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O MILHO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Terça-feira, 03.12.13

No meu tempo também era nestas alturas, nos fins de Setembro que se apanhavam os milhos das terras que ficavam à beira-mar. Em Outubro os das terras do interior, pois estando estas mais longe do mar, e tendo que ser trilhadas o milho também era semeado mais tarde. Era uma época muito bonita e agradável, esta em que se procedia às apanhas dos milhos. Eram autênticos dias de festa nas casas dos lavradores.

Quando as maçarocas, depois de desfolhados os milheirais, estavam maduras, marcava-se o dia da apanha e acarretar das maçarocas para as ou para as lojas, para de imediato as encambulhar e pendurar nos estaleiros. E esse dia era um dia especial e devia ser marcado com antecedência para não coincidir com os dias em que os vizinhos e amigos também apanhavam o seu milho, a fim de se poderem ajudar uns aos outros. Homens, mulheres e crianças, nesses tempos as crianças ainda não iam para a escola como hoje em dia, alta madrugada, muitas vezes ainda noite escura, demandavam a terra ou cerrado. Uns começavam a apanha e outros iam carregando os cestos para os carros de bois com as “ceiras” de vimes que iam enchendo a “acaculando bem acaculadas” até fazer enormes carradas. Se as terras eram mais pequenas ou ficavam perto de casa o milho era acarretado às costas. Os carros eram puxados por vacas a quem se iam dando maçarocas para as compensar. Uma ou duas mulheres a meio da manhã vinham para casa para fazer o almoço a que todos os que ajudavam tinham direito. Às vezes quando a apanha era muito demorada e se prolongava pela tarde, as mulheres iam levar o jantar ao serrado onde se colhia o milho.

De tarde e à noite era a hora de encambulhar. O milho era colocado, geralmente na cozinha, formando um grande monte em forma de pirâmide. As pessoas sentavam-se à volta em cima do fundo de um cesto ou de pequenos bancos de lavar os pés. Munidas de um molho de fios de espadana, iam escolhendo as maçarocas as maçarocas uma a uma, separando as maiores e mais bem protegidas de casca. Puxavam-lhe uma folha de casca, juntavam umas quinze ou vinte, juntavam-lhes as folhas retiradas, enrolavam-nas bem enroladas, torciam o rolo na ponta e amarravam-no com um fio de espadana. Estava feito o cambulhão. Amontoados num canto da cozinha aguardavam que as crianças os transportassem para junto dos estaleiros onde seriam dependurados, tarefa geralmente executada pelo dono da casa. Se não se conseguia encambulhar todo de dia aproveitava-se o serão e a ajuda de amigos e vizinhos. Era também à noite que descascavam as maçarocas rejeitadas para os cambulhões. Mas deixava-se uma folha presa em cada massaroca, afim de com ela também se fazerem cambulhões, bem mais pequenos e que eram pendurados dentro do estaleiro, de baixo dos que tinham casca, a fim de que estes os protegessem da chuva. Se a dona da casa já não tinha milho velho aproveitava estas maçarocas e, descascando-as por completo, acendia o forno e depois de cozer o pão ou as escaldadas, secava-as lá dentro. Outras vezes e se o tempo estava bom, o milho, já debulhado, era despejado nos pátios e secado ao Sol, sendo que havia de estar sempre de vigia, uma criança, a enxotar as pombas que se atiravam a ele desalmadamente.

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publicado por picodavigia2 às 23:23





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