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MASCARADOS

Quinta-feira, 12.12.13

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, nas semanas que antecediam o Carnaval, quase todos os dias à noite, mas sobretudo e com maior profusão aos sábados e domingos, as ruas da freguesia enchiam-se de grupos de mascarados que visitavam a maioria das casas, ou melhor a maioria daquelas donde emanava por entre os cortinados das janelas da sala uma nesga de luz baça, ténue, proveniente de um candeeiro a petróleo ou duma candeia, a anunciar que ali se seroava.

Devidamente fantasiados com as roupas mais extravagantes e inéditas possíveis a cobrir-lhes o corpo da ponta dos pés ao cocuruto da cabeça, com excepção da cara que era tapada com uma máscara, os mascarados deambulavam pelas ruas escuras e sinuosas até entrarem nas lojas que estavam abertas ou nas casas que lhes abriam a porta. Para que ninguém os identificasse, ou para que até os mais perspicazes demorassem a acertar-lhes o nome, os mascarados vestiam uns trapinhos velhos e pouco costumeiros, há muito não usados por eles ou por quem quer que fosse da família ou até umas roupitas novas a cheirar à América, acabadinhas de chegar numa encomenda vinda da Califórnia e ainda não estreadas. As máscaras, por sua vez, eram compradas nas lojas, mas muito às escondidas, para que dificultasse a identificação ou, nalguns casos, feitas pelo próprio ou por algum familiar, recorrendo geralmente a uma caixa de sapatos de papelão bem grosso. Poupava-se dinheiro e facilitava-se a disfarce.

Os mascarados tinham objectivos muito claros e consuetudinariamente bem definidos: gostavam de ser vistos pelo maior número de pessoas possível, investiam seriamente no seu disfarce a fim de que a sua identificação demorasse a maior quantidade de tempo possível, adoravam fazer palhaçadas, brincadeiras jocosas e pregar partidas e, sobretudo, apostavam em meter medo aos mais pequenos. Se soubessem que um garotelho qualquer tinha medo, então é que nunca mais o largavam.

Confesso que entre os pequerruchos da minha idade eu era dos que tinha mais medo. Se os mascarados entrassem em minha casa ou na da minha avó e eu lá estivesse, escondia-me e trancava-se a sete chaves num buraco qualquer ou em lugar que ninguém me visse. Nessas noites sair de casa, mesmo que fosse apenas da minha para a da minha avó, sozinho, nem pensar. Só o faria se acompanhado com um adulto da minha confiança e que me garantisse protecção e amparo. Aquelas máscaras disformes, tétricas, macabras e, por vezes, cadavéricas metiam um medo terrível. Além disso, haviam de atacar sempre as podres crianças indefesas e amedrontadas…

Muitas portas não se abriam aos mascarados. Aquelas que o faziam, no entanto, ao ouvirem bater à porta e antes de se abrirem, perguntavam de dentro: “Quem é?” E eles cá de fora com aquela voz muito rouca e disfarçada, simulando eco: Mascaraaaados”. Só então a porta se abria, mas mesmo assim todos eles, antes de entrarem teriam que se identificar em segredo, apenas ao dono da casa, prometendo também que, terminada a visita, todos tirariam a máscara. Ia lá entrar-nos a dentro de portas alguém desconhecido!? Havia de se meter pela casa dentro um inimigo ou algum meliante que andasse a cobiçar e a seduzir as filhas!?

Durante a visita tentava-se adivinhar quem se encobriria em tão estranhos disfarces. Era o adivinhas! “Quem será? Quem não será? Conheço-lhe as mãos! Pelo andar deve ser fulano! Pelos trejeitos deve ser sicrano!” E assim se passavam alguns momentos divertidos, com eles a disfarçarem atitudes e palavras, a fazer palhaçadas e a meterem com as raparigas e com os medrosos e os da casa a tentarem descobrir-lhes a identidade.

 No fim todos tiravam a máscara e muitas vezes havia grandes surpresas.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:45





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