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A ILHA DAS FLORES (DIÁRIO DE TIO ANTONHO)

Quinta-feira, 12.12.13

Terça-Feira, 23 de Julho de 1946

 

“Para aqueles que a não conhecem eu, hoje gostava de falar sobre a ilha das Flores, nos Açores, pois é a ilha onde eu nasci, onde fui criado e onde estou a viver desde que voltei das Américas. É uma ilha pequenina e distante das outras ilhas dos Açores, excepto do Corvo que fica aqui mesmo ao lado. É uma ilha onde existe muita verduras e está sempre coberta de flores e onde muitas ribeiras correm com as suas águas transparentes e cristalinas e os montes e os picos estão, continuamente, cobertos não apenas de ervas, musgos e arbustos mas também de muitas árvores frondosas, muitas delas cheias de frutos adocicados e apetecíveis. Uma ilha que o mar acaricia suavemente em cada dia e em cada hora e onde as manhãs nascem claras mas repleta de incertezas, de insegurança e de falta de tudo e onde, à tarde, o Sol se torna amarelado e pardacento e se esconde no horizonte infinito. As Flores é uma ilha onde o mar como que desafia o destino desta gente e deste povo e onde as tempestades se sobrepõem à bonança. No Inverno, o vento, misturado com relâmpagos e trovões, ruge feroz e assustadoramente, tornando-a mais pequenina, mais distante, mais só e cada vez mais pardacenta e escura. Por vezes, até temos medo do Inverno. Mas no Verão, o vento como que se veste de púrpura e sopra, mas levemente e como que embalando uma brisa doce e suave. E a ilha pequenina, distante mas coberta de flores veste-se de claridade e de esperança. O Sol desce alegremente sobre os casebres, pinta os campos de um verde amarelado e amadurece os milhos semeados nas belgas mais soalheiras e nos campos mais férteis. E à noitinha, nesta ilha pequenina e distante mas coberta de flores, nas torres das igrejas, ouve-se o toque das trindades. Os homens com as mãos calejadas e os ombros doloridos, regressam dos matos carregados com latas de leite, suspensas em troncos de araçá, tapadas com ramos de queirós, tiram, solenemente, o boné e simulam breves orações. As mulheres, robustas e mal vestidas, cansadas dos trabalhos dos campos, recolhem-se às suas casa, com molhos de lenha ou de couves à cabeça, acompanhadas de garotos descalços, com ranho a escorrer-lhes pelo nariz, agarrados aos saiotes das mães. As velhinhas, viúvas, vestidas de negro e lenço a tapar-lhe a cara, sentadas às janelas de suas casas, por de trás das cortinas de pano esbranquiçado, esbagoam as contas do rosário, bichanando Padre Nossos e Avé Marias

Pois esta é que é a ilha onde eu nasci, onde vivo e que se chama ilha das Flores.”

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publicado por picodavigia2 às 11:21





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