Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



OS PENDURICALHOS DAS MOSCAS

Sábado, 14.12.13

A chamada mosca doméstica comum constituía um dos maiores flagelos das pessoas e das habitações na Fajã Grande, nos anos cinquenta. Terra de muito calor, onde se criava grande quantidade de gado bovino, com a agravante de este ser guardado no rés-do-chão ou loja das moradias, todas as casas da Fajã eram, sobretudo no Verão, continua e permanentemente invadidas massivamente por aquele, sujo, nojento, irritável, hediondo e incomodativo insecto. Este ataque contínuo e permanente a casas e pessoas era ainda agravado com a presença das retretes e dos currais do porco, autênticos e naturais viveiros de larvas, muito propícios ao desenvolvimento das ditas cujas, sempre atentas e sempres dispostas a que, quando abríssemos uma nesga que fosse da porta da cozinha, se enfiassem casa dentro a partilhar os nossos alimentos, a pousar-nos no rosto e a encher tudo com caganitas. Mesmo as casas que não possuíam ou não tinham anexs palheiros de vacas, retretes ou currais de porco, o gado passava pelas ruas, em frente das portas e, por isso, nem sequer essas ficavam imunes a tais invasões, porquanto as malditas para ali se deslocavam procurando habitat mais adequado e menos concorrido.

Embora existissem outros insectos acomodados confortavelmente nas nossas casas, também a incomodarem-nos, a sujarem-nos os alimentos, a meterem-se em tudo e a importunarem-nos continuamente, as moscas eram as rainhas do incómodo, da sujidade, do nojo e da porcaria. Simplesmente um horror! Além disso era opinião unânime entre o povo de que, para além do mal-estar que causavam, as moscas eram portadoras de inúmeros micróbios e difundiam diversas doenças potencialmente mortíferas, entre as quais a febre tifóide, a salmonela, a tuberculose, a conjuntivite e até a lepra e a cólera. O contacto daquele hediondo insecto com as pessoas também lhes poderia transmitir vermes intestinais e a bactéria responsável pela disenteria, uma vez que se alimentavam com fezes e excrementos e se reproduzem entre lixo e resíduos de animais apodrecidos. Ora acontecia que, depois de estarem poisadas em toda esta e muita outra porcaria, as moscas voavam para dentro das nossas casas e pousavam na loiça, na comida, nas crianças, no nosso corpo e nos nossos objectos pessoais.

Por tudo isso uma das tarefas quotidianas a que ninguém se podia esquivar era a de livrar-se daquelas malditas. Redes nas portas, cortinados nas janelas, pazinhas para as matar, pauladas para as afugentar, panos para as enxotar pela porta fora, uma vez que o “Dum Dum”, a bomba atómica do insecticida, apenas, chegou à Fajã alguns anos mais tarde. Mas tudo isto era pouco e, por vezes, ineficaz. Além disso exigia uma permanente atenção das pessoas que, enquanto se dedicavam à matança das ditas cujas, não podiam fazer mais nada. Por isso surgiram os célebres penduricalhos feitos de papel, que eram pendurados no meio do tecto de cada divisão da casa. Eram artefactos, construídos pelas mulheres com uma arte e sabedoria muito interessantes. Os penduricalhos eram espécies de rectângulos de papel colorido, resultantes da dobragem das folhas que eram recortadas ou picotadas com uma tesoura de formas e com cortes diversificados. Depois de aberta, cada folha adquiria a forma de um rectângulo, ficando os cortes feitos com a tesoura de tal maneira abertos que as moscas, ao serem atraídas pelas cores vivas dos papéis, poisavam nos cortes e caíam lá para dentro, onde presas acabavam por morrer. Se tal não acontecesse, ao menos ficavam ali feitas reféns ou entretidas sem incomodar as pessoas. Estes penduricalhos eram pendurados perpendicularmente no tecto e, para além de serem muito eficientes na caça ao incomodativo insecto, eram também um bonito enfeite, sobretudo para as salas, onde se recebiam as visitas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 16:19





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Dezembro 2013

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031