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CARREGAR DE ABÓBORAS

Domingo, 15.12.13

Na Fajã Grande, quando um par de namorados acabava o namoro, quer fosse o rapaz a deixar a rapariga ou esta a abandonar aquele, dizia-se que aquele dos dois que decidia terminar o namoro, quer fosse ele quer fosse ela “carregava de abóboras” o outro.

Só que esta expressão “carregar de abóboras” era, geralmente utilizada com um sentido depreciativo, talvez mesmo humilhante, ou até com a premeditada intenção de apoucar aquele ou aquela que era abandonado e que ficava só e triste, enquanto o seu parceiro ou parceira já tinha estabelecido ou optado por um novo relacionamento amoroso e, por isso mesmo, vivia feliz e realizado. Na realidade ninguém gostava de ser “carregado de abóboras”, nem sequer de supostamente ser acusado de tal facto. 

Não é fácil, no entanto, encontrar a origem de tal expressão. A abóbora na Fajã, contrariamente a outras localidades do país, era pouco apreciada como alimento pelos humanos, sendo mais utilizada no cardápio dos animais, especialmente dos porcos. Geralmente não se fazia sopa de abóbora e o doce elaborado com aquela cucurbitácea rareava. Apenas, de vez em quando, se comia abóbora cozida, sendo partida aos pedaços, limpa de pevides e posta a cozer juntamento com a batata branca. Eram os suínos os principais consumidores de abóbora, comendo-a diariamente, mas crua. Quando cozida, as sobras da abóbora eram amassadas juntamente com as batatas, farelo e couves picadas para fazer a célebre “bola” para alimentar as galinhas.

Seria este uso pouco requintado e quase insignificante da abóbora na alimentação das pessoas, tendo em conta que a sua produção nas terras da Fajã Grande era bastante significativa, que estaria na origem desta metáfora. Por outras palavras, como havia muita produção de abóboras na freguesia e como estas eram pouco apreciadas como alimento, havia que lhes dar consumo e atirá-las, em ar de gozo, para as costas de alguém que se encontrasse em estado de choque ou de nítida insatisfação, devido ao doloroso abandono por parte da pessoa amada. Que servissem, ao menos, para carregar os que haviam ficado “a ver navios” em questão de namoro.

Não parece muito plausível esta interpretação mas apresenta-se como a mais lógica.     

De resto o único e principal simbolismo que, em quase todo o mundo, se dá à abóbora está ligado ao Halloween, celebração, na altura, desconhecida, por completo, na Fajã Grande. Também nunca se ouvira contar a célebre lenda, segundo a qual, após a sua morte, Jack, um conhecido brincalhão irlandês, foi proibido de entrar no céu por conta das suas brincadeiras, e também foi recusado entrar no inferno por ter enganado o diabo, que, muito bondoso, lhe deu uma pedaço de carvão aceso para iluminar seu caminho pela escuridão. O carvão estava dentro de um nabo oco, para que a sua chama durasse mais tempo, fazendo com que ele ficasse conhecido como Jack O'Lantern. Os irlandeses usavam nabos para fazer as suas decorações, mas quando emigraram para a América descobriram que as abóboras eram muito mais abundantes e práticas, e passaram a utilizá-las em vez dos nabos. Assim nasceu a tradição de se colocarem velas dentro de abóboras, transformando-as em rostos humanos. Tudo isto, porém, era desconhecido na Fajã Grande dos anos cinquenta, assim como não havia conhecimento de outras superstições sobre abóboras, tais como: “Comer abóboras, por serem redondas, na passagem do ano dava sorte.”, ou “As abóboras significam fertilidade, abundância.” e esta outra “Sonhar com abóboras significava herança próxima, lucros inesperados.”

Parece pois, que a explicação inicialmente referida será, não apenas, a mais razoável mas também a única, para se entender o porquê da metáfora tão frequentemente utilizada na Fajã Grande: “carregar de abóboras”.

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publicado por picodavigia2 às 10:32





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