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MAS QUE GRANDE PESCARIA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Terça-feira, 10.12.13

Domingo, 14 de Julho de 1946

“Hoje é domingo e como manda a Santa Madre Igreja, não devemos trabalhar ao domingo. Se o fizermos e realizarmos trabalhos mais pesados, como aqueles que realizamos durante a semana, estamos a pecar. Mas há trabalhos e trabalhos. Há trabalhos leves que temos que fazer todos os dias, como tratar dos animais, levá-los às relvas e arranjar os alimentos de que necessitamos, com por exemplo ir à pesca. Pois como hoje era domingo e não é pecado pescar, lá fui eu e, confesso, que apanhei bastante peixe.

De manhã fui buscar as vacas à relva da Escada-Mar, tirei o leite e deitei-lhes comida, pois tinha muita erva e couves no palheiro. De seguida, fui à missa, almocei uma boa sopa de agrião com uma talhada de toucinho que fez a minha Maria e, de tarde, resolvi ir pescar. Eu não sou nem nunca fui pescador, nem nunca me afeiçoei muito ao mar, mas de vez em quando gosto de ir pescar sozinho e de pedra. Para além de apanhar algum peixe, um homem distrai-se, espraiceia, descansa, esquece as desgraças desta vida e alivia-se de problemas e consumições.

Hoje resolvi ir pescar às vejas. É uma pesca difícil e trabalhosa, para a qual é preciso ter muita paciência. Primeiro temos que calcorrear o Rolo, quase de uma ponta à outra e ir esgravatando ente as pedras para ir apanhando as mouras. Mas as malditas, para além de nos morderem, por vezes, fogem da gente como o diabo da cruz e escapolem pela borda do balde. Mas eu hoje não deixei que fugissem, pois levei uma meia velha, que a outra já estava toda rota e, logo que as apanhava, metia-as dentro da meia e dali não fugiam. Demorei um bom bocado de tempo até encher a meia. Depois fui buscar a cana e os preparos que deixara na minha lagoa da Ribeira das Casas, fui beber água fresquinha a uma nascente que lá existe, enchendo-a numa folha de inhame e vim para o Pesqueiro de Terra, que é bom sítio para vejas.

Primeiro comecei a engodar. Masquei umas mouras e lá as fui atirando esmagadas e desfeitas, para o mar. Não tardou muito e, como a água estava muito limpinha, comecei a vê-las por aqui e por acolá, umas vermelhas, outras cinzentas, a petiscar os pedaços das mouras que eu ia atirando para a água. Depois meti uma moura inteira no anzol e atirei-o para o mar, Ainda demorou um bocado mas lá começaram a picar, eu a puxar elas a picarem, até que finalmente lá veio a primeira, muito grande e vermelhinha, a saltar, a pular, como doida. Meti-lhe a navalha nos miolos e… zás. Quedou-se por completo e meti-a no balde. Era uma bela veja! Daí a pouco mais uma e outra, mais outra e, por fim, já eram tantas, que lhes perdi a conta. Pelo meio ainda vieram umas castanhetas e dois sargos.

Estava prestes a terminar a pesca, cuidando que já tinha peixe que chegasse, quando sinto um puxanço muito forte que parecia que me levava o caniço e tudo. Até cuidei que fosse um marracho. Mas puxei, puxei e… zumba! Pesquei um polvo enorme. Claro, como os polvos gostam de caranguejos, atirou-se à moura e o anzol ficou-lhe bem preso nas goelas. Virei-lhe logo o capucho, ele esperneou que se fartou, mas estava ali, lavadinho e pronto a ser guisado. Voltei para casa muito contente, com onze vejas, cinco castanhetas, dois sargos e um polvo Mas que grande pescaria!

A minha Maria cozinhou o polvo para o jantar. Estava uma delícia e, como não necessitava daquelas vejas todas, dei duas ao meu compadre Inácio, lasquei as outras e salguei-as para as por a secar ao Sol. Ficam que nem bacalhau! Amanhã vamos almoçar as castanhetas e os sargos. Afinal hoje ganhei bem o meu dia!”

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publicado por picodavigia2 às 14:12





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