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TI MALVINA

Quinta-feira, 12.12.13

Francisco Fagundes da Silveira, mais conhecido popularmente na Fajã Grande por “Ti Malvina”, nasceu no longínquo ano de 1892, no condado de Siskiyou, no norte da Califórnia, um dos maiores condados daquele estado norte-americano mas, naquela altura, um dos mais pequenos em população. Fundado em 1858, o condado de Siskiyou já na altura fazia jus de grande prosperidade. Tinha fronteira a norte com o estado do Origan, a leste com o Condado de Del Norte, a Sul com o Trinity e o Shasta e a Oeste com o Modos. Aí nasceu Francisco e uma irmã mais nova, chamada Maria do Céu, esta em 1895. Foram seus pais José Fagundes da Silveira e Maria da Conceição Henriques, casados na Fajã Grande em 1880, pouco tempo depois de José regressar da sua primeira estadia na Califórnia. Desse casamento resultaram cinco filhos, tendo os três mais velhos nascido na Fajã Grande, um dos quais foi meu avô materno. Descontente com a vida precária da ilha e sonhando com algo de melhor para os filhos, José resolveu regressar novamente à Califórnia, juntamente com a mulher grávida de algumas semanas e os filhos ainda pequeninos. Nesta segunda viagem dirigiu-se para o norte e foi nessa altura que se fixou no novo e promissor condado de Siskiyou, onde comprou terras e gado e onde nasceram os dois filhos mais novos deste seu primeiro casamento. Alguns anos mais tarde e devido à doença da esposa, José regressou aos Açores juntamente com a família, incluindo o jovem Francisco, que anos mais tarde casou com Malvina da Silveira, razão porque veio a granjear o epíteto de “Francisco Malvina”, por abreviação de “Francisco da Malvina” e nos últimos anos de vida simplesmente “Ti Malvina”. Curiosamente quase todos os seus filhos, Maria, Lídia, José. Minerva, João Floripes e Teresinha, haviam também de adoptar o apelido de “Malvina”

Rezam as crónicas que Francisco era um homem muito inteligente, com uma memória fabulosa, com grande capacidade de aprendizagem e uma vontade enorme de saber e conhecer. Por isso lia, estudava, investigava e sabia. Era considerado o homem mais sábio da Fajã Grande. Um dos mais notáveis episódios em que Ti Malvina revelou a sua sabedoria e o seu profundo conhecimento, superando o pároco, os professores e o médico, foi o da Aurora Boreal, estranho fenómeno que aterrorizou toda a população da Fajã Grande e que durante anos e anos persistiu na memória de quantos o presenciaram. A Aurora Boreal terá aparecido, na Fajã Grande, ao fim da tarde de um dia de Verão, nos finais dos anos trinta ou início dos anos quarenta e assustou de maneira assombrosa toda a população da freguesia que considerava aquele fenómeno como sobrenatural, cuidando que era um sinal divino, a anunciar que chegara o fim do Mundo e o Juízo Final. Foi Ti Malvina que se insurgiu contra a sobrenaturalidade de um fenómeno do qual tinha a certeza e sabia que era perfeitamente natural, embora pouco vulgar naquelas paragens do globo terrestre e que não traria rigorosamente nenhum mal a quem quer que fosse, nem muito menos seria o fim do mundo ou o fim ou princípio de outra coisa qualquer, pois era simplesmente uma Aurora Boreal. O povo rejeitou radicalmente as informações e os conhecimentos de Ti’Malvina, considerando-o um herege e um ateu.

Outro facto que revela a sabedoria, o conhecimento e sagacidade de pensamento de Ti Malvina, foi o de ele, nas primeiras décadas do século XX, sentado numa simples cadeira da sua rústica cozinha, ter previsto que um dia o mundo “havia de nos entrar pela casa dentro, através duma pequena janela”, imaginando assim o que mais tarde veio a acontecer: a invenção da televisão.

Para além de sábio, Ti Malvina também era uma pessoa dotada para a realização de todos os tipos de actividades e experiências relacionadas com o universo. Ti Malvina explicava os eclipses, as fases da lua, a esfericidade da terra e conhecia muitos postulados científicos.

Francisco Fagundes da Silveira, um homem que se tivesse tido a oportunidade de ter estudado e frequentado universidades portuguesas, europeias ou americanas, muito provavelmente teria inscrito o seu nome entre a plêiade de cientistas portugueses e estaria entre os grandes vultos da história da cultura açoriana.

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publicado por picodavigia2 às 10:42





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