Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



BATOTA ELEITORAL

Quinta-feira, 12.12.13

Ele era o terror dos recreios, das aulas, da cantina e até das casas de banho. Nos recreios era cacetada velha em tudo o que lhe surgisse pela frente e, se apanhasse a mochila de um colega perdida por aqui ou por além, eram pontapés certeiros, furibundos e enraivecidos até que, ou a destruísse por completo, ou se aproximasse um funcionário que ameaçasse levá-lo ao Conselho Directivo. E o funcionário não havia de livrar-se de um bom chorrilho de ameaças e insultos. Equipa de futebol onde ele decidisse jogar não encontraria adversário, e os que haviam tido a ousadia de defrontá-lo, desportivamente, bem marcados haviam ficado, com negras, feridas e mamulos. As pernas num Cristo. Na cantina não havia dia em que o Senhor Garcia – o único funcionário da escola que temia – não fosse chamado. Ameaças, apertões nos braços, puxões de orelhas. Era o Senhor Garcia a virar as costas e ele a reforçar a dose.

Mas o pior era nas aulas. Não tanto porque as atrocidades desancadas sobre os colegas fossem mais demolidoras mas, sobretudo, pelo mau ambiente que se criava e pelos actos de indisciplina que protagonizava e que cerceavam aprendizagens e obstruíam a concretização dos trabalhos propostos pelos professores. Uma tragédia! Queixavam-se, em vão, os professores, aborreciam-se, sem proveito, os colegas e reclamavam, sem sucesso, os pais.

Um dia faltou a uma das minhas aulas. Os colegas respiraram de alívio e a maioria desejou que aquele dia se perpetuasse indefinidamente. A calma e a tranquilidade momentaneamente reinantes, levaram, no entanto, a que se abordasse o assunto. Revoltaram-se, ripostaram, reclamaram e, sobretudo, apresentaram diversíssimas propostas para a solução do problema. Foi então que o Delegado de Turma, eleito democraticamente no início do ano lectivo, propôs:

- Setor, se lhe déssemos responsabilidades, se ele se empenhasse a sério em alguma coisa, por exemplo, se fosse ele o Delegado de Turma... Havia de mudar, não havia?

Achei a ideia muito interessante, digna e plausível. Discutiu-se bastante. Muitos, inicialmente, contestaram a proposta, mas verdade é que esta cresceu, tomou corpo e acabou tendo o apoio, mais ou menos explícito, de toda a turma. Ele, o Delegado de Turma, eleito com maioria absoluta de votos, amado e apoiado por todos, sempre atencioso, sempre disponível, sempre solícito, sempre respeitado e querido de todos, na presença dele, na próxima aula, pediria a sua demissão, abdicaria do cargo, proceder-se-ia a um outro acto eleitoral e a turma votaria, massivamente, no terrorista, com o objectivo único de o amansar.

Se bem o pensaram melhor o fizeram. Uns a muito custo, outros com má vontade, alguns com remorsos, um ou outro engolindo em seco, mas todos, mesmo todos, votaram nele que, boquiaberto, incrédulo, pasmado, com cara de parvo, olhava para todos os lados como se afinal fosse ele a ter medo deles.

- Setor, tenho mesmo que aceitar? – Perguntou a medo.

Que sim, que era a vontade de toda a turma, que a partir de agora seria ele o Delegado de Turma, o representante os seus colegas, seria ele a responsabilizar-se por eles, a realizar algumas tarefas em nome deles e, sobretudo, a ajudá-los em tudo o que eles necessitassem.

Inconsistente nos primeiros dias, entorpecido em inéditos comportamentos, fragilizado na sua contumácia, aos poucos foi-se moldando e era vê-lo, para espanto e admiração de todos a mandar, a solicitar, a pedir, a aconselhar, a serenar os ânimos, a comprometer-se com exigências e a empenhar-se em tarefas.

- Milagre! – Diziam os mais inocentes.

– Milagre da batota eleitoral… - Retorquiam os mais astutos, piscando-me o olho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 16:14





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Dezembro 2013

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031