Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



TOSSE DE GUINCHO

Sábado, 07.12.13

Era um dos maiores flagelos que nos atingia na nossa infância. Uma maleita da qual quase ninguém se livrava e que nos deixava acabrunhados, melancólicos, combalidos alquebrados, raquíticos, quase desfeitos. E tocava a todos, tal era o seu carácter extremamente contagioso. Aquilo era como lume em palha. Dava num e… zás! Alastrava a todos! Pegava como tinha! Propagava-se a toda a garopada.

Na realidade, a Tosse Convulsa, ou a Coqueluche que grassava tão frequentemente na Fajã Grande, nos anos cinquenta, e atingia sem dó nem piedade, toda a ganapada miúda, era uma infecção muito contagiosa e provocava ataques de tosse, contínuos, permanentes, dolorosos e que, normalmente, acabavam numa inspiração prolongada, profunda que emitia um som agudo, esquisito, estranho, uma espécie de guincho e, por isso mesmo, era designada, popularmente, por Tosse de Guincho.

Esta epidemia surgia na Fajã Grande, com bastante frequência e para se transmitir bastava que estivéssemos em contacto com outra criança ou com outra pessoa que já a tivesse contraído. Mas a maldita, não atingia só as crianças, pois podia-se apanhar a Tosse de Guincho com qualquer idade e mais do que uma vez. Mas as crianças eram o alvo preferido da malévola, sendo que muitos dos casos ocorriam em crianças de tenra idade, algumas ainda de berço, havendo, na altura, relatos aterradores de crianças mortas à míngua, em tempos não muito recuados, devido esta epidemia. De facto quem contraía a Tosse Guincho uma vez, não se livrava dela para sempre, pois não era garantia de uma imunidade para toda a vida. No entanto, acreditava-se que o segundo ataque, quando ocorria, costumava ser mais ligeiro e menos penoso do que o primeiro.

Quem estava infectado propagava facilmente a doença aos outros, dado que, ao tossir, enviava, através do ar, gotas de humidade que continham as malfadadas bactérias ou micróbios e que, qualquer pessoa que se encontrasse, mais perto, poderia perfeitamente inalar e, consequentemente, ser infectada. Por isso, em tempos de crise epidémica, éramos isolados, trancados a sete chaves, fechados em casa e bem avisados para não tossirmos em frente às pessoas ou que nos afastássemos de quem tinha a dita cuja, o que não era fácil, tal a intensidade e a frequência deste flagelo.

E, para mal dos nossos pecados, a Tosse de Guincho, geralmente, não vinha, só. Trazia consigo outras complicações que nos afectavam, e de que maneira, os canais respiratórios. É que para além da tosse, as vias respiratórias permaneciam entupidas, dificultando a respiração. Dizíamos que ficávamos tapados, com muita dificuldade em respirar. Havia também a possibilidade de contrairmos pneumonia, o que poderia ser mortal.

E, pior que tudo, é que não havia nem médicos nem medicamentos que nos valessem. Eram uns xaropes caseiros, nomeadamente um que era feito com aguardente e açúcar. Uma vez misturados num prato, a mixórdia resultante era incendiada com uma mexa, formando uma chama azul e amarelada que, lentamente, ia queimando o álcool. No fundo do prato ficava um resíduo melaço, adocicado que se ia tomando em pequenas quantidades, porque quer o açúcar quer a água ardente rareavam e, além disso, eram muito caros.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 22:08





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Dezembro 2013

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031