Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A CANADA DO OUTEIRO GRANDE E DA PEDRA DE ÁGUA

Quarta-feira, 11.12.13

O caminho de acesso aos lugares do Outeiro Grande e da Pedra d’Água, a partir do cimo da Ladeira do Covão, era uma íngreme, sinuosa e estreita canada, pese embora todos os dias transitassem por ali um bom punhado de pessoas e muitos animais. Na realidade, após a Ladeira do Covão, também ela de tão inclinada que era, quase inacessível a carro de bois ou a corsão, tudo o que se acarretasse do Outeiro Grande e da Pedra d´Água para “a porta”, teria que ser, necessária e obrigatoriamente, transportado às costas dos humanos, pois nem sequer burro carregado com um molho, cesto ou saco de cada lado, ali conseguiria passar. E não era pouco o que aqueles lugares produziam. Para além de fetos e erva que abundavam por aqueles parramos, é verdade que da Pedra d’Água nada mais vinha mas o Outeiro Grande era fértil em lenha, incensos, batatas-doces e milho, embora muitas vezes, estes produtos, sobretudos se produzidos em maior quantidade, fossem transportados até à Cabaceira, através duma outra canada mais curta, sendo então, a partir daí transportados em carro ou corsão, até ao seu destino. Vida difícil, pois, a daqueles que tinham terras para aqueles lados.

A canada de acesso a dois dos mais emblemáticos lugares da Fajã Grande era constituída por uma série de pequenas voltas, rectilíneas e em ziguezague. A primeira, logo a seguir à ladeira do Covão, era a maior, a mais íngreme e a que tinha mais dificuldades em percorrer-se, sobretudo por parte das rezes que a subiam e desciam quase diariamente. Para além de ser muito inclinada, era, quase na totalidade, construída em degraus intercalados com pequenos troços rectilíneos mas onde abundava toda a espécie de pedregulhos e calhaus caídos das paredes circundantes e dos degraus mais altos. Construída através de um apertado rasgo nas fraldas do Outeiro, tinha a Sul altas paredes que a separavam dos terrenos de cultivo circundantes enquanto a Norte se encafuava “resminés” com os impenetráveis meandros do Outeiro, cheios de canas e silvados, por onde os bezerros vezes sem conta fugiam e se perdiam, sendo difícil, de seguida, dali retirá-los. O único senão deste trecho da canada do Outeiro Grande era o poder observar-se dali uma bela vista sobre a Fajã e sobre o mar, mas alheia aos que por aquele degredo passavam vergados ao peso dos carregamentos, evitando escorregar nos pedregulhos e a evadirem-se de “topadas” nos dedos dos pés descalços. Na segunda volta, a canada mudava de rumo e seguia na direcção sul. Era rectilínea, de piso areoso mas bastante acessível. Atravessava uma colina, rasgando-a de norte a sul. Era a parte de maior excelência e de melhor acessibilidade de todo aquele sórdido e inóspito percurso. De seguida, voltava a este, numa torso muito curto mas muito sinuoso, com degraus e pedregulhos soltos por tudo o que era sítio e ladeado por altas paredes de ambos os lados. E estávamos chegados à volta onde se situava o famigerado Calhau das Feiticeiras, um enorme tufo espetado ali no meio da canada, do lado este, bem cravado na rocha e cravejado de pequenos buracos, marcas deixadas pelos pés das ditas cujas que por ali desciam e subiam diariamente, ao anoitecer. Dizia-se que as malditas atiravam as almas penadas por ali abaixo e logo desciam, arrastando-as para cima para as atirarem novamente pelo calhau abaixo. Mais uma volta sinuosa e íngreme e estávamos na bifurcação final da canada: à esquerda virava-se para a Pedra d’Água, à direita seguia-se para o Outeiro Grande, num e noutro caso por veredas inconstantes, irregulares e de difícil acesso, embora, no caso do Outeiro Grande e porque o percurso era maior, se pudesse, por vezes e nalguns locais, atravessar relvas para encurtar caminho. Mas isto apenas quando se seguia sem animais ou sem cargas às costas e somente em duas relvas, uma do António Cardoso e outra de José Padre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 09:42





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Dezembro 2013

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031