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PESCAR SARGOS

Sexta-feira, 06.12.13

Na Fajã Grande era costume dizer-se que quem dormitava por aqui ou por acolá, ou seja, fora do local e das horas em que o devia fazer e que, consequentemente, demonstrava evidentes sinais de fraqueza, de fragilidade e até de velhice, estava a “pescar sargos”, talvez devido ao facto de que a referida pesca, sendo, por vezes demorada e infrutífera, também, eventualmente, fosse cúmplice do sono.

Verdade é que ninguém, na Fajã, gostava de ser acusado de “pescar sargos”, nem de ser gozado por tão vergonhoso vitupério, pois era sinal de preguiça, de falta de capacidade para trabalhar e, sobretudo, sinónimo de debilidade. Era, de facto, um grave insulto, uma inaceitável ofensa, um imperdoável ultraje.

Certa noite, os homens, como habitualmente, faziam serão no Café da Chica, que de café não tinha nada, a não ser o nome. Dos presentes, uns jogavam à sueca num pequeno cubículo que havia nas traseiras. Outros, a maioria, debruçavam-se ou encostavam-se ao balcão, conversavam em voz alta, discutiam, apostavam, berravam, falavam na vida alheia, em suma, faziam uma algazarra que metia medo. Um ou outro ia bebendo um copo de anis, um traçado, uma cerveja ou uma laranjada. Quase todos fumavam, uns Quarenta e Três, outros Santa Justa e, os mais velhos, Raio do Sol. Sentados num banco, ao lado esquerdo da porta de entrada, alienados de toda aquela barulheira, meu pai e meu tio António Joaquim dormiam calma e profundamente.

Eis senão quando o Justino, pretendendo apreciar as reacções dos dois irmãos quando acordassem de caniço em riste, saiu da loja e voltou, pouco depois, trazendo duas canas, colocando uma na mão de meu pai e outra na de meu tio, simulando que eram caniços de pesca e que os dois estavam ali a “pescar sargos”. De seguida, sacudiu-os, gritou-lhes aos ouvidos e acordou-nos simultaneamente, enquanto os outros observavam atentamente o “fandaine”.

E não é que foi o bom e o bonito. Meu tio levantando-se de rompante, esbracejou, gritou, berrou, barafustou, praguejou e, pegando na cana com ambas as mãos, levou-a aos joelhos, partiu-a em mil pedaços, atirando-os à cara dos seus algozes, que riam às gargalhadas. Depois, levantando-se, saiu porta fora a lançar imprecações e insultos em todas as direcções. Que fossem todos para o raio que os parta, aqueles almas do diabo, aqueles “sanababichas”. Eram todos uns grandes “filhas da manha”!

Meu pai também acordou. Permanecendo sentado no mesmo lugar, em silêncio, viu e ouviu tudo. Depois de meu tio sair, pegou na cana e disse simplesmente:

- Já que me deram o caniço vou aproveitar para continuar a “pescar sargos”.

E fechando os olhos, voltou a adormecer, perante a admiração e o espanto de todos.

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publicado por picodavigia2 às 10:45





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