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MINHA AVÓ JOAQUINA

Quarta-feira, 04.12.13

Joaquina Fagundes de Sousa nasceu na última década do século XIX, mais concretamente em 1890, no lugar da Cuada, na ilha das Flores. Foram seus pais António Maria de Sousa e Maria José Teodósio. Devido ao falecimento da mãe, quando ainda muito criança, Joaquina foi dada pelo pai a um casal, ele José Cristiano Ramos e ela Margarida Jacinta, a fim de que a criassem e educassem. Este casal, já de idade avançada, tinha apenas um filho e este há alguns anos que havia falecido num acidente de que foi vítima, na Rocha dos Paus Brancos. Além disso, Margarida também faleceu alguns anos depois da adopção, acabando Joaquina por ficar, novamente e pela segunda vez, órfã de mãe, neste caso de mãe adoptiva. No entanto “Pai Cristiano”, como minha avó carinhosamente sempre chamou àquele que a havia adoptado, tratou-a e criou-a com muito carinho, amizade, dedicação e desvelo. Segundo os relatos que ouvi, em criança, vezes sem conta, narrados por ela própria e, sobretudo, pela maneira carinhosa como a ele se referia, tratava-se, realmente, duma pessoa extremamente bondosa, honesta e magnânima. Nas suas orações diárias, sobretudo depois de rezar o terço em família, minha avó pedia sempre que se rezasse um Padre-Nosso por alma de “Pai Cristiano”.

Joaquina cresceu, tornou-se jovem e, apenas com dezoito anos, casou, na igreja paroquial da Fajã Grande, no dia onze de Janeiro de 1909, com José Fagundes da Silveira, recentemente regressado da Califórnia.

Joaquina, com uma estatura fraca, aliada a uma saúde frágil e um temperamento débil, nunca se dedicou muito aos trabalhos nos campos, a não ser no semear e apanhar do milho ou na semeadura e colheita das batatas. Viveu a maior parte da sua vida dentro de casa, pariu treze filhos e teve o infortúnio de assistir ao falecimento de dois deles, um recém-nascido, que ficou sempre lembrado como o José do Céu e uma filha, Angelina de seu nome, precisamente aquela que foi a aminha mãe. Para além de gerar e criar todos estes filhos, Joaquina dedicou-se sempre ao arranjo e amanho da casa e da cozinha, embora, alguns anos mais tarde, tivesse a preciosa ajuda das filhas. Foi a primeira mulher e talvez a única, na Fajã Grande, a ser nomeada ”Mordoma das Almas”, cargo que desempenhou com grande dedicação e exímia competência, sobretudo nos meses de Outono, durante os quais se realizava, sob a sua orientação e comando, em toda a freguesia, a uma grande derrama pelas almas. Além disso era uma óptima tecedeira e uma excelente costureira. Bem me lembro duma colcha de cama que ela me fez com competência e mestria, quando foi decidido que eu ia estudar para o Seminário. Tendo consciência que estávamos impossibilitados de comprá-la, prontificou-se, de imediato, para a fazer. Arranjou dois bons bocados de fazenda enramados, um azulado e outro castanho, coseu-os em três dos lados, formando uma espécie de saco, dentro do qual colocou escondidas, algumas peças de roupa velha, devidamente alisadas. Depois coseu a extremidade equivalente à boca do saco, alinhavou, chuleou e voltou a chulear a futura colcha de alto a baixo e de lado a lado, em linhas perpendiculares e paralelas, de tal maneira que formaram uma espécie de tabuleiro de xadrez, de forma a simular uma colcha acolchoada. Uma obra-prima!

Quando criança adorava ir para a casa da minha avó Joaquina. Presenteava-me sempre com uma fatia de pão de milho ou de trigo com doce. Que bom que era o pão com doce da minha avó Joaquina. Quando tinha em casa fruta da sua horta do Delgada dava-me sempre alguma, mesmo que fosse apenas metade de uma ameixa

Já velhinha, o seu passatempo preferido era o jogo da cacina. Jogava com excelência, com um sentido apurado do jogo, com um domínio sobre o adversário, sabendo em qualquer momento de cada partida as cartas que já haviam saído e as que estavam por jogar. Quase todos os dias, à tardinha, sentava-se à janela da sala, com vista sobre a freguesia e sobre o mar. Dizia que estava a ver o pôr-do-sol, não tanto para apreciar o espectáculo, mas sim para acertar o relógio de parede. É que tinha ela em sua posse uma tabela que lhe indicava a hora em que o Sol se punha em cada dia do ano. Depois corria para o relógio e acertava-o por aquela hora. Curiosamente o relógio da minha avó Joaquina andava sempre atrasado, muito provavelmente porque aquela tabela diria respeito a outro fuso horário

Minha avó faleceu, calma, serena e em paz, numa tarde invernosa de Dezembro, aos setenta e seis anos de idade.

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publicado por picodavigia2 às 10:04





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