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VIDA SOFRIDA

Terça-feira, 30.10.18

Meu pai não sabia ler nem escrever, mas acho que era um sábio. Eu fui dos seus filhos o que mais andei com ele a pé percorrendo não só os campos da Fajã Grande, mas até grande parte da ilha das Flores, de dia e de noite, com os pés descalços, de lés-a-lés. Meus irmãos mais velhos iam ceifar e lavrar os campos e meu pai, nas suas idas pelas vilas e freguesias da ilha, a tratar do que necessitava, às Lajes, à Vila, ao Mosteiro, a Ponta Delgada, levava-me com ele por companhia, apesar de eu ser, ainda, muito pequeno. Durante essas viagens aprendi muito. Foram grandes lições que ainda hoje recordo.

Ele era o filho mais novo de um grande grupo de irmãos. Os que sobreviveram, dado que muitos faleceram em criança, pisgaram-se todos para a América e ele ficou só, a acompanhar e tratar dos pais, já muito velhinhos e de uma irmã deficiente mental. O namoro com a minha mãe sofreu grande oposição por parte da família dela, que orgulhosa e altiva, sempre se opôs ao casamento, pois para além de meu pai ser pobre, entendiam os meus avós que ele só pretendia a filha para o ajudar no trabalho e para lhe tratar dos velhotes e da irmã tolinha. Meu pai chegou a ser impedido de entrar em casa de meus avós maternos. Já depois de casado e por solidariedade, minha mãe também deixou de lá ir. Deixaram de se falar, durante algum tempo. Meu pai não era de ir igreja nem sequer pela desobriga pascal. Isso agravou os desprezos que por ele nutriam.

Casaram e os filhos começaram a aparecer com uma “planificação familiar” de fazer inveja aos métodos mais modernos de controlo da natalidade. Os dois primeiros com um ano de intervalo, os restantes de três em três anos. Eu fui o quarto. Vieram mais dois, depois de mim.

Até à morte da minha mãe meu pai viveu, pobre mas feliz, sustentando os filhos com o pouco que as terras lhe davam e com o leite duma ou duas vacas, mas cuja maior parte tinha que ir para a Cooperativa, a fim de que com o dinheiro resultante do leite vendido, comprasse os produtos que a terra não lhe dava. Era o único dinheiro que entrava em casa, mas e infelizmente, só quando a Cooperativa pagava.

Meu pai, em jovem, desempenhou o papel principal numa peça de teatro feita na freguesia. Alguém lhe “soprou” o texto ao ouvido ou ele estudou-o cuidadosamente. Decorou-o todo com perfeição e apresentou-se em palco, com grande performance e competência. Anos mais tarde, já era eu criança, a mesma peça teatral foi representada por outros actores populares e lembro-me de ouvir dizer, às pessoas mais velhas, que a representação de meu pai teria sido muito melhor do que a do actor que agora representava o mesmo papel. E era uma personagem gago.

Meu pai metia-se na sua vida e não na dos outros, nunca o ouvi falar na vida alheia, nunca teve brigas nem zangas com ninguém, não devia nada nas lojas e comprava apenas o que podia e quando podia. Ensinou-me também que nunca deveria pegar em nada que não fosse meu e que devíamos sempre ser gratos para com as pessoas que nos fazem bem. Ensinou-me até a orientar-me nos matos de noite e com nevoeiro. Basta acariciar uma parede com as mãos, a que tiver mais verdura indica-nos o Norte, porque é a mais húmida, porque o Sol lhe bate menos. Meu pai tinha expressões e ditos interessantíssimos, muitos dos quais, lamentavelmente, esqueci. Quando eu, miúdo, me esquivava ao trabalho, o comentário dele era o seguinte: “Lá estás tu a fugir com o cu à seringa”. Perante um problema que surgia aqui ou acolá, comentava “Estamos no mato sem cordas”. Certa vez um fulano que chegara do Faial, com grande vaidade e ar garboso, contava à Praça, perante todos os que ali estavam e ouviam estupefactos, o que tinha visto na cidade da Horta, misturado com algumas mentiras. O meu progenitor comentou, num aparte: “Muito aprende quem sai desta terra, mesmo que vá só até ao Faial”. Outra vez, ele e um irmão dormiam sentados num botequim. Alguém, no gozo, pôs um caniço – símbolo burlesco de pescar sargos - na mão de cada um e, de seguida, acordou-os, simultaneamente. O meu tio, furioso e enraivecido, levantou-se, barafustou, “preguejou” e recriminou e, depois de partir o caniço e o atirar pelos ares, recolheu a casa. Meu pai, muito calmo e tranquilo, pegou no caniço e, simplesmente, disse com ar de felicidade subtil: “Já que mo deram vou aproveitar para continuar a pescar.” – e continuou a dormir, descansadamente.

Certa vez ao passar à frente da minha casa uma rapariga que ostentava um ar vaidoso e empolgante, meu pai saiu-se com esta quadra, não sei se de improviso ou que ele conhecesse de tempos idos:

Não há coisa como a morte,

Para acabar com a presunção,

Um laço de fita preta,

Sete palmos e um caixão.

O que veio irremediavelmente destruir a vida simples e desprendida dele e nossa foi a morte de minha mãe. Meu pai, além de tudo, acho que tinha um coração de oiro e gostava muito de nós e, após o falecimento da minha progenitora, preocupou-se tanto, connosco que acabou por adoecer, acometido por uma grave doença mental. Eu e meus irmãos, ainda eramos crianças. Assistimos e suportamos as trágicas consequências desse trágico descalabro. A tragédia, a desgraça e o infortúnio, desalmadamente e sem piedade, haviam-nos batido à porta e assolado, terrivelmente, o nosso quotidiano. Ainda ficou quase um mês à espera do Carvalho, a fim de se deslocar para a Terceira, sendo internado na Casa de Saúde de S. Rafael, então popularmente conhecida por “Casa Amarela”. Felizmente curou-se e passado algum tempo regressou às Flores, mas já não era o mesmo.

Alguns anos mais tarde e porque a angústia e a temeridade continuavam a açudar-lhe os dias, meu pai voltou a adoecer, sendo, de novo, internado na Casa de Saúde de S. Rafael, donde nunca mais saiu, até à sua morte, no dia 16 de Janeiro de 1966.

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publicado por picodavigia2 às 00:04





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