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A LUZ À GENTE

Quarta-feira, 11.12.13

Na Fajã Grande, antes da compra da Filarmónica “Nossa Senhora da Saúde”, no início dos anos cinquenta, todas as procissões que se realizavam nos dias festivos, com excepção da festa da Senhora da Saúde, para a qual era sempre convidada uma filarmónica doutra freguesia, eram acompanhadas de cânticos alternados com a reza do Terço ou com o repicar dos sinos. Assim acontecia nas festas de São José, da Senhora do Rosário, do Senhor dos Passos, de Santa Filomena e em muitas outras. Assim acontecia também na procissão da Senhora do Carmo, venerada como padroeira da igreja da Ponta.

Durante esta última procissão, num dos anos do início da década de cinquenta, decidiu o pároco introduzir alguns cânticos novos, na altura, tão em moda no Santuário de Fátima, até porque se tratava de uma festa que também se destinava a venerar a Mãe de Deus, embora sob outra invocação. Entre os cânticos importados do vasto reportório daquele Santuário Mariano, o reverendo decidiu-se por escolher e cantar o “Sobre os ramos da azinheira”. O povo pouco conhecedor daquelas modernices e mais habituado ao “Queremos Deus” e ao “Hóstia Santa”, teve algumas dificuldades em acompanhar a pedalada do pároco, mas lá ia cantando como podia e sabia, não sem atraiçoar, por vezes atroz e drasticamente, uma boa parte da mensagem textual dos versos em causa. Muito a custo lá ia acompanhando o prebendado, cantando um pouco desafinado: “Sobre os ramos da azinheira/Tu vieste, ó Mãe clemente/Visitar… “ e era aqui que começava o imbróglio.

O Antoniquinho, segurando uma vara do pálio que cobria o reverendo transportando o Santo Lenho, com a sua voz esganiçada, bem cantava: “Visitaaaaar a luz à gente…” O pároco logo o corrigia, em voz baixa, uma, duas, três vezes: - Ó paspalho, não é “a luz à gente”, mas “a lusa ” e insistia “Visitar a lusa.”

O Antoniquinho, no entanto, maneando a cabeça em sinal de rejeição, não lhe dava ouvidos e permanecia na sua: “Visitar a luz à gente/ Ó de quem és a padroeira.” Versos que, em sua opinião, caíam como mel na sopa, pois Nossa Senhora do Carmo, a padroeira da Ponta, era uma verdadeira luz que iluminava os caminhos de todos aqueles que imploravam a sua protecção e, sobretudo, dos que vestiam o seu hábito ou usavam o seu escapulário. E quando a procissão terminou, muito senhor de si, bem comentava para um e outro lado:

- Ó home essa! O Sinhô Pade parece qu’está mesme tole! Antão Nossa Sinhora de Fátima nan veie trazer a luz ao munde tode? E ui pastorinhos nan virim ua luz vinda do céu? E o Sinhô Pade a teimá, a teimá que Nossa Sinhora só tinha vinde vsitá ua tal Lusa, qu’ei até nim sei qu’inhé, nim nunca oivi falá.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:31





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