Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



UMA VACA POR VINTE ESCUDOS

Terça-feira, 03.12.13

O Freitas tinha apenas uma vaca, uma só vaca. As relvas que herdara, uma dos pais lá para as bandas da Alagoinha e uma outra, ali bem perto, no Batel que os sogros lhe haviam deixado não chegavam para mais. Apesar de tudo o animal andava gordo, bonito e anafado que era um regalo ver. Era a menina bonita dos seus olhos e jurava a pés juntos que não a venderia nunca, nem por todo o dinheiro do mundo. Um exagerado, este Freitas! Mas verdade é que a sua Lavrada andava limpa que era um primor, bem tratada que nem uma princesa, mantinha-a asseada que nem uma donzela e, além disso, era boa de leite e de crias. A Lavrada do Freitas era, sem sombra de dúvidas, uma das melhores, mais bonitas e mais valiosas vacas de quantas existiam na Fajã.

Mas o Freitas era um gabarola e não cessava de exorbitar atributos e qualidades que o animal não possuía. Tais exageros faziam com que, ao passar com ela à Praça, nas idas e vindas para a Alagoinha ou para o Batel, os rapazes se metessem com ele, insinuando que aquilo nem era vaca de andar pelos caminhos de tão magra e pestilenta que era, que havia de ter vergonha de trazer aquele “cramelhano” pelas ruas que nem “mojo” tinha que se visse ou que desse leite para saciar a fome dum pinto.

O Freitas ia ouvindo, com resignação, afrontas e insultos diários, cuidando, no entanto, que aquilo era inveja, inveja pura. E já quase nem lhes dava ouvidos. Eles, porém, insistiam cada vez mais, na esperança de que um dia a paciência do Freitas havia de rebentar de vez.

Certa tarde, em que o Freitas, cansado das lides diárias e atribulado com as consumições caseiras e já quase noite escura, levava a vaca ao Batel, o Albino, sentado na banqueta da Casa do Espírito Santo de Baixo, para o açular ainda mais, atirou de rompante:

- Essa vaca não vale nada! Queres vinte escudos por ela?

O Freitas que sabia bem que o Albino era um pé rapado e cuidando que ele, como sempre, não tinha tostão consigo, na tentativa de anular a afronta retorquindo com uma outra que calasse aquele impostor de uma vez para sempre, contra atacou, com um sorriso de gozo e escárnio:

- Se os tens aí, é para já!

Palavras não eram ditas, o Albino levanta-se de um pulo, aproxima-se do Freitas e retira de um dos bolsos das calças, uma nota vinte escudos, exclamando:

- Estão aqui! A vaca é minha!

O Freitas ficou lívido que nem um defunto e branco que nem a cal. Emudeceu por completo! Parecia que a Rocha, desde as Águas ao Curralinho, lhe caíra em cima, amassando-o e destruindo-o por completo. Era um homem desgraçado!... O homem mais desgraçado do mundo!... Mas era um homem de palavra e, como o Albino, com ar muito sério, permanecesse ali na sua frente com uma mão a estender-lhe a nota e com a outra a pegar-lhe na corda da vaca, exigindo que cumprisse o contrato, pasmado, mudo, incrédulo, com ar apatetado, cedeu. Recebeu os vinte escudos e, com os olhos rasos de lágrimas, entregou o animal. O Albino passou-lhe uma corda pela cabeça e, perante o espanto de todos que tentavam, infrutiferamente, acalmar o Freitas, levou-a para o seu palheiro.

O Freitas passou três dias de sofrimento e amargura e outras tantas noites de insónia e desassossego. Não comia, não dormia, não trabalhava, não descansava, enlouquecia de dia para dia.

Mas o Albino que guardara a vaca no seu palheiro, tratando-a como se fosse sua, ao fim de três dias, com receio de que o Freitas definhasse por completo, veio trazer-lhe o animal. O Freitas nem queria acreditar e, abraçando-o, jurou que não mais se meteria noutra semelhante.

Mas verdade é que por toda a freguesia o Freitas foi elogiado por ser “um verdadeiro homem de palavra”.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 11:42





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Dezembro 2013

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031