Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



MEIO DIA NA GRACIOSA

Sexta-feira, 13.12.13

Antigamente, na Fajã Grande, quando se ouvia um burro zurrar dizia-se que era “meio-dia” na Graciosa. A razão desta estranha e inédita metáfora era simples. É que na ilha Graciosa, ou ilha Branca como, por vezes, actualmente, é designada, existiam muitos burros, contrariamente à ilha das Flores e mais concretamente à Fajã Grande, onde, na altura, os asininos rareavam.

Na realidade, a ilha Graciosa era identificada, nesses tempos, como a ilha açoriana dos burros assim como Santa Maria era a ilha dos “cagarros”, enquanto São Miguel era a dos “coriscos mal amanhados” e a Terceira a dos “rabos tortos”. De facto aquela ilha ainda hoje reivindica para si, quer o título de “capital” açoriana dos asininos, quer o estatuto de possuir uma população de burros, para além de grande, única, invulgar e especial, pois o burro da ilha Graciosa apresenta como característica original a sua altura reduzida. São burros de pequena estatura mas, segundo rezam as crónicas, nem por isso mais frágeis ou menos fortes do que os das restantes ilhas, mais altos e mais corpulentos.

Curiosamente, o burro, assim como outros animais, nos Açores, sempre teve algumas superstições a si associadas. Antigamente contavam-se algumas “estórias” onde se desenrolavam acontecimentos mirabolantes relacionados com o burro, como, por exemplo, o do seu excremento se transformar, misteriosamente, em oiro. Também se contavam outras “estórias” em que intervinham feiticeiras e onde acontecia precisamente ao contrário, ou seja, eram os cereais ou outros produtos que se tornavam em excrementos de burro. Nalgumas ilhas acreditava-se que posta no alto de um pau, fora da porta de casa, a caveira de um burro afugentava os espíritos maus, enquanto noutras se cuidava que soprando com um canudo de cana no dito cujo de um burro morto, ele ressuscitava. Também era opinião generalizada de que o leite de burra dava muita força, sobretudo às parturientes. Alguns provérbios populares, embora não estritamente açorianos, também lembram estas superstições, como por exemplo: “A burro morto, cevada ao rabo.” ou “Vozes de burro não chegam ao céu.” Por isso não era de se estranhar que na Fajã Grande também houvesse este estranho hábito de se identificar o zurrar de um burro como o indicador do meio-dia na ilha Graciosa, enquanto em toda a ilha das Flores era assinalado com cinco badaladas no sino, sendo as três primeiras mais espaçadas e as duas últimas seguidas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 21:58





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Dezembro 2013

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031