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O ENSINO NA FAJÃ GRANDE NO INÍCIO DO SÉCULO XX

Sexta-feira, 06.12.13

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, as pessoas que haviam nascido nos finais do século XIX e nos primeiros anos do século XX, e que na altura rondavam os cinquenta ou sessenta anos, quase na totalidade, não sabiam ler ou escrever, embora uma ou outra soubesse assinar o seu nome. Era pois uma geração analfabeta, a dos nossos avós, embora possuindo uma cultura rica em tradições, em costumes e em douta sabedoria popular.  

Mas este analfabetismo que grassava por quase toda a freguesia, significava que o ensino nos primeiros anos do século XX pura e simplesmente não existira na Fajã ou então que teria sido bastante deficitário, pese embora, desde os tempos do Marquês de Pombal se evidenciassem esforços, em Portugal, no sentido de difundir a instrução primária por todo o país e de, mais tarde, em 1911, após a implementação da República, se ter estabelecido a obrigatoriedade do ensino primário dos sete aos dez anos, em todo o país. Na realidade, o ensino primário teve origem nas aulas de ler, escrever e contar que, até 1759, estavam a cargo de ordens religiosas, dado que os clérigos eram as únicas pessoas que tinham acesso ao ensino, destacando-se os Jesuitas que, nessa altura, já dispunham de um plano curricular único para ser aplicado em todas as suas escolas. Em 1759, o marquês de Pombal retira o ensino ao clero e procede à sua estatização, criando as chamadas “aulas régias” que, mais tarde, no século XIX, deram origem ao ensino primário. Durante a Monarquia Constitucional e a Primeira República foram efectuadas várias reformas do ensino primário, acabando por torná-lo obrigatório, em todo o país. No entanto, essa obrigatoriedade nunca saiu do papel e só veio a ser efectivada já durante o Estado Novo, mas mesmo assim demorou a atingir todo o território nacional.

Foi o que aconteceu na Fajã, onde tudo terá demorado a chegar e a implementar-se devidamente, dadas a sua distância e o seu isolamento. Segundo o relato de algumas pessoas mais velhas, por essa altura, não havia escola propriamente dita, em nenhum edifício ou sala pública, sendo possível, no entanto a uma ou outra criança, regra geral as mais inteligentes e que eram identificadas ou referenciadas pelo pároco na catequese, conseguisse aprender a ler e a escrever e adquirisse os conhecimentos básicos propostos pelos programas da altura. Segundo esses mesmos relatos, as aulas geralmente eram dadas em casa do próprio professor, que ensinava letras e números, ou seja, Português e Matemática, destinando-se, no entanto, a um número muito reduzido de crianças. Findos alguns anos, esses alunos estavam preparadas para fazer o exame da chamada 3.ª classe, a última do ensino primário, nessa altura. Esse exame no entanto, apenas poderia ser feito em Santa Cruz, com um júri especializado.

Mas embora todos os alunos que frequentavam as casas desses professores, geralmente, estivessem habilitados e bem preparados para o exame, nem todos o faziam, por um lado, porque os pais não viam vantagem nisso e por outro porque teriam de abdicar de um ou mais dias de trabalho e fariam alguma despesa ao deslocarem-se a Santa Cruz. Apenas as crianças que pretendiam continuar a estudar o faziam, mas isso era raro e quase exclusivo de algumas que, nessa altura, pretendiam, com a ajuda e colaboração do pároco, frequentar e estudar no Seminário de Angra.

A partir da década de vinte começou a haver salas de aulas públicas, com professores especializados, designados por “professores oficiais”, o que terá aumentado o número de alunos que frequentavam o ensino, criando-se mais tarde, na Fajã, duas escolas. A masculina que funcionava na Loja da Casa do senhor Padre Pimentel, na qual foi professor durante muitos homens um homem que marcou uma geração na Fajã Grande, o professor Orlando e que paralelamente ao ensino, desenvolveu uma intensa actividade cultural na freguesia. Outra figura de relevo e inesquecível na história do ensino na Fajã Grande foi o professor Santos, o qual, sendo viúvo na altura, casou na Fajã, onde viveu durante muitos anos. Por sua vez a escola feminina funcionava na casa de Espírito Santo de Baixo, onde as professoras alternavam com alguma frequência mas onde leccionou, também durante muitos anos e marcando uma geração de meninas, a esposa do Dr Mendonça, um médico que esteve radicado na Fajã, durante muitos anos, vindo mais tarde a fixar-se e a exercer a sua actividade na Madalena do Pico.

Apenas na década de cinquenta se juntaram as duas escolas, criando-se assim a “Escola Mista da Fajã Grande” que funcionou durante muitos anos na Casa do Espírito Santo de Baixo.

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publicado por picodavigia2 às 09:13





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