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O PRESÉPIO QUE SE FAZIA NA MINHA SALA

Domingo, 15.12.13

{#emotions_dlg.painatal}Na minha casa, apesar de pobre e pequenina, todos os anos, pelo Natal, fazia-se um gigantesco e descomunal presépio.

Era num dos cantos da sala, naquele que ficava virado para as traseiras e do lado da cozinha, porque era o único que habitualmente não tinha barra, cómoda, ou caixa de roupa, onde estavam colocadas meia dúzia de cadeiras dispostas em ângulo recto e que, por essa razão, por alturas do Natal, eram dali retiradas.

O presépio era muito bonito e grande, ocupando rigorosamente uma boa terça parte da sala e nele, para além da gruta e das figuras religiosas, havia de tudo: montes, vales, caminhos, ribeiras, pontes, casas, igreja, pessoas, animais e uma enorme estrela.

No canto da sala eram colocados bem encostados à parede cestos velhos, tábuas retiradas das caixas de sabão e caixotes de papelão de modo a formarem uma espécie de monte, com uma furna ou gruta feita de maneira que desde tempos idos se guardava de ano para ano. O dissimulado monte era depois muito bem coberto e forradinho com leivas de musgo que íamos apanhar ao Outeiro, enchendo e carregando pesados cestos. Por todo o monte pastavam um sem números de ovelhas branquinhas, feitas também de papelão, nas quais se colavam pedacinhos de lã, mas apenas do lado que estavam voltadas para fora. A gruta, escura mas aconchegada, ficava encravada bem no meio do monte e era coberta e forrada também com musgo. O chão era de palha e lá se colocava uma manjedoura, feita de pequenas tabuinhas, à volta da qual estavam a vaca e o burro, ambos deitados. Ao lado apenas as imagens de São José e da Virgem, dado que o Menino só era colocado na manjedoura na noite de Natal e os pastorinhos, carregadinhos, só apareciam no dia seguinte. Sobre a gruta estava colocado um anjo e sobre este, mas suspensa do tecto por um barbante, uma enorme estrela feita com papéis brilhantes. Circundando todo o monte e em frente à gruta, já sobre o soalho, era construída o pequeno povoado com casas, nas quais se incluía, do lado da porta da cozinha, o sumptuoso palácio de Herodes e, do lado da janela de trás, já muito longínqua e retirada, a pobre e pequenina casa de Barbearias. Era esta casa que São José demandara para ir buscar lume para aquecer a água para lavar o Menino, dado que todas as outras lhe haviam fechado as portas e recusado ajuda. Finalmente e bem no centro e ao lado da gruta ficava a igreja. Todas estas construções eram feitas com caixas de sapatos e outros papelões que íamos pedindo nas lojas, nos meses que antecediam o Natal e nas quais desenhávamos e recortávamos as portas e as janelas, sendo-lhes colados os telhados com papel canelado. Todas elas eram pintadas e por dentro das janelas eram visíveis os cortinados multicolores. Ao redor das casas ficavam pequeninas terras, feitas de musgo ou areia e divididas por pedrinhas, onde havia um sem número de vacas, porcos, galinhas e alguns cavalos. Casas e terras eram ligadas por caminhos feitos de areia e ladeados por pequeninos seixos trazidos da costa. Por toda a parte estavam colocados pratinhos com trigo já crescidote e muito verdinho que havia sido posto a germinar uns dias antes.

Construía-se assim uma espécie de pequenina cidade, atravessada por um rio que nascia no monte e por ele descia em ziguezague, até a uma enorme lago. Este era feitos com areia e pedacinhos de vidro, assim como o rio, cujo curso era atravessado pontes, umas de barro outras feitas com pequeninos paus, cortados e amarrados uns aos outros. No monte havia pastores, pelas ruas circulavam homens e mulheres e animais uns de barro outros de papelão, devidamente pintados ou recortados.

Os Reis Magos apenas eram colocados no dia de Natal. Desciam o monte, passavam junto à casa de Herodes, onde paravam e todos os dias andavam um bocadinho de maneira a que no dia seis de Janeiro chegassem à gruta.

O meu presépio era um dos maiores e mais bonitos da Fajã e, por isso, entrava muita gente em minha casa para o ver.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:08





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