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NA FLOR DAIDADE

Sexta-feira, 13.12.13

Na Fajã Grande, na década de cinquenta e nas anteriores, as condições de vida da população não eram as melhores.  Pelo contrário, eram bastante limitadas. Por um lado, uma alimentação desequilibrada, pouco variada e condicionado por aquilo que se possuía e pelo que as terras produziam e, por outro, pelo trabalho duro, cansativo, demolidor, excessivo e fatigante, agravado por limitadas condições de higiene e de saúde e pela falta, total e absoluta, de apoio e acompanhamento médico.

Embora não havendo nenhum estudo rigoroso feito sobre o tema, sabe-se que a taxa de mortalidade, naquela altura, era muito alta e atingia pessoas de todas as classes etárias: crianças, jovens, adultos e idosos.

Os idosos eram, obviamente, o grupo etário mais atingido, com a agravante de a esperança média de vida ser muito baixa, sobretudo no que aos homens dizia respeito. Na realidade, na década de cinquenta, o número de mulheres viúvas existente na Fajã Grande, era bastante elevado, tendo a viuvez feminina adquirido uma espécie de “estatuto” próprio e autónomo, conquistado pela mulher, o que se evidenciava pelo facto das viúvas serem tratadas, mesmo oficialmente, não pelo seu próprio nome, mas por “a viúva de fulano de tal”. Por sua vez, as crianças, sobretudo as recém-nascidas, eram outro grupo etário no qual a mortalidade também era bastante alta. Mas, lamentavelmente, também faleciam, inesperadamente, adultos e jovens, nomeadamente raparigas, embora em ambas estas faixas etárias a mortalidade, na Fajã Grande, fosse bastante mais reduzida.

Foi precisamente, na década de cinquenta, que se verificaram, na Fajã Grande, três mortes inesperadas que deixaram toda a freguesia numa trágica, medonha e hedionda dor: a Joana de Ti Britsa, a Lucília do António Maria e a Clara do Mateus Felizardo, sendo que as duas primeiras eram primas da minha mãe, enquanto o pai da Clara era um dos grandes amigos do meu.

A Joana, filha de Ti António Britsa, morava com os pais na penúltima casa da Fontinha, mesmo ali ao lado do segundo chafariz. Era uma menina duma ternura imensa, duma bondade imensurável e duma generosidade excessiva, creio mesmo que até se notabilizou pela sua actividade como catequista. Cabelos compridos e sedosos, óculos a ensombrar-lhe o rosto tristonho, muito de casa, muito frágil, muito educada e muito sorridente. Para além dos pais deixou imersos em dor e amarrados à saudade dois irmãos, quatro irmãs, muitos parentes e muitas amigas.

A Lucília, creio que era este o seu nome, filha de António Maria, pelo contrário, morava nas primeiras casas da Via de Água, mesmo ali à boca da Tronqueira, à esquerda de quem descia aquela artéria. Era uma menina muito alegre e generosa, dedicada a tudo e a todos, sempre disposta a participar em festas e jogos. Morena, cabelos muito negros, um sorriso contagiante a efluir-lhe permanentemente do rosto. Ficaram a chorá-la, a envolver-se na saudade e recordar, para sempre, a sua memória os seus pais, um irmão, os parentes e muitas jovens da sua idade.

A Clara do Mateus Felizardo que morava na rua Direita, numa casa mesmo em frente à igreja paroquial, era destas três desditosas jovens, aquela cuja idade se aproximava mais da minha e, consequentemente, a que melhor recordo. Muito branca de rosto, olhos claros, cabelos loiros e encaracolados, postava-se à janela da sua casa, sempre sorridente, sempre conversadora, sempre amiga e sempre generosa, num salutar contubérnio com todos os que por ali passavam. O seu rosto, meigo e sereno, emanava uma blandícia sublime, uma ternura indelével e uma meiguice inquestionável. Deixou na maior dor e sofrimento, para além dos seus pais, três irmãs e um irmão, muitos parentes e também muitas amigas.

Joana, Lucília e Clara três jovens alegres, generosas, a sonharem com o futuro, com a felicidade e que a morte, fatídica e cruel, inexplicavelmente, levou, como se dizia na altura, “na flor da idade”, deixando na maior dor e numa saudade eterna e infinita os seus familiares, os seus amigos e toda a população da Fajã Grande.

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publicado por picodavigia2 às 11:45





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