecto lânguido e asqueroso e cujo tratamento consistia simplesmente em espremê-las.

 

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publicado por picodavigia2 às 07:33

O CÁGADO

Domingo, 07.10.18

 

(UM CONTO DE ALMADA NEGREIROS)

 

Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito — um cágado.

O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo, agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na verdade, o tal cágado da zoologia.

O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. Quando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa.

O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro dos buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e nada; a seguir até ao cotovelo e nada; por fim o braço todo e nada. Tinham sido experimentadas todas as cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe até ao comprimento do braço e nada.

Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava ainda muito mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo, exactamente como uma vara perdida.

Depois de estudar novas maneiras, a ofensiva ficou de fato submetida a nova orientação. Havia um grande tanque de lavadeiras a dois passos e ao lado do tanque estava um bom balde dos maiores que há. Mergulhou o balde no tanque e, cheio até mais não, despejou-o inteiro para dentro do buraco do cágado. Um balde só já ele sabia que não bastava, nem dez, mas quando chegou a noventa e oito baldes e que já faltavam só dois para cem e que a água não havia meio de vir ao de cima, o homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a pensar em todas as espécies de buracos que possa haver.

— E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? - pensava para si o homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar assim menos eu, que sou muito senhor da minha vontade

O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se involuntariamente para as horas de almoçar.

— Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não; agora trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que está em prova, esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!

Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou na pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a terceira, e era uma maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha os nossos olhos em presença do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos antigos. Na verdade, de cada vez que enfiava a pá na terra, com fé, com robustez, e sem outras intenções a mais, via-se perfeitamente que estava ali uma vontade inteira; e ainda que seja cientificamente impossível que a terra rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era indiscutivelmente esta a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador rural. Via-se perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava por ali por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por outras razões diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um dever, um dever importante, uma questão de vida ou de morte — a vontade.

Já estava na nonagésima pazada de terra; sem afrouxar, com o mesmo ímpeto da inicial, foi completamente indiferente por um almoço a menos. Fosse ou não por um cágado, a humanidade iria ver solidificada a vontade de um homem.

A mil metros de profundidade a pino, o homem que era muito senhor da sua vontade foi surpreendido por dolorosa dúvida — já não tinha nem a certeza se era a quinquagésima milionésima octogésima quarta. Era impossível recomeçar, mais valia perder uma pazada.

 

Até ali não havia indícios nem da passagem da vara, da água ou do cágado. Tudo fazia crer que se tratava de um buraco supérfluo; contudo, o homem era muito senhor da sua vontade, sabia que tinha de haver-se de frente com todas as más impressões. De fato, se aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil, também a vontade não podia resultar superlativamente dura e preciosa.

Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam feitos ao que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros arabescos cerebrais, não havia outra necessidade além da dos próprios músculos.

Umas vezes a terra era mais capaz de se deixar furar por causa das grandes camadas de areia e de lama; todavia, estas facilidades ficavam bem subtraídas quando acontecia ser a altura de atravessar uma dessas rochas gigantescas que há no subsolo. Sem incitamento nem estímulo possível por aquelas paragens, é absolutamente indispensável recordar a decisão com que o homem muito senhor da sua vontade pegou ao princípio na pá do trabalhador rural para justificarmos a intensidade e a duração desta perseverança. Inclusive, a própria descoberta do centro da Terra, que tão bem podia servir de regozijo ao que se aventura pelas entranhas do nosso planeta, passou infelizmente desapercebida ao homem que era muito senhor da sua vontade. O buraco do cágado era efectivamente interminável. Por mais que se avançasse, o buraco continuava ainda e sempre. Só assim se explica ser tão rara a presença de cágados à superfície devido à extensão dos corredores desde a porta da rua até aos aposentos propriamente ditos.

Entretanto, cá em cima na terra, a família do homem que era muito senhor da sua vontade, tendo começado por o ter dado por desaparecido, optara, por último, pelo luto carregado, não consentindo a entrada no quarto onde ele costumava dormir todas as noites.

Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de fato, mais continuação daquele buraco, parava exactamente ali, sem apoteose, sem comemoração, sem vitória, beatamente como um simples buraco de estrada onde se vê o fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revolta servia para nada.

Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões, novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo, estava despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá. Tinha, sobretudo, muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e almofada fofa, tão longe! Maldita pá! 0 cágado! E deu com a pá com força no fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe das mãos e foi mais fundo do que ele supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava uma coisa de que ele já se tinha esquecido há muito - a luz do sol. A primeira sensação foi de alegria, mas durou apenas três segundos, a segunda foi de assombro: teria na verdade furado a Terra de lado a lado?

Para se certificar alargou a greta com as unhas e espreitou para fora. Era um país estrangeiro; homens, mulheres, árvores, montes e casas tinham outras proporções diferentes das que ele tinha na memória. 0 sol também não era o mesmo, não era amarelo, era de cobre cheio de azebre e fazia barulho nos reflexos. Mas a sensação mais estranha ainda estava para vir: foi que, quando quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do chão como os habitantes daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de poder ver as coisas naturalmente era pondo-se de pernas para o ar...

Como tinha muita sede, resolveu ir beber água ali ao pé e teve de ir de mãos no chão e o corpo a fazer o pino, porque de pé subia-lhe o sangue à cabeça. Então, começou a ver que não tinha nada a esperar daquele país onde nem sequer se falava com a boca, falava-se com o nariz.

Vieram-lhe de uma vez todas as saudades da casa, da família e do quarto de dormir. Felizmente estava aberto o caminho até casa, fora ele próprio quem o abrira com uma pá de ferro. Resolveu-se. Começou a andar o buraco todo ao contrário. Andou, andou, andou; subiu, subiu, subiu...

Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia antigamente — o maior monte da Europa, feito por ele, aos poucochinhos, às pazadas de terra, uma por uma, até ficar enorme, colossal, sem querer, o maior monte da Europa.

Este monte não deixava ver nem a cidade onde estava a casa da família, nem a estrada que dava para a cidade, nem os arredores da cidade que faziam um belo panorama. O monte estava por cima disto tudo e de muito mais.

O homem que era muito senhor da sua vontade estava cansadíssimo por ter feito duas vezes o diâmetro da Terra. Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas para isso era necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade, onde estava a casa da sua família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores rurais e começou logo a desfazer o monte maior da Europa. Foi restituindo à Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a tinha esburacado de lado a lado. Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados das casas, os cumes dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra, por ter estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto como dantes.

O homem que era muito senhor da sua vontade já podia entrar em casa para descansar, mas quis mais, quis restituir à Terra todas as pazadas, todas. Faltavam poucas, algumas dúzias apenas. Já agora valia a pena fazer tudo bem até ao fim. Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco, portanto a primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão estava a mexer por si, sem ninguém lhe tocar; curioso, quis ver porque era — era o cágado.

 

Almada Negreiros, In Revista ABC, nº 51, 30 de Junho de

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PÔR-DO-SOL

Sábado, 06.10.18

Era um velho marinheiro de longas barbas brancas salpicadas de sinuosidade, cabelos soltos e grisalhos a arfarem desejos entontecidos e um rosto petrificado de caligens e nostalgias. O peito, um deserto sulcado de penumbras e enigmas Sentava-se, sem hesitações e devaneios, todos os dias, à janela da sua velha casa, no cimo duma pequena colina, plantada entre a rocha e o mar, simplesmente para ver o Pôr-do-Sol. A janela ficava voltada para o oceano que calcorreara tantas vezes e a casa virada a Oeste. Sentado num enorme cadeiral de vimes, ali permanecia horas e horas à espera que o astro rei traçasse a sua trajetória sobre o pequeno povoado, sobranceiro à colina e se perdesse no horizonte.

Mas não era apenas o Pôr-do-Sol que cativava a estima, a admiração e a curiosidade do velho marinheiro. Alta madrugada, também se levantava para poder observar os primeiros raios de claridade que rompiam a noite e a iam transformando em madrugada. Mesmo sem ver o Sol, mas sentia a presença inequívoca dos seus raios que se espelhavam lá por trás dos montes e que davam à madrugada um ar clarificante, risonho e prazenteiro. Depois aguardava com um sorriso ostentoso e confiante o seu aparecimento e o milagre da transformação das madrugadas em manhãs. E à tardinha, o velho marinheiro, regressando à sua janela voltada para o mar, observando mais uma vez o ocaso do astro rei, sentia-se feliz e contente na certeza expectante de que ele viria a nascer no dia seguinte. Então as manhãs eram virtuais, límpidas, perfumadas e com sabor a madressilva e a rosmaninho.

E o velho marinheiro, deleitava-se em dolente nostalgia como que hibernando numa comunhão profunda com aquela suprema potência da natureza.

E, no dia seguinte, à tardinha lá estava ele, outra vez, com um fulvo brilho nos olhos, à espera de mais uma espera.

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A PRINCESA CARLOTA

Sexta-feira, 05.10.18

(CONTO TRADICIONAL)

Era uma vez um rei, jovem e solteiro. Os conselheiros insistiam com ele, que se casasse, para deixar sucessores ao trono. O rei era amigo de caçar, e sempre que saía passava defronte de uma cabana, onde morava um velho pastor e sua formosa filha, chamada Carlota. Um dia disse-lhe o rei:

- Os meus vassalos querem que eu case, e tu és a única mulher de quem eu gosto; queres casar comigo?

- Isso não pode ser, senhor; porque eu apenas sou uma pobre pastora.

- É o mesmo, caso contigo, mas com a condição de nunca me contrariares nos meus desejos, por menos razoáveis que sejam.

- Estou por tudo que Vossa Majestade me ordenar. – Concluiu a pastora

 Tudo acertado, realizou-se o casamento. O rei mandou para a cabana do pobre velho fatos de rainha, que ela vestiu, largando os seus trapinhos. Mas o pai disse-lhe:

- Guarda esses trapinhos, pode ser que ainda precises deles.

A filha guardou os trapos em uma caixa, que deixou em poder do pai, e partiu para o palácio, onde passou a viver, como rainha.

Ao fim de nove meses deu à luz uma menina, tão formosa como sua mãe. Passados três dias entrou o rei no quarto da esposa e disse-lhe:

- Trago-te uma triste notícia: os meus vassalos querem que eu mande matar a nossa filha, porque não se conformam serem um dia governados pela filha de uma pastora.

- Vossa Majestade manda, e cumpre-me obedecer, - respondeu a rainha, quase a saltarem-lhe as lágrimas dos olhos.

O rei recebeu a menina e entregou-a a um conselheiro. Tempos depois teve a rainha um filho, que o rei mandou igualmente matar sob o mesmo pretexto.

Alguns anos depois entrou o rei muito apoquentado no quarto da esposa e disse-lhe:

- Vou dar-te uma notícia, de todas a mais triste, os meus vassalos estão indignados comigo; não querem que estejas em lugar de rainha, e dizem-me que te expulse do palácio. Por isso, querida Carlota, prepara-te, que tens de voltar para a cabana de teu pai.

- Não se apoquente, Real Senhor; estou pronta a obedecer; parto já.

- Tens que despir os fatos de rainha.

- É o que já vou fazer, Real Senhor.

  E a rainha despiu todo a roupa ficando em camisa.

  - Não dispo a camisa, porque encobre o ventre onde estiveram guardados os nossos filhos. – Disse a rainha, lavada em lágrimas.

 O rei nada teve que objectar e Carlota partiu com destino à cabana do pai. Estava o velho pastor à porta, quando viu aproximar-se a filha. Recolheu-lhe logo para dentro, tirou da caixa os antigos trapinhos e levou-os à filha para que os vestisse. Ela vestiu-os sem proferir um queixume e recomeçou a sua antiga vida de pastora. Para ela a sua vida de rainha fora apenas um sonho; lembrava-se muito dos seus filhos de quem tinha cada vez mais saudades. Passados anos voltou o rei a casa de Carlota, e disse-lhe que os vassalos instavam com ele, que casasse; e por isso tinha resolvido casar com uma formosa princesa de quinze anos.

- Efectivamente, respondeu a pastora, um rei bom como Vossa Majestade merece ter uma verdadeira princesa por esposa, que lhe dê uma descendência digna e nobre que lhe perpetue o nome.

- Venho pedir-te o favor de voltares ao palácio para dirigires as criadas de cozinha. Bem sabes que a princesa há-de ser acompanhada por fidalgos, e vem igualmente com seu irmão mais novo. Quero servi-los numa lauta mesa.

- Estou pronta, logo que Vossa Majestade ordenar, – disse Carlota

- Chegam amanhã. Deves regressar hoje ao palácio.

 Assim fez Carlota, dirigindo-se para o palácio, vestindo um pobre vestido de chita. No dia seguinte chegou a noiva e o irmão, com outros fidalgos, e houve à sua chegada grandes festejos. Carlota estava na cozinha onde o rei a encontrou.

- Não vens ver a minha noiva? – Perguntou-lhe o rei.

Carlota saiu da cozinha e foi cumprimentar a noiva.

- É muito linda! - Disse Carlota, beijando-lhe a mão. - Deus a conserve por muitos anos e lhe dê muita felicidade. É digna do rei que vai receber por seu marido.

 A menina ficou estupefacta. Então o rei ajoelhou-se em frente de Carlota, e disse:

 - Olha que são os nossos filhos. Quis experimentar o teu coração: és uma pastora que vale mil rainhas.

 Houve então mil abraços e beijos de parte a parte. O rei mandara os filhos para casa de uma tia, que os educava como príncipes, em vez de os mandar matar como tinha afirmado à rainha.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

O LUGAR DA TRONQUEIRA

Quinta-feira, 04.10.18

Como era sobejamente conhecido, pelo menos por todos os fajãgrandenses de então, o nome “Tronqueira”, na Fajã Grande, não se aplicava e creio que continuará a não se aplicar exclusivamente a uma rua, a Rua da Tronqueira, cujo nome ainda hoje se mantém na topologia da freguesia mais ocidental da Europa mas também a um lugar da mesma freguesia que ficava ali, mesmo ao lado da referida rua.

O lugar da Tronqueira que incluía sobretudo terras de milho, que alternavam a cultura deste cereal, ao longo do ano, com o cultivo da batata-doce, das favas ou das forrageiras, situava-se numa enorme faixa de terreno paralelo à Ladeira e à Ladeira do Mimoio e ficava entrincheirado entre estas e a rua da Tronqueira, que muito provavelmente dele houve nome. Assim, o lugar da Tronqueira fazia fronteira, a Sul, com a Fontinha e ia até ao Porto, ao estaleiro e ao Calhau Miúdo, lá para os lados do caminho que dava para a Ribeira das Casas, Covas e Ponta e constituía uma das zonas de terrenos muito férteis e produtivos. Melhores terras de cultivo, talvez só as do Estaleiro e as do Porto.

De acordo com a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, a palavra “tronqueira” é um termo tipicamente açoriano. Trata-se de um nome ou substantivo comum com um duplo sentido: um real e outro figurado. No sentido real a palavra tronqueira significa uma “passagem estreita ordinária onde ficam os madeiros laterais de uma portada ou cancela”. Por sua vez e no sentido figurado a mesma palavra significa “os esteiros de madeira ligados por arame utilizados na vedação ou tapume de uma a cerca onde se encontra guardado o gado, nos sítios onde não existe parede ou muro em pedra”. Muito provavelmente que o nome próprio de Tronqueira, talvez atribuído, inicialmente, apenas a um lugar da Fajã Grande e depois originando o nome da rua que lhe ficava contígua, terá a ver com um ou outro destes significados e de certo que poderá ter neles a sua origem. Daqui se pode concluir que este nome dado àquele lugar terá tido a sua origem no facto de outrora ter havido por ali alguma ou algumas “tronqueiras” ou seja alguns tapumes ou mais concretamente cercas ou currais onde se guardava o gado ou simplesmente por ser o lugar, com semelhanças às portadas ou cancelas, por onde o gado passava, nas suas deslocações para as excelentes pastagens da Ribeira das Casas, das Covas e do Vale do Linho.

Mas o importante é que o topónimo, com tantos outros, nasceu, cresceu e ficou a assinalar um dos mais ricos e belos lugares da Fajã Grande. Rico sob o ponto de vista agrícola, pois como acima referi, era local de terras férteis e muito produtivos a darem duas ou três colheitas diferentes durante um ano, terras que, como então se dizia, não precisavam de descanso; belo porque visto do Mimoio ou da Ladeira proporcionava uma ampla e verdejante planície onde os campos divididos por harmónicas e bem delineadas paredes, entrelaçados por simétricos atalhos, com um ou outro “maroiço” aqui ou além e repletas de milho, de favas, ou de trevo, formavam, juntamente com o serpentear das casas branquinhas da rua homónima, um espectáculo deslumbrante e enternecedor.

Muito bem estiveram os nossos antepassados ao dar àquele lugar e àquela rua o interessante e gracioso nome de Tronqueira.

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PRIMITIVO ELENCO DA FILARMÓNICA “SENHORA DA SAÚDE”

Quarta-feira, 03.10.18

A Filarmónica “Senhora da Saúde” actuou pela primeira vez, em público, em 7 de Setembro de 1951, precisamente no arraial da véspera da maior festa da Fajã Grande – a Senhora da Saúde. Consta que a ideia de criar uma filarmónica na Fajã Grande, terá surgido dois anos antes, em 1949, precisamente no dia da Senhora da Saúde. Nesse ano a Filarmónica apalavrada para vir abrilhantar a festa da Senhora da Saúde foi a Filarmónica da Lomba, denominada “Manuel Martins”, uma das mais antigas da ilha, fundada em 7 de Agosto de 1971, precisamente no dia do padroeiro daquela freguesia, S. Caetano. Por razões estranhas e inesperadas a Filarmónica da Lomba não apareceu. Devido às dificuldades então existentes, quer a nível de comunicações, quer a nível de transportes, não foi possível contratar outra filarmónica e, para desgosto de todos e raiva de muitos, a festa fez-se sem filarmónica. Foi então que um grupo de notáveis se reuniu e decidiu que a freguesia havia de comprar uma filarmónica. Se bem o pensou melhor o fez. Com o dinheiro do leite de toda a freguesia, no primeiro domingo de cada mês de conseguiu-se comprar não só os instrumentos mas também os fardamentos e todo o restante material.

Muitos rapazes e homens aprenderam música, sob a orientação do Senhor Moniz das Lajes. Escolheram-se os melhores e, finalmente, na véspera da festa da Senhora da Saúde, a Filarmónica saiu em marcha da casa de Cima e actuou num coreto de madeira, montado no adro da igreja.

Aqui ficam os nomes do regente e dos primeiros 17 elementos que constituíram o primitivo elenco da “Senhora da Saúde:

 

  1. 1º Contra Baixo – Álvaro do Raulino
  2. 2º Contra Baixo – José do Lucindo Cardoso
  3. 1º Bombardino - Ângelo Mancebo
  4. 2º Bombardino - António de José Cardoso
  5. 2º Trombone – Roberto do Cristóvão
  6. 1º Trombone –Rafael da Mariana Felizarda
  7. Saxofone – José Furtado
  8. 1º Trompa – José Fragueiro
  9. 2º Trompa –João Fagundes
  10. 1º Cornetim – José Lourenço
  11. 2º Cornetim –Manuel de José Cardoso
  12. 1º Trompete – José Santos
  13. 2º Trompete – Luís de Abrão
  14. Clarinetes - João Cardoso, Jesuíno, José do Gil e Albano
  15. Requinta – José Lucindo
  16. Bombo e Pratos – José Felizardo
  17. Tarola – António de Abraão.

       Maestro – José Mancebo.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

CESTOS DEBAIXO DA LENHA

Terça-feira, 02.10.18

Outrora, na Fajã Grande, pelo menos um dia por ano, a garotada da escola era recrutada para acarretar e arrumar a lenha do senhor padre, na enorme loja que ficava nos fundos da sua casa.

Depois de transportada por carros de bois, a lenha era serrada, cortada e “rachada” com serras e machados, puxados por valentes braços, que não se poupavam a esforços, nos domingos à tarde, pois cuidava-se que, sendo destinada ao pároco, não era pecado trabalhar ao domingo, até porque de graça.

Finalmente a tarefa do arrumo da lenha, na velha e esconsa loja da casa paroquial, era da exclusiva responsabilidade da garotada da freguesia. Apesar do esforço que a sua consecução exigia, a tarefa era ardentemente desejada pela maioria das crianças, porquanto, por um lado, correspondia a uma folga da escola e, por outro, terminava sempre com um cálice de licor caseiro e alguns biscoitos ou figos passados.

Por isso, em mais uma tarde em que a senhora professora anunciou que os rapazes, no dia seguinte, não precisavam de trazer os livros e a sacola, porque iriam acarretar e arrumar a lenha do senhor padre, poucos foram os que se assumiram como objectores de consciência à sacrossanta tarefa. No entanto como a senhora professora ameaçasse que os que não fossem ficariam a fazer cópias, ditados e contas de dividir o dia inteiro, todos optaram por colaborar no arrumo da lenha, embora alguns o fizessem bastante contrafeitos.

Mas o pequeno grupo dos presumíveis objectores de consciência não desistiu, por completo, dos seus intentos, decidindo-se pela sabotagem da tarefa, jurando que se haviam de vingar.

A sede de represália açulou-se, quando a meio da tarde, com quase toda a lenha já arrumada e empilhada, a irmã do senhor padre, como de costume, apareceu com dois cálices, uma garrafa de licor de ananás e um pratinho de biscoitos, declarando antecipadamente:

- É só um biscoito para cada um! E licor, só meio cálice que é para não fazer mal aos meninos!

- Biscoitos, pelo menos, podiam ser dois, que não fazem mal! - Propôs um dos mais destemidos ao qual se juntou um coro de apoio e, simultaneamente, de protestos. Estes, no entanto, de nada serviram e esbarraram com a persistência da senhora, que permanecia na sua:

- É só um biscoitinho a cada menino! E nada mais!...

Os iniciais objectores de consciência foram aos arames e retiraram-se revoltados. Que aquilo não podia ficar assim! Que agora sim, tinham razões de sobra, para se vingarem. Ó, se tinham! E os cestos onde haviam acarretado a lenha eram o que mais tinham à mão.

Não demorou muito, a vingança. Num ápice todos os cestos se eclipsaram como que de forma mágica, sendo, habilmente, enterrados e escondidos entre as achas da lenha, de forma a que mais ninguém lhes pusesse a vista em cima, a não ser passados alguns meses, na altura de retirar a lenha nos sítios onde haviam sido soterrados.

Bem aflito se viu o pároco, porque sendo os cestos emprestados não os pode devolver, de imediato aos seus donos. Bem procurou, bem coscuvilhou e mandou escarafunchar em tudo o que era sítio, não lhe passando pela cabeça que estariam debaixo da lenha tão bem arrumada e direitinha.

O desaparecimento dos cestos causou grande consternação na freguesia e foi alvo de grandes comentários e de inúmeras suspeitas.

Mas descobrir os ladrões dos cestos foi de todo impossível., simplesmente porque não os havia. «E que afinal os cestos não haviam sido roubados mas sim muito bem guardados debaixo da lenha. E qual não foi a revolta do reverendo, quando, meses ais tarde, os descobriu, debaixo da lenha.

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O VELHO E O MAR

Segunda-feira, 01.10.18

Era uma vez um velho e pobre pescador que passava os seus dias sentado sobre as rochas negras e escarpadas do baixio, olhando indefinidamente o mar. As rugas e gilvazes do seu rosto prefiguravam as ondas altivas e temerosas do oceano, os seus cabelos brancos selvaticamente desalinhados refletiam a crispação de ventos e procelas, mas os seus olhos, pérolas azuis que com o tempo haviam perdido o brilho, continuavam a desbravar neblinas e caligens e as suas mãos, detendo-se de forma inquietante em prolongada tremulação ainda apontavam portos e escolhos.

Perto dali o seu cardenho, refúgio decrépito nos dias chuvosos de Inverno e abrigo remediador das noites escuras e friorentas. Os filhos haviam partido para bem longe, na procura de melhor vida e a companheira que com ele partilhara perigos, consumições e penúrias falecera há muito. Estava só, mas a presença quotidiana do mar obliterava-lhe o sentimento inquietante com que a existência o estigmatizara – a dor. O mar era para ele um retorno contínuo e prolongado aos tempos áureos da faina marítima, em que diariamente partia com o barco cheio de esperanças e desejos e arribava com ele umas vezes carregado de peixe, outras da certeza do amanhã ser melhor e outras de coisa nenhuma. Apenas quando os temporais invernosos o impediam de arriar, se entretinha, em terra, a remendar redes e enchelevares.

Agora passava os seus dias ali, a olhar o horizonte, a ouvir o barulhar das ondas e o canto das gaivotas, a receber as carícias da brisa matinal e os calafrios do vento norte, enrugando-lhe cada vez mais o rosto enegrecido.

E um dia, um dia em que o velho e pobre pescador prolongara a sua estadia sobre as rochas até que a noite descesse por completo sobre o oceano e o luar prateasse a tranquilidade das águas, um dia em que os seus olhos já não vislumbravam horizontes ou marés e as suas mãos já não eram capazes de segurar o caniço, lançar a nassa ou manobrar o leme, o velho pescador viu uma onda enorme e doirada aproximar-se. Cavalgava-a um lindo menino de olhos azuis e cabelos também doirados. A onda, à medida que se aproximava das rochas, ia crescendo, crescendo, até que se transformou num gigantesco barco, que o menino governava com a destreza de um velho marinheiro. O barco fundeou e atracou às rochas com descomunal perícia. O menino aproximou-se a estibordo, estendeu as mãos para o pescador:

- Vem! Vem comigo! Salta para o meu barco que também é teu!

O pescador, sem hesitar, saltou para o barco com tanta agilidade como se tivesse vinte anos. Este afastou-se lentamente das rochas e partiu desbravando as ondas com a velocidade dos raios e a solidez das montanhas. Percorreram oceanos cruzando-se com navios de todos os países e nacionalidades, atracaram em portos abarrotados de paquetes e iates, visitaram cidades grandiosas, alojaram-se em hotéis de luxo e conviveram com homens de todas as raças e cores. E o coração do velho pescador encheu-se de alegria e felicidade.

Mas algum tempo depois, o barco regressou às rochas donde partira e o velho voltou a ouvir o barulhar das ondas, cada vez mais prateadas pelo luar daquela noite que parecia infinita.

E uma nova onda aproximou-se da rocha onde o velho se sentara novamente. Trazia outro menino, lindo como o primeiro, mas com os cabelos castanhos e os olhos pretos como as azeitonas. Como a outra, a nova onda começou a crescer, a crescer, até se metamorfosear num enorme avião, que se aproximou lentamente das rochas. Abriu-se uma porta e estendeu-se uma escada para sítio onde pobre pescador permanecia. No cimo da escada, o menino de cabelos castanhos e olhos pretos, acenou-lhe e chamou-o. O velho não hesitou e entrou com a mesma agilidade com que entrara no barco. Sob o comando do menino o avião descolou e partiu, voando sobre as nuvens, com a velocidade do vento e a tranquilidade das estrelas. E o velho pescador voltou a sentir-se jovem, muito jovem. Aterraram em aeroportos de inúmeros países e de vários continentes, visitaram cidades com castelos medievais e catedrais renascentistas, percorreram ruas repletas de arranha-céus e estradas ladeadas por árvores frondosas, sentaram-se em esplanadas coloridas e tropicais, nadaram em praias cálidas e de águas cristalinas, sob o calor tórrido do Sol equatorial. Mas, assim como o barco, também o avião regressou e o velho voltou a sentar-se sobre a rocha.

A noite já ia longa, mas o pobre pescador ainda viu aproximar-se uma terceira onda, maior do que as outras, que inesperadamente se transformou num enorme edifício. Era um prédio altíssimo, com telhado de marfim, varandas de ébano e janelas de cristal. Sobre a enorme porta de entrada, uma placa iluminada com tons de azul, violeta e vermelho anunciava - ARGONAUTA, Lar de Terceira Idade, para Pescadores. A porta abriu-se e surgiu uma menina com tranças de cetim e olhos de safira. Abriu os braços na direcção do pescador e convidou-o entrar. E o velho sentiu-se ainda mais jovem do que durante as viagens que acabara de fazer. A menina conduziu-o por corredores e salas onde muitos outros jovens, uns desconhecidos, outros seus antigos companheiros da faina marítima, dançavam ao som de doces melodias. Todos irradiavam felicidade, alegria e bem-estar, E o velho pescador sentiu-se como se estivesse na sua própria casa e aquelas pessoas fossem a sua família. Finalmente, a menina deu-lhe a mão e conduziu-o à última sala. Abriu a porta e o velho pode ver os outros dois meninos, que o haviam acompanhado nas viagens de barco e de avião. As três crianças formaram um circo em volta do velho pescador e em uníssono cantavam e dançavam:

- Viemos para te dizer que neste reino a idade não conta, porque não há guerras, não há ódio, nem há mentira. Não há novos nem velhos, nem ricos nem pobres, nem tristes ou desgraçados. Todos somos felizes porque todos possuímos a inocência da paz, a dignidade do amor e a doçura da verdade.

De repente os meninos desapareceram e uma estranha mas suave música se fez ouvir e o velho pescador voltando a sentar-se na rocha, encostou-se a uma pedra e, fechando os olhos, olhou indefinidamente o mar.

E só quando o crepúsculo se desvaneceu por completo e o Sol apareceu a iluminar um novo dia, a voz de uma outra criança de pés descalços e monco a escorrer-lhe pelo nariz e que não sabia comandar barcos, nem pilotar aviões, nem sequer cantar ao redor dum velhinho, apontando para as rochas onde o pescador permanecia sentado, anunciava pelas vielas da pequena aldeia piscatória:

- Morreu o ti Manel Eiró! O ti Manel Eiró morreu!

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