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O SALTO

Terça-feira, 10.12.13

A última carta que o Rui Durvalino recebeu do Santana fora escrita em Badjocunda. Na Guiné a situação era dramática. Uma guerra sangrenta e cruel. Não havia dia sem bombardeamentos aos quartéis, ataques a colunas, emboscadas no mato e mortes consecutivas. Agora, estava ali, isolado, sendo impossível deslocar-se a Pirada ou, pior ainda, a Gam-Quelifá. Só em coluna, uma vez que as pontes estavam destruídas e as picadas repletas de minas. E mais não dizia!

- É o costume! Tem medo que as cartas sejam apreendidas pelos Pides – comentou o Durvalino, dobrando-a e colocando-a na gavetinha duma velha cómoda da sala.

Amigos de infância e colegas de escola, embora o Santana fosse um pouco mais velho, doeu-lhes a separação.

A vida, em Lagoa, até o Santana ser chamado para a tropa, fora repleta de contrastes: ora transbordante de amizade e alegria, ora sulcada de trabalho e sacrifícios. Passavam os dias calcorreando os contrafortes das serras de Bornes e de Mogadouro, quer pastoreando ovelhas e cabras, quer apanhando azeitona e castanha. Haviam-se habituado, assim, ao trabalho árduo e ao esforço contínuo e sacrificado que a vida em Trás-os-Montes exigia. Noutras ocasiões eram festas, folguedos e flostrias: a compensação frenética das limitações fogosas em que o destino de nascer para além do Marão os havia marcado. Mas amavam a sua aldeia e tinham-se afeiçoado a ela, sobretudo agora, depois de começarem o namorico e dela não queriam sair. Cultivavam, desde miúdos, uma amizade intensa e duradoira que os unia no trabalho e no lazer. O Santana, desde há muito, que se prendera de amores pela Rosalina. O Durvalino seguiu-lhe o exemplo. Foi na festa de Santo André, em Morais, que conheceu e se apaixonou pela Maria Albertina. Mas a teimosa oposição do seu biltre progenitor, que entendia que a filha não era para o primeiro pobretanas que lhe aparecesse à porta e a distância entre Lagoa e Peredo, dificultavam encontros mas aumentavam a paixão.

Quando a idade das sortes se aproximou, a certeza de serem destacados para o Ultramar aterrorizou-os de sobremaneira.

O Santana, motivado pelo Durvalino, ainda esboçou alguns projectos de fuga. Mas meteram-lhe medo: “A França, para muitos, tem sido numa aldeia lá para os lados de Bragança. Os tipos recebem a massa, levam-nos até à fronteira e dizem-lhes que já estão em França. Não é mentira, pois estão na aldeia de França. E lá se vai o dinheiro e a verdadeira França. O remédio é voltar para trás.”

- E ainda há a guarda fronteiriça...

- E os Pides...

- Passar da Espanha para a França também não é fácil...

- E arranjar emprego na França?

- Uns tipos, lá de cima, de Espadanedo e Podence, perderam-se e dois morreram na viagem...

Tais desconfianças levaram o Santana a abdicar dos planos de fuga. Resultado: foi chamado para a tropa, para o quartel das Caldas, onde o esperava o Ultramar.

Algum tempo depois, partiu para a Guiné a bordo do Niassa. Uns breves dias em Bissau e seguiu para Nova Lamego e dali para Pirada, em substituição duma Companhia de Caçadores que lá terminara a sua comissão, prestando, também, apoio a duas companhias que se encontravam no interior, uma em Piche e outra em Gam-Quelifá. Era uma zona muito perigosa, já quase toda ocupada e dominada pelo PAIGC que, meses antes, proclamara a independência, perto dali, em Medina de Boé.

O quartel de Pirada ficava a meias com o pequeno povoado. Uma área enorme, onde alguns pavilhões concentravam os diversos serviços e os dormitórios dos oficiais e sargentos. Depois, à volta, protegidos pelo arame farpado e pelo anel das minas, os abrigos dos soldados. O seu era o nove. Virado para Norte, para os lados do Senegal, que distava dali uns escassos quatrocentos metros, era uma lura escavada na terra, ao lado das valas, coberto com terra e pedregulhos e incluía dormitório, cozinha, sala de jantar, latrina e escritório. Ao lado a rua principal do povoado, onde ficavam algumas casas, umas meio destruídas, algumas abandonadas e outras habitadas, na sua maioria, por um pequeno grupo de brancos que se dedicava ao comércio, nomeadamente, ao clandestino. Mais adiante a pequenina capela, também já abandonada e a sede da PIDE. A seguir, a tabanca, onde viviam, em recíproca cumplicidade, fulas e mandingas, uns explorando a terra, outros contrabandeando a guerra.

O Durvalino, porém, nunca lhe perdoou a anuência à guerra. No dia da partida jurou-lhe:

- Garanto-te que a mim não me apanham lá!

Foi o Alípio de Alfândega da Fé que contratou o Durvalino, através de um primo. Para que não se desconfiasse em Lagoa, marcaram o encontro em Macedo de Cavaleiros, longe das vistas de familiares, amigos e curiosos. O Alípio garantiu-lhe que era sério e honrava os seus compromissos. Por isso o preço era alto.

O Durvalino regressou sem firmar contrato. Era muito difícil arranjar quarenta mil... O tipo nem por nada aceitou apenas a entrega de metade da quantia, com a garantia de lhe enviar a outra metade depois de chegar à França e lá organizar a sua vida. Um segundo encontro e o Alípio cedeu. O moço também lhe pareceu sério.

- Dentro duma semana entrego-lhe vinte mil. O restante enviá-lo-ei da França, no prazo máximo de ano e meio.

- Não, não. Trinta mil em notas... – Sentenciou o Alípio, apertando-lhe a mão – e tens emprego garantido em Clermont-Ferrand. Não te esqueças, Cler-mont-Fer-rand, lá bem no centro da França. Quando puderes, envias os outros dez mil.

A Maria Albertina só muito tarde teve conhecimento dos planos da fuga. A intenção foi poupá-la. Mas teve que lhe dizer, tornando-a sua confidente e mais directa cúmplice. A notícia entrou-lhe no peito como uma bala. Morreria de saudades. Depois era o incerto, o desconhecido, o obscuro, os perigos que ele corria e, talvez, a possibilidade de nunca mais voltar a Portugal.

- Se eu não puder voltar vais tu ter comigo. Se a vida me correr bem, não demorará muito – segredava-lhe, para a acalmar. Depois num tom de voz mais apreensivo: - Então não achas que era mais perigoso ir para a Guiné ou para Angola? Além disso, eu não concordo com esta guerra maldita. É uma teimosia do Marcelo Caetano. Os tipos querem ser independentes, que o sejam. Lá é que eles não me apanham. Tenho que fugir e, quanto antes.

- Quando? Diz-me ao menos, quando? – Perguntava, ansiosamente, a Albertina.

- Isso, não sei. Aliás, nem eu nem ninguém sabe, nem pode saber, porque estragava tudo. E peço-te que quando deres pela minha ausência não te manifestes, nem chores. Enquanto não passar a fronteira os perigos são muitos.

- E as saudades que vou sentir, sempre que me lembrar de ti e dos nossos encontros? Vou lembrar-me de ti todos os dias...

- Não te esqueças que é sempre doce a saudade – acrescentou em tom jocoso.

E caíram mudos nos braços um do outro.

Foi na véspera de Todos-os-Santos que o Durvalino recebeu recado do Alípio. À meia-noite devia estar, sem falta, em Talhinhas, junto à ponte de Remondes, sobre o rio Sabor. O plano em nada falhou. Ainda não tinha dado a meia-noite e já lá estavam todos. Eram quatro, mas apenas conhecia três: o Silvério de Saldonha, o Crispim de Vale da Porca, o guia, que chefiava o grupo substituindo o Alípio e um tipo de Macedo. O Alípio tinha ido para Bragança com uma dupla finalidade: encontrar-se com um grupo que vinha dos lados de Vinhais e preparar a passagem pela cidade. Era o sítio mais perigoso. A polícia não perdoava.

- Vamos por Santulhão, até ao Outeiro. Não é o sítio melhor, mas é o mais seguro – esclarecia o substituto do Alípio. E concluía:

- Do Outeiro para Gimonde vamos de camioneta. Temos que encontrar o outro grupo, antes do Sol nascer, para nos escondermos e sairmos à noite para a fronteira... – E, a passos lestos, iniciaram a marcha.

A noite apresentava-se clara, mas infinita e terrificante. O representante do Alípio conhecia perfeitamente caminhos e atalhos alternativos e incentivava-os, na tentativa de ultrapassarem medos e inseguranças e branquearem saudades, cerceando assim a vontade de regressar a casa. Seguiam em fila, apressadamente. O Durvalino era o último. De vez em quando olhava para trás, aterrorizado por ruídos estranhos, que se faziam ouvir no silêncio escuro da noite. A certa altura foi necessário o guia avisar:

- Andem mais depressa, caraças! Quem quiser desistir que desista agora, ainda está a tempo.

- Desistir!? Nem que me matem – murmurou o Durvalino, apressando o passo.

O Sol, em Gimonde, nasceu tímido e ensombrado, disposto a não iluminar as casas graníticas e pardacentos do pequeno povoado. Já se aproximava o meio-dia, quando o astro-rei se decidiu espreitar por entre as nuvens, na ânsia de presidir à junção das águas dos rios de Onor e da Igreja, às do Sabor. Só então, chegou o grupo de Vinhais. As ordens eram: dispersar durante o dia; cada um para seu lado, para não dar nas vistas. À noite voltar-se-iam a reunir e de madrugada já estariam a salvo, na Espanha.

- A partida é às dez, dali, daquela ponte – explicava o guia, apontando para uma ponte romana, uma construção de alvenaria, sobre uma espécie de canal que unia as águas dos dois afluentes do Sabor.

Na manhã seguinte o grupo estava em Puebla de Sanabria, em Espanha e, passados alguns dias, em Dancharie na França, onde o Alípio os deixou.

- Agora governem-se, como puderem – e virou costas.

Para o Durvalino o espectro da guerra morreu ali, mas, naquele mesmo momento nasceu outro: a saudade de Lagoa e, sobretudo, da Albertina.

Em Puyoô o grupo fraccionou-se. A maioria seguiu para norte, para os lados de Bordéus. Apenas o Durvalino e três outros emigrantes fugitivos seguiram para o interior. Foi em Agen que se separaram definitivamente e o Durvalino seguiu sozinho, com destino a Clermont-Ferrand.

Em Clermont-Ferrand, capital da província de Auvergne, o Durvalino procurou, por indicação que levara de Portugal, o Cardoso. Era um tipo alto, magro, de bigode farfalhudo, mas simpático e atencioso. Revelava no entanto um ar tímido e hesitante. Morava na rua de La Rotunde e foi lá que o Durvalino o foi encontrar. Desde há muito que se radicara em França. Os conhecimentos de que usufruía junto dos patrões de algumas fábricas de pneus, metalurgia, produtos farmacêuticos e alimentares proporcionavam-lhe que arranjasse alguns empregos para os que o Alípio, de quem era muito amigo, ia recambiando clandestinamente de Portugal. Sempre dava mais uns trocos.

Para o Durvalino e por recomendação explícita do Alípio, tinha reservado uma vaga na “MDS Franchê”, uma fábrica de produtos farmacêuticos. Não era trabalho famoso, mas para principiar, podia ser pior...

- Vais carregar caixotes com medicamentos. Mas são leves, muito leves – garantia o Cardoso. – Com o tempo arranjas melhor. Se o teu trabalho agradar aos patrões, tens promoção pela certa...

O alojamento é que ficava um pouco distante da fábrica. Era na rua Berlliard. Iria repartir o quarto, que não era lá grande coisa, com o Antunes.

- É um tipo porreiro, é de Braga. Vais dar-te bem com ele – esclarecia o Cardoso. – O Silva de Murça é que vivia lá desde há dois anos, mas foi tentar a sua sorte para Paris... O tipo não gostava disto. Mas dizem que em Paris é tudo muito pior: mais miséria, tudo mais caro e empregos mais sujos. Mas Paris é Paris. Ele é que sabe…Mas pode apanhar pior em Paris, pode apanhar pior. Ai, se pode! Tu tiveste sorte. Olha que por vezes é difícil arranjar-se alguma coisa... Logo ao chegar...

E o Durvalino iniciou a vida de trabalho fabril, em Clermont-Ferrand.

Os dias eram monótonos e sempre iguais, excepto o Domingo. Durante a semana, levantava-se cedo, tomava o autocarro que o levava à MDS Franchê. Carregava e descarregava caixotes e arrumava os medicamentos em prateleiras, por ordem alfabética. Era um trabalho leve mas fastidioso e pouco divertido. Quão diferente das caminhadas pela serra de Bornes, atrás das ovelhas ou das andanças nos contrafortes do Mogadouro a apanhar a azeitona, com as cachopas à porfia. Os sábados também eram de trabalho. Foi o Rodrigues que lhe arranjou um biscate num armazém. Sempre ganhava mais algum e o tempo passava mais rápido. Viera para a França para trabalhar e para ganhar dinheiro e tinha que enviar dez contos ao Alípio...

As lembranças quer da Albertina quer de Lagoa, porém, não o deixavam e apoderavam-se dele, com maior agressividade, aos domingos. Estes tornavam-se infinitos e, por vezes, até dolorosos. De manhã, saía de casa, sozinho, porque o Antunes não era de missas. Seguia por ruas diversas, na procura de igreja que encontrasse aberta. Ir à missa ao Domingo era um hábito que tinha de miúdo. Percorria a Liberation, a Charles De Gaule, atravessava o Place de Jaude e depois entrava numa rua muito estreita, mas muito colorida e repleta de lojas e de montras. Finalmente, subia a Rue Des Gras ao cimo da qual se perfilava, imponente e altiva, a enorme catedral. Era um edifício de pedra negra, teúrgico e ingente, no seu aspecto exterior. Mas o interior convidava à oração e ao silêncio. É verdade que ao princípio, não entendia rigorosamente nada do que o padre dizia. Os gestos, as atitudes, as roupas verdes e a hóstia branca, porém, eram semelhantes aos da igrejinha de Lagoa. Era aí, sobretudo aí que as lembranças das manhãs de Domingo o amarfanhavam. Era a lembrança da igreja de Peredo, onde, à saída da missa, ia esperar a Albertina. Caminhavam, depois, abraçados lado a lado, por caminhos e atalhos até à casa dela, esperando que o futuro sogro o convidasse a entrar, o que raramente acontecia. Agora ali, terminada a missa percorria só e pensativo, alheio a tudo e todos, as ruas turbulentas e os becos afunilados daquela cidade, tão grande, tão estranha, tão desconhecida e tão diferente da sua aldeia, observando as montras e sonhando ter um dia ali a sua casa, onde viveria com a sua Albertina.

De tarde, seguia com o Antunes e com outros portugueses até ao café do Sporting, nos arrabaldes da cidade, onde os portugueses das redondezas se reuniam às dezenas, uns jogando cartas, outros dominó e todos ouvindo os relatos do campeonato português, lendo “A Bola” e conversando. Novamente dele se apoderava a saudade que o transportava, em sonhos, a Peredo, junto ao pátio da casa da Albertina, onde passava as tardes de domingo...

O Café do Sporting, no entanto, deu-lhe oportunidade de conhecer muitos portugueses e de se adaptar melhor à nova vida e ao novo país. Às tardes de Domingo juntaram-se as idas à noite, os jantares nos dias de festa e a comemoração das vitórias leoninas. Era um convívio salutar e uma oportunidade de reacender a lembrança do seu país e de Lagoa. Para onde quer que fosse ou onde quer que estivesse perseguia-o, continuamente, a saudade.

Depressa se adaptou à língua. A assiduidade e a persistência no trabalho levaram o patrão a promovê-lo. Ganhava bastante mais. O Alípio recebeu os dez mil e começou a enviar algum aos pais e à Albertina. Clermont-Ferrand, enfim, ia-se tornando a sua nova cidade e a França, a sua nova pátria. Apenas, misturadas com a lembrança, as saudades e o temor de um dia poder ser apanhado e expatriado para Portugal, onde seria preso, por causa da fuga ao serviço militar...O Rodrigues bem o animava:

- Eh pá! Nem penses nisso! Os portugueses clandestinos, em França, são aos milhares. Não há cadeias em Portugal que cheguem para todos. Além disso, o fascismo não vai durar sempre em Portugal. Aquilo vai mudar, vai ter que mudar... Ainda vais poder voltar ao nosso país livre, livre como um passarinho.

Numa tarde solarenga de verão, na pequena igreja de Santa Catarina, em Peredo, o Rui Durvalio e a Maria Albertina, juraram amar-se para sempre. Em casa dos pais da Albertina, preparou-se festa rija. Alguns dias depois os noivos partiram para a França. Apesar de agora, depois do vinte e cinco de Abril, em Portugal, finalmente, se viver em liberdade e democracia, entendia o Durvalino que a França era bem melhor. Além disso já lá tinha casa e o emprego esperava-o.

Quando se despediu do Santana, este bem lhe ripostou:

- Tiveste cá uma sorte! Mas a mim a deves. Eu é que fui acabar com aquela guerra maldita na Guiné.

E com os olhos repletos de lágrimas, solicitou à Albertina:

- Não se esqueçam de nós!

- Será sempre doce a lembrança dos amigos – concluiu, convictamente, o Durvalino, abraçando-os.

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publicado por picodavigia2 às 11:17





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