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A PEDRA D'ÁGUA

Domingo, 08.12.13

Lado a lado com o Outeiro Grande e até beneficiando da mesma canada de acesso, a Pedra d’Água apenas igualava aquele idílico e produtivo local da Fajã Grande na qualidade das suas pastagens, mas ultrapassava-o, de longe, na extraordinária situação geográfica de que beneficiava e que lhe concedia o estatuto de um dos mais belos lugares da freguesia.

É que a Pedra de Água, um dos lugares mais pequenos da Fajã, era, na realidade, um local onde apenas havia pastagens, mas estas eram possuidoras de uma tal qualidade que ombreavam, e de que maneira, com as do Outeiro Grande e com muitas outras dos vários locais dos arredores. De resto mais nada possuía a Pedra d’Água, a não ser a magnífica vista que dali se desfrutava. Nem cerrados ou belgas de cultivo, nem terras de mato e mesmo as relvas eram poucas, porque o lugar da Pedra d’Água, na realidade, era minúsculo em extensão. Mas o que mais o caracterizava e o distinguia de muitos outros era a sua localização no alto de um enorme planalto, debruçado sobre a Fajã e já quase no termo do Outeiro, desfrutando, na realidade, de uma maravilhosa vista sobre a freguesia. Se por ali passasse uma estrada, com certeza, se havia de construir um miradouro naquele local. Dos lados oeste e sul, ficavam os contrafortes do Pico, o planalto da Cuada e a Rocha da Fajãzinha, a abarrotar de água, de verdura e de imponência. Em frente, a sul e sudoeste e bem escarrapachado aos nossos olhos, o mar, na sua enorme imensidão, calmo, infinito e azulado nos meses de verão, altivo, revolto, turbulento, umas vezes esbranquiçado, outras, encardido, no inverno. Lá bem plantado no meio, o Monchique, um pedaço de basalto negro, como que deixado ali pelos deuses, ladeado pela Baixa Rasa, com um retoiçar contínuo das ondas ao seu redor, a envolverem e a abraçarem sem disfarce e sem vergonha, a extensa fajã e a salpicarem os rochedos negros e os currais de couves e milho do Areal e das Furnas ou a perderem-se entre as pedras alisadas do rolo. A separar a terra e o mar, um rendilhado, todo ele negro, todo ele basáltico, o baixio com os seus caneiros e enseadas, onde se destacavam o Redondo, a Retorta, o Caneiro das Furnas, a Baia de Água e o Poceirão com o Calhau da Barra a fiscalizar passagem para o Atlântico. Mais além, espraiava-se a enorme Baía, debruada pelo Rolo, um amontoado inaudito de pedras polidas e arredondadas, estendendo-se ao longo da Ribeira das Casas e das Covas, do Vale de Linho e do Castelo, desde o Pesqueiro de Terra ao Ilhéu do Cão, metamorfoseando-se de novo em baixio, lá ao fundo, junto à rocha da Ponta. Já mais perto, a igreja rodeada pelas casas ordenadas em arruamentos simétricos, umas brancas, outras cinzentas e escuras, com os seus telhados acastanhados, aglomerando-se e misturando-se com cerrados, belgas e courelas onde florescia milho, batatas e couves. Mais perto ainda, já como que a prolongar-se pelas encostas do Outeiro, do Pico da Vigia e do Mimoio, pequenas pastagens e algumas terras de mato galvanizadas de um verde de tons diferenciados, onde se misturavam incensos, faias, canas, fetos e cana roca. Finalmente, mas muito distante, a Norte, já para além da Ribeira do Cão, a Ponta, onde as casas se postavam em fila, muito bem arruadas, na direcção da ermida da Senhora do Carmo, aninhadas nos contrafortes da rocha. Contrastando com o Oceano e do lado oposto, um semicírculo pétreo e altivo, formado pelas rochas da Ponta, das Covas, das Águas, dos Paus Brancos, dos Lavadouros e do Curralinho, povoadas de ribeiras e de cascatas onde a água se desprendia em fluxos ritmados e refulgentes sob o verde dos socalcos e o negro dos penhascos. Plantado ali mesmo em frente o Pico, com a casota da vigia da baleia bem lá no alto, à espera do foguete que despertasse os baleeiros de sonos e trabalhos e os açulasse em correria louca para o porto, lançando ao mar os botes, adormecidos nas ramadas do Porto Velho, que partiriam na procura e apanha do cachalote que o foguete anunciara. Finalmente e a sul, a segunda parte do semicírculo. Muito ao longe as Rochas da Figueira e dos Bredos a protegerem a Fajãzinha, onde as casas, tão distantes e tão pequeninas, se assemelhavam a minúsculos salpicos esbranquiçados, como que confundidos com a enorme mancha verde das terras de mato, dos campos e das pastagens. Depois a Cuada com a velhinha Casa do Espírito Santo e pouco mais de meia dúzia de minúsculas e envelhecidas habitações, dispersas e como que perdidas entre hortas e pomares, consubstanciando-se, mais adiante, na Eira-da-Cuada, com o Oceano, novamente extenso, resplendoroso e sempre predisposto a receber o volumoso caudal da Ribeira Grande, cuja foz se localizava logo a seguir à ladeira do Biscoito, já em terrenos da Fajãzinha. Finalmente a rocha da Alagoinha povoada de um número quase infinito de grotas, grotões e cascatas, muitas delas dia e noite a escorrer e a vazar, teimosamente, água sobre poços e ribeiras.

O nome deste maravilhoso lugar poderá muito bem ter a sua origem numa enorme pedra situada logo no início da canada que, bifurcando-se com a do Outeiro Grande, conduzia a estas paragens. Era um enorme tufo, encravado no chão, com a parte superior muito porosa e com alguns buracos que, quando chovia, se enchiam de água.

Meu pai tinha uma relva na Pedra d’Água e outra no Outeiro Grande. Curiosamente eram sempre as vacas que, chegando junto daquele calhau, por si próprias decidiam se o seu destino seria o de seguirem em frente até se encafuarem nas verdejantes e frescas pastagens da relva do Outeiro Grande, ou voltarem à esquerda, subir meia dúzia de degraus e procurar as vizinhas paragens da Pedra d’Água, onde existia uma outra relva, com não menos qualidade. Quanto a mim e quando era eu que as ia levar àqueles bucólicos paradeiros, bem preferia que elas escolhessem a Pedra d’Água, a fim de que mais uma vez me fosse dada a oportunidade de usufruir e apreciar a bela paisagem que dali se desfrutava e que, afinal, muito pouca gente na Fajã conhecia.

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publicado por picodavigia2 às 19:14





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