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SANTUÁRIO DE GELO

Quarta-feira, 27.02.19

Alta madrugada! Um cavaleiro, estranho e enigmático, trajando de negro, com um capuz a tapar-lhe a cabeça e a esconder-lhe uma boa parte do rosto, aproximou-se dos muros circundantes de um vetusto mosteiro. Vinha de longe, percorrera praias de areia dourada mas também atravessara oceanos repletos de baixios e escolhos; calcorreara caminhos amaciados com sombras e aureolados com o esplendor das madrugadas mas também enveredara por atalhos sinuosos e tétricos; hospedara-se em cidades modernas, coloridas e cheias de luz mas também vagueara por desertos atulhados de tempestades e nevoeiros. Montava, com audácia e valentia, com garbo e aprumo, um cavalo branco, com selim de prata e arreios de marfim, correndo acelerado em elegante e destemido trote.

Dentro do mosteiro havia um santuário e o cavaleiro cuidava que era ali, na sombra e no silêncio, em oração e penitência, em contemplação e clausura que havia de penetrar nos meandros apocalípticos duma sublime transformação.

O mosteiro era um enorme edifício, um monumento de rara beleza e excelsa grandiosidade, um cenóbio edificado com excelência e magnanimidade. Rodeado de um alto e portentoso muro, o mosteiro apenas comunicava com o exterior por um robusto portão, a que se seguia um amplo terreiro, com uma escadaria granítica a conduzir à porta de entrada da majestosa e imponente fachada do santuário. Acreditava o cavaleiro que aquele era um santuário de sombras e de silêncios, onde havia de submeter-se ao acto sacramental, à adoração contínua, à iniciação contemplativa e à restauração apocalíptica, na esperança de se redimir e se refugiar da morte ritual.

O cavaleiro de negro bateu a aldraba do portão, uma vez, duas vezes, três vezes. De dentro uma voz rouca e, aparentemente, esbranquiçada pediu-lhe a senha. Nem santo, nem senha. O cavaleiro apenas cuidava que dentro daquele lugar de adoração havia sombras e silêncios. Nova investida. Um cavaleiro de bronze, também ali refugiado em clausura, abriu-lhe o portão, indicou-lhe a travessia do átrio e conduziu-o na subida da escadaria granítica, até à porta do santuário, sem proferir palavra. E o cavaleiro trajando de negro, sempre com o capuz a cobrir-lhe a cabeça e a tapar-lhe uma boa parte do rosto, entrou no santuário, na esperança de encontrar silêncios e sombras. Mas no santuário havia apenas uma estátua, aureolada com um diadema de espuma aveludada, surgindo de entre os silêncios e as sombras que o cavaleiro cuidava ver. Tinha na mão direita um ceptro de cristal e na esquerda um livro aberto, onde se podia ler, a letras garrafais; “A percepção é cega e enganadora. O que se vê não é necessariamente o que existe.” Caminhando na direcção do cavaleiro, a estátua tocou-lhe, ao de leve, com o ceptro de cristal, cravando-lhe, na fronte um estigma esverdeado, desaparecendo, de seguida, no meio dos silêncios e das sombras, sem deixar rasto, ao mesmo tempo que o cavaleiro perdia a consciência. Quando a recuperou, percebeu que, afinal, estava num santuário, mas num santuário branco, guardado pelo cavaleiro de bronze e todo revestido de gelo. Afinal naquele enigmático santuário não havia nem sombras nem silêncios, nem ritos sacramentais, nem iniciação contemplativa, nem virtualidades apocalípticas. Só havia gelo. Tudo o que o formava, rodeava, envolvia, amparava, constituía e até iluminava era de gelo.

“Se o santuário é de gelo, - pensou o cavaleiro - hei-de envolver-me em espuma, até me congelar. Hei-de assumir como meu, o destino do "Esquife de Gelo", domínio secreto do santuário, onde nenhum outro cavaleiro, mesmo que de ouro, de prata ou outra coisa qualquer, possa nele penetrar.

E o cavaleiro de negro refugiou-se, por algum tempo, no santuário, na expectativa de aprender e de dominar as técnicas de domínio, de sobrevivência e de vida no gelo. Mas o seu golpe de congelamento foi de tal modo incurial e extravagante, que provocou uma inesperada rajada de cristais de gelo que, caindo em catadupa, sobre o próprio cavaleiro, o fulminaram mortalmente.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

O CAÇADOR

Terça-feira, 26.02.19

(UM CONTO DE MIGUEL TORGA)

 

Trôpego, o Tafona já não chegava às perdizes da Cumieira. Por isso, arrastava-se até Pedralva e caçava de espera. Caíam rolas no cedo, uma lebre ou outra pelo ano adiante, e coelhos quase sempre. No defeso, fornecia a casa e a barriga sem fundo do compadre Frederico; no tempo da permissão, vendia-lhe a Joana Benta as caveças na Vila.

- Veja vossemecê... - dizia ele, a contratar o preço. - Eu sei lá!...

Com oitenta e cinco anos, a vida fora-lhe sempre estranha como se a não tivesse conhecido. Casara, tivera filhos, mas nada disso o tocara por dentro. Virgem e selvagem na alma, continuava a caçar, e só embrenhado entre giestas e urgueiras é que ouvia, se ouvia, os clamores da mulher e o ganido das crias.

Saía cedo, sempre supersticioso das menstruações da Camila, a vizinha do lado, que lhe mudavam a direção do chumbo, e regressava altas horas da noite, colado ao granito das paredes, e assim escondido dos olhos curiosos da povoação.

- Por onde andaste?

- A pobre da Catarina, a princípio, ainda tentou encontrar naquele destino pontos de referência em que pudesse firmar-se. Mas as respostas vinham tão vagas, tão distantes, que se atirou às leiras e deixou o homem às carquejas. Não era que ele mesmo enredasse os caminhos e despistasse conscientemente a companheira. As peripécias da caça e a cegueira com que galgava os montes é que o impediam à noite de relatar o trajeto seguido. Se quisesse e soubesse dizer por que trilhos passara, falaria de veredas e carreiros que nunca conhecera, descobertos na ocasião pelo instinto dos pés e rasgados no meio de uma natureza cósmica, verde como uma alucinação, com alguns ramos vistos em pormenor, por neles pousar inquieto um pombo bravo ou se aninhar, disfarçada, uma perdiz. Ás vezes até se admirava, ao regressar a casa, de tanta bruma e tanta luz lhe terem enchido simultaneamente os olhos. Serras a que trepara sem dar conta, abismos onde descera alheado, e um toco, um raio de sol, o rabo de um bicho, que todo o dia lhe ficavam na retina. É claro que nem sempre as horas eram assim. Algumas havia de perfeita consciência, em que nenhum pormenor da paisagem lhe escapava, as próprias pedras referenciadas, aqui de granito, ali de xisto. Mas, mesmo nessas ocasiões, qualquer coisa o fazia sonâmbulo do ambiente. Era tanta a beleza da solidão contemplada, despegava-se das serranias tanta calma e tanta vida, os horizontes pediam-lhe uma concentração tão forte dos sentidos e uma dispersão tão absoluta deles, que os olhos como que lhe abandonavam o corpo e se perdiam na imensidão. Simplesmente, essa diluição contínua que sofria no seio da natureza não excluía uma posse secreta de cada recanto do seu relevo. Uma espécie de percepção interior, de íntima comunhão de amante apaixonado, capaz de identificar o panasco de Alcaria pelo cheiro ou pelo tacto. A caça fora a maneira de se encontrar com as forças elementares do mundo. E nenhuma razão conseguira pelos anos fora desviá-lo desse caminho. A meninice começara-lhe aos grilos e aos pardais, a juventude e a maioridade passara-as atrás de bichos de pêlo e pena, e agora, velho, as contas do seu rosário eram meia dúzia de cartuchos que, sentado, ia esvaziando no que aparecia. E a vida, a de todos os dias e de toda a gente, com lágrimas e alegrias, ambições e desalentos, ficara-lhe sempre ao lado, vestida de uma realidade que que não conseguia ver. A aldeia formigava de questões e de raivas, e ele coava- lhe apenas a agitação de longe, vendo-a fumegar na distância, ao anoitecer, e acariciando-a então num cansaço doce e contemplativo.

- Casou a Dulce...

- Ah, sim?...

Ouvira, de fato, imprecisamente, a voz do sino grande chegar repenicada e festiva ao Falição, mas o seu espírito não pudera nesse momento, nem podia agora, descer da nuvem de abstração que o envolvia.

- Muito bonita ia o demônio da rapariga!

Humana, mulher, a Catarina tentava chamá-lo a uma consciência que reanimasse fogueiras mortas, sonhos desfeitos. Nada. O pensamento dele não estava ali: perdia-se nos projetos do dia seguinte, já cheio do rumor alvoroçado do bando de perdizes que sabia ir levantar da cama ao romper da manhã.

- Morreu a Palhaça...

- Ah, morreu?

E continuava a dar à manivela do rebordador, encontrando no cartucho, túmido como uma semente, não sabia que verdade mais profunda e mais transcendente do que aquela morte.

A velhice e o reumatismo tentaram com toda a brutalidade metê-lo noutros varai. Mas ele lutava, e, embora limitado às cercanias da aldeia, continuava ainda a sonhar.

Contudo, sem a liberdade absoluta dos longes, o seu espírito já não podia voar como dantes. A povoação ficava-lhe demasiado perto para lhe ser possível um alheamento como o de outrora. E os olhos, cansados e traídos, começaram a mostrar-lhe o mundo triste dos outros. Contra vontade, observava, então. Mas em casa, à noite, a mulher punha o acontecido a uma luz tão desconforme com o que ele vira, tão alheia à sua compreensão, que fechava a boca e não respondia.

- Os Canedos berraram...

- Eu vi...

- A cunhada chamou curta à Ana... O que ouvira eram gritos, evidentemente, insultos, com toda a certeza, mas nomes assim... E uma tristeza muda apertava-lhe o coração.

- Um roubo em casa do Antunes...

- Bem me pareceu...

- Batatas, trigo, muita roupa, um presunto...

Quase que surpreendera o Rodrigo e a mulher com a boca na botija, e sabia que não, que o que esconderam na mina velha, e pudera examinar à vontade, era uma sombra daquilo. De maneira que cada vez se metia mais consigo, com medo do vidro de aumento que deformava tudo e envenenava os sentimentos. Porque uma coisa sabia ele: é que quase um século de caça não lhe endurecera nem lhe empeçonhara a alma. Matara, sim, e matava ainda, se podia, mas não era com ódio, a gritar maldição, que o tiro partia. Mais amorosamente do que mortalmente, o dedo premia o gatilho. E quando, a seguir, a lebre esperneava ou a codorniz gemia, a sua mão aligeirava docemente aquela agonia, numa carícia aveludada. Entre o sangue de pertiz morta - que através do cotim da calça, morno, lhe acordava a consciência da pele - e o seu próprio sangue, não havia o muro de nenhuma desarmonia. A morte que a arma fazia tinha no mesmo instante uma ressurreição dentro dele.

Mas a aleluia do formigueiro humano que o rodeava era outra.

- A Rosária a flara em moralidade! Se reparasse na filha...

- A Matilde? Que fez ela?

- Nem tu sabes!

Palavra, que não sabia. Atravessara os anos como um duende, puro, alheio à raiva e à ganância, inocente, pronto a comover-se diante da primeira flor. Uma virtude, sobre todas, conservara sempre: a da lisa naturalidade. E por isso, no meio da incapacidade que sentia para entender o tecido de razões com que era feito o mundo que o cercava, a malha que menos o prendera era aquela onde se debatiam forças e gestos de amor. O cio, a brisa de sêmen que agitava todos os seres vivos durante alguns dias em cada ano, sabia-lhe à frescura de uma onda sagrada. Então, oleava e arrumava a arma, e os seus olhos, de caçador ainda, seguiam a revoada do casal de melros, o trajeto de um coelho, as pegadas da raposa, mas para os acompanharem comovidos naquela dádiva sensual e procriadora.

Infelizmente, só ele é que entendia de uma maneira assim inocente as coisas que tinham intimidade de ninho e calor de seiva. Porque a aldeia, que olhava compreensivamente as reses alevantadas, diante de uma rapariga cega de amores erguia-se como se visse um crime.

- Ela e o Avelino parecem cães à cainça.

- E que mal há nisso? Maiores e vacinados, que tinha que ver o mundo com o que o corpo lhes pedia? Mas os pais, aqui-del-rei que os enforcavam se olhassem sequer um para o outro, e a terra inteira aplaudia. Acontecia ainda que o Travassos, todo lá da mãe da rapariga, punha em semelhante martírio a sombra de uma perseguição.

De fora, mas infelizmente não de tão longe como desejava, o Tafona assistia à cena. Sentado à sombra da nogueira molar, e perto da poça onde vinham beber, esperava as rolas. E lá em baixo, na veiga, o seu olhar cansado ia acompanhando a comédia. A cachopa, de molho à cabeça, a passar na Silveirinha; o rapaz a deixar a rabiça na lavrada e a sair-lhe ao caminho; e o esqueleto do Travassos, abelhudo e ciumento, a correr a avisar as famílias.

Via e ficava a malucar naquilo, no contra-senso de tudo e de todos. Pois não seria melhor, mais justo, mais humano, deixá-los juntarem-se livremente, à lei da natureza? Contudo, daí a nada, a rapariga ia a toque de caixa pelo Teixo abaixo, e o rapaz retomava o arado a ouvir berros do pai.

- Uma pouca vergonha... - recomeçava a Catarina à noite, depois do caldo.

- O quê?

- O que há-de ser? A Matilde e o Avelino... Se não o Travassos...

Calou-se como de costume. Decididamente, cada vez entendia menos tal mundo.

Mas as pernas atraiçoavam-no miseravelmente, e embora quisesse fugir para muito longe, tinha de se resignar às leis da idade e caçar de emboscada coelhos pacatos na vinha velho do prior.

Era um Setembro puro. Videiras que pareciam cedros e cachos com bagos como bugalhos. Manco, o Tafona, foi-se arrastando e ainda a tarde vinha a cair além-Doiro já ele estava no seu posto, sentado, imóvel e silencioso, com a arma engatilhada sobre a coxa.

Como habitualmente, quase nem respirava. Por muito inocentes que fossem os láparos, farejavam ruído a cem léguas. E o Tafona, conhecedor daqueles ouvidos, apertava os pulmões.

A espera nunca lhe dava inteira paz de espírito. Forçava-o a uma espécie de compromisso com a parte traiçoeira da vida, estremando os campos do agredido e do agressor. Entre ele e o bicho não havia, daquela maneira, um verdadeiro encontro, um embate de forças. Tudo se passava sem alegria e sem eco, choque abafado, como o de uma pinha aberta a cair no musgo.

Subitamente começou a sentir sons indistintos. Prestou atenção. Passos. Passos de gente, e grande.

- Bolas! - disse, sem abrir a boca. De fato, perdera o tempo. Para que tudo retomasse a quietude inicial e os coelhos se resolvessem a vir gozar a fresca, seriam precisas horas, e então já não teria luz.

Os passos eram da Matilde, sorrateira, a saltar um bardo e a sumir-se na vinha.

- É boa!... - Murmurou outra vez intimamente, agora noutro tom.

Mas ainda o seu espanto não acabara, já o Avelino, do lado do monte, lépido, deslizava para o meio da ramagem.

Riu-se. Desta vez riu-se com a sua mansidão habitual, sem barulho, enternecidamente, como se estivesse nos velhos tempos e visse no azul do céu dois pintassilgos a voar para o mesmo ninho.

Infelizmente, os namorados a desaparecerem, e sobre eles, de nariz no rasto, numa perseguição de rafeiro, o Travassos que, por acaso, caminhava direito à arma do caçador.

O Tafona nem teve tempo de pensar. Parou a respiração e encolheu-se quanto pôde atrás do esconderijo.

O abelhudo vinha apressado e chegou a tiro.

- Alto lá! - ordenou-lhe então, sereno, mostrando o corpo.

O Travassos estacou, apalermado. Por fim viu quem era e falou-lhe:

- Sou eu, ó ti Zé!

- Bem sei. Mas não te mexas.

- O Travassos, ti Tafona. Deixe-me ir salvar a infeliz!

A tremer e de olhos esgazeados, o zeloso coscuvilheiro não conseguia perceber. Mas o Tafona tinha-lhe friamente a espingarda endireitada ao peito, e ninguém da aldeia confiava na alma solitária do caçador.

- Alto, e nem tugir nem mugir! Aquelas coisas querem-se na paz do Senhor...

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

MANGÃO

Segunda-feira, 25.02.19

Se consultarmos o site oficial da Câmara Municipal das Lajes das Flores e procurarmos em “freguesias” Fajã Grande, poderemos ver, entre outras informações, umas dez linhas dedicadas à gastronomia, nas quais, para além das filhós, do pão doce ou massa sovada e dos doces tradicionais (arroz doce e bolos caseiros) se referem os seguintes pratos típicos, também considerados “iguarias da freguesia da Fajã Grande”: Enchidos, Carne de Porco Salgada, Mariscos, Lapas, Peixe, Pão de Milho, Bolo de Milho, Batata-doce e Inhame.

Na realidade todos estes comeres não se podem considerar propriamente iguarias, ou seja comidas preparadas ou cozinhadas, mas sim produtos ou géneros alimentares com que se confeccionavam e muito provavelmente ainda se confeccionam os tais pratos típicos que o site não refere, embora, na realidade, excepcionando o marisco que não era usual nos cardápios de antanho, todos os outros alimentos indicados faziam parte da alimentação quotidiana fajãgrandense. Obviamente que numa terra pobre e tendo em conta as limitadas condições de vida da época e a falta de produtos, de meios e, até de tempo, não se pode falar de uma cozinha rica, variada e abundante. Apesar disso, confeccionavam-se alguns destes alimentos de forma própria, única, típica e talvez mesmo, nalguns casos, exclusiva da Fajã Grande. É a esses cozinhados ou aos pratos deles resultantes que se pode, em abono da verdade, chamar pratos típicos, como era o caso da caçoila e das sopas fritas ou até da linguiça já referenciados neste blogue.

Havia no entanto alguns outros pratos, um dos quais o célebre Mangão, em que o elemento base era a batata branca e geralmente preparado quando não havia conduto para acompanhar as próprias batatas, o que acontecia com muita frequência. Aliás e pela sua estrutura e ingredientes percebe-se que este é um prato que terá nascido simplesmente do facto de não se ter nada para comer, a não ser as batatas. Assim, duma limitação ou duma ausência cria-se um prato típico, o que não é inédito na culinária portuguesa, bastando para tal recordar a razão que levou os habitantes do Porto a inventar e confeccionar as tripas à moda do Porto: simplesmente porque durante as invasões francesas, os franceses comiam a carne, deixando-lhes apenas as tripas. Houve que inventar e que criar. O mesmo terá acontecido com o nosso Mangão, com a diferença de que não foram nem os franceses nem outro povo qualquer a comer-nos o conduto. Este simplesmente não existia.

Para confeccionar o Mangão, para além das batatas brancas cozidas, era necessária banha de porco, preferencialmente daquela que cobrira a linguiça, cebola e alho picados. Uma vez derretidas duas ou três colheres de banha, num caldeirão de ferro, alouravam-se a cebola e o alho. As batatas, previamente cozidas, eram bem esmagadas com um garfo até ficarem desfeitas e, quando o refogado estava pronto, adicionavam-se ao mesmo. Depois era tudo muito bem mexido para que as batatas e a cebola ficassem bem envolvidas e misturadas. O Mangão estava pronto e era servido directamente do caldeirão de ferro para os pratos, a fim de se comer bem quentinho.

Ainda não há muito tempo, através de um telefonema duma amiga dos meus tempos de infância, fui informado que na casa dos seus pais e possivelmente nalgumas outras, se comia o Mangão polvilhado com açúcar. Penso que este costume, por mim desconhecido, terá a sua origem numa “estória” que se contava, nos meus tempos de infância, de um navio carregado de açúcar que em tempos idos, naufragou na Fajã Grande. Tanto foi o açúcar que se espalhou pelo baixio que o povo encheu sacos e sacos e trouxe-o para as suas casas, utilizando-o como tempero em substituição do sal.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

AS FURNAS DA ROCHA DA FAJÃ GRANDE

Sexta-feira, 22.02.19

Quem, antigamente, subia a Rocha da Fajã Grande, dia após dia, a fim de ir tirar o leite às vacas que pastavam no Mato, durante o Verão, que no Inverno só havia gado alfeiro naqueles descampados, ou mesmo quem a escalasse apenas, esporadicamente, no cumprimento de tarefas fortuitas, como ceifar feitos, cortar bracéu, ir buscar queirós para a matança, apanhar amoras para fazer doce, ir ao Fio ou até simplesmente quem pretendesse viajar para os Cedros ou para Santa Cruz, neste caso para evitar a travessia da Ribeira Grande junto à Fajãzinha, encontrava, ao longo daquelas íngremes e sinuosas trinta e duas voltas, três furnas: a do Peito, a da Caixa e a dos Dez Réis.

As furnas eram concavidades encravadas na rocha, mesmo à beirinha do caminho, com formatos diferentes, com tamanhos desiguais e com fins diversificados, embora todas elas constituíssem marcos significativos na subida de tão gigantesca e descomunal escarpa.

A Furna do Peito era a primeira, a maior e a mais útil. Situava-se logo no início da subida, na décima volta e tinha a forma de uma grande caverna encravada num sítio mais saliente e pedregoso da Rocha cuja forma se assemelhava a um gigantesco peito humano, razão óbvia do seu epíteto. A Furna tinha uma dupla finalidade: ora servia de abrigo da chuva, de protecção dos ventos e resguardo dos temporais ora de lugar de descanso, de repouso e de retoma de fôlego. Mas era também uma espécie de templo onde entravam os caminhantes, sobretudo os que sentiam mais medo e ostentavam maiores dificuldades, durante a subida, a fim de obterem ânimo, calma, tranquilidade e, sobretudo, a esperança de chegar ao cimo, livres de qualquer perigo ou salvos duma eventual derrocada. Por isso havia sido colocada, numa das paredes interiores da furna, uma grande cruz de madeira e ao redor de todo o seu interior havia-se construído uma espécie de bancada feita de pedras toscas, onde os transeuntes que ali entravam se sentavam ou a descansar e a retemperar forças para continuar a subida, ou a implorar a Deus, à Virgem e a todos os Santos, Anjos e Arcanjos que impedissem o desabamento por ali abaixo de pedras ou ribanceiras, pelo menos enquanto durasse a extenuante e morosa caminhada, até ao acimo.

Por sua vez a Furna da Caixa, situada a meio da Rocha, era bastante mais pequena, tinha muito pouca profundidade e situava-se, rigorosamente, a meio da escalada. Quem ali chegava, pelo menos, tinha a certeza de que já galgara a primeira metade daquela abstrusa, enigmática e escabrosa subida. Como o seu tamanho e profundidade, de tão escassos que eram, não permitiam a um cristão sequer ali entrar para descansar ou abrigar-se, alguém construíra nos seus limítrofes um logradouro, com um muro protector e uma banqueta em forma de semicírculo e que servia simultaneamente de local de descanso e de miradouro. Na realidade, dali, enquanto se descansava, podia-se observar a Fajã como se de uma vista aérea se tratasse. Ao perto o verde das relvas da Figueira e das Águas e as terras de mato do Pocestinho e dos Paus Brancos; mais além as belgas da Bandeja e das Queimadas, os cerrados do Alagoeiro e do Mimoio e depois as casas com o vermelho escuro dos telhados a misturarem-se com o verde amarelado das courelas. Por fim e a delimitar a imensa fajã a mancha negra do baixio, recortada por caneiros e enseadas a entrelaçarem-se com o oceano imenso e infinito onde se haviam cravado desavergonhadamente, lá ao longe, a Baixa Rasa e o Monchique.

Finalmente, logo a seguir à Fonte Vermelha, a mítica Furna dos Dez Réis, a última, a mais pequena e, provavelmente a mais profunda. Tão pequena que nem uma cabeça humana caberia na sua entrada, tão funda que não se lhe conhecia a profundeza. Era no entanto uma das mais importantes e mais almejada de atingir por todos os que subiam aquele inexaurível alcantil. Por um lado, chegar à Furna dos Dez Réis era ter a certeza de que faltavam apenas dez voltas para chegar à cancela do Mancebo, no cimo da Rocha. Por outro lado aquela furna tinha um poder mágico e sobrenatural: quem metesse lá dentro uma mão bem fechada e formulasse um desejo que não fosse muito ambicioso, esse desejo ser-lhe-ia concedido.

Quanto a mim todas as vezes que por ali passava, quando criança, metia a mão, firmemente fechada, pela furna dentro e formulava o desejo de chegar ao cimo da rocha são e salvo. E confesso que esse desejo sempre me foi concedido

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publicado por picodavigia2 às 08:39

O SOBRINHO DO MAGO

Domingo, 17.02.19

(CONTO TRADICIONAL)

 

Era uma vez um mago que tinha na sua companhia um sobrinho. O mago viajava muito e, sempre que o fazia, pedia ao sobrinho que, durante a sua ausência, lhe guardasse a casa e vigiasse os seus bens para que ninguém o roubasse. Antes de sair, porém, entregava-lhe duas chaves, pedindo-lhe que por nada deste mundo abrisse as duas portas que elas fechavam e que, se o fizesse, morreria.

O rapaz, assim que se viu sozinho, não se lembrou mais do pedido do tio e abriu uma das portas. Ao abri-la, deparou-se com um campo escuro e um lobo que vinha correndo na sua direcção. Cheio de medo, o rapaz fechou a porta imediatamente. Mas o mago quando chegou, algum tempo depois, apercebeu-se de que o sobrinho havia desrespeitado as suas ordens e disse-lhe:

– Desgraçado! Porque desobedeceste às minhas ordens, abrindo aquela porta? Poderias ter morrido!

O rapaz, muito arrependido, chorou e pediu perdão ao tio, acabando este por esquecer e perdoar-lhe. Passado algum tempo, porém, o mago partiu novamente, voltando a fazer as mesmas recomendações, ao sobrinho. Mas o rapaz, muito curioso, não se conteve e abriu a outra porta. De imediato viu um campo muito grande, onde pastava um cavalo branco. O cavalo começou aos saltos e a correr na direcção do rapaz que, lembrando-se das ameaças do tio e já o sentindo subir pela escada, começou a gritar:

– Ai que agora é que estou perdido!

O cavalo branco, correndo sempre na sua direcção, aproximou-se dele e disse-lhe

– Apanha desse chão um ramo, uma pedra e um punhado de areia, e monta quanto antes, em cima de mim.

No entanto, o mago chegou a casa mas o rapaz já saltara para cima do cavalo branco, gritando-lhe:

– Foge! Chegou o meu tio e vai matar-me.

O cavalo branco correu pelos ares fora mais veloz do que o vento, levando o rapaz consigo. Quando já iam muito distantes da casa do tio, o rapaz voltou a gritar:

– Corre, cavalo! Meu tio já me apanha para me matar.

O cavalo branco correu mais, e quando o mago estava quase a apanhá-los, disse para o rapaz:

– Deita fora o ramo.

O rapaz assim fez e apareceu logo ali uma densa floresta. Enquanto o mago tentava abrir caminho para sair dela, o cavalo e o rapaz puseram-se muito longe. Mas pouco depois, este tornou a gritar:

– Corre, cavalo, corre! Que atrás de nós está meu tio, que nos vai matar.

Disse o cavalo branco:

– Bota fora a pedra.

Logo ali se formou uma grande serra cheia de penedias, que o mago teve de subir, enquanto eles avançavam porque sabiam o caminho. Mais adiante, grita o rapaz:

– Corre, cavalo, corre muito! Que meu tio agarra-nos.

– Pois atira ao vento o punhado de areia, disse-lhe o cavalo branco.

Apareceu logo ali um mar sem fim, que o mago não pôde atravessar. Eles, no entanto, atravessaram-no e foram dar a uma terra onde estava muito gente a fazer muitos e grandes prantos. O cavalo branco largou ali o rapaz e disse-lhe que quando se visse em grandes dificuldades chamasse por ele, mas que nunca dissesse como viera ter ali. O rapaz foi andando e perguntou a uma mulher, por quem eram aqueles grandes prantos.

– É porque a filha do rei foi roubada por um gigante que vive em uma ilha aonde ninguém pode chegar.

– Pois eu sou capaz de ir lá.

Foram dizê-lo ao rei e este obrigou o rapaz, sob pena de morte, a cumprir o que dissera. O rapaz valeu-se do cavalo branco, e conseguiu ir à ilha e trazer de lá, consigo, a princesa, porque apanhara o gigante dormindo.

Assim, a princesa, finalmente regressou ao palácio mas estava muito chorosa. Não havia maneira de lhe cessarem as lágrimas. Perguntou-lhe o rei:

– Porque choras tanto, minha filha?

– Choro porque perdi o anel que me tinha dado a fada minha madrinha e, enquanto o não encontrar, estou sujeita a ser roubada outra vez ou ficar para sempre encantada.

O rei mandou lançar um pregão em como dava a mão da princesa a quem achasse o anel que ela tinha perdido. O rapaz chamou o cavalo branco, que lhe trouxe do fundo do mar o anel. O rei mandou, conforme o prometido, fazer o casamento da princesa com o rapaz, os quais viveram felizes para sempre.

 

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AS DUAS IRMÃS

Sábado, 16.02.19

(CONTO TRADICIONAL)

 

Era uma vez uma viúva que tinha duas filhas. A mais velha parecia-se tanto com ela, que a confundiam com a própria mãe. Mas a mãe e a filha eram tão desagradáveis e orgulhosas que ninguém as suportava. Por sua vez, a filha mais nova, para além de boa e educada, era muito bonita.

A mãe adorava a filha mais velha, mas tinha uma tremenda antipatia pela mais nova, que comia na cozinha e trabalhava sem como se fosse uma criada, pois tinha, a pobrezinha, entre outras coisas, de ir, duas vezes por dia, buscar água a uma fonte que ficava longe de casa, com uma enorme e pesado balde, que trazia sempre bem cheio.

Um dia, enquanto ela estava junto à fonte a encher o balde, apareceu uma pobre velhinha, pedindo-lhe de beber:

- Pois não, boa senhora - disse a linda moça e, pegando no balde, tirou água, dando-lhe de beber com as suas próprias mãos, para auxiliá-la.

A boa velhinha bebeu e disse:

- Tu és tão bonita, minha filha, e tão boa e tão educada, que não posso deixar de te dar um dom. – É que aquela velhinha era uma fada, que tinha tomado a forma de uma pobre camponesa para ver até onde ia a educação daquela menina.

- Quando falares, a cada palavra que proferires - continuou a fada disfarçada de velhinha - da tua boca sairá ou uma flor ou uma pedra preciosa.

Quando a filha chegou a casa, a mãe recriminou-a pela demora.

- Peço-lhe perdão, minha mãe - disse a pobrezinha -, por ter demorado tanto. - E, dizendo estas palavras, saíram-lhe da boca duas rosas, duas pérolas e dois enormes diamantes.

- O que é isso? - Disse a mãe espantada - Acho que estou a ver pérolas e diamantes saindo da tua boca. Como é que conseguiste isso, filha? - Era a primeira vez que lhe chamava de filha.

A pobre menina contou-lhe, então, o que tinha acontecido junto da fonte, saindo-lhe da boca flores e pérolas.

- Meu deus! - Disse a mãe. - Tenho de mandar a minha filha mais velha à fonte.

De seguida chamando a filha mais velha, disse-lhe;

- Filha, vem cá. Vê o que sai da boca da tua irmã, quando ela fala. Quero que tenhas o mesmo dom. Vai à fonte e, quando uma pobre mulher te pedir água, dá-lhe de beber.

- Só me faltava essa! - Respondeu a filha. - Ter de ir até à fonte!

- Estou a mandar-te, filha, - retorquiu a mãe -, e vai já, antes que a mulher desapareça.

Embora contrariada, a rapariga lá foi, levando o mais bonito jarro de prata que havia em casa.

Mal chegou à fonte, viu sair do bosque uma princesa, ricamente vestida, que lhe pedia água. Era a mesma fada que tinha aparecido à irmã, mas que agora se disfarçara de princesa, para ver até onde ia a educação daquela moça.

- Será que foi para te dar de beber que eu vim aqui? – Respondeu a rapariga – Tens aqui um jarro de prata cheio! Tome e bebe do jarro, se quiseres, pois eu não sou tua criada.

- És muito mal-educada - disse a fada. - Pois muito bem! Já que és tão pouco cortês, a cada palavra que proferires, sair-te-á, da boca, uma cobra ou um sapo.

Quando a mãe a viu chegar, perguntou-lhe:

- E então, filha? Encontraste a mulher e deste-lhe de beber.

- Sim, mãe! Encontrei-a e dei-lhe água do meu jarro. - Respondeu a mal-educada, soltando-lhe, de imediato, pela boca duas cobras e dois sapos.

- Meu Deus! - Gritou a mãe, horrorizada. - O que é isso? A culpa é da tua irmã. Ela me paga. E imediatamente foi procurar a filha mais nova. Depois de a espancar, expulsou-a de casa. Sem ter para onde ir, a menina, lavada em lágrimas, foi-se esconder na floresta.

O filho do rei, que voltava da caça, encontrou-a e, vendo como era linda, perguntou-lhe o que fazia ali sozinha e por que estava a chorar.

- Ai de mim, senhor, foi minha mãe que me expulsou de casa.

O filho do rei, vendo sair de sua boca cinco flores e outros tantos diamantes, pediu-lhe que lhe dissesse de onde vinha aquilo.

Ela contou-lhe toda a sua aventura. O filho do rei apaixonou-se por ela e, considerando que tal dom valia mais do que qualquer dote, levou-a para o palácio real. Algum tempo depois casaram.

Quanto à irmã, a mãe ficou tão irada contra ela que a expulsou de casa.

E a infeliz, depois de muito andar sem encontrar ninguém que a abrigasse, acabou morrendo num canto do bosque.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A PEQUENA VENDEDORA DE FÓSFOROS

Quinta-feira, 14.02.19

(UM CONTO DE HANS CHRISTIAN ANDERSEN)

 

Fazia um frio terrível; caía a neve e estava quase escuro; a noite descia: a última noite do ano. Em meio ao frio e à escuridão uma pobre menininha, de pés no chão e cabeça descoberta, caminhava pelas ruas.

Quando saiu de casa trazia chinelos; mas de nada adiantavam, eram chinelos tão grandes para seus pequenos pzinhos, eram os antigos chinelos de sua mãe.

A menininha os perdera quando escorregara na estrada, onde duas carruagens passaram terrivelmente depressa, sacolejando.

Um dos chinelos não mais foi encontrado, e um menino se apoderara do outro e fugira correndo.

Depois disso a menininha caminhou de pés nus – já vermelhos e roxos de frio.

Dentro de um velho avental carregava alguns fósforos, e um feixinho deles na mão.

Ninguém lhe comprara nenhum naquele dia, e ela não ganhara sequer um níquel.

Tremendo de frio e fome, lá ia quase de rastos a pobre menina, verdadeira imagem da miséria!

Os flocos de neve lhe cobriam os longos cabelos, que lhe caíam sobre o pescoço em lindos cachos; mas agora ela não pensava nisso.

Luzes brilhavam em todas as janelas, e enchia o ar um delicioso cheiro de ganso assado, pois era véspera de Ano-Novo.

Sim: nisso ela pensava!

Numa esquina formada por duas casas, uma das quais avançava mais que a outra, a menininha ficou sentada; levantara os pés, mas sentia um frio ainda maior.

Não ousava voltar para casa sem vender sequer um fósforo e, portanto sem levar um único tostão.

O pai naturalmente a espancaria e, além disso, em casa fazia frio, pois nada tinham como abrigo, exceto um telhado onde o vento assobiava através das frinchas maiores, tapadas com palha e trapos.

Suas mãozinhas estavam duras de frio.

Ah! bem que um fósforo lhe faria bem, se ela pudesse tirar só um do embrulho, riscá-lo na parede e aquecer as mãos à sua luz!

Tirou um: trec! O fósforo lançou faíscas, acendeu-se.

Era uma cálida chama luminosa; parecia uma vela pequenina quando ela o abrigou na mão em concha…

Que luz maravilhosa!

Com aquela chama acesa a menininha imaginava que estava sentada diante de um grande fogão polido, com lustrosa base de cobre, assim como a coifa.

Como o fogo ardia! Como era confortável!

Mas a pequenina chama se apagou, o fogão desapareceu, e ficaram-lhe na mão apenas os restos do fósforo queimado.

Riscou um segundo fósforo.

Ele ardeu, e quando a sua luz caiu em cheio na parede ela se tornou transparente como um véu de gaze, e a menininha pôde enxergar a sala do outro lado. Na mesa se estendia uma toalha branca como a neve e sobre ela havia um brilhante serviço de jantar. O ganso assado fumegava maravilhosamente, recheado de maçãs e ameixas pretas. Ainda mais maravilhoso era ver o ganso saltar da travessa e sair bamboleando em sua direção, com a faca e o garfo espetados no peito!

Então o fósforo se apagou, deixando à sua frente apenas a parede áspera, úmida e fria.

Acendeu outro fósforo, e se viu sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Era maior e mais enfeitada do que a árvore que tinha visto pela porta de vidro do rico negociante.

Milhares de velas ardiam nos verdes ramos, e cartões coloridos, iguais aos que se vêem nas papelarias, estavam voltados para ela. A menininha espichou a mão para os cartões, mas nisso o fósforo apagou-se. As luzes do Natal subiam mais altas. Ela as via como se fossem estrelas no céu: uma delas caiu, formando um longo rastilho de fogo.

“Alguém está morrendo”, pensou a menininha, pois sua vovozinha, a única pessoa que amara e que agora estava morta, lhe dissera que quando uma estrela cala, uma alma subia para Deus.

Ela riscou outro fósforo na parede; ele se acendeu e, à sua luz, a avozinha da menina apareceu clara e luminosa, muito linda e terna.

 - Vovó! – exclamou a criança.

 - Oh! leva-me contigo!

Sei que desaparecerás quando o fósforo se apagar!

Dissipar-te-ás, como as cálidas chamas do fogo, a comida fumegante e a grande e maravilhosa árvore de Natal!

E rapidamente acendeu todo o feixe de fósforos, pois queria reter diante da vista sua querida vovó. E os fósforos brilhavam com tanto fulgor que iluminavam mais que a luz do dia. Sua avó nunca lhe parecera grande e tão bela. Tornou a menininha nos braços, e ambas voaram em luminosidade e alegria acima da terra, subindo cada vez mais alto para onde não havia frio nem fome nem preocupações – subindo para Deus.

Mas na esquina das duas casas, encostada na parede, ficou sentada a pobre menininha de rosadas faces e boca sorridente, que a morte enregelara na derradeira noite do ano velho.

O sol do novo ano se levantou sobre um pequeno cadáver.

A criança lá ficou, paralisada, um feixe inteiro de fósforos queimados. – Queria aquecer-se – diziam os passantes.

Porém, ninguém imaginava como era belo o que estavam vendo, nem a glória para onde ela se fora com a avó e a felicidade que sentia no dia do Ano­ Novo.”

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SÚPLICA

Domingo, 10.02.19

 

(POEMA DE MIGUEL TORGA)

 

Agora que o silêncio é um mar sem ondas, 
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto. 
Só soubemos sofrer, enquanto 
O nosso amor 
Durou. 
Mas o tempo passou, 
Há calmaria... 
Não perturbes a paz que me foi dada. 
Ouvir de novo a tua voz seria 
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga, in  "Câmara Ardente"

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A MORTE SAIU À RUA

Sábado, 09.02.19

ZECA AFONSO

(APÓS A MORTE DE JOSÉ DIAS COELHO ASSASSINADO PELA PIDE

EM 1 DE DEZEMBRO DE 1961)

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome p’ra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte ‘o pintor morreu’

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação 

Autor e Compositor: Zeca Afonso

 

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NÃO SOU DAQUI

Sexta-feira, 08.02.19

(POEMA DE NATÁLIA CORREIA)

Não sou daqui. Mamei em peitos oceânicos
Minha mãe era ninfa, meu pai chuva de lava
Mestiça de onda e de enxofres vulcânicos,
sou de mim mesma, pomba húmida e brava

De mim mesma e de vós, ó Capitães trigueiros,
barbeados pelo sol, penteados pela bruma!
Que extraístes do ar dessa coisa nenhuma
a genesis, a pluma do meu país natal.

Não sou daqui, das praias da tristeza,
do insone jardim dos glaciares
Levai minha nudez, minha beleza,
e colocai-a à sombra dos palmares.

Não sou daqui. A minha pátria não é esta
bússola quebrada dos impulsos.
Sou rápida, sou solta, talvez nuvem.
Nuvens, minhas irmãs, que me argolais os pulsos!
Tomai os meus cabelos. Levai-os para a floresta.

Natália Correia

Cântico do País Emerso (1961)

 

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O IMPÉRIO DE SÃO PEDRO

Quinta-feira, 07.02.19

Na Fajã Grande existiam 6 Impérios: quatro do Espírito Santo (Casa de Cima, Casa de Baixo, Ponta e Cuada) e dois de S. Pedro (Casa de Cima e Ponta).

Curiosamente a festa organizada pelo Império de S. Pedro da Casa de Cima, assim como o S. Pedro da Ponta, era em tudo ou quase tudo, muito semelhante à festa do Espírito Santo, realizada nos outros Impérios. Apenas as insígnias eram diferentes: não havia bandeira branca, a coroa era muito pequenina e, nos cortejos, era sempre acompanhada por uma imagem de S. Pedro. Como a imagem de S. Pedro, pertencente ao respectivo Império era muito pequenina, no dia da festa e nas procissões e cortejos que se realizavam por essa altura, era a imagem existente na igreja, porque bastante maior, que acompanhava as outras duas insígnias, sendo transportada em andor adequado.

Mas a grande diferença entre o Império de São Pedro e os do espírito Santo era a de que a maior parte dos mordomos pertencentes a este Império eram jovens e crianças. Chamava-se também “Império das Crianças”.

Mas, da mesma forma que na festa do Espírito Santo, na semana que antecedia a de S. Pedro e de forma idêntica, eram cantadas as Alvoradas. Na antevéspera, de tarde, organizava-se o cortejo até rolo da Baía de Água, para a matança do gado, sendo a carne distribuída pelos mordomos na véspera de manhã, acompanhada pela pequenina coroa, pela bandeira, pelos foliões e por muitas crianças.

A festa realizava-se no dia 29 de Junho, dia liturgicamente dedicado a S. Pedro e S. Paulo, quando ainda era “dia santo abolido”. Nesse dia havia idêntico procedimento ao da festa de Espírito Santo, verificando-se apenas uma alteração: da parte da tarde organizava-se uma procissão, com coroa, bandeira e imagem do Santo, até ao Porto Velho, onde os barcos presentes haviam sido devidamente ornamentados e enfeitados. A imagem era colocada num barco juntamente com a coroa e a bandeira, enquanto o pároco, com barco a servir de púlpito, pregava o sermão, procedendo, de seguida, à bênção dos barcos.

O cortejo regressava à Casa de Cima e procedia-se às sortes dos novos cabeças, com um ritual em tudo semelhante ao realizado na festa de Espírito Santo.

A festa terminava, ao início da noite, com o “levar das sortes” aos novos cabeças.

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A MATANÇA

Quarta-feira, 06.02.19

O Silvestre todos os anos, uns dias antes do Natal, matava um porco. Engordado ao longo do ano com os cuidados excessivos da mulher que passava horas e horas a alimentar o bicho, os porcos que o Silvestre matava em cada ano eram coisa de se ver. Grandes, gordos, pesados, com uns bons palmos de toucinho no lombo, os porcos do Silvestre eram sempre muito gabados por todos.

Para a matança, um verdadeiro dia de festa, o Silvestre convidava sempre os familiares e os amigos, muitos amigos. E no dia da matança, a casa do Silvestre enchia-se como nunca. Muitos ajudavam-no a apanhar o bicho, a meter-lhe a faca, aparar o sangue, lavá-lo, raspá-lo, barbeá-lo e até a abri-lo. Depois de um lauto almoço, onde não faltava, inhames, peixe assado, polvo guisado, molha de carne e até bifes de toninha, tudo acompanhado com o vinho de cheiro que o próprio Silvestre ia buscar à adega. De tarde era o “desfranchar” do suíno, esquartejando-o, partindo, cortando, serrando, picando a carne para a linguiça, derretendo os torresmos. As mulheres numa azáfama medonha, a lavar tripas, a preparar as morcelas e a fazer os bifes para a ceia.

E à noite a casa do Silvestre enchia-se, não apenas dos que haviam ajudado durante o dia mas também de muitos outros amigalhaços que, a convite do Silvestre, ali chegavam apenas com a intenção de jantar e depois, quiçá talvez jogar as cartas.

Quem nunca faltava â matança do Silvestre era o amigo Matias. Era um costume de há muitos anos, uma espécie de tradição que não podia diluir-se. Todos os anos o Matias, a mulher e os filhos eram presença certa na matança do Silvestre.

Um ano houve em que o Matias tinha em sua companhia um sobrinho, filho duma irmã que morava na Serreta, na Terceira. O rapaz ao acabar os estudos no liceu de Angra, fora estudar economia para Coimbra, onde se formara. Terminado o curso, ao regressar aos Açores, decidiu-se por concorrer para as Finanças. Como rareassem vagas na Terceira, a pedido da mãe, concorreu para o Pico, sendo colocado na Madalena, para gáudio da progenitora, que assim via o filho hospedar-se com segurança e requinte em casa do irmão. Ora o convite que o Silvestre fazia era para toada a família, incluindo o sobrinho.

O rapaz, embora tímido e pouco à vontade, acabou por aceitar o convite, comparecendo em casa do Silvestre, apenas à noitinha, para a ceia. Sentaram-se à mesa, exagerando-se nas atenções e cuidados que em casa nunca lhes havia entrada tão ilustre visitante. O senhor doutor merecia todas as atenções e comidinha à farta. A abundância do cardápio e a excelência do repasto havia de ocultar e sublevar a pobreza e humildade da casa do Silvestre.

Quem mais se esmerou em cuidados e atenções à volta do senhor doutor foi a filha mais velha do Silvestre, a Lucília, muito solícita, a colocar-lhe na frente travessas de inhames fumegantes, bifes de lombo muito bem temperados e rodelas de morcela frita, a cheirar a cebola e temperos. Lucília não era bonita, mas era deliciosamente bela e encantadora. Não era linda, mas era fascinante e atraente. O rosto acentuadamente moreno, com uma boa parte encoberta por um cabelo muito negro, liso e sedoso. Tinha um ar destemido, ousado, quase selvagem embora simulasse, sobretudo ao aproximar-se de tão ilustre hóspede, uma evidente timidez. Tinha um sorriso muito límpido e transparente e resplandecia-lhe do rosto um encanto sublime e uma ternura atraente.

Terminado a ceia os homens fumaram, a maioria tomou um traçadinho, outros, um copo de aguardente pura, boa, da safra do Silvestre. Mas o senhor doutor não estava habituado a estas bebidas… O Silvestre que sim e ele que não… Insistência daqui e recusa dacolá, até que a Lucília veio resolver a contenda com um cálice de angelica, ao mesmo tempo que, com unhas e dentes, defendia o senhor doutro das risotas e graçolas dos outros que afirmavam, à socapa, que aquilo de angelica era bebida de mulheres.

 

Sentaram-se, de novo à mesa para as cartas. E como o senhor doutor, que fizera par com o Silvestre, logo após a primeira partida a dar um capote, fosse muito elogiado pela sua hábil e sábia arte de jogar, Lucília nem por nada quis perder aquele momento. Inquieta, a arfar desejos e a vassalar-se numa tremenda paixão que o primeiro olhar dele, terno meigo e sedutor consubstanciara, veio sentar-se ao seu lado. Pouco depois os seus corpos tocavam-se, ao de leve, num enlevo recíproco que foi crescendo e intensificando-se, ao longo da noite

No dia seguinte foi ela que se adiantou, como era costume, a ir levar uma postinha de carne e uma morcela a casa do amigo Matias. Foi o senhor doutor que a recebeu porque não estava mais ninguém em casa. Ele muito preocupado e aflito e ela nervosa e decidida. Iam despedir-se. O tio Matias havia de agradecer ao pai.

Mas antes de sair, Lucília, no impulso da sua gigantesca e indomada paixão, sem que ele o persentisse, deu-lhe um beijo que havia de selar, para sempre, o enorme amor que entre eles, nascera na noite anterior, na noite da matança do Silvestre.

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O PICO OU A VERDADEIRA ILHA DE BRUMA

Terça-feira, 05.02.19

Mesmo que já tenhamos aportado inúmeras vezes à maior ilha do grupo central açoriano, quando, novamente, o fazemos não nos limitamos, apenas, a sentir os pés no terreiro, onde os nossos avós bailaram o pezinho ou a chamarrita. Na realidade e sempre que de novo e mais uma vez se arriba ao Pico, para além dos ecos de um passado egrégio e progénie, emergimos num universo a abarrotar de um sem fim de sensações envolventes e dinâmicas, que nos enlevam em encanto e nos sublimam em deslumbramento. Calcorreiam-se atalhos e veredas atapetados de musgo, balizados por bardos de incenso e faia, caminhos ornados de madressilva e poejo, uns e outros construídos nas encostas pedregosas da ilha, muitos deles, quiçá, nos primórdios do seu povoamento. Depois, envolvidos por um silêncio perturbador, penetramos entre o verde das pequenas florestas, a abarrotar de faias, sanguinhos, paus brancos, folhados e uva do mato. Do chão térreo, anos a fio domesticado por alviões manejados sabiamente pelos nossos avós, emerge um perfume a enxofre e a lava e do mar, onde ainda são visíveis as rilheiras dos botes baleeiros e das traineiras, aflora um sabor a uma maresia destemida e deslumbrante. Por entre as brumas e os nevoeiros matinais, ergue-se um cântico de dolência adormecida. É no Pico, talvez por ser a mais jovem ilha açoriana, que sentimos, mais do que em nenhuma outra, correr-nos, nas veias, um basalto negro, ainda vivo, uma seiva, um suco, um mosto, disfarçado de espuma, umas vezes sublime e delicioso, outras angustiante e perturbador, mas sempre dulcificado e apetecível, personificado naquele torrão pétreo onde o florido das orquídeas e das azáleas se mistura com o desabrochar dos primeiros rebentos das figueiras e das vides. É também este basalto negro, como que ensanguentado, que nos trás à memória a labuta de um povo de pastores e baleiros que escreveu a sua história com cajados e remos, gravando-a, para sempre, nas pedras basálticas das encostas e nos rochedos dos baixios e escolhos da beira-mar. É este gigante adormecido, de magma e enxofre que nos traz à lembrança, cada vez que olhamos os socalcos e andurriais da montanha que o personifica, os fantasmas das sombras enigmáticas da lava dos vulcões e os ecos roufenhos do rugido de abalos e terramotos. É esta tremenda e invulgar força telúrica, adormecida no seu seio e armazenada no seu interior, é esta estranha e paradigmática sensação de se ter a alma presa a um alvoroço extrusivo, profundo e místico, que nos deslumbra e faz sonhar, ao mesmo tempo que nos emaranha nos meandros de uma natureza pura e virgem, donde brotam vinhedos fecundos e de sabor adocicado, ladeados por muros singelos de lava carcomida, encostas recheadas de um bruto esplendor, maroiços a abarrotar de pedregulhos saltitantes, paisagens transparentes de uma pureza diáfana, veredas marcadas com o marulhar contínuo das albarcas e dos pés descalços, campos fecundos, ornados de uma vegetação atrevida, metamorfoseada num verde luxuriante que ora povoa os pastos repletos de manadas, ora cobre as encostas de arvoredos e arbustos ou reveste as pequenas courelas de legumes e cereais.

O Pico é assim, como uma princesa revestida de bruma, que as gaivotas beijam e enternecem com mimos e carinho. Sempre que o revistamos de lés-a-lés, encontramos a dolência embevecida das ondas, o eco oscilante das marés ou, até, a braveza incontrolável do oceano e encantamo-nos, deliciosamente, com a inebriante doçura das lagoas e deslumbramo-nos, em excelência, com a ternura sorridente das hortênsias. E como se isso não bastasse, ainda nos fica, no peito, o estigma da ardência das caldeiras e das fumarolas dos vulcões. Por tudo isso é que o Pico é a primeira entre as verdadeiras ilhas de bruma, porque revestida com o negro do basalto, com o verde da esperança e envolta com o azul do mar e o branco baço dos nevoeiros.

Razão tinha o poeta Manuel Alegre, quando, demandando o Pico, procurava uma ilha de bruma, “… uma ilha sobre o vento e a espuma/Agora tenho-a à minha frente/ilha de bruma./Buscava um lugar santo um canto um cântico/um triângulo mágico uma palavra um fim./E vejo um grande pico sobre o atlântico/e uma ilha a nascer dentro de mim”.

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BOLOS DE VÉSPERA PARA TODOS

Domingo, 03.02.19

O amplo largo fronteiro à assimétrica igreja de Santa Luzia do Pico estava a abarrotar de pessoas, de conversas e de açafates repletos de bolos de véspera, assinalados com chavões e cravejados de flores. Um espectáculo de cor, de aromas e de simplicidade. Aguardava-se a chegada do pároco que havia de percorrer um a um, os quatro corredores, ao lado dos quais se dispunham os açafates, ordenados e arrumados em cima de bancos, como se fossem gigantescos grãozinhos de milho, semeados em regos paralelos, a germinar nos campos, por entre a terra húmida e fortalecida.

A tarde estava sombria e, do lado de São Jorge soprava um vento húmido, aguerrido e dominador. Cuidava-se mesmo que podia chover. Essa a razão por que o “mordomo” da festa e os seus colaboradores haviam equacionado a hipótese de colocar os açafates no salão paroquial, contíguo à pequena capela que ostentava, no frontispício branco, uma coroa granítica, preta, sobrevoada por uma pomba da mesma cor. Paradigmáticos símbolos do Divino Espírito Santo, nas ilhas açorianas! Mas o tempo aparentava melhoras e o povo preferia ver, observar de perto, sentir e presenciar toda aquela celebração em louvor da Terceira Pessoa da Trindade, ali ao ar livre, entre a montanha e o mar, entre o fogo e água, com o céu a servir-lhe de resguardo.

Não tardou muito e o pároco surgiu, lá do fundo, emergindo da igreja, paramentado de alva branca e estola vermelha, acompanhado de um acólito a segurar-lhe a caldeirinha da água benta e o hissope com que o pão havia de ser aspergido. À frente dois foliões, com tambor e pandeireta – pum-pum, pum-pum – trem-trem, trem-trem – entoavam loas ao Paráclito. O pequeno cortejo aproximou-se dos açafates. Os foguetes ribombaram e o povo fez silêncio. Encharcando o hissope que o acólito lhe apresentava na água da caldeirinha, o pároco, percorrendo os corredores delineados entre os açafates, dirigia preces a Deus, ao mesmo tempo que atirava respingos de água benta sobre o pão. O povo, silencioso, benzia-se. Alguns, mais crentes, bichanavam orações. Terminada a bênção de todos e de cada um dos açafates, o pároco, despojando-se das vestes litúrgicas, retirou-se, enquanto a filarmónica do Cais, entoava, com solenidade e mestria, o Hino do Espírito Santo. Muitos dos presentes acompanhavam os acordes musicais e os solos dos clarinetes, das trompetes e dos cornetins requintados, cantarolando em voz baixa: “Alva pomba que meiga, aparecestes, ao Messias no Rio Jordão…”

O bar, ali ao lado, que, em respeito religioso pelo divino, havia parado durante a bênção, ressuscitava, agora, o reboliço inicial das favas guisadas, dos caranguejos, das lapas e dos copos de vinho, perfumado com o negro enxofre da lava basáltica, onde as vides haviam germinado. Foguetes ribombavam em uníssono com o repicar dos sinos. O apinhado de gente cada vez mais volumoso aguardava, expectante e ansioso, a hora de “receber o pão”.

Dezenas, centenas, milhares de bolos de véspera, assinalados na parte superior com os chavões dos que os haviam ofertado, enfeitados com flores multicolores, passavam, agora, das mãos dos distribuidores para as de todos os que ali, pacientemente, haviam aguardado o momento mágico, transcendente e emocional, em que recebiam aquela dádiva do Divino, oferecida pelo humano.

- Ó sinhô, - explicava Ti Manuel da Silveira, ao mesmo tempo que com a mão direita ajeitava a aba do chapéu de feltro a tapar-lhe o cocuruto e estendia a esquerda para receber uma véspera. – Ó sinhô, isto é um costume muito antigo. Foram os nossos antepassados, há muitos, muitos anos que fizeram esta promessa. E pode acreditar que enquanto houver gente nesta freguesia, esta promessa há-de ser cumprida todos os anos. Lá isso há-de... – Depois apontando lá para os lados da montanha, que se ostentava tímida e enevoada: – O sinhô está a ver ali em cima aquele cabeço, e um outro mais além e ainda outro? Pois são sete, ao todo, veja bem, sete e olhe que de todos eles, há muitos, muitos anos, saiu muito fogo, lava pura, vinda de dentro da terra e que deslizou por aqui a baixo, a correr para o mar como se fosse um rio e destruiu isto tudo. Casas, animais, vinhas e campos, tudo… Tudo, o fogo levou. Ficaram poucos, mas foram esses que, naquele momento de enorme agonia, fizeram esta promessa: “Se o fogo parar, os que escaparem hão-de dar pão aos pobres e a todos os que demandarem esta terra, neste dia, enquanto o mundo for mundo, em louvor do Senhor Espírito Santo”.

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CINCO A ZERO

Sábado, 02.02.19

Foi numa tarde de maio da década de cinquenta do século passado. O Atlético Clube da Fajã Grande estava em grande forma e no auge da sua curta carreira futebolística. Domingo após domingo, muitas vezes até em dias de semana, à tardinha, um punhado de jogadores que constituíam o plantel não se coibia de treinar. O clube havia surgido no final da década de quarenta, resultante duma fusão entre os dois clubes existentes, inicialmente, na Fajã: o Sport e o Salgueiros. Nesses tempos os jogos realizavam-se no antigo campo do Estaleiro, para os lados do Porto, numa altura em que surgiu o melhor jogador de sempre da Fajã Grande e um dos melhores da ilha, o Nestor.

O Atlético já realizara alguns jogos, no novo campo das Furnas e já se deslocara a Santa Cruz e às Lajes, mas com resultados pouco positivos. Apenas uma vitória frente ao União de Santa Cruz. De resto empates e derrotas

Nestes tempos jogavam no Atlético excelentes jogadores: Abílio (Guarda-redes), João do Gil, Lucindo Fagundes, Elviro, Edmundo Pereira, Teodósio, Albino, Álvaro de João Carlos, David do Raulino, Roberto do Cristóvão, Ângelo João Augusto, Mário do Raulino, Luís Cardoso, Manuel Cardoso (Matateu), Álvaro do Raulino, José Borges, António Nascimento, José Augusto, Ângelo Câmara, José de Lima, Albano, Manuel Blica, José António Marcela, João Luís, António Lourenço, José Augusto e Luís Matareco, entre outros. O treinador era o José Fagundes.

Nessa gloriosa tarde de maio, a vila das Lajes deslocava à Fajã uma nova equipa pertencente à Rádio Naval. Esta equipa surgiu pouco depois de ser instalada naquela vila uma estação de Rádio Naval, em agosto de 1951. Era uma equipa fortíssima constituída não só por jogadores naturais da ilha que, anteriormente, haviam jogado noutros clubes, mas também por marinheiros vindos do continente para trabalhar naquela estação, entre os quais o célebre Virgílio Fraga, um verdadeiro craque, com um currículo notável, pois antes de se deslocar paras Flores, jogara no Tirsense, na altura a militar na 2ª divisão nacional, zona norte e João Rodrigues que jogara no Fayal Sport Clube da Associação de Futebol da Horta. Outros nomes sonantes da Rádio Naval eram Tomás, Roque Sousa, António Raimundo, Mateus Azevedo, Mendes, Lenine, Teixeira, António Freitas, Santana, Manuel Martins e Manuel Moniz.

Mas o Atlético não se atemorizou. José Fagundes preparara bem a equipa para o embate. Equipando com camisola azul e calção branco, alinharam, na baliza Abílio, na defesa os jovens Edmundo Pereira, Lucindo Fagundes e o experiente Álvaro de João Carlos. Como médios o treinador lançou Albino e o veterano Teodósio, jogando com os interiores Ângelo Câmara e Albano. Nos extremos colocou o David do Raulino à esquerda e o Ângelo de João Augusto, à direita, com o Manuel Cardoso, apelidado de Matateu, a avançado centro. O campo encheu-se de gente, na generalidade apoiantes do Atlético, vindos da Fajã e da Ponta.

A partida iniciou-se com uma acentuada supremacia da equipa visitante. Mas o Abílio estava em grande forma e fez um bom punhado de defesas o que conferiu grande confiança às hostes fajagrandenses que o público apoiava calorosamente. O Atlético veio para a frente e ameaçou a baliza dos lajenses. Um penalty bem assinalado, concretizado pelo Manuel Cardoso (Matateu) deu ao Atlético um avanço no marcador. O público aplaudiu e os jogadores empolgaram-se ainda mais. Antes do intervalo o Atlético aumentou a vantagem. Um canto da esquerda, apontado pelo David do Raulino e Lucindo Fagundes a saltar em primeiro na área adversária, a cabecear e a fazer o segundo para a equipa da casa.

O Radio Naval regressou na segunda parte revoltado e disposto a virar o resultado fosse de que forma fosse, cometendo muitas faltas. Um livre apontado exemplarmente por Teodósio e três a zero. Os ânimos começaram a aquecer, com muitas interrupções, agressões e faltas duríssimas. Dois jogadores forasteiros foram expulsos, conseguindo o Atlético manter a calma, marcando mais dois tentos, por Manuel Cardoso e Albano.

A equipa das Lajes, apesar de revoltada, abandonou o campo reconhecendo a superioridade do Atlético, cujos jogadores eram aplaudidos e levados em ombros, após a invasão de campo, no fim do jogo, por parte de muitos espetadores que assim celebravam, efusivamente, o maior dia de glória do Atlético Clube da Fajã Grande.

Os jogadores, ao cair da noite, foram recebidos por muitos adeptos na loja da Senhora Dias. Entre cervejas, laranjadas e pirolitos o treinador, José Fagundes, cantava efusivamente:

O Atlético trabalha como eu quero,

Agora já não falham cinco a zero.

Ó Maria Rita, não te faças tola,

Toma lá sete e cnico p’ra comprar uma cebola

Foi numa tarde de maio da década de cinquenta. O Atlético da Fajã Grande estava em grande forma e no auge da sua curta carreira. Domingo após domingo, muitas vezes té em dias de semana, à tardinha, um punhado de jogadores que constituía o plantel não se coibia de treinar. O clube que havia surgido no final da década de quarenta, resultante duma fusão entre os dois clubes existentes, inicialmente, na Fajã e a jogar ainda no antigo campo do Estaleiro, o Sport e o Salgueiros, nos tempos em que se destacou o melhor jogador de sempre da Fajã Grande, o Nestor.

O Atlético já realizara alguns jogos, mas todos eles com resultados pouco positivos. Apena uma vitória frente ao União de Santa Cruz. De resto empates e derrotas

Nestes tempos jogavam no Atlético excelentes jogadores: Abílio (Guarda-redes), João do Gil, Lucindo Fagundes, Elviro, Edmundo Pereira, Teodósio, Albino, Álvaro de João Carlos, David do Raulino, Roberto do Cristóvão, Ângelo João Augusto, Mário do Raulino, Luís Cardoso, Manuel Cardoso (Matateu), Álvaro do Raulino, José Borges, António Nascimento, José Augusto, Ângelo Câmara, José de Lima, Albano, Manuel Blica, José António Marcela, João Luís, António Lourenço, José Augusto e Luís Matareco, entre outros. O treinador era o José Fagundes.

Nessa gloriosa tarde de maio o Rádio Naval deslocava à Fajã uma nova equipa pertencente à Rádio Naval das Lajes. Esta equipa surgiu pouco depois de ser instalada na mesma vila uma estação de Rádio Naval, em agosto de 1951. Era uma equipa fortíssima constituída não só por jogadores naturais da ilha que, anteriormente, haviam jogado noutros clubes, mas também por marinheiros vindos do continente para trabalhar naquela estação, entre os quais o célebre Virgílio Fraga, um verdadeiro craque, pois antes de se deslocar paras Flores, jogara no Tirsense, na altura a militar na 2ª divisão nacional, zona norte e João Rodrigues que jogara no Fayal Sport Clube da Associação de Futebol da Horta. Outros nomes sonantes da Rádio Naval eram Tomás, Roque Sousa, António Raimundo, Mateus Azevedo, Mendes, Lenine, Teixeira, António Freitas, Santana, Manuel Martins e Manuel Moniz.

Mas o Atlético não se atemorizou. José Fagundes preparara bem a equipa para o embate. Equipando de camisola azul e calção branco, alinharam, na baliza Abílio, na defesa os jovens Edmundo Pereira, Lucindo Fagundes e o experiente Álvaro de João Carlos. Como médios o treinador lançou Albino e o veterano Teodósio, jogando com os interiores Ângelo Câmara e Albano. Nos extremos colocou o David do Raulino e o Ângelo de João Augusto, com Manuel Cardoso (Matateu), a avançado centro. O campo encheu-se de gente, todos apoiantes do Atlético, vindos da Fajã e da Ponta.

A partida iniciou-se com uma acentuada supremacia da equipa visitante. Mas o Abílio estava em grande forma e fez um bom punhado de defesas o que conferiu grande confiança às hostes fajagrandenses que o público apoiava calorosamente. O Atlético veio para a frente e ameaçou a baliza dos lajenses. Um penalty bem assinalado, concretizado pelo Manuel Cardoso (Matateu) deu ao Atlético um avanço no marcador. O público aplaudiu e os jogadores empolgaram-se ainda mais. Antes do intervalo o Atlético aumentou a vantagem. Um canto da esquerda, apontado pelo David do Raulino e Lucindo Fagundes a saltar em primeiro na área adversária, a cabecear e a fazer o segundo para a equipa da casa.

O Radio Naval regressou na segunda parte revoltado e disposto a virar o resultado fosse de que forma fosse, cometendo muitas faltas. Um livre apontado exemplarmente por Teodósio e o três a zero. Os ânimos começaram a aquecer, com muitas interrupções, agressões e faltas duríssimas. Dois jogadores forasteiros expulsos, conseguindo o Atlético manter a calma, marcando mais dois tentos, por Manuel Cardoso e Albano.

A equipa das Lajes, apesar de revoltada, abandonou o campo reconhecendo a superioridade do Atlético, cujos os jogadores eram aplaudidos e levados em ombros, após a invasão de campo, no fim do jogo, por parte de muitos espetadores que assim celebravam, efusivamente, o maior dia de glória do Atlético Clube da Fajã Grande.

Os jogadores, ao cair da noite, foram recebidos por muitos adeptos na loja da Senhora Dias, entre cervejas, laranjadas e pirolitos.

O Treinador, José Fagundes, antava efusivamente:

O Atlético trabalha como eu quero,

Agora já não falham cinco a zero.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

O ELOGIO DA LAVA

Sexta-feira, 01.02.19

O Pico, visto de repente e no Inverno, parece um respingue de lava, atirado à toa, para cima do Atlântico. Outrora lava vermelha, incandescente, fumegante e destruidora, mais tarde negra, inturgescida, basáltica e besuntada de enxofre, agora aureolada de verde, benéfica, produtiva, atraente e perfumada de mosto e de salpicos de maresia.

Mas ontem como hoje, esta lava é uma espécie de sangue negro, fecundo e vigoroso, derramado sobre um chão pétreo e consistente, que o alimenta, o tonifica e o transforma em vinhedos, em campos de milho, em pastagens ou em encostas a abarrotar de florestas de faia, de incenso e de árvores de fruto que o vão atapetando do sopé até ao cume, onde, umas vezes, escorrem flocos calcificados de gelo, outras fragmentos caramelizados de neve, e onde sopra sempre um vento destemido, mesmo violento, mas com um ar enternecedor de benfazejo, sobretudo quando acompanhado pelo suave lacrimejar do orvalho acariciador das madrugadas.

A lava é vida neste Pico. A lava é esperança neste mar. A lava é crença deste povo. A lava é suco generoso, é chão amigo. A lava é uma espécie de bálsamo tonificante e fertilizador, que transforma o sofrimento em promessa, a angústia em esperança, destruição em recompensa, o deserto em abundância, o nada em tudo.

A lava, nascida bem lá no fundo da Terra, sobe à tona e alastra por aqui e por além, cobre tudo, verte-se em torrente sobre este chão e nele desliza como se fosse um rio gigantesco e negro, a arfar de desejos inexperientes, sem pontes, sem açudes e a perder-se por entre andurriais angustiantes, a entrincheirar-se entre margens de suplício. Mas um rio cheio de esperança contagiante, a abarrotar de alegria inocente e pura, a transbordar de madrugadas sonhadoras.

A lava do Pico é um rio de espuma incandescente, a deslizar por entre pedaços de chão rachado, a fertilizar os vales, a enrijecer os montes, a calcificar os pântanos e as lagoas, a alimentar os vinhedos e as florestas, a perder-se, como que envergonhado e tímido, no meio de um oceano de desejos indefinidos, transformando-se em gigantescas marés de graça, de solenidade e de ternura

E a lava negra deste Pico, ontem vermelha e destruidora, transformou-se, por mãos calejadas e dolentes, num gigantesco e pétreo manto verde de esperança.

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