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O CHARABÃ (VERSÃO ORIGINAL)

Quarta-feira, 11.12.13

A abertura do troço da estrada que liga a ladeira do Pessegueiro aos Terreiros foi de enorme alegria para os habitantes da Fajã Grande. É que não mais percorreriam a pé a difícil e íngreme caminhada até ao cimo da rocha da Fajãzinha, quer nos dias da chegada do Carvalho, quer noutros em que por diversas razões, mormente por doença, tinham que se deslocar a Santa Cruz ou às Lajes.

Foram anos e anos a calcorrear veredas, a subir escarpas, a transpor ribeiras e a saltar grotões, numa árdua e difícil maceração. O percurso iniciava-se no cimo da Assomada, seguindo-se depois pelo Caminho da Missa. Até à Eira da Quada o trajecto era fácil, mas a descida da ladeira do Biscoito consubstanciava um perigo permanente! Mais difícil ainda era a passagem da Ribeira Grande sobretudo depois da derrocada da ponte e em dias de grande caudal. Apesar de povoada de “passadeiras”, temiam-se escorregadelas fatídicas e saltos em falso sobretudo por parte de mulheres e crianças. Os próprios animais tinham muita dificuldade em atravessá-la e eram obrigados por vezes a lutar contra a força da corrente. A seguir a Fajãzinha, com paragem no Rossio para saborear a água fresca e límpida que ali corria em duas bicas, dia e noite. Aí o percurso estava facilitado. Por fim a parte mais temida e perigosa - a subida da Rocha dos Bredos.

Assim, toda a população da freguesia desejava ardentemente o fim de tão acerbo suplício. Por isso, a chegada dos empreiteiros e construtores do troço da nova estrada entre o Porto da Fajã e o Pessegueiro e, mais tarde, entre este e os Terreiros foi um desvairamento. Mas a obra demorou anos. Por um lado as limitações e insuficiências da maquinaria disponível, por outro, a dificuldade em abrir brechas naquele alcantil escarpado, abrupto e pétreo que era a rocha da Fajãzinha.

Ao fim de alguns anos, no entanto, para gáudio de todos, a obra concluiu-se e a nova estrada que ligava a Fajã aos Terreiros foi inaugurada.

Nos dias e meses que se seguiram, porém, o desânimo voltou. Afinal a estrada estava ali, lisa e plana que era um regalo, coberta de asfalto e bagacina, mas de pouco ou nada servia. É que não havia automóveis na Fajã e ninguém dispunha de arte ou engenho e muito menos de dinheiro para comprar um. Assim uma estrada, na opinião de muitos, tornava-se inútil, até porque fora interdito o uso dos velhos e tradicionais corções puxados por bovinos. É verdade que havia algumas camionetas de carga e outros veículos em Santa Cruz, mas eram poucos e vinham sempre cheios. Carros de Praça eram apenas três. Fretá-los só em caso de doença grave e nem era para todos.

Perante este imbróglio, o Venceslau pensou comprar um automóvel. Serviria a freguesia e valorizava o seu estatuto de comerciante. Porém, bem-feitas as contas, considerou de todo impossível. É que os lucros do botequim não davam para meia missa.

Mas o sonho do Venceslau, no entanto, não desvaneceu de todo. Quando o Fra-gueiro regressou do Faial, onde se fora operar ao estômago, segredou-lhe:

- Homem, na Horta a moda agora é comprar automóveis e os tipos estão a vender carroças, charabãs e até coches ao preço da chuva. Vendem-nos aparelhados com animais e tudo! Um charabã, aqui, é que dava... Já que não podes comprar um automóvel, compra um charabã. Eu não trouxe um porque, como sabes, não tenho dinheiro. O pouco que tinha ficou todo no Hospital e na Pensão. Agora tu… Bem podias aproveitar...

Como o Fragueiro era sensato e de confiança, o Venceslau aceitou de bom grado a sugestão. Nos dias seguintes não pensava em mais nada. A ideia parecia-lhe genial, embora sofresse grande contestação por parte da mulher. Mas como ele é que mandava lá em casa, no Carvalho seguinte partiu para o Faial.

O Charabã foi recebido com foguetes, filarmónica e sinos a repicar. Até padre Silvestre acedeu ao pedido da Bernarda e, juntando-se ao povo que se aglomerava à Praça, preparou-se para a bênção de estola, caldeirinha e hissope em riste. O reverendo, inicialmente, havia recusado o pedido da consorte do Venceslau, dado o seu habitual afastamento das cerimónias e celebrações litúrgicas, agravado, vezes sem conta, com o facto de ela manter o botequim aberto durante a missa e, ainda por cima, lhe roer na casaca de vez em quando. Mas decidiu-se pela bênção. É que sendo ele provavelmente um dos mais frequentes futuros utilizadores do charabã, um pouco de água benta e um bocado de latim dariam mais segurança às rédeas do Venceslau ao descer a rocha da Fajazinha ou a Ventosa.

Mal a carripana emergiu na primeira curva da Assomada, por ordem da Bernarda, os foguetes começaram a estralejar, a banda a tocar a Maria da Fonte, os sinos a repicar e o povo a dar uma enorme salva palmas.

O Venceslau saiu do assento do cocheiro em ombros. Nem a Bernarda, com saudades acumuladas de um mês, o pôde abraçar. O povo acotovelava-se para ver de perto a engenhoca que mudaria o seu destino, dificultando a acção litúrgica do padre, que a muito custo atirava para cima do veículo e dos animais água benta e salmos: -  “In êxitu Israel Egipto...”  Depois, fazendo uma cruz, retirou-se, enquanto todos lutavam por ver de perto e tocar a nova coqueluche dos transportes fajãgrandenses.

O charabã era um veículo grande, de quatro rodas com raios de ferro, sobre as quais assentava uma estrutura de madeira, à qual se prendiam quatro varões que sustentavam o tejadilho – um toldo de lona esverdeada, já muito desbotado pelo sol e pela chuva. Os assentos eram quatro bancos, dois laterais e outros dois transversais, um logo atrás do assento do cocheiro e outro na retaguarda. Puxavam-no três muares devidamente identificados: a Mulata à esquerda, a Moirata ao centro e o Lopes na direita.

O resto da tarde foi de regabofe no botequim onde a Bernarda, na ausência do Venceslau, pontificava. Uma viagem ao Porto para convidados e a garotada toda a correr atrás do charabã. Garrafas de anis, genebra e aguardente a abrirem-se, pirolitos e figos passados para a miudagem, enfim, uma comemoração de arromba. Depois, a Bernarda, transformando o balcão ainda sujo das bebidas em secretária, deu início às marcações com reservas e tudo. A primeira semana em poucos minutos esgotou. Um sucesso!

No dia seguinte às seis da manhã, o charabã partia na sua viagem inaugural. Os candidatos a passageiros eram muitos e excediam, de longe, a lotação. O Venceslau não quis ficar mal e, confiando excessivamente na força dos muares, acrescentou mais três bancos transversais, o que quase permitiu duplicar a lotação da carripana, enchendo-a como sardinha dentro de lata.

Envergando o chicote e sentando a seu lado a Bernarda, que decidiu fechar o botequim, já que não trocava aquela primeira viagem por nada deste mundo, o Venceslau deu o sinal de partida, proferindo a senha de ignição:

- Salta mula lá p’ra diante mula!...

E batendo ao de leve nos três muares, iniciou o périplo, com dezenas de mirones a ver aquela primeira partida, apesar de a manhã ainda não se ter clarificado de todo.

Até à rocha da Fajãzinha a viagem correu muito bem, pese embora os animais começassem a suar e a escumar em demasia. Ainda a rocha não ia a meio e a Mulata, depois de levar uma valente chicotada, porque começava a atrasar-se, ajoujou-se, perante um grito de susto e de espanto da comitiva. O Venceslau, querendo mostrar a força e valentia da mula, ferrou-lhe nova chicotada, mas com tal força que a pobre, muito a custo lá se levantou. Mas pouco depois, quase desfalecida, voltava a ajoujar-se por completo, arrastando consigo a Moirata.

O Venceslau ficou lívido ferrando nova e mais pesada tareia nas mulas indefesas.

Tal violência provocou grande contestação entre os passageiros. Alguns apiedando-se dos animais desceram do veículo, caminhando a pé. Dois homens vieram levantar as mulas, comprometendo-se a empurrar o charabã, se necessário, até ao cimo da rocha.

Ao chegar aos Terreiros, como a estrada fosse plana e a Mulata e a Moirata já estivessem mais descansadas, o Venceslau deu ordens para que todos subissem. A viagem correu normalmente até à Casa do Estado.

Aí procedeu-se a uma paragem devidamente programada. Era metade do caminho entre a Fajã e Santa Cruz. Pessoas e animais deviam abastecer-se e descansar por alguns minutos. Pouco depois reiniciou-se a viagem, que continuou calma e tranquila, apesar de lenta, até ao alto da Ventosa. Aí o coração do Venceslau deu um pulo. Não se contendo, segredou para a Bernarda:

- Isto agora é canja! É sempre a descer até Santa Cruz. Vamos andar depressa porque temos que recuperar o tempo perdido.

Os detrás bem gritavam:

- Vai devagar, Venceslau, que as mulas não aguentam!

Mas ele nem lhes dava ouvidos.

De repente, ao rodar uma curva junto à relva do Mantes, a Mulata, sem que ninguém o esperasse, ajoujou-se de novo e caiu, arrastando desta feita a Moirata, o Lopes, o charabã e todos os seus ocupantes. É que com o balanço a viatura desprendeu-se dos temões e amarras que a prendiam aos muares, rolou pela borda da estrada e, dando duas cambalhotas, foi parar à relva assustando umas vacas que ali pastavam mansamente.

O pânico foi geral entre os acidentados. Os feridos foram poucos e os achaques leves. Para além do susto, apenas umas arranhadelas e algumas mâmulas. O charabã ficou completamente desfeito.

Uma camioneta de carga que passou, horas depois, com alguns trabalhadores, recolheu os sinistrados e trouxe-os de regresso à Fajã, perante protestos e lamentações, enquanto a Bernarda não cessava de atirar culpas ao Venceslau, que maldizia a sua sorte.

O charabã ficou a apodrecer por ali. A Moirata e o Lopes foram vendidos para as Lajes. A Mulata de tão velha e fraca que era, ninguém a quis comparar. Morreu pouco depois. O Venceslau e a Bernarda venderam o botequim e partiram para a América.

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publicado por picodavigia2 às 10:06





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