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CINCO ESTRELAS

Sexta-feira, 13.12.13

Álvaro levantou-se cedo, muito cedo. Ainda a noite não se havia dissipado por entre as brisas matinais. Era dia de matança do porco!

O pai, nos dias anteriores, perante um chorrilho contínuo de pedidos e uma série infinita de promessas do petiz, acabara por ceder e havia-lhe jurado que “sim senhor!”. “Ele já era um homenzinho e, pela primeira vez, ia ajudar na matança como se fosse um homem.” Na véspera, custara-lhe a adormecer e já se via enterrado na lama do curral, a puxar a corda e a arrastar o suíno pelo portal, a empurrá-lo para cima da mesa e a segurar-lhe uma perna suja e fedorenta, enquanto o tio Luís lhe metia a faca, abrindo-lhe um enorme e profundo buraco no pescoço do qual jorrava grande quantidade de sangue, muito vermelho e fumegante. Depois era um mar de labaredas, atiçadas por ramos de queirós muito secas e estaladiças, a queimar o pelo asqueroso e áspero do cevado! Ondas de chamusco propagavam-se nos ares, desmudando e peçonhentando a pureza ingénua e fresca da brisa matinal.

Até então, para ele, ali debaixo daquelas rochas, isolado numa ilha e, somente, com o mar a indicar-lhe um horizonte deserto e indefinido, o dia da matança era de medo, de receio, de consumição e, até por vezes, de choro. Assustava-se com o grunhir do suíno, chorava quando lhe metiam a faca, tapava os ouvidos para não ouvir os seus gritos agonizantes e temia as enormes labaredas das queirós incendiadas com pingos de petróleo durante o chamusco. Mas este ano tudo havia de ser diferente, pois já sabia muito bem que para comer um pedaço de linguiça com uma fatia de pão de milho, para trincar um torresmo com uma talhada de inhame, ou simplesmente para se deliciar com uma “niquinha” de toucinho na sopa de agrião, era necessária a imolação do cevado.

Entrou na cozinha fria, esconsa, mal iluminada, a cheirar a rama de cebola, a temperos e a vinha-d’alhos, passou umas gotas de água salobra que restava no lava mãos pela cara e saiu a correr para junto do curral, onde o pai e os outros homens já se afanavam nos preparativos para uma caça rápida e eficiente do porco. O bicho era malino e se, eventualmente, se escondesse no chiqueiro, nem o diabo de lá o tirava. Os homens, porém, já o haviam enganado com comida, tapando a porta com uma prancha de madeira, atirada de cima do pátio. Decerto que o malvado não havia de refugiar-se ali durante a luta titânica que se adivinhava. Mas agarrá-lo, prendê-lo, definitivamente, com uma corda, assapá-lo sobre a mesa, lavar-lhe o pescoço e enfiar-lhe a faca no cachaço seria cabo dos trabalhos.

Quando Álvaro se aproximou da cerca os homens haviam suspendido as hostilidades, dando alguns momentos de tréguas ao inimigo, aproveitando-as para passar de mão em mão uma garrafa de Cinco Estrelas, que os ia tonificando, amaciando, deleitando e aquecendo do frio da madrugada.

Álvaro aproximou-se do tio Luís, escalonado para matador, e segredou-lhe com ar ingénuo, aureolado de simplicidade:

- Ó tio, este ano, eu vou ajudá-lo a amarrar o porco e a aguentá-lo, enquanto o tio lhe mete a faca.

- Ai vais! – Exclamou o tio com um misto de gozo e espanto. – Claro! Já és um homenzinho! Pois bem, para o fazeres terás que tomar isto. – E enchendo um cálice com o que sobrava da Cinco Estrelas, passou-lho para as mãos.

Perante a hesitação do garoto, enquanto os outros homens se imiscuíam na espinhosa azáfama de caçar o suíno, insistiu:

- Bebe, bebe. Se não beberes não podes sequer tocar no porco.

Álvaro não hesitou mais. O sacrifício que lhe era exigido até nem seria muito grande. Aguardente devia ser uma coisa boa, porque era muito cara e só se bebia naqueles dias. Por isso, de imediato, pegou no cálice e, de um fôlego, enfiou o precioso líquido pelas goelas abaixo.

Foi tiro e queda! As pernas começarem a tremer-lhe e, à sua volta, tudo circulava e se envolvia numa espécie de neblina cinzenta. Sem demoras, estatelou-se definitivamente no chão. Foi o tio Luís, perante os protestos de recriminações dos outros, especialmente das mulheres, que o levantou e levou em braços para a cama da sala, aconchegando-o entre cobertores e almofadas.

Quando acordou a caçoila já havia esfriado, as morcelas já ferviam no caldeirão, o porco, pendurado na loja, aguardava que o “picassem” e até o irmão mais velho já lhe havia rebentado a bexiga.

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publicado por picodavigia2 às 00:14





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