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CANUDOS

Segunda-feira, 09.12.13

Na Fajã Grande não havia casa onde não se acendesse lume, dia após dia, e o único combustível utilizado era a lenha, quer sob a forma de grossas achas quer de pequenos e magros garranchos.

Logo de manhã, muito antes que do Sol nascer, era imperioso ressuscitar o borralho adormecido da véspera e transformá-lo em lume vivo, com uma chama capaz de ferver a água arrefecida do dia anterior, de forma a transformá-la em café retemperador - uma mistura de café comprado cru, torrado e moído em casa, a que se juntavam umas boas colheradas de chicória e de favas secas, torradas, a fim de poupar e fazer render o dito cujo, que não era nada barato. A meio da manhã começava a árdua e imperiosa a tarefa de se fazer o almoço, na altura designado por jantar. É verdade que era cardápio simples, pobre e rudimentar, mas tanto mais trabalhoso e gastador de lume, com chamas bem despertas. Para cozinhar a sopa, cozer as batatas, fritar o peixe ou os torresmos e a linguiça ou, simplesmente, para fazer uma torta do que quer que fosse ou até mesmo de nada, era necessário lume, muito lume, lume permanente, contínuo, sempre activo e muito vivo. Novamente a ceia, à noite, exigia que a tarefa de espevitar o borralho se repetisse e lá estavam as chamas produzidas por duas achas de faia e avivadas por uns garranchos de incenso, mantendo as labaredas doiradas, horas a fio, em espírito permanente, umas vezes titubeantes outras muito espevitadas, a clarear os meandros mais sombrios e recônditos das velhas cozinhas que proliferavam na freguesia. Chamas veementes, estranhas, a lutar contra os repelões de vento que entravam, desalmadamente, pelas frestas do telhado, mas capazes de ferverem o leite, estufarem o pão envelhecido e bolorento, ou de cozerem o bolo ou fazerem as papas. Às sextas, de tarde, incendiava-se o forno com muita lenha. Eram labaredas altíssimas, avermelhadas e assustadoras que saíam pela porta forno fora, como se fosse um gigante a vomitar chamas. Era imperioso aquecer muito bem o forno para a cozedura semanal do pão. Quando este rareava ou não existia, era preciso mais lume, muito lume para aquecer o tijolo e cozer o bolo. Às vezes até se acendia o lume simplesmente para secar o milho, afoguear as linguiças ou, simplesmente, cozer comida para as galinhas ou para o porco. Tudo isto exigia um lume muito forte, vigoroso e que era necessário, por vezes, manter aceso durante horas a fio. Mas a lenha nem sempre era de boa qualidade, umas vezes porque estava molhada outras porque era verde, e afrouxava notória e substancialmente as chamas, deixando-as morrer e provocando grandes desgastes em quem o afogueava, pois tinha que ali estar, constantemente, com as bochechas cheias de ar, a bufar, a assoprar, a fabricar vento, correndo sérios riscos de queimar não apenas a roupa mas até os cabelos ou o próprio rosto. Para resolver todas estas dificuldades e imbróglios e sobretudo para evitar acidentes, era hábito, nas cozinhas da Fajã dos anos cinquenta, desde a Assomada à Via d’Água, recorrer-se aos canudos.

Os canudos eram feitos de cana e, consequentemente, fáceis de adquirir, pois estas floresciam em abundância, nas encostas dos outeiros e dos montes, sobretudo para os lados do Areal. Para um bom canudo exigia-se uma cana de excelente qualidade, grossa, devidamente amadurecida e direita. Uma vez conseguida a cana julgada melhor e, previsivelmente, mais adequada, procedia-se à sua transformação em canudo. A cana era muito bem descascada, raspada nos nós, geralmente com um vidro quebrado, e cortada nas extremidades de acordo com o tamanho que se pretendia dar ao canudo. De seguida arredondava-se uma das extremidades, alisando-a muito bem, pois seria esta que se colocaria na boca, para soprar o lume. Com um bom espeto de assar maçarocas de milho ou outro semelhante, por vezes até construído, exclusivamente, para este efeito, furavam-se, um a um e pelo meio, todos os nós da cana. O canudo estava pronto para soprar o lume, evitando-se assim que aproximar a cara daquela perigosa e aterradora fonte de calor.

E não é que funcionavam muito bem estes canudos! Até porque a sua elaboração foi-se aperfeiçoando com o tempo e havia quem os fizesse muito bem elaborados, com estilo próprio e funcionalidade muito adequada. Havia canudos mais curtos e outros mais compridos, destinando-se estes últimos sobretudo ao forno e ao tijolo.

O único senão destes canudos era que, sendo feitos de cana seca, ficando algum tempo em contacto com o fogo, acabavam por se queimarem na extremidade exposta ao lume, sobretudo se houvesse descuido da cozinheira. Mas convenhamos que isso não era grande problema devido à abundância de canas que existia na Fajã.

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publicado por picodavigia2 às 21:21





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